Para melhor compreensão, das ações didáticas empreendidas, definimos alguns conceitos sobre memória que no geral, está inerente a produções textuais discursivas orais ou escritas usadas para resgatar vivências, recordar épocas baseados em lembranças pessoais repletas de relatos inventivos ou reais para contar a própria vida ou de outrem.
Relatos vinculados em sociedades que podem ter uma memória de cunho estritamente oral ou de cunho estritamente escrito. Fator que denota importante diferença entre ambas, uma vez que ocorrem as fases de transição da oralidade à escrita que Jack Goody (1977, p. 29-52) nomina de “a domesticação do pensamento selvagem”, e, por conseguinte, Jacque Le Goff (2013, p. 390) caracteriza tais fases em cinco graus sucessivos da memória no processo histórico, a saber:
a) Primeira fase - A memória étnica nas sociedades sem escrita, ditas selvagens: memória coletiva com ênfase na existência das etnias ou das famílias – mitos de origem; Interesse pelos conhecimentos práticos, técnicos, de saber profissional; Transmissão de conhecimentos secretos; Existência de especialistas da memória, homens-memória; Não necessidade de uma rememorização exata, palavra por palavra; Com exceção para o canto, há mais liberdade e mais possibilidades criativas.
b) Segunda fase - O desenvolvimento da memória: da oralidade à escrita, da Pré- História à Antiguidade: Profunda transformação da memória coletiva; Surgimento de figuras ‘mitogramas’ paralelo à mitologia que se desenvolve na ordem verbal; Desenvolvimento de duas formas de memória: A comemoração, a celebração através de um monumento comemorativo de um acontecimento memorável e o documento escrito num suporte especialmente destinado à escrita.
c) Terceira fase - A memória medieval no Ocidente: Cristianização da memória e da mnemotécnica; Repartição da memória coletiva entre uma memória litúrgica (Antigo e Novo Testamentos) girando em torno de si mesma e uma memória laica de fraca penetração cronológica; Desenvolvimento da memória dos mortos; Papel da memória no ensino que articula o oral e o escrito e o surgimento de tratados de memória.
d) Quarta fase - Os progressos da memória escrita e figurada da Renascença aos nossos dias: Revolução pela imprensa, Memória social da Antiguidadade embutida nos livros; Rápida dilatação da memória coletiva; Destaque para a memória técnica, científica e intelectual e o Romantismo literário.
e) Quinta e última fase - Os desenvolvimentos contemporâneos da memória, Surgimento da máquina de calcular durante a segunda guerra; Surgimento da memória eletrônica e a substituição da memória arquivista pelo banco de dados.
Mesmo com o surgimento das novas tecnologias na sociedade contemporânea, a memória, paralelamente, não perdeu o seu espaço nessa sociedade seja no campo da oralidade, seja no campo da escrita.
Destacamos que nem sempre a veracidade de datas e acontecimentos narrados é prejudicial para darmos vida e voz aos relatos que constituirão as memórias. Nesse sentido, Bosi (1994, p. 419) reforça que “Às vezes, há deslizes na localização temporal de um acontecimento...Falhas de cronologia se dão também com acontecimentos extraordinários da infância e da juventude...uns e outros sofrem um processo de desfiguração, pois a memória grupal é feita de memórias individuais”.
Outro fator que enriquece a vivacidade dos relatos na formação das memórias é a imparcialidade do entrevistador quanto às ideologias e posicionamento político do idoso entrevistado.
Para Bosi (1994, p. 458-459)
Não me cabe aqui interpretar as contradições ideológicas dos sujeitos que participaram da cena pública. Já se disse que ‘paradoxo’ é o nome que damos à ignorância das causas mais profundas das atitudes humanas… Explicar essas múltiplas combinações (paulistismo de tradição mais ademarismo; ou tenentismo mais paulistismo mais comunismo; ou integralismo mais getulismo mais socialismo) é tarefa reservada a nossos cientistas políticos, que já devem ter-se adestrado a estes malabarismos. O que me chama a atenção é o modo pelo qual o sujeito vai misturando na sua narrativa memorialista a marcação pessoal dos fatos com a estilização de pessoas e situações e, aqui e ali, a crítica da própria ideologia.
Dessa forma, há de se conceber que a imparcialidade política e ideológica do entrevistador, em relação ao pensamento do entrevistado, é fator preponderante para que os relatos possam fluir.
Para Smolka, Laplane & Braga (2008),
[...] as lembranças emergem dinamicamente, permeadas e constituídas pelos sentimentos, conhecimentos, emoções. Em certas circunstâncias, fragmentos ou traços significativos para o sujeito podem ser lembrados ou esquecidos. As recordações têm, em geral, uma qualidade nebulosa, confundindo e condensando imagens, lugares, espaço, tempo [...]
