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3. Ara Faz (111)
Em duas importantes conferências sobre o tema - Os caminhos da formação dos
sintoma tem um sentido que pode ser decifrado em uma análise. Nessas duas conferências apresenta sua teoria sobre o sintoma.
Na discussão que faz sobre o tema, Miller (1997) acentua uma diferença importante entre as duas conferências freudianas citadas acima. Para ele, em O sentido
do sintoma Freud discute sobre a significação inconsciente presente no mesmo,
enquanto que em Os caminhos da formação dos sintomas demonstra que a referência do sintoma é o fantasma21, portanto, vincula o sentido e a libido, o significante e a pulsão. Assim, em Freud encontramos duas vertentes do sintoma: uma que diz respeito à sua estrutura de linguagem, expressão cunhada por Lacan ao dizer do inconsciente e todas as formações do inconsciente; e outra, que diz respeito à sua dimensão pulsional. São essas duas vertentes do sintoma, significante e pulsional, que se pretende esclarecer a seguir.
Em Os caminhos da formação dos sintomas (1916-17) Freud afirma que, se por um lado, o sintoma gera um grande dispêndio mental com consequente empobrecimento psíquico e desprazer, por outro, ele consiste em um novo método de satisfação da libido que foi impedida de satisfação. O sintoma constitui-se para ele como uma solução de compromisso entre duas forças ou tendências que entraram em conflito.
Em sua vertente de linguagem, o sintoma, de acordo com Freud, emerge como
um derivado múltiplas-vezes-distorcido da realização de desejo libidinal inconsciente (Freud [1916-17]1969 p.421). Uma construção engenhosamente fabricada que, ao
distorcer a idéia inconsciente, encontra um modo de expressão na consciência na forma de um sintoma. A ideia de que no sintoma há uma distorção é o que permite a Lacan dizer que se trata de uma metáfora, ou seja, da substituição de uma ideia por outra, de um significante que foi recalcado por outro, assemelhando-o à formação onírica. Essa vertente do sintoma permite que ele seja decifrado dando acesso ao conteúdo inconsciente ou à verdade recalcada. Freud recomenda que tratemos os sintomas do mesmo modo que se trata um sonho, fazendo dele um enigma que possa ser decifrado.
Essa estrutura de linguagem do sintoma é retomada por Lacan no texto Função e
campo da palavra (1953). Nesse texto, Lacan apresenta o sintoma como tendo um
sentido, suportado por um significante cujo significado está recalcado. Além disso,
21 O termo fantasma é correlato ao de fantasia presente nesse texto de Freud e faz referência ao modo
como o sujeito extrai satisfação em sua relação aos objetos. O fantasma é construído como uma resposta ao encontro com a castração do Outro.
afirma que no sintoma os significantes fundamentais da história do sujeito provenientes do Outro se fazem presente. Nas palavras do próprio Lacan:
O sintoma, aqui, é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito. Símbolo escrito na areia da carne e no véu de Maia, ele participa da linguagem pela ambiguidade semântica que já sublinhamos em sua constituição. Mas é uma fala em plena atividade, pois inclui o discurso do outro no segredo de seu código (Lacan [1953]
1998, p.282).
Já no seminário As formações do inconsciente (1957-58), Lacan discute a relação existente entre o sintoma e o desejo. Para ele o sintoma é qualquer coisa analisável e, de acordo com as descobertas freudianas, apesar da variabilidade de suas manifestações, nos permite apreender algo do desejo. Em sua leitura estrutural do sintoma, Freud indicou que o desejo está ligado a alguma coisa que é sua aparência, mantendo um estreito vínculo com aquilo de que se reveste, ou seja, com sua máscara. Assim sendo, o sintoma que traz em sua estrutura algo do desejo, se apresenta sempre sob uma forma ambígua, de uma forma paradoxal, de uma forma dissimulada, ou seja, metafórica. A ideia de máscara aproxima-se da formulação lacaniana presente no texto
De nossos antecedentes (1966) do envelope formal do sintoma, ou seja, seu envoltório,
seu revestimento significante.
A ideia de máscara significa que o desejo se apresenta sob uma forma ambígua, que justamente não nos permite orientar o sujeito em relação a esse ou aquele objeto da situação. Há um interesse do sujeito na situação como tal, isto é, na relação desejante. É precisamente isso que é exprimido pelo sintoma que aparece, e é isso que chamo de elemento de máscara do sintoma (LACAN [1957-58] 1999, p.337).
Para Lacan, o sintoma fala na sessão e caminha na direção do reconhecimento do desejo. “Isso fala” e, desse modo, o sintoma inclui um pedido de reconhecimento do desejo. Ao ser endereçado a quem possa interpretá-lo, permite a produção de um enigma que abre para o sujeito a possibilidade de decifração e de abordagem da verdade inconsciente. Segundo Lacan, quando Freud dizia aos seus pacientes: Fale, ele o fazia porque deveria haver em jogo alguma coisa da ordem da verdade.
Para Miller (1997), encontramos em Freud um certo otimismo interpretativo quando acredita que o sintoma desaparece quando se o decifra. Essa ideia também está presente no primeiro ensino de Lacan, por meio da formulação do sintoma como uma metáfora do desejo. O fato de que Isso fala, que seja uma mensagem, que esteja
articulado, que tenha efeitos de verdade, não é do mesmo nível que a produção do gozo. Para que seja uma mensagem é necessário crer nele. Introduzir a crença no sintoma é introduzir sentido no sofrimento, transformar o sintoma que se padece em uma entidade que fala e que possa ser interpretado. Trata-se da parte simbólica do sintoma, quer dizer, da articulação entre os significantes e da possibilidade de liberar, via palavra, o significado recalcado nessa articulação.
