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ARAŞTIRMADA KULLANILAN ÖLÇEKLERE İLİŞKİN BULGULAR Bu bölümde araştırmada kullanılan ölçeklere ait bulgular özetlendi.

2. GEREÇ ve YÖNTEM

3.2. ARAŞTIRMADA KULLANILAN ÖLÇEKLERE İLİŞKİN BULGULAR Bu bölümde araştırmada kullanılan ölçeklere ait bulgular özetlendi.

A condição do reconhecimento de particularidades coletivas acidentais não se mostra condição suficiente para a alteração do status quo da sociedade, e Zizek mostra mesmo que esse reconhecimento, a partir de uma posição vazia, somente pode ocorrer pela posição privilegiada daqueles que assumem essa posição do “politicamente correto”. O autor questiona se não haveria alguma justiça poética nessa virada auto-referencial, salientando aquilo que abala até o mais patrioticamente orientado populista de direita, de Le Pen a Buchanan: o fato de que as novas multinacionais terem frente à população local americana ou francesa a mesma atitude que diante das populações do México, Brasil ou Taiwan (ZIZEK, 1997).

Se por um lado aumenta-se a possibilidade de uma forma específica de luta política, ainda que em busca de um direito particularizado pela cor da pele ou pela orientação sexual, esse mesmo processo pode solapar qualquer visão de mundo que venha a propor um debate político mais amplo envolvendo classes sociais e propriedade privada. Muitas vezes se coloca como “politicamente correto” certa tolerância aos homossexuais, mas devemos lembrar que um indivíduo pobre sente mais drasticamente a problemática do preconceito pela “diversidade de orientação do comportamento sexual” do que um ator da grande mídia.

Certamente, não existem dúvidas sobre o fato da maioria pobre ser negra refletir apenas os devaneios capitalistas da globalização de outrora, em que a escravidão e o tráfico de seres humanos para exploração em alguma colônia eram regra e não exceção. Entretanto, se crermos que o fim da escravidão foi mais uma triste transição em nossa dinâmica societal eurocêntrica, infelizmente necessitamos, por mais estranho que possa parecer – estranhamente tratar iguais como desiguais. Em nome de uma dívida social contraída e não paga por nossos antepassados brancos e europeus, precisamos – como condição não- suficiente mas urgentemente necessária – de políticas afirmativas para a diversidade de segmentos vulnerabilizados da população.

Destarte, a situação se mostra mais complexa no contexto de um país colonizado e que apresenta traços de escravidão e servidão ao longo de mais de quinhentos anos, muito menos a relevância de movimentos de minorias para a queda da ditadura e a

redemocratização de nosso país. Marilena Chauí relembra que movimentos de minorias sexuais, dos negros e das mulheres uniram-se a outros três grandes movimentos que foram capazes de congregar todas as classes sociais e tendências políticas de oposição: a luta pelos direitos humanos (cujas principais lideranças foram a Ordem dos Advogados do Brasil e a Comissão de Paz e Justiça, da Igreja), a luta contra a Lei de Segurança Nacional e a Lei dos Estrangeiros, e a reivindicação de uma Assembléia Nacional Constituinte livre e soberana.

Em países com o histórico de colonialismo como o nosso, em que o autoritarismo social baseia-se numa máquina ideológica que atua com mecanismos de inversão do real (CHAUI, 2006), a luta política das minorias pode não ser suficiente para alterar o quadro social, mas realmente assume outro formato daquele formulado por Eagleton. Com a produção de máscaras que dissimulam comportamentos, idéias e valores violentos como se fossem não-violentos, permite-se que temas como o machismo, por exemplo, seja colocado como proteção à natural fragilidade feminina.

Chauí ressalta como um dos traços do arraigamento de nosso autoritarismo social o fascínio pelos signos de prestígio e de poder, como o uso de títulos honoríficos sem qualquer relação com a possível pertinência de sua atribuição – o uso de doutor quando, na relação social, o outro se sente ou é visto como superior; nesse mesmo sentido, temos também o “rei da música”, o “rei do futebol” e é claro, a “rainha dos baixinhos”; a manutenção da criadagem doméstica, cujo número indica o aumento de prestígio, de tal sorte que o “luxo” de se ter uma empregada doméstica – marcadamente mulher, quando não uma adolescente – nunca foi privilégio exclusivo das classes mais abastadas, sendo na verdade um desejo e uma realidade de grande parte de nossa classe média.

De acordo com Boaventura Santos, versões emancipatórias do multiculturalismo baseiam- se no reconhecimento da diferença e do direito à diferença e da coexistência ou construção de uma vida em comum além de diferenças de vários tipos. Santos cita Edward Said, para quem essas concepções estariam ligadas a “espaços sobrepostos” e “histórias entrelaçadas”, resultados de dinâmicas imperialistas, coloniais e pós-coloniais, colocando em contato

diferentes formas culturais, que geram em cada localidade formas de oposição e resistência a esses poderes (SAID apud SANTOS, 2003). Nessa perspectiva, a cultura funciona como um “cimento”, horizontalizando as relações das comunidades e servindo de catalisador para forças políticas mais amplas, como produto resultante mesmo do choque com essas forças verticalizadas no bojo da globalização.

