• Sonuç bulunamadı

Partindo da orientação pedagógica que buscamos para embasar essa pesquisa, acreditamos que, nessa terceira geração da modalidade de educação a distância, o aluno precisa ser instigado a manter uma postura ativa, a procurar o conhecimento, a aprender a pensar, em ações que demandam envolvimento e participação.

É preciso destacar que, em educação, seja presencial ou a distância, enfocar o aluno implica enfatizar o processo de aprendizagem. Nesse sentido, como defendem Moran et al (2000), a ênfase na aprendizagem exige que se trabalhe para estimular a leitura e a análise do conteúdo, a capacidade de compor e recompor dados, informações, argumentos e idéias. A disposição de desafios, de reflexões e de situações-problema, de acordo com os postulados dos mencionados autores, podem ser incluídas entre os procedimentos pedagógicos que potencializam tais posturas.

Assim, ao abordarmos o corpus em análise, verificamos que a tríade: desafios, reflexões e situações-problema foi contemplada por meio da utilização de algumas estratégias lingüísticas, como: comentários, retomadas, incitações e hipóteses, que estimulam a leitura e a análise do conteúdo. Dessa forma, cumpre- nos enfocar alguns excertos, a fim de discorrermos acerca de suas especificidades.

Comentários

Além de atenuar a distância, aproximando os interactantes , os comentários sobre o conteúdo também são válidos para convidar o aluno à reflexão e à análise do objeto de estudo, como em:

(28) Lembrete: é importante que a fórmula de despedida combine com a fórmula de saudação. Não podemos começar a mensagem com Prezado aluno e nos despedirmos com Até mais, ou com Um abraço; muito menos com Um beijo.

(29) Pense bem: sabemos que, como professores, estamos investidos de poder que nos permite dar ordens aos nossos alunos e criticá-los, mas não agrada a ninguém sentir-se submisso a outrem, nem ser criticado pelos seus atos. Pense nisso!

Os trechos listados acima nos permitem depreender que tais comentários concorrem para estabelecer um trajeto reflexivo, reforçado por expressões como “lembrete” (28), “pense bem” e “pense nisso” (29). Em (28), a exemplificação utilizada ratifica a asserção anterior, demonstrando ao aluno situações práticas que corroboram os conceitos postulados. Em (29) o professor parte do conhecimento prévio do estudante para levá-lo a compreender a relevância do tema da unidade. Dessa forma, por meio dos dois excertos, a ação pedagógica busca formar um sujeito crítico e superar a mera reprodução do conhecimento.

Retomadas

Ao fazer retomadas, isto é, ao recuperar algumas informações importantes para assimilação do conteúdo, o professor oferece condições para que o aluno possa refletir sobre o assunto estudado, envolver-se com o material didático e repensar, de forma construtiva, a sua própria aprendizagem:

(30) Como vimos nesta unidade, algumas peculiaridades com relação ao uso da linguagem na elaboração de avisos, enunciados de atividades, retornos aos alunos podem preservar a face de nossos alunos, atenuando a distância imposta pela máquina e garantindo a interação.

(31) Comotemos dito a todo o momento nessa disciplina, a assincronia na interação em AVA implica certo distanciamento entre aluno e professor.

Observamos em (30) e (31) que as retomadas, efetivadas por meio da conjunção “como”, implicam interesse pelo aprendiz e comprometimento com o processo de ensino-aprendizagem, fatores que concorrem para potencializar a colaboração em ambientes virtuais de aprendizagem. Essa colaboração, ainda é ratificada pelo efeito inclusivo da primeira pessoa do plural: “vimos” e “temos”. Assim, as retomadas convidam o aluno a tecer reflexões, relacionar informações e aprender, ativamente, o conteúdo.

Incitações

As incitações presentes no corpus de análise são estratégias que estimulam e desafiam os aprendizes a aplicarem o conteúdo que está sendo trabalhado, de forma a colaborar para a prática interativa entre os próprios alunos e entre estes e o material didático:

(32) Observe os exemplos que apresentamos a seguir, compare mensagens e veja como o uso dessas estratégias pode representar um aliado na nossa atuação como professores e tutores em AVA.

