A primeira publicação em livro de Pereira da Silva, estando o poeta com 27 anos de idade, dá-se em 1903, com Vae Soli!pela editora Imprensa Paranaense. O livro é dedicado ao também poeta simbolista, o paranaense Dário Velloso, preconizando as ligações estéticas a que Pereira da Silva se filia, refletindo, segundo afirma Barbosa Filho (2014, B7): ―[...] o espírito programático do Simbolismo, com todos os elementos estilísticos e temáticos que lhe caracterizam o tom e a perspectiva, [...]‖.
Apesar de ser uma obra de estreia cujo autor já ocupava um lugar considerável na imprensa carioca, colaborando para os jornais cariocas Cidade do Rio, Rua do Ouvidor, Jornal do Comércio como também na imprensa paranaense dirigindo a revista literária Palladium, pouca repercussão nesta mesma imprensa foi encontrada durante nossas pesquisas, no que se refere a artigos e anúncios de divulgação na época do lançamento de Vae Soli!, salvo o comentário crítico feito por J. dos Santos, pseudônimo de Medeiros e Albuquerque, no jornal A Notícia (1903), para o qual Pereira da Silva também colaborava desde o ano de 1900.
Em seção intitulada ―Crônica Literária‖, o assinante da coluna, J. dos Santos, dedica- se à análise de dois livros, Astros Mortos, de Saturnino Meirelles, e Vae Soli!, de Pereira da
Silva, ambos poetas simbolistas, seguidores de Cruz e Sousa. Analisar livros simbolistas e sobre o Simbolismo não é algo novo na imprensa carioca de finais do século XIX para início do século XX, pois Medeiros e Albuquerque, desde 1899, já vinha publicando artigos a respeito de obras relacionadas a essa estética nas seções de A Notícia. Suas apreciações, bem mais depreciativas que positivas, podem ser observadas na crítica dirigida aos autores mencionados, apesar de, segundo Araripe Jr. (1894), ter sido Medeiros e Albuquerque quem primeiramente se preocupou em trazer a estética simbolista para o Brasil por meio de revistas e livros dos simbolistas franceses, com as quais teve contato em Paris. No entanto, seu posicionamento não segue um princípio apaixonado e idealizado desta corrente estética, ao contrário o que está em destaque em suas críticas depreciativas ou enaltecedoras é a obra em si e, principalmente, seu autor.
A apreciação que J. dos Santos faz do livro de Saturnino Meireles é depreciativa: ―Os Astros Mortos do Sr. Saturnino Meirelles são na sua indigência de ideias a fina flor do cruz-e- sousismo. Não valem nada, nada, nada... E o volume é, no entanto, um mimo de tipografia‖ (A Notícia. Rio de Janeiro, 21/22 de outubro de 1903. Ano X. n. 254, p.03), ou seja, uma publicação não por merecimento, mas por prestígios concedidos.
Inicia lembrando que o livro Os Astros Mortos, de Saturnino de Meirelles, está dedicado a Cruz e Sousa, o que se esperaria, segundo ele, que o poeta estivesse à sua altura, mas, ao contrário, percebe-se uma visão negativa do autor a respeito da corrente simbolista, quando diz, de forma muito irônica que:
O livro de Saturnino Meirelles está dedicado <<ao grande mestre e divino amigo Cruz e Souza>>. Nessas condições, o elogio que lhe será mais grato é o de dizer-se que o discípulo é digno do mestre. Realmente, como produto da escola – se há realmente uma escola Cruz-e Souzista – é uma obra acabada. Mas para o grande público, que, quando lê versos procura neles achar não só palavras como ideias, é um mero desolador de vaidade. Não tem dentro de suas páginas coisa nenhuma (A Notícia. Rio de Janeiro, 21/22 de outubro de 1903. Ano X. n. 254, p.03).
Diferentemente da crítica negativa aos versos de Saturnino Meirelles, o mesmo não se diz de Vae Soli!, de Pereira da Silva, uma vez que J. dos Santos afirma haver nele merecimento. Contudo, esses elogios não apagam as críticas feitas à estética simbolista, quando o crítico afirma possuir os versos de Pereira da Silva algumas
[...] fúteis modas literárias, que fazem abusar das alusões a Santas, a
Virgem das Dores, a Sete Espadas... É difícil compreender que, no nosso
tempo, se ache poesia em aludir a antigas, tolas e desacreditadas superstições, como a valor cabalístico do número 7, o maior presságio das sextas-feiras e dos dias 13... Mas cada um é da sua época, da sua geração (A
Notícia. Rio de Janeiro, 21/22 de outubro de 1903. Ano X. n. 254, p.03).
