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O processo de dominação burguesa está intimamente ligado à consolidação de sua hegemonia como classe dominante e na articulação com as frações, ou parte das frações, que potencialmente podem formar o bloco no poder. Ao aprofundar a reflexão sobre este complexo processo de espraiamento da ideologia burguesa e seu papel na elaboração de uma

hegemonia social que englobe também as demais classes sociais, Gramsci destaca:

O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que se deve levar em conta os interesses e a tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida; que se forme certo equilíbrio de compromisso. Isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico corporativa. Mas também é indubitável que os sacrifícios e o compromisso não se relacionam com o essencial, pois se a hegemonia é ético- política também é econômica; não pode deixar de se fundamentar na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica (GRAMSCI, 2007:48)

Assim, a classe dominante burguesa procura atender a interesses imediatos das classes subalternas sem colocar em risco os seus interesses fundamentais, de modo especial os econômicos, que potencializam a reprodução ampliada do capital e sua concentração e centralização cada vez maior nas mãos da classe dominante burguesa e de sua fração hegemônica.

Chamando-nos atenção para o papel e as relações específicas entre Estado e economia na estrutura social capitalista, as reflexões de Poulantzas, sobre este aspecto apontam que

O MPC apresenta então, no que diz respeito às relações do Estado e da economia, uma especificidade característica com relação aos modos de produção pré-capitalistas: a de uma separação relativa entre o Estado e a economia no sentido capitalista destes dois termos, ligada, enfim, à especificidade das relações de produção capitalistas, a saber à desapropriação (à separação na relação de posse) dos trabalhadores diretos e seus objetos e meios de trabalho, e ligada, assim à especificidade da constituição das classes, e da luta de classes, sob o capitalismo. Separação que corta a “imbricação estreita” (Marx) do Estado e da economia nos modos de produção pré-capitalistas, e que esta na base do arcabouço institucional próprio do Estado Capitalista, pois traça os novos espaços e campos respectivos da economia e do Estado. (POULANTZAS, 1977:16).

Esse papel histórico cumprido pelo Estado no desenvolvimento do modelo capitalista aponta para outras dimensões do mesmo, que em sua essência está diretamente ligado a uma centralização social. Esta se torna primordial e cada vez mais aguda no decorrer da concentração do capital, ocupando um papel estratégico na realização de tal processo. Portanto,

através de sua própria trajetória histórica, controla e impede, em muitos momentos, a divisão ou mesmo a cisão da sociedade burguesa que, potencialmente, pode ser provocada pelas contradições de classe, salvaguardando os interesses do conjunto da classe burguesa ou, de modo mais objetivo, de sua fração dominante.

Nesse sentido, impõe-se à burguesia encontrar, no plano político, condições de manter a viabilidade de suas demandas vinculadas à manutenção das relações de produção. Assim, as formas políticas passam a ser reinterpretadas à luz dessas novas necessidades materiais para manutenção de seu escopo inicial, ou seja, a reprodução ampliada do capital e seu controle pela classe dominante burguesa.

No entanto, a complexidade das formações sociais capitalistas modernas nos leva a reconhecer a existência de fracionamento no interior dessas classes sociais, com interesses e objetivos imediatos distintos em determinados momentos históricos. Desse modo, para garantir a reprodução do sistema, muitas vezes, o Estado, cumprindo um papel estratégico, estabelece algum grau de autonomia relativa frente a uma das frações que formam o bloco no poder.

O Estado capitalista deve deter sempre uma autonomia relativa com relação a esta ou aquela fração do bloco no poder (inclusive com relação a esta ou aquela fração do próprio capital monopolista) para assumir seu papel de organizador político do interesse geral da burguesia (do “equilíbrio instável dos compromissos” entre suas frações, dizia Gramisci) sob a hegemonia de uma destas frações. (Ibidem: 21)

Portanto, a relação que se estabelece, a fim garantir o equilíbrio necessário para perpetuar a hegemonia da classe ou fração burguesa dominante dentro da sociedade capitalista, remete a nexos fundamentais entre o econômico, o político e o ideológico. O que leva à consideração de que o Estado e seus representantes, o governo e toda burocracia estatal, tornam-se representantes não exclusivos de uma determinada classe, mas da coletividade e quando submetidos aos limites institucionais, colocam seus conhecimentos e energias para atender a demandas sociais mais emergentes.

Assim, a complexa construção do processo de dominação burguesa e suas relações com a aparelho de Estado podem assumir algumas

características particulares, reforçando, muitas vezes, o sentimento de povo- nação a fim de ocultar que este Estado está diretamente ligado a uma perspectiva hegemônica da burguesia ou de sua fração dominante.

O conceito de hegemonia permite precisamente decifrar a relação entre estas duas características do tipo de dominação política de classes que as formações capitalistas apresentam. A classe hegemônica é aquela que em si concentra o nível político, a dupla função de representar o interesse geral do povo-nação e de manter uma dominância especifica entre as classes e frações dominantes; e isto, na sua relação particular com o Estado capitalista. (Idem, 1986:137)

O poder de determinada classe social, sobretudo da classe burguesa, não se funda somente sobre o poder econômico. É justamente a partir da articulação entre a base econômica, a esfera do político e da produção ideológica que se criam as condições necessárias para se consolidar o poder de classe e sua hegemonia. Nesse sentido, como podemos apreciar nas citações acima, uma das funções determinantes e histórica do Estado burguês é viabilizar o pleno exercício do poder, do ponto de vista ideológico revestido de “garantias legais” e voltado para o “interesse geral da nação” como parte integrante não só do discurso, mas essencial para a manutenção do status quo da burguesia.