As memórias sempre despertaram muitas curiosidades em todos os tempos e sociedades pelo alto grau de exposição de fatos pessoais, principalmente, quando se trata de relatos envolvendo celebridades ou pessoas de destaque social. Ainda para o
senso comum, a memória também pode ser associada à mente de sujeitos inteligentes, conforme destacamos no conceito dicionarizado,
Memória (Do lat. Memoria) S.f 1. Faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente [...] 2. Lembrança, reminiscência, recordação [...] 3. Celebridade, fama, nome. 4. Monumento comemorativo. 5. Relação, relato, narração [...] (Dicionário da Língua Portuguesa, Novo Aurélio, séc. XXI, 1986, p. 1117)
Por outro lado, no campo científico a memória é constantemente objeto de estudos, tanto na área das ciências humanas quanto na área das ciências médicas. Especificamente, abrange pesquisas nos setores da história, da educação, da filosofia, da psicologia e da linguística etc., havendo uma constante preocupação da comunidade acadêmica e científica em fomentar esses estudos relacionados à preservação da memória, visto que, seguindo em direção contrária, os novos aparatos tecnológicos disponíveis em massa no século XXI parecem distanciar e diminuir o valor atribuído à memória pela sociedade usuária de tais tecnologias. Coracine e Ghiraldelo (2011) ampliam tal discussão ao afirmarem que,
[...] o mito do novo do jovem, do moderno, do presente parece apontar para a desvalorização da História, do passado, da memória, do povo, marcada nas ruas, na arquitetura, nas artes em geral, na culinária, nos costumes, nas falas, nas (auto) biografias, o que parece apontar para a cisão do sujeito e de sua natureza própria dos tempos denominados (pós) modernos.
Esse apego desmedido da sociedade pelas novas tecnologias fez surgir um ser cada vez mais individualista dominado pelo exibicionismo e pelo deslumbramento de consumo capitalista. Há, neste século XXI, claramente, um isolamento dos indivíduos no tocante ao diálogo face a face, seja no meio profissional, familiar, conversas cotidianas de bares, de restaurantes e de reuniões familiar. Esse novo e isolado sujeito que dispõe de todas as facilidades tecnológicas de comunicação busca, paradoxalmente, o outro como forma de autoconhecimento e identificação através de autobiografias. Essas se realizam, não só na concepção histórica do gênero textual, mas também, em perfis, relatos e imagens expostos nas redes sociais.
Isso retoma, mesmo que inconscientemente, o caminho de volta para a própria história, haja vista que esse sujeito busca falar de si para não cair no anonimato de uma sociedade que ostenta o consumo impulsionado pela globalização e nega o singular de um indivíduo que acima de tudo tem a sua história e o seu diferencial. Esse clamor individual do sujeito reflete uma forma de eternizar na memória os seus traços pessoais como forma de deixar a sua herança.
Coracine e Ghiraldelo (2011) fazem abordagens histórica, psicológica, discursiva, psicanalítica e desconstrutivista da memória, visto que, tais abordagens são inerentes à linguagem, ao sujeito e à história.
As autoras enfatizam que a abordagem histórica concebe a memória fazendo uma relação ao povo, às nações e à coletividade. Isso reflete fazer uma retrospectiva à memória histórica da Grécia antiga que, ainda hoje, influencia nos costumes e vivências do homem moderno. Sociedade marcada pela mitologia e pela memória através da oralidade, de tal maneira que os grandes atributos para selecionar mestres ou filósofos naquela sociedade eram o excelente raciocínio e o conhecimento da verdade transmitido por interlocutores face a face. A posteriori, essas verdades expandiam-se para a memória da coletividade.
Com a passagem desses relatos para a escrita passou-se a duvidar dessas verdades uma vez que não havia interlocutores para argumentar ou debater possíveis dúvidas e equívocos postos na escrita. Isso se constituía como uma permanência das ideias daqueles que proferiam tais verdades e discursos.
Depreendemos nessa situação uma semelhança com grupos pertencentes às sociedades atuais que usam o discurso ideológico como forma de perpetuarem-se no poder. Temos observado que este discurso ideológico e conservador nas aulas de Língua Portuguesa das escolas brasileiras que insistem em manter um ensino restrito à gramática da norma padrão.
Admitimos que essa evolução da escrita, muito contribuiu para poupar a memória humana, como também para facilitar os agendamentos, os registros, os documentos, a produção de trabalhos científicos, a narração de fatos, notícias e reportagens, seja em tempo real ou posteriormente, tendo, por conseguinte, a opção de arquivá-los ou apagá- los. Ações que no século XXI se expandem com maior facilidade pelos novos recursos tecnológicos da comunicação. Para Coracine e Ghiraldelo (2011, p. 27),
[...] a escrita permitiu que muito do passado, inacessível por outras vias, chegasse até nós, transformado, sem dúvida alguma, mas portando a ilusão do mesmo, do acesso a um tempo que não vivemos, mas que nos precede e, como tal, nos anuncia e deixa o seu legado. É o que denominamos memória histórica [...] os textos escritos garantem a permanência dos autores e de suas supostas intenções na memória dos vivos.
A escrita que constitui a memória na íntegra passa por acréscimos, subtrações, correções e transformações, e isso faz com que seja permitida a abertura de questionamentos sobre a sua veracidade.
