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“Armoniyi yutman lazım, ismin gibi bileceksin”

Este estudo pretendeu verificar a influência do curso de Pedagogia nas práticas educativas das Monitoras de Creche estatutárias-efetivas, no cotidiano das Creches santistas, geridas diretamente pela Secretaria Municipal de Educação de Santos. Para tanto, foi adotado um variado procedimento de pesquisa, mesclando diferentes técnicas de investigação, a saber: questionário, observação do cotidiano da instituição e organização de entrevistas semi- estruturadas com algumas profissionais-docentes da Creche Casa da Criança.

Uma das hipóteses apontadas no início, diz respeito ao fato da certificação obtida com a formação acadêmica ser apenas um convite para a Monitora deixar a Creche, rentabilizando (Bourdieu) o diploma recebido, no mundo do trabalho e, dessa forma, evidenciando mais uma vez a pouca atenção dada à profissão. No entanto, a partir das evidências colhidas na pesquisa, percebe-se que esta suposição foi apenas parcialmente confirmada, pois as Monitoras de Creche, tanto em seus depoimentos escritos, como nas entrevistas, em sua maioria, declararam que não desejam mudar de cargo, mas querem ser reconhecidas como Professoras de Educação Infantil, obtendo seus direitos salariais, condições de trabalho e reconhecimento social de sua função.

Pode-se dizer, que essa foi a tática (Certeau) encontrada pelas profissionais-docentes para que seu trabalho e sua prática cotidiana sejam reconhecidos pela sociedade. Segundo Certeau (1994, p.47) tática são astúcias desenvolvidas no interior do sistema legal, no sentido de aproveitar a ¨melhor ocasião¨ para transformá-la a seu favor. Certeau afirma que...

astúcias e das surpresas táticas: gestos hábeis do fraco na ordem estabelecida pelo forte, arte de dar golpes no campo do outro...(Certeau, 1997, p.104)

As profissionais-docentes de Creche revelaram gostar muito da profissão e, ainda lutam para que essa seja reconhecida pela sociedade e pelo poder público municipal, reivindicando sua passagem para o cargo de Professor de Educação Infantil para continuar educando e cuidando de crianças pequenininhas.

Constata-se, ainda, que o fato de terem obtido formação acadêmica trouxe um sentimento de ¨posse¨ de um saber acadêmico. Segundo as profissionais- docentes, em seus depoimentos, a formação veio embasar a prática educativa já realizada na Creche. Tal situação influenciou positivamente a identidade das referidas profissionais, que ainda está sendo construída no seio das transformações da Creche.

Outra hipótese discutida, e intrinsecamente relacionada à anterior, diz respeito às diferenças entre a ¨forma escolar¨ e a ¨forma da Creche¨ que aparentemente estão sendo desconsideradas tanto na reorganização do trabalho cotidiano no interior da Unidade Educacional, mas principalmente na formação acadêmica da referida profissional.

O estudo da dimensão histórica forneceu informações relevantes para o entendimento dos fatos atuais relacionados à Educação Infantil, bem como à instituição que acolhe as crianças até 3 anos e às profissionais que nela atua, demonstrando que a Creche constituiu-se a partir de contornos diferenciados da Pré-escola e da Escola, e que geralmente esteve interligada aos movimentos feministas, sindicalistas e de esquerda.

fato desta ser uma cidade portuária e ter permanecido sob intervenção do governo federal durante muitos anos, não podendo eleger seu prefeito de forma democrática. Só a partir de 1989, como resultado de uma política municipal, que tinha como prioridade as questões de âmbito social e educacional, a Creche gerida diretamente pela Prefeitura Municipal de Santos, iniciou um processo de ampliação e de alargamento de seus horizontes, principalmente, no que tange a sua relação com o aspecto educacional.

Mesmo antes da promulgação da LDBEN, as Creches foram transferidas para a Secretaria Municipal de Educação. Contudo, isso não ocorreu de maneira tranquila. Os conflitos foram e estão sendo contornados a medida que esta vem se consagrando cada vez mais como uma instituição educativa de grande importância para a educação e cuidado da criança pequenininha.

As profissionais- docentes de Creche têm defendido seus direitos e vêm conseguindo obter êxito em antigas reivindicações que tem, também, atingido positivamente o trabalho educativo com as crianças. Sem dúvida, além de melhores condições de trabalho com relação à diminuição do número de horas e reenquadramento do cargo, o que significou melhoria no salário, a conquista do curso de Pedagogia financiado pela SEDUC, fortaleceu ainda mais para a categoria, contribuindo para a constituição de sua identidade profissional.

