III. BÖLÜM
4.2. ARKADAŞ(1974)
24 Usa-se o termo ―ideológico‖ não no sentido marxista, mas sim na histórica e tradicional acepção de
O estudo enfocando a ordem pública é complexo e envolve diferentes matizes. E, como todo tema que envolve múltiplos aspectos, não apresenta uniformidade na doutrina jurídica.
Pode-se começar a apreciação sobre a
ordem pública afirmando que ela está
intrinsecamente associada ao Estado, mas não exclusivamente. Se o Estado tem o condão e a obrigatoriedade de envidar esforços, meios e recursos para mantê-la, a ordem pública verifica- se não somente através da ação do Estado. Assim é que, em sociedades arraigadas por fortes
princípios éticos ou religiosos, é possível
estabelecê-la independentemente do Estado.
Em última instância, no entanto, a quebra da ordem pública, via de regra, impõe a ação impositiva e coativa do Estado, quer através de seu segmento policial, quer através de seu segmento judiciário. Isto porque a capacidade de impor comportamentos coercitivamente, ou seja,
através do uso da força, pressupõe
necessariamente, no Estado Democrático de Direito, a ação estatal regulada por princípios, formas e normas jurídicas. A observância da ordem pública pelos particulares pressupõe sansões de caráter moral, que jamais terão o caráter coativo do direito estatal. Não são desprezíveis, visto que a repulsa causada pela inobservância de regras impostas em tais comunidades gera grande mal-estar entre seus componentes, desejosos de não se verem reprimidos ou desprezados por seus pares.
A ordem pública, no entanto, em sua acepção literal, só pode ser garantida pelo Estado. Não é outra a lição de Norberto Bobbio, para quem
a política e, em última instância, o próprio Estado têm duas funções mínimas a desempenhar. Isto porque, para o mestre italiano, estribado em Max Weber, não há fins absolutos em política, daí a definição de Estado pelos seus meios — emprego exclusivo da força — como se viu anteriormente, e não por seus objetivos, que variam de país para país, de época para época, de ideologia política para ideologia política, de regime para regime. Esta rejeição do critério teleológico não impede, contudo, que se possa falar corretamente, quando menos, de um fim mínimo na Política: a ordem pública nas relações internas e a defesa da integridade nacional nas relações de um Estado para com os outros Estados. Este fim mínimo, porque é a conditio sine qua non para a consecução de todos os demais fins, conciliável, portanto, com eles (BOBBIO, 1991, 958, grifos nossos).
Além disto, é possível falar da ordem como um fim mínimo da política porque ela é, ou ao menos deveria ser, a consequência direta da organização do poder coativo. Isto porque este fim, a ordem, está totalmente acoplada ao meio (o monopólio da força). De outra forma, a organização do poder, através de seus meios e instrumentos, tem como um de seus principais objetivos a manutenção de um certo grau de ordem no interior do agrupamento social, sem a qual não é possível viver em tranquilidade. Em sociedades complexas como as contemporâneas, marcadas por diferenças econômicas, sociais, políticas, religiosas e étnicas, divididas em classes sociais, ―só o recurso à força impede, em última instância, a desagregação do grupo, o regresso, como diriam os antigos, ao estado de natureza‖ (BOBBIO, 1991, 958).25
É a preservação da ordem fundamental para que tanto indivíduos quanto sociedade possam viver em harmonia, alcançar seus objetivos e concretizar suas pretensões sem óbices que coloquem em risco sua sobrevivência ou potencializem os riscos à sua consecução.
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Estudando o poder, Weber especificou três tipos, quais sejam: o poder tradicional, fundamentado em costumes e tradições, o poder carismático, estribado nas características pessoais de determinados líderes que conseguem se impor perante seus súditos e o poder legal. Este, o poder legal, atualmente em voga nas modernas sociedades democráticas, se funda num aparato jurídico e numa burocracia estatal que encarna o poder, evitando o abuso e a arbitrariedade. Ao estabelecer as funções de cada componente dentro da sociedade e de impor limites aos detentores do poder, nada mais se faz do que garantir a ordem pública segundo padrões normativos (STOPPINO, 1991, 942). Ainda Stoppino, analisando o tema poder, cita Talcott Parsons que ―define o Poder, no sentido específico de Poder ‗político‘, ‗como a capacidade geral de assegurar o cumprimento das obrigações pertinentes dentro de um sistema de organização coletiva em que as obrigações são legitimadas pela sua coessencialidade aos fins coletivos e portanto podem ser impostas com sansões negativas, qualquer que seja o agente social que as aplicar‘‖ (STOPPINO, 1991, 941, grifos nossos). Vê-se, assim, que a existência de certa ordem pública é intrínseca ao poder político, razão de ser maior do Estado.
Mormente em sociedades complexas, onde os interesses, divergências e antagonismos são infindáveis e potencialmente podem se transformar num fator de ruptura, a manutenção de uma determinada disposição interna, a que se dá o nome de ordem pública, é fundamental para a preservação do próprio agrupamento social. Caso não houvesse esta disposição, nada obstaria que o mais afoito usasse dos meios que dispusesse e que achasse conveniente para atingir seus fins. Nenhuma implicação maior haveria se o mais forte subjugasse o mais fraco em prol de seus interesses. Nenhum impedimento se vislumbraria se o conflito beligerante se tornasse o meio necessário para superar as divergências.
Se não houvesse uma ordem na área política, os grupos oposicionistas poder-se-iam conflitar em termos bélicos — o que se costuma denominar revolução ou guerra civil —; se não houvesse uma ordem na área econômica, os grupos concorrentes esmagariam seus opositores, formariam cartéis ou usariam seu potencial econômico para subjugar quem quer que fosse; se não houvesse uma ordem na área social, cada um resolveria suas divergências valendo-se de quaisquer instrumentos, ainda que ilegais, ilegítimos ou imorais, para impor sua vontade, independente do arcabouço jurídico, e submeter outros à sua vontade. Para haver a ordem pública tão necessária à continuidade da vida em sociedade, ao progresso da empreitada humana e ao respeito, há um mínimo de regras requeridas pela convivência social.
Nas modernas sociedades, o processo civilizatório caminha justamente no sentido da existência de determinada ordem que assegure um mínimo de tranquilidade e segurança ao indivíduo. Quer dizer, a pacificação, imposta por uma determinada ordem pública, garante a vida do ser humano em harmonia e dignidade. Sua valorização como ser portador de direitos e prerrogativas advém exatamente da garantia de determinada ordem pública, observável em diferentes facetas e resultado de diversos vetores.