A reunião prosseguiu com a intervenção do delegado tentando explicar a situação ao dizer que há “uma palavrinha que traduz isso tudo: vaidade. Quem é o pai ou a mãe da criança? A prefeitura, o delegado, a PM? A GM foi criada. Já estão armando a GM, igual em São Paulo, onde a PM e a GM estão em guerra”. O presidente do Consep acrescentou: “Vão ajudar a BH-Trans a multar”. O Pcom 07, que nessa reunião nada havia dito até aquele momento, falou de uma função da GM: “no posto de saúde só tem alarme, não tem policial, quando toca o alarme quem atende é a GM”. Mas o delegado observou que:
A função deles é o patrimônio municipal, do qual não estão cuidando. A praça, onde há muito malandro, eles não estão cuidando. Mas a delegacia foi lá, chamou e limpou e, de certa forma ilegalmente. Do lado de lá da Pampulha tem uma favela que necessita poda de árvores, iluminação e do social, que é recolher o pessoal de rua (Pciv 01).
Seguiu-se o seguinte diálogo:
“O que a prefeitura está pretendendo na segurança pública?” (Pcom 10) “Lembra a Guarda Civil?” (Pcom 13)
“Descia o porrete com vontade.” (Pciv 01)
“O negócio é a eleição, querem criar a GM para se fortalecerem em cima da segurança pública.” (Pcom 13)
“A GM foi criada no Brasil todo38” (Pcom 03).
“Não cuidam do patrimônio da região, vamos começar a botar a boca no trombone. O Fulano de Tal, jornalista do Estado de Minas, pode ajudar. Temos que denunciar” (Pcom 10)
O delegado (Pciv 01) observou que “ano que vem será um ano político e podemos articular os líderes, ver a nossa capacidade de mobilização e limpar as praças”. O Pcom 10 ironizou: “aí a prefeitura vai falar que conta com o apoio da população”. No contexto de uma fala sobre o representante da AR-PMBH no Consep, o Pcom 10 disse, em relação à sua influência na AR-PMBH: “ele e nada é a mesma coisa” e ainda “se ele estivesse aqui ia ouvir”.
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O presidente do Consep chamou a atenção para a necessidade de encerrar a reunião e mostrando-se preocupado, disse: “Esta semana eu estava pensando que quando o delegado chegou aqui estava o Major Fulano, companheiro que continua trabalhando. Nós temos que trabalhar, porque senão estaremos fazendo propaganda enganosa”. Ele falou numa ação coordenada das duas polícias e sugeriu: “Que tal uma por mês?” Seria a última expressão do “vazio informacional” de uma reunião que já estava em seu final, mas, para consolidar-se ainda mais a situação que se tenta descrever, deu-se o seguinte diálogo entre o delegado (Pciv 01) e o sub-comandante (Pcom 02), em resposta à preocupação do presidente:
“Deixa a viatura nossa chegar.” (Pmil 02) “É o país do futuro.” (Pcom 10)
“Está feita a proposta. Vamos escolher um bairro. Fizemos um trabalho no Mineirão e levamos a comunidade. Quando o repórter chegou lá falamos que a população estava ali acompanhando os trabalhos, que era uma demanda da população. Aí o repórter mudou de atitude”. (Pciv 01)
“Que operação seria?” (Pmil 02) “Pode escolher.” (Pciv 01) “Batidão numa favela.” (Pmil 02)
“Pô, quando a PM quer mostrar serviço vai logo na favela! Sou contra. Melhor numa avenida importante, movimentada.” (Pciv 01)
Soa esse diálogo como algo burocrático, estereotipado, mecânico. Ocorreu, provavelmente, como tentativa de preencher o vazio deixado pela (difícil) reunião que chegava ao seu final, sem que houvesse mais tempo para que fossem vislumbradas alternativas ou respostas para os questionamentos colocados e para dúvidas surgidas, como as que foram expressas pelo presidente do Consep. Entretanto, seu conteúdo não foi capaz de gerar sentido, pois careceu de valor substantivo e só fez aumentar a sensação (mal estar) de vazio informacional.
A reunião se desfez e todos começaram a conversar em duplas e/ou pequenos grupos. O Pcom 06 chegou até ao pesquisador e disse, referindo-se à entrevista realizada: “achei muito bom conversar com você”. No contexto da reunião que terminou, ficou a impressão de que ele ficou grato, sobretudo, por ser ouvido longamente e sem interrupções. Já o Pcom 10, que fora muito atuante e expressivo nas duas últimas reuniões, também veio até o pesquisador e disse que “as pessoas falam muito pouco, brigam muito pouco”. Ele parecia preocupar-se com o
silêncio das pessoas que, para ele, vinham evitando prestar informações, sobretudo na medida em que isso significaria também expressar sentimentos de insatisfação e descontentamento.
No primeiro caso, transmitir informações foi prazeroso, pois a subjetividade pode ser expressa na presença de um interlocutor percebido como interessado. No segundo caso, quando não se expressa, ela parece associar-se ao desprazer.
De fato, essa reunião pode ser considerada paradigmática no contexto desta pesquisa. As demandas informacionais foram muito intensas. Muitos conselheiros levantaram dúvidas e fizeram perguntas que não foram respondidas. Os conflitos internos do Consep apareceram, bem como as suas dificuldades para conversar e, portanto, construir informações e conhecimentos, com outros setores da sociedade. A falta de objetivos claros, de memória das reuniões, a ausência de um projeto ligando o Consep a um modelo de policiamento comunitário, impedem os conselheiros de selecionar as informações mais importantes, as iniciativas mais promissoras, os assuntos pertinentes e as discussões mais interessantes. Antes de prosseguir, talvez seja oportuno dizer que é em função desse “vazio informacional” que se verificará a falta de importantes conselheiros nas reuniões seguintes. Por isso mesmo, um outro problema de “perda e descontinuidade informacional” será identificado, ou seja, os problemas são levantados, mas não são retomados e perdem-se sem que possam orientar novas ações ou inovações. Nas entrevistas individuais dos conselheiros evidencia-se essa percepção de que não há idéias que orientem ações concretas de segurança na região.
O “vazio informacional” afigura-se como uma noção importante, principalmente por seus efeitos e conseqüências mais imediatas no processo comunicacional do Consep: a inibição de discussões que poderiam conduzir o grupo a novas descobertas, idéias e entendimentos acerca das situações que o afligem, ou seja, ao rompimento com a redundância. As demandas informacionais, representadas pelas perguntas formuladas, são neutralizadas e desperdiçadas pelo uso da redundância (exemplo: covardia dos educadores, falta de viaturas, o problema é o Serrano) que, no âmbito desta pesquisa, equivale à ausência de (novas) informações e, portanto, à diminuição de possibilidades de construção de conhecimentos alternativos.
6.1.4 Quarta reunião ou descontinuidade e perda informacional: muito se esquece,