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O mundo nunca mais será real, original; tudo está fadado à maldição da tela, do simulacro. Estamos num mundo onde a função essencial do signo consiste em fazer desaparecer a realidade e ao mesmo tempo colocar um véu sobre esse desaparecimento (BAUDRILLARD, 2002, p. 81).

O papel da imagem dentro do contexto que evidencia os elementos formadores do mal-estar líquido é vital. Porém, nos parece pertinente analisar cronologicamente algumas questões que cercam a utilização tecnológica e (posteriormente) midiática da imagem. É a utilização dela como uma poderosa e recorrente propagadora de signos que nos interessará mais adiante.

Talvez a primeira junção da tecnologia com a representação da imagem tenha sido a criação da fotografia. O marco principal da fotografia como conceito foi a utilização da câmara escura, que era capaz de reproduzir um enquadramento da imagem, desde que seus compostos químicos ficassem expostos durante algum tempo. Não era possível reproduzir a imagem de elementos que se movessem durante o período de exposição do material. A primeira fotografia da qual se tem notícia é da imagem de um telhado, realizada pelo francês Joseph Niépce, em 1826. A imagem exigiu cerca de 8 horas de exposição para ser impressa quimicamente. Ao mesmo tempo, outro francês, Daguerre, também realizava experimentos parecidos, inclusive dando um passo a frente utilizando o processo para realizar efeitos visuais em um espetáculo chamado “Diorama”. Os dois franceses acabaram inclusive firmando uma sociedade posteriormente, na qual seguiram avançando em seus experimentos fotográficos. A fotografia evoluiu e alcançou inclusive a capacidade de reproduzir cores. Mas foi com a Kodak e uma forte campanha de marketing que, a partir de 1888, a fotografia começou a se fortalecer também como um produto de consumo, possibilitando que fotógrafos não-profissionais pudessem dispor de um equipamento de fácil manuseio e captar suas próprias imagens.

Muitas das experimentações causadas pelo avanço da fotografia também foram importantes para a criação de um aparelho muito fundamental para a cultura moderna. Trata-se do cinematógrafo, que se originou como um instrumento para fins científicos, de acordo com seus criadores, os irmãos Lumiére. Existem divergências históricas a

respeito dos primeiros registros sobre aparelhos do tipo, mas a maioria ainda considera os Lumiére como os precursores. A primeira exibição pública de imagens captadas pelo cinematógrafo data de 28 de dezembro de 1895, em Paris.

Mas, segundo Anderson (1999), foi a televisão a grande responsável por mudar os rumos da comunicação de massa, proporcionando um salto único na história da informação midiática. Ele fortalece, inclusive, o caminho construído pela radiodifusão, anos antes:

O rádio já se revelara, nos anos de guerra e no período entre guerras, um instrumento muito mais poderoso de conquista social do que a imprensa: não apenas por suas exigências menores de qualificação educacional ou recepção mais imediata, mas acima de tudo por seu alcance temporal. A radiodifusão 24 horas criou ouvintes potencialmente permanentes - público cujos horários de vigília e de escuta podiam ser virtualmente o mesmo. Esse efeito só era possível pelo desligamento entre olho e ouvido, o que significava que muitas atividades - comer, trabalhar, viajar, descansar - podiam ser executadas com o rádio ao fundo. (ANDERSON, 1999, p. 104)

As imagens começaram a irromper no imaginário dos indivíduos, mais do que nunca, se tornando também modernas no sentido de pertencerem a um inconsciente de uma sociedade voltada ao progresso e às maravilhas do descobrimento tecnológico. Mas é também, por consequência desse mosaico de fatores, o começo do esfacelamento dessa sociedade segura e concreta. “Outrora, em júbilo ou alarmado, o modernismo era tomado por imagens de máquinas; agora, o pós-modernismo é dominado por máquinas de imagens” (Anderson, p. 104).

No entanto, a relação que a televisão estabelece com o seu público é muito mais potente, pois parte justamente da relação com a imagem. “O olho é atingido antes do ouvido” (1999, p. 104). Em 1954, a televisão em cores surge, vindo a se consolidar como bem de consumo na década de 1970, e conquistando definitivamente os lares das famílias ocidentais, se tornando, inclusive, um símbolo de status e de consolidação do modelo capitalista (juntamente com o automóvel).

O que o novo veículo trouxe foi uma combinação de poder sequer sonhada: a contínua disponibilidade do rádio com um equivalente ao monopólio perceptivo da palavra impressa, que exclui outras formas de atenção do leitor. A saturação do imaginário é de outra ordem. (ANDERSON, 1999, p. 104)

