No âmbito da arquitetura residencial, a vertente corbusieriana adotada pelos cariocas reflete uma de suas mais referidas “máquinas de morar”: a Ville Savoye (figura 3). Se Corbusier era a tradução do racionalismo, a Ville Savoye (1929-1931) tornou-se um dos ícones paradigmático dessa cartilha modernista.
Nela estão registrados os princípios teórico-normativos defendidos pelo seu autor20: a
casa é a concretização na íntegra dos cinco pontos; a decomposição cubista resulta na dinâmica e variedade perspectiva; ao mesmo tempo em que há uma relação com o entorno, a obra é tida como um objeto a ser destacado pela paisagem; a planta resulta da função, determinada a princípio pela presença do automóvel e, depois, pelo zoneamento; por fim, a liberdade geométrica representada pela combinação da linha reta (presente no volume cúbico principal) e a da linha curva (indicada pela rampa e algumas paredes) que se tornou uma linguagem típica de Le Corbusier.
Muito embora por aqui tenha ocorrido uma assimilação e manuseio diferenciados desse paradigma, ou até mesmo, adequações à realidade local, as características do racionalismo explícito da Savoye aparecem em muitas das residências brasileiras.
Por outro lado, a Casa Kaufmann ou Casa da Cascata, concluída em 1936 (figura 4), resume a teoria orgânica por representar a relação entre o artificial e a natureza através de um novo modo de trabalhar a vanguarda figurativa utilizando a estereometria assimétrica (desordem natural); da mescla entre o interior e a paisagem fazendo uso de ambientes contínuos e da estética dos materiais. Para a concretização da poética orgânica, observa-se a 20 Antes mesmo da Ville Savoye, as casas Dominó (1914), Citrohan (1919) e Cook (1926) já demonstravam o
pensamento racionalista de Le Corbusier. No entanto, a residência em Poissy tornou-se uma das obras racionalistas mais referidas do século XX e alçou o seu autor ao plano dos grandes mestres da arquitetura moderna.
FIGURA 3 – Ville Savoye, Le Corbusier (1929- 1931)
contribuição das técnicas construtivas modernas representadas não somente pelos novos materiais, como o vidro e o concreto armado, mas por uma nova maneira de empregá-los, juntamente aos materiais naturais em sua forma
bruta. No mais, fazer uma arquitetura com referência nos princípios da natureza seria a forma mais econômica de concretizar a forma e o espaço construído; além disso, a obra reflete a maior intenção da obra orgânica de Wright: unir o ambiente construído à natureza, formando um só organismo.
Independentemente de Escolas, vertentes ou tendências, para precursores como Lúcio Costa, Warchavchick e outros que os seguiram, a inserção dos preceitos modernistas europeus no contexto local – construído a partir da
cultura, hábitos e clima – foi um fator determinante para a diferenciação da modernidade brasileira, principalmente, aquela representada pela morada, pois a casa modernista brasileira herdou diversas características formais e espaciais da casa tradicional, como refere Lemos (1989). Atrela-se a tudo isso a resistência da clientela local em aceitar as inovações estéticas e as transformações dos hábitos de morar, como também as dificuldades da indústria da construção em atender às exigências das novas soluções (e materiais) adotadas. Diante disso, percebe-se ao longo dos anos um crescente domínio sobre a cartilha moderna, o aprimoramento da técnica moderna, bem como o surgimento de interpretações que denunciam a adequação à realidade brasileira.
Na década de 30, os primeiros ensaios residenciais dos modernistas brasileiros denunciam as falhas da disseminação do modelo racionalista europeu. Baseadas na teoria corbusieriana da “casa, máquina de morar”, as primeiras casas modernas brasileiras representavam o paradoxo do antifuncionalismo e o anti-racionalismo:
Basculantes de ferro com vidros estreitos e translúcidos mas não transparentes, barravam a visibilidade dos jardins e transformavam as casas em prisões; janelas de canto convencionais; óculos inspirados nas vigias dos navios e pilotis encaixados no martelo, não tinham outro propósito a não ser o de parecer modernos; com a ausência de beiral, os revestimentos (à base de cal) enegreciam depressa; terraços mal isolados e mal impermeabilizados
FIGURA 4 – Casa da Cascata, Frank Lloyd Wright (1936)
deixavam-se atravessar pelo calor e pela água e tornavam escaldantes os compartimentos (SANTOS, 1981, p. 106).
Mais tarde, após sucessivas revisões, o racionalismo europeu foi sendo aprimorado para se adequar à realidade local. Durante esse processo, a incipiente indústria da construção nacional possuiu um papel determinante na adaptação da técnica moderna:
A mão-de-obra [...] sofreu bastante com a transição, após a primeira Guerra Mundial, de uma economia predominantemente agrária para uma crescente industrialização provocada pelas dificuldades de importação impostas pela guerra. Essa transição exigiu igualmente a adaptação a novos métodos construtivos e a técnicas industriais, que no princípio era penosamente reiniciada cada vez que se abria um novo canteiro de obras (MINDLIN, 2000, p. 31).
