C) DAVA ŞARTLARI İLE ARABULUCULUK VE UZLAŞTIRMA BAKIMINDAN DEĞERLENDİRİLMESİ
2- Arabuluculuk Bakımından Değerlendirilmesi a) Dava Şartı Arabuluculuk
É da natureza humana a vontade de se assenhorar das coisas, do seu estado, da sua essência, de suas leis, senão não se teria sequer o método científico pré-concebido por Francis Bacon (2003). Por ele apenas através da investigação científica se poderia garantir o desenvolvimento do homem e seu domínio sobre a natureza. Para Arnaldo Rizzardo (2004, p. 167), o curso da vida da pessoa, em todos os campos da atividade humana, “sempre acompanha do „meu‟ e do „teu‟, desde os primórdios das manifestações da inteligência, o que leva a afirmar ser inerente à natureza do homem a tendência de ter, de adonar-se, de conquistar e de adquirir”.
Não há na história da humanidade, contada pela antropologia, sociedades ou civilizações que ignoram o direito de propriedade como fundamento de sua organização social, econômica e estatal (FARIAS e ROSENVALD, 2010). A história das civilizações não pôde ser contada sem a caracterização de seus assenhoramentos, ainda que em seu sentido coletivo, definida como a pertencente ao clã. Por tempos o ser humano não se passava de componente da natureza, era dominado pelas suas leis, pelos seus fenômenos, simplesmente, porque não havia ainda racionalizado os seus valores. Os assenhoramentos fundavam-se exclusivamente sobre as vontades famélicas e sexuais, da mesma forma que nos outros animais. Mas, com o início da racionalização da terra, de um determinado espaço dela, ou da vontade de dela se assenhorar e de tudo que dela brote, a propriedade foi determinada pelo conceito primeiro do território. Está no estado do mundo que antecede a vida em sociedade como conhecemos na atualidade, no estado de natureza precursor do estado de sociedade, na caracterização de Locke (1998) e Rousseau (1999).
Na visão teológica, a propriedade ou o direito de propriedade privada, expresso pelos doutores e pontífices da Igreja Católica, em Rerum Novarum (ALVARENGA, 1997, p. 46), foi concebido ao homem pela natureza, pelo Criador, para que possa prover as necessidades sua e de sua família. Isso porque a propriedade, como declara Joao XXIII em Mater et Magistra (MONTEIRO, 2011, p. 95), constitui-se como proteção e incremento da família. Do mesmo modo como foi constituída entre os Romanos enquanto propriedade familiar.
Na Questão 66 (Suma Teológica, IIa IIae, q. 66, a. 1), São Tomás de Aquino (1980) ao estudar o furto e o roubo, os caracterizam com causadores de danos ao direito de propriedade, momento em que apresenta o fundamento para a proteção à propriedade privada. Para Tomás de Aquino (1980), o ser humano tem um domínio natural sobre as coisas que lhe são externas, de forma que a dominação das coisas pelo homem deriva da própria natureza das coisas, criadas para sua utilidade. Essa dominação está igualmente inscrita na própria natureza racional do homem. No esquema moral de Tomás de Aquino, o homem, como um ser racional e dotado de livre-arbítrio, pode participar do domínio de todas as coisas (MONTEIRO, 2011).
propriedade privada como direito natural, invocando Deus como instituidor do direito à propriedade privada, enquanto direito legitimamente conquistado pelo trabalho. O fato de Locke (1998) a considerar como um direito natural que antecede o próprio Estado, preexistindo a ele, impõe necessidade de este a tutelar. Assim o faz ao sentido de que ao Estado existe tão somente para garantir o direito de propriedade e os outros direitos naturais. A propriedade é o fundamento da criação do Estado em Locke (1998), do governo civil, da união social dos seres humanos. Ela é “tão grande em Locke que a importância conferida à propriedade por ele chegava ao ponto de apenas considerar cidadão o proprietário” (GOIRIS, 2011, p. 64).
Toda essa compreensão da propriedade foi construída sobre a intrínseca relação que ela tem com o Estado, pois que não há como tratar dele sem definir o conteúdo e a extensão daquela. Mesmo em Karl Marx (2010), a propriedade compõe uma das bases de seu discurso formado sobre a refutação dos conceitos e fundamentos da propriedade privada, antes trazidos por Locke (1998), Hobbes (2003) e até em Rousseau (1999). Até em Rousseau porque “embora tenha combatido o capitalismo e a desigualdade, para Marx, ele não superou completamente a questão da propriedade privada” (GOIRIS, 2011, p. 68).
Rousseau (1999) foi o “fundador da legitimidade política consubstanciada na ideia de democracia participativa” (GOIRIS, 2011, p. 67). Foi o inspirador das revoluções francesas e, paradoxalmente, dos movimentos ideológico-sociais que vão servir de base para o Marxismo.
Para Rousseau (1999) foi a propriedade o instituto responsável pelo rompimento do estado de natureza para o estado de civilização. No estado de natureza, o homem, segundo Rousseau, é solitário, autossuficiente, é livre e pacífico, não violento. Nesse estado não existe propriedade, a terra pertence a todos, indistintamente e sem qualquer exclusividade. Por isso, conhece Rousseau a liberdade de tudo poder fazer, e o próprio caos existente no estado de natureza como superiores às restrições próprias do estado de civilização.