(...) já está perfeitamente claro que o sintoma se resolve por inteiro numa análise linguageira, por ser ele mesmo estruturado como uma linguagem, por ser a linguagem cuja fala deve ser libertada (Lacan
[1953]1998, p.270).
Entretanto, há outra vertente que escapa à decifração. Trata-se da dimensão pulsional, isto é, de satisfação da pulsão realizada pelo sintoma. Para Freud, o sintoma cria um substituto da satisfação impedida, repete uma forma infantil de satisfação transformada em desprazer. Em Os caminhos da formação dos sintomas (1916-17), discute os roteiros que permitiram a produção de um sintoma. Para Freud, o sintoma para se constituir retorna aos pontos de fixação deixados no passado quando a libido foi bloqueada em sua busca de satisfação. Esses pontos de fixação nos remetem às atividades e experiências da sexualidade infantil, nas tendências parciais abandonadas, nos objetos da infância que foram interditados. Assim, esse resto que se fixou foi a parte da satisfação que não obedeceu e não se submeteu às exigências da realidade. Posteriormente, diante de situações em que o sujeito é novamente impedido de obter satisfação direta, onde sua libido é interceptada, o aparelho psíquico procura escapar em alguma direção na qual possa encontrar uma descarga. Pelo caminho inconsciente e dessas antigas fixações a libido consegue achar sua saída e encontrar satisfação, embora restrita e que mal se reconhece como tal.
Portanto, a constituição de um sintoma inclui no mínimo dois tempos: um primeiro, em que a satisfação da libido é impedida pelas exigências da realidade, mas cria um ponto de fixação, um resto, um traço, uma marca, um roteiro no aparelho psíquico; e um segundo, quando novamente a libido é interceptada e retorna a esse caminho no intuito de obter a satisfação almejada. Nas palavras do próprio Freud:
Estes [os sintomas] criam, portanto, um substituto da satisfação frustrada, realizando uma regressão da libido a épocas de desenvolvimento anteriores, regressão a que necessariamente se vincula um retorno a estádios anteriores de escolha objetal ou de organização. Descobrimos, há algum tempo, que os neuróticos estão ancorados em algum ponto do seu passado; agora sabemos que esse ponto é um
período do seu passado, no qual sua libido não se privava de satisfação, no qual eram felizes (Freud [1916-17]1969, p.427).
Freud criou a metáfora das reservas naturais, uma espécie de reduto da satisfação pulsional, para falar disso que escapou ao princípio de prazer, ao teste de realidade. Um lugar onde os seres humanos continuam a gozar, nomeado por ele como o reino mental
da fantasia. A libido retorna nesses pontos porque há algo de atrativo ali, um mais de
gozo. Isso que atrai é sempre traumático ou fantasmático (Miller, 1997).
Uma reserva natural preserva seu estado original que, em todos os demais lugares, para desgosto nosso, foi sacrificado à necessidade. Nesses locais reservados, tudo, inclusive o que é inútil e até mesmo nocivo, pode crescer e proliferar como lhe apraz. O reino mental da fantasia é exatamente uma reserva desse tipo, apartada do princípio de realidade (Freud [1916-17] 1969, p.435).
É por isso que Lacan afirmará em Televisão (1973, p.45), seguindo a orientação freudiana, que o sujeito é feliz, em relação a sua satisfação pulsional.
Entretanto, trata-se de uma satisfação paradoxal, de uma felicidade que gera satisfação e sofrimento ao mesmo tempo, mas da qual o sujeito não abrirá mão com facilidade. Trata-se de uma satisfação paradoxal, porque somente é reconhecida como sofrimento22.
De algum modo, o sintoma repete essa forma infantil de satisfação, deformada pela censura que surge no conflito, via de regra, transformada em uma sensação de sofrimento e mesclada com elementos provenientes da causa precipitante da doença. O tipo de satisfação que o sintoma consegue, tem em si muitos aspectos estranhos ao sintoma.
(Freud [1916-17]1969, p.427).
É essa transformação da satisfação em sofrimento, operada pelo sintoma, que o transforma em algo irreconhecível pelo sujeito e do qual ele se queixa e quer se desvencilhar. Entretanto, é daí também que surge a aderência do sujeito ao seu sintoma, revelando que há algo que insiste e que retorna. Esse caráter de aderência do sintoma é que o diferencia de todas as outras formações do inconsciente. Há desse modo, de acordo com Freud, uma reação terapêutica negativa, que Lacan pôde traduzir como o gozo do sintoma, como o núcleo real do sintoma que o torna não todo passível de ser desenlaçado pela fala e pela interpretação (Cottet, 2005).
22
A transformação da satisfação em sofrimento permanece, nesse texto, ainda enigmática. Freud retornará a essa questão em Inibição, sintoma e angústia (1926) como veremos a seguir.
Por isso, o único sentido que pode ter a cura é o de diminuir o preço do sofrimento que se deve pagar para aceder à satisfação pulsional. De acordo com Miller (1997), nesse nível não há conflito. Em lugar de uma modificação no mundo externo, o sintoma permite que essas satisfações operem-se por meio de uma modificação no próprio corpo, estabelecendo um ato interno no lugar de um ato externo. O sintoma estabelece assim, uma adaptação no lugar de uma ação. Por isso entendemos o sintoma como uma adaptação, um modo do sujeito se arranjar na vida e não meramente uma inadaptação, uma inadequação que deveria ser corrigida.
4.2O sintoma no último ensino de Lacan: uma solução para um excesso