Quanto à abordagem psicológica cognitiva, as autoras asseveram que este tipo relaciona a memória com o comportamento individual e social, e com o desempenho cognitivo, ou com o conhecimento, que é inferido de objetos da percepção passada ou de emoções passadas, sentimentos e estado de consciência, pressupondo, portanto, um sujeito do conhecimento.
A cognição gera no sujeito uma memória consciente conquistada no contexto social permitindo ser efetuada por meio de ações que se repetem. Tomamos o exemplo das ações e procedimentos que um habitual passageiro com bagagens deve seguir em um aeroporto: Chegar com uma hora de antecedência do voo, imprimir o bilhete, despachar as bagagens, embarcar e seguir as normas de procedimentos de voo da companhia aérea. Essa última não precisa ser exaustivamente explicada, pois o passageiro já tem na mente esse conjunto de conhecimentos necessários para a compreensão daquela situação. Na memória desse passageiro basta acionar uma palavra desse campo semântico para ele descortinar o conhecimento neste conjunto de ações.
A abordagem discursiva desloca a ideia de memória como lembrança ou recordação de algo supostamente ocorrido como forma do sujeito se dizer e dizer ao mundo. Vale destacar a distinção entre a memória institucional (jurídica, familiar, religiosa, militar etc) e a memória discursiva. Enquanto a primeira centra o foco no resgate de valores e eventos priorizando serem lembrados; a memória discursiva é constituída por esquecimentos.
Isso não implica dizer que a memória institucional mantenha-se inalterada, podemos citar o exemplo das constantes transformações na composição da atual constituição da família do século XXI comparada àquela de séculos passados. Já para a memória discursiva caracterizada por interpretações e centrada no esquecimento diz respeito à existência histórica de enunciados em práticas discursivas que marcam a
relação do homem com a linguagem. Dessa forma, a memória discursiva estaria materializada pela e na linguagem sendo remetida à história e a historicidade do sujeito. Para adentrarmos na abordagem psicanalística da memória se faz necessário evidenciarmos a diferença com a abordagem psicológica da memória. Enquanto essa última toma a memória como um ato consciente, de gestos associativos a partir de estímulos ou de um desejo consciente; a primeira defende que a memória não é rememoração nem dela necessita porque ela já se acha registrada no corpo que organiza a relação deste com o real. Sendo assim, a ideia da memória como lembrança é deslocado para centrá-la na constituição dos sujeitos e dos discursos, postulando a memória e a percepção como acontecimentos inconscientes.
Por último, a abordagem desconstrutivista da memória que é construída por esquecimentos. Afinal, lembramos porque esquecemos. Esse movimento sempre retroage em busca de fragmentos que formam o inconsciente, verdadeiro arquivo de si. Nele são depositados acontecimentos traumáticos ou não, cruzados com recalques ou traços significantes responsáveis pela construção da subjetividade e que respondem pela singularidade de cada um.
Nesse sentido, a memória desconstrutivista está pautada em transformações, invenções e acréscimos realizados nas histórias que acreditávamos estarem esquecidas ou apagadas.
Partindo do princípio de que as abordagens discursivas, desconstrutivista e psicanalítica sobre a memória guardam suas peculiaridades, há nelas um ponto de equilíbrio em comum que convergem para afirmar que a memória se faz ou se dá também pelo esquecimento; a memória se faz no e pelo outro, no outro de si, caracterizando-se concomitantemente como social e singular.
Acreditamos ser dificultoso credenciarmos a memória como gênero textual, uma vez que é um tema bastante abrangente envolvendo estudos das ciências humanas e médicas. Smolka, Laplane e Braga (2008, p. 30), argumentam “que a linguagem não é apenas instrumental na (re)construção das lembranças; ela é constitutiva da memória, em suas possibilidades e seus limites, em seus múltiplos sentidos, e é fundamental na construção da história.”
Por outro lado, partindo dos princípios bakhtinianos sobre gêneros, podemos considerar memórias como uma atividade humana que requer o uso da linguagem interacional do sujeito cumprindo um propósito comunicativo numa dada situação social. Nessas memórias há presença de uma composição, de um conteúdo e de um
estilo que torna o seu enunciado relativamente estável. Isso nos credencia a defendermos memórias como um gênero textual.
Diante de todas as abordagens expostas, a psicológica é a que mais se afina com o nosso propósito de nominarmos memórias de narrativas de vidas como gênero textual. Isso se sustenta a partir do evento social comunicativo que se deu pelo encontro entre os adolescentes e os idosos de uma mesma comunidade com o objetivo de resgatarmos lembranças, histórias, vestígios e reminiscências da localidade e da vida daqueles idosos.
Esse resgate foi ativado através de objetos como fotografias e pertences pessoais entre outros, previamente solicitados, que de alguma forma despertavam a memória cognitiva desses idosos para impulsionar os relatos dos acontecimentos passados.
Além do trabalho de coleta dos relatos produzidos pelos idosos, em nossa intervenção pedagógica dentro desta pesquisa, privilegiamos as atividades de retextualização, propondo a transformação do texto oral para o escrito.