Para a definição de emancipação, seguimos a teorização do mesmo autor, que considera que os movimentos sociais de nosso tempo partilham, em geral, uma concepção ampla de dominação e de opressão, e sabem que são múltiplos os mecanismos de opressão e de dominação, e que é preciso lutar contra eles de forma articulada (SANTOS, 2003). Ao reconhecer que os modos de produção e de opressão e dominação são fortemente atuantes, mas não infinitos, fugimos de trivialismos e das armadilhas ideológicas dos totalitarismo. Dessa forma, o autor considera que não abandonamos a perspectiva estruturalista, mas criamos uma concepção mais plural das estruturas de poder que fomentam – às vezes implícita, às vezes explicitamente – os principais mecanismos de opressão e de dominação de nossas sociedades.

A partir da identificação dessas “igualdades nas desigualdades”, a forma de ação pela articulação de suas demandas coletivas pode levar a um novo patamar para a democracia participativa, que teria nesse momento outras formas de promover a institucionalização de uma luta coletiva, agora com seus diversos feixes apontando exatamente para a articulação desses coletivos maiores formados em torno da diversidade cultural desses atores.

Para Santos, uma proposta teórica e analítica desse tipo nos permite identificar as principais contradições sociais e visualizar de forma mais clara os possíveis caminhos para a construção da emancipação social, na transformação pela ação coletiva das relações desiguais de poder em relações de autoridades compartilhadas em cada uma das cinco formas estruturais de relações desiguais de poder na sociedade, a lembrar: o espaço-tempo doméstico (relações sociais de sexo ou patriarcado), o espaço-tempo da produção (exploração de classe), o espaço-tempo do mercado (fetichismo da mercadoria), o espaço-

tempo da comunidade (diferenciação desigual) ou espaço-tempo da cidadania (dominação) e espaço-tempo mundial (troca desigual) (SANTOS, 1995).

O autor considera uma forma de democracia radical, ao propor uma alternativa às formas de concepção liberal, que limitam a democracia ao espaço-tempo da cidadania, e estende a luta democrática a todos os problemas estruturais que se engendram na e pela sociedade atual. Uma vez que essas formas de opressão se interconectam de formas bastante complexas, a tendência para o foco em apenas uma delas pode inclusive embaçar nossa visão sobre a totalidade de formas segmentadas de poder na sociedade.

Santos lembra que tanto o liberalismo quanto o marxismo ocidental e outros discursos emancipatórios da modernidade compartilham da concepção do historicismo, com a lógica da concepção histórica como a narrativa dos sujeitos e culturas da modernidade, o que faz com que o político seja pré-definido em função de uma supra-ordenação que envia para o passado ou para a marginalidade outras formas de sociabilidade, contradição, oposição, resistência ou luta. Pela lógica da ação política moderna, esses grupos de resistência e suas reivindicações de justiça, de reconhecimento da diferença ou de cidadania serão inteligíveis apenas na linguagem do Estado moderno. Cabe ao Estado, dessa forma, promover políticas culturais que conformem as demandas desses grupos, notadamente teorizados “marginais, de oposições, minoritários, residuais, emergentes, alternativos, dissidentes” etc. (SANTOS, 2003).

Nesta perspectiva, e através das possibilidades do multiculturalismo como força de emancipação, abrem-se as portas para a ação coletiva, o debate político que tem como produto o próprio processo democrático, com a formação de dissensos e consensos no seio desses processos. Dessa forma são concebíveis formas de “política multicultural”, engendrando o conjunto de iniciativas e formas de mobilização para outras formas de dominação que não somente aquelas do trabalho, ocupando o espaço entre a resistência e a mobilização.

Na medida em que as formas de dominação não se restringem mais somente ao âmbito do trabalho, mas agora está difundida por todo o interstício social, uma ação estatal cultural contra-hegemônica deveria pautar-se pelo reconhecimento desses grupos, possibilitando sua articulação política, construindo os canais de comunicação com o Estado que permitam a ampliação dos espaços democráticos, promovendo por intermédio de um maior entrelaçamento do Estado com esses grupos a formação de um novo bloco histórico, ancorado na ampliação dos espaços político-culturais e formado exatamente por aqueles que são o sintoma mais vergonhoso da ação do capitalismo flexível.

Obviamente que o Estado, como criação e fiel depositário dos interesses de toda uma classe, não pode caminhar nesse sentido sem enfrentar os constrangimentos institucionais inerentes à sua burocratização. Trataremos desse assunto com mais profundidade no capítulo sobre políticas culturais, por ora lembremo-nos dessa possível instigante relação entre democracia multicultural e contra-hegemonia como forma de ampliação dos espaços tradicionais e tópicos da democracia liberal.

Benzer Belgeler