Os cursos de formação de professores em nível superior vêm se adaptando a nova exigência da lei, procurando inserir disciplinas e conteúdos adequados à criança pequenininha. No entanto, com já foi estudado anteriormente, a falta de subídios teóricos e de professores universitários com experiência direta com Creche, e ainda, a abrangência da faixa etária com que o futuro professor terá que trabalhar, já que sua formação para o trabalho abarca a

Educação Infantil e as séries iniciais do Ensino Fundamental, compromete a sua formação, tornando-se mais comum iniciar os estudos por aquilo que já é mais conhecido, ou seja, o Ensino Fundamental. Este fato faz predominar a ¨forma escolar¨ em detrimento da ¨forma da Pré-escola¨ e, principalmente da ¨forma da Creche¨. O problema da relação formação acadêmica- especificidade da Creche tem sido acompanhado por vários autores brasileiros Rosemberg (1992), Kramer (2002), Campos (2002), Bello (2003), entre eles, Nascimento (2003) que questiona se o curso de formação de professores como está organizado hoje, poderá absorver as especificidades desse nível de ensino, advertindo para o perigo de se escolarizar a Educação Infantil.

Ao averiguar “o que” e “como” esta formação influenciou e modificou o fazer das profissionais-docentes, é óbvio que o fato relatado acima tem atingido as práticas educativas realizadas no interior da instituição. Contudo, a especificidade do binômio cuidar-e-educar e o contato dos professores universitários com as alunas, que já atuam como profissionais-docentes na Creche, tem propiciado a reflexão sobre as peculiaridades desse trabalho, principalmente em relação a organização do tempo e o espaço.

Este fato foi relatado pelas Monitoras de Creche na experiência santista, evidenciando que essas profissionais não absorveram as informações da academia de forma passiva, mas que procuraram apropriar-se do saber, relacionando-se com ele, a partir de suas experiências e de sua relação com o mundo. Sobre essa questão Charlot ( 2000, p. 63) afirma não existir saber sem relação com o mundo, sendo que a relação com o mundo implica em relação consigo mesmo e com os outros.

professores é a realização e divulgação de pesquisas na área. Tardif (2002, p.23) afirma que reformas têm sido realizadas nos cursos de formação de professores em muitas partes do mundo, que pretendem...

...uma nova articulação e um novo equilíbrio entre os conhecimentos produzidos pelas universidades...e os saberes desenvolvidos pelos professores em suas práticas cotidianas ( Tardif, 2002, p.23).

Percebe-se que em países como Itália ( Mantovanni e Perani, 1999) e Hungria (FalK, 2004) tais problemas têm sido superados com formações que têm como fundamento principal, o direcionamento do trabalho para a observação e o preparo para trabalhar em grupo. Segundo Mantovanni e Perani (1999, p. 87), a utilização da experiência do grupo como situação de aprendizagem e ainda de vivências com jogos que permitem ao adulto avaliar-se, recuperando as lembranças de sua infância, indicando uma formação de base polivalente.

Katz e Goffin ( apud Oliveira-Formosinho, 2002, p. 137) apontam, dentre os elementos que distinguem os professores das crianças pequenas dos demais professores, a diversidade de missões e ideologias, as questões que envolvem a vulnerabilidade da criança, o foco na socialização, o currículo integrado e a relação com os pais, advertindo que quanto mais nova for a criança, maior será a responsabilidade da função desse profissional.

Uma última questão apontada na presente pesquisa refere-se à questão da formação continuada. As Monitoras de Creche entrevistadas relataram a importância de se continuar estudando de forma sistemática, realizando cursos de formação. Assim, é necessário garantir um espaço de formação permanente e coletiva que contribua para a reflexão do trabalho educativo realizado na Creche.

biológica, mas sim, como uma construção social, e que as crianças são sujeitos na construção de sua vida social e da vida daqueles que as rodeiam (Sirota, 2001, 51), há que se garantir um ambiente educativo e de cuidados diferenciados na Creche, com o que se respeite a criança pequena em suas especificidades, pois estas possuem uma cultura própria. Para tanto, faz-se necessário maior investimento na formação acadêmica dos profissionais-docentes, levando em consideração o trabalho “com” pesquisa, que, como já foi explicitado, contribui para elevar o número de estudos na área.

Após o exame da literatura especializada e a análise dos dados da pesquisa percebe-se a presença de muitos profissionais, tanto do lado da universidade como do lado da Creche, em muitas partes do mundo, inclusive no Brasil, preocupados em criar condições para que a educação da criança até 3 anos seja reconhecida como um ¨locus¨ com uma configuração própria, não relacionada à simples preparação para a Pré-escola e nem à continuidade do papel da mãe em casa, mas que traz o binômio educar-e-cuidar, livre de preconceitos, como um desafio cotidiano. Enfrentemos, pois, o desafio!