Apesar de afirmar que Pereira da Silva tem ―merecimento real‖, que tem ―produções muito boas‖, o autor tece comentários negativos a respeito do estilo, da forma dos versos, da pobreza vocabular nas rimas etc., mas, ao mesmo tempo, suaviza essas críticas, justificando- as ―Mas cada um é da sua época, da sua geração‖, ou ―o Sr. Pereira da Silva tem produções muito boas: O olhar da Morte, Máxima Culpa, Dolorosa, podem, além de outras, ser citadas com elogio. E, creio eu, o caso do seguinte soneto intitulado Núpcias sombrias‖. Nota-se que a crítica a Saturnino Meirelles é mais direta e agressiva, ao contrário do que ocorre a Pereira da Silva, havendo, assim, certa simpatia do crítico a respeito do livro deste autor, ao elogiar- lhe as produções, ao contrário do de Saturnino Meirelles a quem apenas deprecia, com uma crítica feroz.
As razões de suas críticas não teriam relação apenas com o valor estético dos versos dos autores mencionados, mas com as próprias ligações e lugares que cada um deles possuía em sua época. Pereira da Silva é colega de jornal de Medeiros e Albuquerque, ambos colaboram para A Notícia, o que se tornaria uma razão suficientemente compreensível para que ele não atacasse tão incisivamente os versos de seu colega de profissão. Ao contrário, Saturnino de Meirelles, que pertenceu ao grupo de amigos de Cruz e Sousa, a este ligado por ligações pessoais, e um grande responsável pela luta na manutenção desse nome, a exemplo da revista Rosa-Cruz, dedicada a Cruz e Sousa, na qual assumiu uma postura de isolamento estético, não aceitando sequer colaboração alguma para sua revista, muito menos qualquer patrocinador ou investimentos financeiros que não pertencessem a seguidores e admiradores do Simbolismo. Esse isolamento talvez colocasse Saturnino de Meirelles numa posição de exclusão dos meios jornalísticos e atraísse para si críticas que sequer ele pudesse refutá-las, tendo em vista sua limitada atuação na imprensa periódica carioca. Pereira da Silva não segue esse princípio, ao mesmo tempo em que colabora para A Notícia, está nas equipes de outros periódicos publicando e divulgando suas poesias, contos e crônicas, apenas integrando-se ao grupo da revista Rosa-Cruz em 1904, um ano após a publicação de Vae Soli! (1903). Sua integração ao grupo em torno desta revista também não o afasta da atuação permanente nesta mesma imprensa.
Finalmente, sobre Vae Soli! (1903), as poucas referências a este livro, a que tivemos acesso em nossa pesquisa, limitam-se a citações como as pertencentes à lista de livros de Pereira da Silva. Diferentemente do que ocorre nas edições de seus outros títulos posteriores a este, não há sequer artigos críticos sobre Vae Soli! na sua edição, ao contrário, sua citação reaparece nas edições de outros livros do autor, como um livro de publicação esgotada.
Esses fatos nos levam a crer ter tido Vae Soli! pouca circulação e nenhuma re-edição para que pudesse ser retomado pela imprensa carioca e, por isso mesmo, ocupando apenas o lugar de composição do conjunto da obra do autor. A retomada histórico-literária de Vae Soli! (1903) só passa a ser feita por críticos literários, historiadores da literatura e pesquisadores do Simbolismo e da literatura paraibana muito a posteriori, a exemplo de Massaud Moisés (1966), Hildeberto Barbosa (2001; 2014), entre outros, sobre os quais abordaremos no último capítulo desta tese. A imprensa jornalística, portanto, na época em que Pereira da Silva atuava, segundo nossas pesquisas, pouco ou nada comentou sobre Vae Soli! (1903).
Na verdade, o livro que vai ser considerado a obra-prima de Pereira da Silva é sua próxima produção poética: Solitudes (1918). As razões, ao contrário de Vae Soli! (1903) são os artigos críticos, comentários, anúncios, citações e referências a ele dedicados, demonstrando ter sido este livro aquele que vem consagrar Pereira da Silva como poeta e merecedor dos elogios e repercussões na imprensa periódica. Além disso, ao contrário do que ocorre com as edições de seus outros livros, Vae Soli! (1903) não possui nenhum prefácio ou publicação de qualquer artigo crítico para legitimar o autor, apenas a dedicatória a Dário Velloso, poeta simbolista do Paraná. Esses dados confirmam que a luta pela inserção na imprensa livresca, assim como na imprensa periódica, possui mecanismos que ultrapassam valores estéticos e correspondem ―[...] a um mundo à parte, sujeito às suas próprias leis‖ (BOURDIEU, 1996, p. 64).