• Sonuç bulunamadı

Como vimos anteriormente, as tecnologias sustentáveis possuem papel fundamental no que vem sido desenvolvido como Arquitetura Sustentável, levando até mesmo ao questionamento de se o que vem sendo produzido na construção civil nacional é fruto de uma Arquitetura ou de uma Tecnologia sustentável.

A expressão tecnologia sustentável, assim como suas características, tem sido descrita por diversos autores, como Boff (1999); Isoldi, Sattler e Gutierrez (200-?); Lago e Pádua (1984); Vale e Vale (2000 apud ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?); entre outros.

A Agenda 21 descreve a expressão como:

(...) tecnologias ambientalmente saudáveis protegem o meio ambiente, são menos poluentes, usam todos os recursos de forma mais sustentável, reciclam mais seus resíduos e produtos e tratam os dejetos residuais de uma maneira mais aceitável do que as tecnologias que vieram substituir. (ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?, n.p.)

A definição de Boff (1999) propõe que a ecotecnologia é um “caminho suave”, com técnicas e procedimentos que preservam o meio ambiente, identificando causas ao invés de consequências.

Lago e Pádua (1984, p.65) separam a produção tecnológica entre “dura” ou “pesada” e “leve” ou “alternativa”, também chamada de limpa por Vale (2000 apud ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?). Isoldi, Sattler e Gutierrez (200- ?) explicam que:

A tecnologia “dura” ou “pesada” é reflexo da sociedade capitalista de crescimento e é aquela que contribui para a

destruição ambiental, para o surgimento de injustiças sociais e territoriais e para a concentração de poder e capital.

A tecnologia “alternativa”, por sua vez, é uma nova maneira de entender a escala e o esquema de funcionamento das atividades técnicas. (ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?, n.p.)

É neste enfoque que Vale e Vale (2000 apud ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?) criaram um quadro comparativo (Quadro 1) entre a tecnologia pesada – derivada da racionalidade científica moderna – e a tecnologia limpa ou alternativa – fruto do paradigma pós-moderno, holístico e ecológico (ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?).

Quadro 1: Comparação das características da tecnologia pesada e limpa. Fonte: Vale e Vale (2000 apud ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?, n.p.)

Tecnologia Pesada Tecnologia Limpa

descomprometida ecologicamente comprometida ecologicamente grande consumo de energia pequeno consumo de energia

taxa elevada de poluição baixa taxa de poluição utilização de materiais e fontes de

energia não renováveis materiais renováveis e fontes renováveis de energia funcional por um tempo funcional para todos os tempos

produção em massa indústria artesanal alta especialização baixa especialização

família nuclear comunidades

alienação da natureza integração com a natureza

limites tecnológicos definidos pelo lucro limites tecnológicos definidos pela natureza desvinculado da a cultura local compatível com a cultura local altamente destrutivo com outras espécies considera o bem estar das outras espécies

inovação regulada pelo lucro e pela

guerra inovação regulada pela necessidade capital intensivo trabalho intensivo

centralista descentralista modos de operação complicados para

compreensão geral modos de operação compreensíveis a todos soluções únicas para problemas técnicos

e sociais múltiplas soluções para problemas técnicos e sociais agricultura com ênfase na monocultura agricultura com ênfase na diversidade

quantidade é critério de alto valor qualidade é critério de alto valor objetivo do trabalho é a renda objetivo do trabalho é a satisfação unidades totalmente dependentes das

outras pequenas unidades auto-suficientes forte distinção entre trabalho e lazer fraca ou não existente distinção entre trabalho e lazer ciência e tecnologia alienada da cultura ciência e tecnologia integrada com a cultura ciência e tecnologia realizadas por uma

elite de especialistas ciência e tecnologia realizadas por todos ciência e tecnologia separada de outras ciência e tecnologia integradas com

Tecnologia Pesada Tecnologia Limpa

formas de conhecimento outras formas de conhecimento objetivos técnicos válidos somente para

uma porção limitada da terra por um limitado período de tempo

objetivos técnicos válidos para todos os homens para todos os tempos

Este quadro deve ser visto com critério, pois as posições aqui defendidas podem ser consideradas um tanto quanto ingênuas. Os contrapontos descritos também misturam critérios e categorias distintas, dificultando sua análise e compreensão. Porém, permitiria que arquitetos e demais profissionais envolvidos na construção civil pudessem tomar decisões mais conscientes sobre quais tecnologias e materiais utilizar em seus projetos.

Agopyan, John e Goldemberg (2011) atentam para que listas como esta devam ser utilizadas com cautela, pois boa parte delas tem falhas fundamentais nas suas propostas, como ignorar a dimensão social. Os autores chamam especial atenção às listas feitas com base na Análise de Ciclo de Vida (ACV) que, apesar de ser um método bastante conhecido atualmente, ainda tem falhas de avaliação.