(33) Depois de conhecer o conteúdo teórico da unidade e de ampliar seus conhecimentos, participe no nosso fórum, trocando reflexões sobre a polidez e falta de polidez em AVA.

Tanto em (32), como em (33) os alunos são levados a desenvolver uma postura ativa no processo de aprendizagem, fator que potencializa a autonomia discente. Para lançar mão dessa estratégia, o professor vale-se de verbos no imperativo, como: “observe”, “compare”, “veja” e “participe”, que estimulam a análise e a capacidade de compor e recompor dados, informações, idéias e argumentos que foram explorados ao longo do curso.

Hipóteses

Além de permitirem o envolvimento pessoal do aluno com o conteúdo estudado, a utilização de hipóteses também pode remeter a uma situação-problema que, embora hipotética, deve ser analisada e resolvida pelo estudante, como em:

(34) como lidar com o aluno que quer apenas enfrentar o professor, aborrecer, criar problema por meio da falta de polidez, o aluno grosseiro?

Por meio da hipótese levantada pela questão feita ao aluno, nesse excerto o professor torna possível a aplicação daquilo que foi aprendido ao longo do curso, fator primordial para que os estudantes possam construir conhecimento de forma contextualizada.

Assim, a leitura desse e dos demais exemplos utilizados até aqui nos autoriza a inferir que, por meio do estímulo às relações de empatia, co-responsabilidade e parceria, da disponibilidade para o diálogo, bem como da disposição de desafios, reflexões e situações-problema na veiculação do conteúdo destinado a educação a distância, é possível, além de contribuir para a construção do conhecimento, também motivar os aprendizes para que possam se constituir sujeito de sua própria aprendizagem, potencializando as possibilidades de interação e colaboração que concorrem para essa autonomia.

O quadro a seguir demonstra, de forma resumida, as estratégias lingüísticas e os procedimentos pedagógicos que, devido ao fato de virem ao encontro da potencialidade interativa das TIC, propiciam a construção de uma aprendizagem autônoma e colaborativa na EaD.

Síntese das estratégias lingüísticas e procedimentos pedagógicos mencionados nesta seção:

PROCEDIMENTOS PEDAGÓGICOS ESTRATÉGIAS LINGÜÍSTICAS

Desenvolvimento de relações de empatia, co- responsabilidade e parceria

Recomendações, comentários, justificativas, explicações, elogios, conselhos, sugestões e marcas de afeição.

Disponibilidade para o diálogo Convites e interpelações.

Disposição de desafios, reflexões e situações-problema

Comentários, retomadas, incitações e hipóteses.

Quadro 1: Estratégias lingüísticas e procedimentos pedagógicos

4.4 Estratégias textual-discursivas em ambientes virtuais de aprendizagem: a interação pela linguagem

A implicação das reflexões tecidas acerca dos procedimentos pedagógicos que convergem para a criação de ambientes colaborativos de aprendizagem deixa latente o fato de que tais procedimentos são pautados no estímulo à interação pela linguagem. Assim, tendo em vista que a veiculação do conteúdo de um curso a distância é mediada pela linguagem, quais são estratégias textual-discursivas que contribuem para estabelecer essa interação entre os atores do processo educativo?

Para responder a essa pergunta, abordamos o corpus analisado, norteados pelo pressuposto de que na interação comunicativa que se estabelece na e pela linguagem, nenhum dos sujeitos envolvidos exerce um papel passivo (Bakhtin, 2003), ou seja, o sujeito utiliza a língua para criar sentidos e, nesse processo, realiza opções que buscam determinados efeitos de sentido, de acordo com sua intenção comunicativa e com o contexto em que ocorre a interlocução.

Desse modo, abordaremos o corpus de análise para verificar algumas estratégias textual-discursivas procedentes da figura do professor e impressas no

material didático, que também convergem para estabelecer os procedimentos pedagógicos mencionados na seção anterior. Estão incluídas dentre tais estratégias textual-discursivas a inscrição de marcas de alocução, as marcas lingüísticas de engajamento mútuo, os traços de subjetividade e os princípios de construção textual do sentido.

Benzer Belgeler