Nesse sentido, Teixeira Coelho se utiliza da denominação “ século do audiovisual”, ao posicionar essa junção de som e imagem como um fator decisivo para a superexposição de signos que a sociedade sofre. O autor brasileiro se utiliza do exemplo da MTV para explicitar essa relação, ao aproximar ainda mais a função do rádio à imagem. A televisão acaba se propondo a criar uma “imagem ambiente”, proporcionando uma sensação visual análoga à sensação auditiva. E a predisposição dos indivíduos a serem constantemente banhados por signos visuais e auditivos parece se adequar perfeitamente à nova realidade. “Que a imagem penetre tão incontrolavelmente no indivíduo quanto nele penetre o som: independente da sua vontade. Esta é a proposta da pós-modernidade televisual [...]” (p. 163), tratando bastante da forma como grande parte da sociedade passou a “consumir” audiovisual. Enquanto temos um exemplo bem brasileiro da audiência de telenovelas, produto já pensado sob esses termos, com um roteiro e decupagem redundantes e que possa permitir que uma pessoa que ficou algum tempo sem assistí-la possa recuperar seu ponto dentro da narrativa, devido aos constantes diálogos auto-explicativos. É um modelo típico desse padrão de consumo, visto que “quando as pessoas voltam para suas casas, o primeiro gesto que estatisticamente fazem é ligar a TV, mesmo que nada pretendam assistir naquele momento”, fazendo com que essa visualidade intermitente seja também uma dama de companhia. “Essa velha TV sempre ligada que, ocasionalmente, fornece às pessoas uma imagem entre duas garfadas ou entre uma página e outra do jornal lido no momento, funciona mais como um rádio. Um ambiente

visual” (p. 163).

A superexposição imagética só teria outro boom igual quando uma rede capaz de conectar computadores por todo o globo, sem filtros ou distinções, se consolidou. A internet atuou como um doping para todo o processo de aceleração que envolve as diversas camadas do sistema capitalista. Ela possibilitou que a globalização atingisse um outro nível, além de uma forma não puramente mercadológica. Passou a ser, ao mesmo tempo, responsável pela overdose de informações que recebemos atualmente. Estar online é uma constante, seja no trabalho, na aula, em casa, com amigos e conhecidos. Seja no notebook, no computador do trabalho, no celular. Se algo demanda esforço exacerbado, basta se desconectar. Como somos capazes de

absorver essa overdose de informações? De onde provém essa ansiedade cada vez mais constante? Todos os tempos se aceleram. Santaella (2012) afirma:

Não é à toa que as linguagens já tomaram literalmente conta do mundo. Estejamos ou não atentos a isso, estamos dia e noite, em qualquer rincão do planeta, com maior ou menor intensidade, imersos em signos e linguagens, rodeados de livros, jornais, revistas, de sons vindos do rádio ou dos discos laser e das fitas, somos bombardeados por imagens, palavras, música, sons e ruídos vindos da internet, rede das redes, podemos navegar através da informação e nos conectar com qualquer parte do mundo em fração de segundos (SANTAELLA, 2012, p. 28).

A pós-TV, como Teixeira chama a MTV, vai em direção aos preceitos da modernidade líquida, ao se encontrar em constante mudança, como mostra, inclusive, a identidade visual da empresa. Há também um ponto importante dentro dessa liquefação midiática: a confluência de entretenimento, informação e publicidade. Atualmente, é cada vez mais complicado dissociar uma expressão midiática de seu verdadeiro intuito, visto que o mercado publicitário e de marketing se voltaram para essa constante manifestação de signos, ainda maior com a popularização da internet e dos smartphones, que aumenta progressivamente o tempo de exposição a essas manifestações. Para Teixeira, o exemplo da MTV é claro: “o programa é um comercial. O clip é mostrado apenas para vender a música, as gravadoras sustentam a MTV para que ela transforme seus produtos em sucessos de venda” (p. 167).

Baudrillard (2004), traça um paralelo com esse “bombardeio de signos, que a massa supostamente repercute” e o que Teixeira levanta. Para o francês, isso é informação, e não uma maneira de comunicar nem de expressar sentido, mas um “modo de emulsão incessante, de input-output, e de reações em cadeias dirigidas [...]. É preciso liberar a ‘energia’ da massa para dela se fazer o ‘social’” (p. 25). Essa discussão ética passa pela cultura do narcisismo, que está atrelada diretamente à cultura de consumo. No momento em que desencoraja a iniciativa e a autoconfiança, também incentiva a dependência, a passividade e o estado de espírito típicos do espectador. Esse estímulo a ética aparente do hedonismo, cujo resultado perverso, uma vez que não está ao poder de todos os indivíduos, é um estado de “permanente desconforto espiritual e ansiedade crônica. Ou de iminente criminalidade (como é fácil

constatar num país de fortes desigualdades sociais como o Brasil)” (Teixeira Coelho, p. 177).

É dessa forma que a explosão imagética adquire seu papel como um fator angustiante do mal-estar líquido. À medida que passa a servir quase como um “inconsciente” de seus espectadores, e misturar desejos provenientes de tantas fontes e com tantos objetivos distintos, sem a possibilidade de um “consumidor midiático” menos atento fazer sua própria diferenciação, esse bombardeio estabelece também uma confusão existencial difícil de desvincular. Como Baudrillard sustenta: “O conteúdo das mensagens, o significado dos signos, em grande parte, são indiferentes” (p. 26), mais valendo a transmissão dos mesmos. Essa integração se torna perigosa, na medida que não é possível mais estabelecer limites, as zonas de absorção estão cada vez mais confluidas. Bauman já estabeleceu que “No estágio em que nos encontramos, grande parte do ‘progresso’ cotidiano consiste em reparar os danos diretos e colaterais provocados pelos esforços para acelerá-los” (p. 101). E isso vem ao encontro dos medos que se agigantam quando se percebe que “o poder que os meios de comunicação de massa exercem sobre a imaginação popular, coletiva e individual. Imagens poderosas, ‘mais reais que a realidade’, em telas ubíquas, estabelecem os padrões de realidade e de sua avaliação” (p. 99).

Benzer Belgeler