No estado de natureza, entende Rousseau (2003), o homem não possuía a ideia do teu ou do meu, pelo que não haveria a ideia de posse ou de propriedade. O homem não tinha consciência de suas posses, nem tão pouco do pertencente a outrem, de forma que o egoísmo, a ambição e as vaidades não afloravam à sua consciência. A propriedade vem então e rompe com este estado do „bom selvagem‟.
É ela que faz surgir o estado de civilização. “O primeiro que, tendo cercado um terreno, atreveu-se a dizer: Isto é meu, e encontrou pessoa simples o suficiente para acreditar nele, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil”. São as primeiras palavras da segunda parte de o “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” de Rousseau (1999, p. 203).
Por isso, os fundamentos basilares da economia social para Rousseau continuam a ser baseados na propriedade privada, numa economia capitalista. Para Goiris (2011, pp. 65-66)
um dos primeiros direitos do homem, e Hobbes e Rousseau concordam como sendo a principal, é o direito de conservar a própria vida, que provém de uma lei natural. O homem zela pela sua existência: é um direito natural. Da mesma forma, um dos fundamentos da condição pré- societária do homem, no estado de natureza, era de que não sendo possível garantir a propriedade como direito natural inviolável é preciso uma associação civil que a garanta a partir de leis estabelecidas a inviolabilidade da propriedade. Esta é uma das poucas críticas dos marxistas ao pensamento de Rousseau.
Com efeito, como não existe, no estado de natureza, nenhuma espécie de ordem, nem de obrigação social, tudo é permitido a todos os homens que se encontram nesse primitivo estado de natureza (VILLEY, 1977). Todavia, essa liberdade seria um benefício sem vantagens. Dado que, vivendo-se no estado de natureza está-se submetido á uma situação de insegurança, de guerra permanente, assim, ter a permissão de fazer o que quer que tenha vontade de nada vale. Não há assim, logicamente, uma forma de aproveitar essa liberdade ilimitada. É justamente o que argumenta Hobbes (2003).
Conforme salienta Michel Vileiy (1977), da mesma forma que Rousseau (1999), Hobbes (2003) escreveu que a propriedade privada foi fonte de discórdia e conflito e que não existia no estado de natureza, quando todos tinham direito a tudo, mas na verdade ninguém tinha direito a nada. Um direito natural a se fazer tudo que se quer, todavia, esse direito natural a tudo acaba por equivaler-se na prática a um direito a nada.
O próprio Hobbes (2003) reconhece que esse direito natural a tudo acaba por ser inútil, devido às circunstâncias externas. É, pois, impulsionados por essas circunstâncias externas que os indivíduos aceitam participar do pacto social. Somente com o surgimento do Estado que foi possível garantir a propriedade
privada. Por isso parece a propriedade ser criação do Estado, das leis, conforme prescrevem os filósofos da teoria da lei. Esse contrato, que a primeira vista parece implicar em uma renúncia incondicional a todos os direitos subjetivos naturais, consiste, basicamente, em um ajustamento recíproco em que o direito natural ilimitado será substituído pelos direitos civis.
Propriedade, assim, é o que é meu, é o que é seu, como parece ser óbvio, é o que é exclusivamente meu ou exclusivamente seu; expressão do nosso anseio assenhorador. É o estado de governo do ser humano sobre a coisa, ou, a faculdade de definir o destino da coisa; em que ela será aplicada, como será usada, como gerará frutos, como será consumida. Essas definições, seja no seu conteúdo comum, no sentido econômico, social ou no seu sentido jurídico, possuem o elemento intrínseco ao conceito de propriedade, a vontade de se assenhorar com exclusividade de uma coisa.
É isto que se pode entender como fundamento do direito de propriedade, caracterizado pelos jusnaturalistas como um dos direitos naturais, ao lado da liberdade e da igualdade, como bem enfatiza Locke (1998). Os jusnaturalistas exaltam a propriedade como um direito fundamental, no mesmo patamar do direito à vida e à liberdade (BOBBIO e BOVERO, 1994).
“Não se trata, pois, de uma instituição legal ou convencional, mas natural” (FARIAS e ROSENVALD, 2010, p. 164). É direito natural, que antecede a figura do Estado, para Locke (1998). É fundamento da criação da sociedade, em Rousseau (1999). É um produto da deliberação, da vontade, ou da escolha humana, sendo parte da herança que se recebe ao nascimento em um estado de sociedade onde a lei natural já é existe.
E é justamente sobre essas premissas que a maioria das ordens jurídicas estatais, historicamente consideradas, ou atuais, concebeu o direito de propriedade. Por ser direito natural, prescreveram-na como direito fundamental. É o que se encontra na nossa atual Constituição (BRASIL, 1988), ao trazer a propriedade privada no rol de direitos prescritos no seu art. 5º. Sua história se confunde com a da liberdade, havendo quem a caracterize como garantia do direito de liberdade e até mesmo como fundamento para uma existência mínima, digna, consequência do princípio de justiça social que informa a necessidade de sua democratização em prol daqueles que não são proprietários (GOMES, 2012).