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Em muitos casos, a PCR não realiza sozinha a atividade de visitas, bem como os seus relatórios, quando passa a cooperar com o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (CEDDHC), a Comissão dos Direitos Humanos da OAB/PB, a Procuradoria Regional da República, a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa etc.

O trabalho em conjunto rende mais frutos, por duas razões bem definidas: primeiro, porque se legitima a luta, o que quer dizer que estão em jogo fatos que dizem respeito a interesses coletivos; e segundo, porque dá mais visibilidade na mídia e no meio coletivo, deixando de ser uma “briga” pessoal para se tornar uma bandeira de luta coletiva. No grupo, há maior organização, são mais vozes que falam, as idéias se expandem mais, alcançam mais pessoas, convencem mais etc. Contrariar ou prejudicar uma pessoa é mais fácil do que se fosse um grupo, com a união ideológica e de fins, que une indivíduos e idéias.

Numa ideologia de associativismo e cooperação, a PCR une-se a outros movimentos e conselhos para pugnar pelo respeito aos direitos humanos dos encarcerados, fazendo relatórios conjuntos e denunciando as injustiças cometidas contra eles no interior dos presídios e demais locais de detenção. Resta-nos dizer que é uma voz que não cala, sempre fiel na luta pela humanização dos recintos penitenciários, a despeito da árdua tarefa a cumprir. Acredita que esse trabalho de visitar os presídios tem um forte teor preventivo, especialmente porque significa órgãos da sociedade vigiando os claustros, e impedindo que a tortura aconteça.

É certo que as autoridades prisionais não vêem com bons olhos a tarefa de fiscalização e as denúncias feitas pela Pastoral Carcerária, principalmente porque mostram a nu a sua imagem e as expõem na mídia. As torturas e maus tratos exigem segredo, local pouco transitado, ermo, pouco freqüentado, e muito menos com destaque na mídia. Da mesma forma, quem comete crimes não quer ser exposto, e deseja acima de tudo esconder e abafar seus atos criminosos. O sacrifício desses órgãos lhes incomoda, e os torturadores chamam-

lhes os “direitos humanos”, confundindo grupos ativistas e os direitos em si. No entanto, não é uma causa pessoalista, ao contrário, é uma causa que tem como esteio a dignidade da pessoa humana, que ordena que os detentos sejam preservados em sua integridade física e moral, e sejam respeitados como tal.

Logo, abaixo seguem alguns relatórios produzidos pela Pastoral em comunhão com outros órgãos da sociedade de defesa dos direitos humanos, cujo conteúdo pode variar, assim como o local, adstrito aos estabelecimentos de João Pessoa – PB: 1) Relatório da Rebelião

no Presídio do Roger em 18 de outubro de 2005 (CEDDHC):

(...) A rebelião ocorrida no Roger, dia 18 de outubro de 2005, é produto de uma complicada decisão tomada pela administração penitenciária no sentido de impedir para todos os presos o direito de receberem visita de familiares por um prazo superior a trinta dias (...). Trata-se de uma sanção coletiva, o que é uma violação direta da LEP e da Constituição. Propriamente, o estopim da rebelião do dia 18 de outubro foi esta suspensão coletiva das visitas dos familiares e mulheres dos presos, que foi atribuída, pela Administração Penitenciária, à falta de condições e segurança para realização destas visitas, uma vez que, na última rebelião, ocorrida no dia 08 de outubro de 2005, foi bastante destruído o presídio, tendo sido constatada uma tentativa de construção de um túnel. Nesse sentido, a suspensão das visitas é uma medida restritiva de direitos equiparada a uma sanção coletiva, violando expressamente o princípio constitucional da individualização da execução da pena e o artigo 45 §3º da LEP. Por sua vez, a atual regulamentação da revista íntima e a aplicação deste instituto de forma despreparada e arbitrária por parte dos agentes penitenciários vêm ferindo, frontalmente, o principio da dignidade da pessoa humana e foi a causa da rebelião anterior, no dia 08 de outubro de 2005 (...). No fim da operação [das forças de segurança para debelar a rebelião de 18 de outubro no Róger], constatou-se a morte de três (03) apenados: Mauricio Teixeira (24 anos); Edvaldo Hermano de Morais (41 anos) e Rômulo Cezar Martins Cruz (25 anos), que foram atribuídas, até o momento, à ação dos próprios presos rebelados.

2) Relatório do CEDDHC de 06 de fevereiro de 2006 referente ao Presídio

Sílvio Porto:

Diante de comunicações recebidas, por parte de familiares de detentos, de que, no dia 02 de Janeiro de 2006, no Presídio Sílvio Porto, na comarca desta Capital, após uma tentativa frustrada de fuga nos Pavilhões 17, 19 e 20, promovida por autoridades penitenciárias e agentes carcerários, a Pastoral Carcerária, entidade que compõe

o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão, informou este Órgão Estadual (...).

Os internos dos Pavilhões 19 e 20 eram os que apresentavam mais marcas de espancamento: braços quebrados, marcas de balas nas pernas e nos dedos das mãos, costas e abdomens feridos, cabeças machucadas etc. (...). A Comissão presenciou tudo isto e realizou as fotografias comprobatórias. Dezenas de presos no Pavilhão 19 apresentavam marcas visíveis de espancamento (...).

A custódia e a pena privativa de liberdade promovidas por um Estado não podem converter-se em penas constitucionalmente proibidas, como as infamantes, as corpóreas e as de morte, devendo o Estado ser responsabilizado civilmente no momento em que esta conversão ocorrer na prática. Tal responsabilidade civil compõe a possibilidade de indenização tanto do dano material resultante como do dano moral produzido.

3) Relatório de 08 de dezembro de 2004 em decorrência de visita-surpresa ao

CEA, na Capital:

Uma comissão composta por quatro integrantes do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (CEDDHC) realizou, hoje pela manhã, uma visita surpresa às dependências do Centro Educacional do Adolescente (CEA), localizado em Mangabeira, em João Pessoa, e constatou a superlotação daquela unidade que atende aos menores infratores na Paraíba. O CEA está programado para acomodar 64 adolescentes e registra, hoje, em suas quatro alas, 110 internos, o equivalente a quase 100% acima da capacidade normal. Na oportunidade, os conselheiros encaminharam à direção do CEA e à Fundac, órgão estadual responsável pelo Centro, informações detalhadas a respeito do andamento das investigações policial e administrativa no caso dos dois menores mortos recentemente no local, vítimas de queimaduras, e do serviço de segurança do CEA, já que essa atividade foi terceirizada há seis meses pelo governo do estado.

Pelo que se vê, os relatórios dos órgãos de defesa dos direitos humanos na Paraíba em conjunto com a PCR dão-nos a medida certa para compreendermos a realidade prisional que nos cerca, além de ser um veículo legítimo e oportuno para ressurgir uma voz em defesa das pessoas privadas da liberdade. Desta feita, fatos como rebelião, superlotação, sessões de tortura são trazidos à tona, e denunciados por órgãos legítimos.

Benzer Belgeler