Para Veiga (2010), o desenvolvimento de novas tecnologias não deve ser o grande foco da discussão, pois, segundo ele,

(...) muitas sociedades já demonstraram notável talento em introduzir tecnologias que conservam os recursos que lhe são escassos. Em princípio, os fatores que podem levar a mudanças na composição e nas técnicas da produção podem ser suficientemente fortes para que os efeitos ambientalmente adversos do aumento da atividade econômica sejam evitados ou superados. E se houver evidência empírica que confirme essa suposta tendência, será permitido concluir que a recuperação ecológica resultará do próprio crescimento. (VEIGA, 2010, p.114-5)

Qual seria, então, a grande questão com relação ao uso de tecnologias que emprestariam a alcunha sustentável para a Arquitetura? O problema, segundo Behling (1996), é que, ao invés de servir como instrumentos da Arquitetura, as novas tecnologias têm submetido a Arquitetura ao seu controle.

Behling (1996) afirma que edifícios são manifestações de inovações técnicas: “Arquitetura e tecnologia nunca se desenvolveram de maneira independente e os avanços arquitetônicos e construtivos foram determinados pelo desenvolvimento técnico e da engenharia” (BEHLING, 1996 apud ISOLDI;

SATTLER; GUTIERREZ, 200-?, n.p.). Entretanto, a preocupação é com a dependência completa de tecnologias.

Edwards (2008) afirma que a ecoarquitetura pode acabar se transformando em ecotecnologia, dependendo exclusivamente da tecnologia sustentável. Para ele,

(...) a verdadeira sustentabilidade envolve todos os elementos de uma edificação: plantas, cortes, fachadas e detalhes construtivos. Se esta nova abordagem ecológica não conseguir promover uma mudança no entorno social e na forma da cidade, fracassará em sua tentativa de se converter na tendência predominante. (EDWARDS, 2008, p.162)

O autor propõe que “A tecnologia é a base da construção sustentável, assim como o planejamento urbano também constitui a base das cidades sustentáveis” (EDWARDS, 2008, p.162).

Lipai (2006) concorda, dizendo que arquitetos de projeção internacional têm apresentado soluções puramente tecnológicas, gerando “(...) tipologias semelhantes entre si, parecem substituir o conceito inicial de ‘máquina de morar’ de Le Corbusier pelo conceito de ‘indústria de morar’, (...)” (LIPAI, 2006, n.p.)1.

A comparação com os conceitos de Le Corbusier é interessante, em especial quando comparada com a seguinte declaração de Edwards (2008): “Um típico estudante [de Arquitetura] da década de 1960, como o autor deste livro, era encorajado a acreditar que o aquecimento, a iluminação, o conforto e a acústica eram questões de projeto a serem transferidas à emergente profissão de consultores mecânicos e eletricistas” (EDWARDS, 2008, p.39)2.

Interessante notar que a geração de arquitetos contemporâneos a Le Corbusier – prováveis professores da década de 60 – já acreditasse que os problemas arquitetônicos poderiam ser solucionados com o uso de tecnologias agregadas à edificação.

Edwards (2008) alega que, atualmente, as tecnologias ecológicas estão num estágio avançado de desenvolvimento, embora não haja uma prática arquitetônica condizente. Já Isoldi, Sattler e Gutierrez (200-?) pregam que as inovações tecnológicas que têm ocorrido devam ser vistas com senso crítico:

1 Grifo do autor. 2 Grifo do autor.

Uma inovação assentada e direcionada dentro de um novo paradigma: o paradigma emergente da pósmodernidade, holístico, ecológico. Uma inovação multicultural, aberta a novas configurações de conhecimento e utilização, e tendo como princípios o respeito, a tolerância e a diversidade. (ISOLDI; SATTLER; GUTIERREZ, 200-?, n.p.)

Os autores afirmam ainda que fica cada vez mais evidente o fato de que medidas puramente tecnológicas são insuficientes para solucionar os problemas ambientais causados pela humanidade.

Gonçalves e Duarte (2006) propõem que, quando as inovações tecnológicas forem apropriadas, façam parte da concepção do projeto arquitetônico, para que não sejam inseridas posteriormente como “acessórios” e, de fato, contribuam para o bom desempenho e o resultado arquitetônico do edifício.

Esta questão é confirmada por Wines (2008), que alega que as tecnologias sustentáveis são comumente tratadas como elementos instalados ao invés de elementos expressivos, que poderiam contribuir para a estética, ou seja, para a beleza da arquitetura. De acordo com o autor, sem que as tecnologias sustentáveis sejam plenamente incorporadas ao design das edificações, dificilmente a Arquitetura Sustentável será duradora.

Wines (2008) afirma ainda que as raras exceções de profissionais que atuam de forma integrada entre o projeto arquitetônico e as tecnologias sustentáveis têm um valor fundamental, pois conseguem atribuir confiança e agradabilidade ao que, em primeira instância, pode parecer demasiadamente experimental e duvidoso para os usuários do espaço.

A seguir, veremos como tem se dado a questão da sustentabilidade na realidade brasileira, com foco para a construção civil.

Benzer Belgeler