Assim, entre as muitas ações do Estado capitalista moderno, destaca-se a tarefa de contribuir com a organização política da classe dominante burguesa e suas eventuais frações, consolidando o chamado bloco no poder. Ao mesmo tempo em que atua para desarticular as classes trabalhadoras, realizando uma segunda tarefa histórica de perpetuação do sistema de reprodução capitalista, concentra a riqueza gerada pelo mais trabalho nas mãos dos donos dos meios de produção, ao passo que aprofunda radicalmente a exploração dos trabalhadores, cumprindo, segundo alerta Saes (1985), uma dupla função, conforme também já havia destacado Poulantzas (1986).

Na verdade, o Estado burguês cria as condições ideológicas necessárias à reprodução das relações de produção capitalistas. E o faz na medida em que desempenha uma dupla função.

a) individualiza os agentes de produção (...) e b (neutraliza, no produtor direto, a tendência à ação coletiva. (SAES, 1985: 32- 33)

Esse processo, que é essencialmente dinâmico. Está ligado a outro que comumente coloca-se na ordem do dia na luta dos contrários, ou seja, a necessidade de superar o processo de alienação promovido tanto pelo processo de produção, como pelo “jogo de espelhos” produzido pela ideologia burguesa.

Portanto, a luta pela ampliação e superação da democracia burguesa, de seu modelo de Estado e seus anexos (legislativo e Judiciário) como, por exemplo, o sufrágio universal e outras formas institucionalizadas de participação social (a possibilidade de apresentar ementas constitucionais) podem levar à ingênua ideia de que isto é democracia plena. Isso significa que o simples fato de um novo bloco se estabelecer no poder temporariamente, no aparelho de Estado, nao representar o fim da dominância e do poder de classe burguesa na sociedade capitalista.

O fato de poder ocorrer a substituição de determinada fração burguesa dominante dentro do aparelho de Estado burguês não pode ser encarado como um processo revolucionário. Guardando as diferentes consoantes que caracterizam as particularidades de cada país, assim como o nível de organização dos trabalhadores e a construção de uma hegemonia social na perspectiva das classes trabalhadoras, esta mistificação do Estado deve ser relevada principalmente quando, por meio do discurso oficial, ele aparece como entidade capaz de garantir o interesse de toda coletividade nacional.

Apresenta-se como representativo do “interesse geral” de interesses econômicos concorrentes e divergentes que ocultam aos agentes, tal como por eles são vividos, o seu caráter de classe. Por via de conseqüência direta, e por intermédio de todo um funcionamento complexo do ideológico, o Estado capitalista oculta sistematicamente, ao nível das instituições políticas o seu caráter político de classe: trata-se, no sentido mais autêntico, de um Estado popular-nacional-de-classe. Este Estado apresenta-se como a encarnação da vontade popular do povo-nação, sendo o povo-nação institucionalmente fixado como conjunto de “cidadãos”, “indivíduos”, cuja unidade o Estado capitalista representa, e que tem precisamente como

sociais econômicas do M.P.C. manifestam. (POULANTZAS, 1986: 129)

Um dos aspectos centrais desse debate recai sobre a constituição, manutenção e estabilidade do Estado Nacional como espaço supra-ideológico, convergente dos interesses coletivos, preocupado com o conjunto dos indivíduos e cioso com o bem comum, com as liberdades individuais e, evidentemente, com a preservação da propriedade privada. É nessa perspectiva, portanto, que se declara que os interesses da nação são os interesses de todo povo.

Nesse sentido, o Estado Nacional, muitas vezes, é confundido com uma ideologia sobre o Estado Nacional, representando uma ferramenta determinante, estratégica no processo de dominação de classe. Para que esta dominação se materialize de modo eficaz, torna-se absolutamente necessária a consolidação de uma ideologia nacional que absorva e identifique a nação, isto é, todos, como uma sociedade de iguais, acima das classes e dos seus reais interesses. Sobre esses aspectos, destaca Lúcio Flávio de Almeida:

Representação ideológica de uma comunidade de iguais que expressa/oculta relações de dominação de classe: eis um ponto de partida que possibilita detectar as bases da ideologia nacional com vistas a demonstrar, no final do trajeto, a especificidade desta última como ideologia do modo de produção capitalista (ALMEIDA, 1995: 20).

A constituição do nacional e das classes que compõe esse “nacional” não é um processo pronto e acabado e que está fundamentado somente sobre bases econômicas da sociedade, conforme vimos acima por meio das contribuições dos autores selecionados.

Esse processo, antes de tudo, é dinâmico e multifacetado, articula não somente as bases materiais da sociedade capitalista, mas também seus elementos subjetivos (ideológicos), formando os fios e nexos da tessitura social nas modernas sociedades capitalistas.

Nessa perspectiva, os interesses nacionais são apresentados pela burguesia como interesses maiores, mais importantes e acima dos limitados interesses de classe. Esse é, indiscutivelmente, seu aspecto ideológico e figura

como um elemento estruturante na constituição da dominação de classe e da do poder de classe.

Benzer Belgeler