Depois, houve uma tendência ao aperfeiçoamento da indústria da construção, incrementada, principalmente, pela padronização dos produtos. Mesmo assim, de início, os canônicos “cinco pontos de Le Corbusier” foram implantados com restrições e inventividade na arquitetura moderna brasileira. Por outro lado, as características tropicais do meio- ambiente brasileiro (clima, topografia, flora) tornaram-se um dos principais determinantes do modelo modernista nacional.
Sendo assim, após as experiências com as residências constituintes da chamada arquitetura de caixas d’água21, as primeiras mudanças começaram a ser implantadas, umas casas “[...] receberiam o tradicional telhado com os beirais protetores; outras tiveram os basculantes substituídos por janelas de venezianas” (SANTOS, 1981, p. 107).
Seguindo o processo de melhorias, diversas outras soluções foram empregadas para garantir o conforto, diante da incidência excessiva de sol, chuva, e demais intempéries que ameaçavam o uso e a conservação das edificações. As adaptações realizadas na casa portuguesa diante do clima tropical se repetiriam na adequação do modelo modernista europeu às condições locais. Primeiro foi à presença de beirais e alpendres que garantiram a formação de um micro-clima e a proteção das casas coloniais e que se prolongaram até as casas modernistas.
Depois vieram muitas outras transformações, adaptações e releituras que traçaram uma das mais marcantes características do modernismo brasileiro: a síntese entre o tradicional e o moderno. Além disso, Bruand (2002) afirma que a arquitetura residencial foi o setor que mais facilmente absorveu a mescla entre o passado e o contemporâneo, e que Lúcio Costa foi quem
melhor propôs essa integração, embora muitos outros profissionais tenham aberto mão de soluções tradicionais para garantir a funcionalidade, o baixo custo e a praticidade das suas casas modernistas sem considerar essa uma atitude comprometedora à essência racionalista da arquitetura moderna.
Bruand (2002) cita os elementos essenciais que caracterizam essa tendência: os telhados coloniais com grandes beirais, substitutos muitas vezes da laje de cobertura (terraço- jardim); as venezianas e muxarabis, controladores tanto da incidência solar quanto da privacidade (brises-soleils); varandas e galerias de circulação externas, formadoras do micro- clima; e os revestimentos de azulejos, eficazes contra a deterioração dos revestimentos de fachada. Dentre reminiscências do passado e inovações, o que se observa é a constituição de um vocabulário arquitetônico formalmente novo e, por vezes, contraditório, resultante de exigências e circunstâncias no ato de projetar.
Dentro da variedade do léxico formal e tectônico brasileiro, contamos com a disponibilidade de diversos sistemas estruturais, além daqueles em concreto armado, material que tornou possível a consolidação da nova linguagem formal e técnica. Estruturas em aço, ou mesmo as tradicionais em madeira, tornaram-se alternativas práticas, funcionais e econômicas com resultados estéticos significativos. O brise-soleil, “quebra-sol” corbusieriano, cuja função era garantir o controle da insolação, difundiu o uso de outros sistemas filtrantes, como o cobogó, divulgado por Luís Nunes no Recife, as treliças, pérgolas e persianas. Na cobertura, além da telha ondulada de fibrocimento, o telhado colonial, agora sobre a laje e criando um espaço para a circulação de ar, propunha o resfriamento da mesma. Ainda contamos com o jogo de materiais artificiais (concreto, vidro, metal) e naturais (pedra, madeira) complementando essa simbiose.
No mais, temos elementos arquitetônicos característicos como os panos de vidro, as rampas, marquises, pilares em “V”, além da flexibilidade dos volumes, do uso da curva, das formas livres e das estruturas com intenção plástica. Aliás, como menciona Cavalcanti (2001), o domínio da tecnologia do concreto armado foi muito positivo para a consagração da Arquitetura Moderna do Brasil. “As formas são indissolúveis da técnica: uma vez resolvida a estrutura, o prédio estava pronto” (CAVALCANTI, 2001, p. 24).
Ainda assim, havia o estilo característico de cada profissional, o compromisso com vertentes e influências e, principalmente, a maneira peculiar de manusear o legado modernista, criando diferentes formas, espaços e atmosferas. Uma “brilhante geração”, como se refere Cavalcanti (2001).
O surgimento de um novo vocabulário formal e tectônico marcou a consagração da Arquitetura Moderna Brasileira; no entanto, outra mudança constituiu-se muito mais radical: as transformações dos espaços. A experiência positiva com os projetos estatais influenciou a aceitação da arquitetura moderna nos projetos privados, mesmo assim, a aceitação das formas inovadoras, assim como a adaptação aos novos espaços foi gradativa22. “A conquista de um mercado estatal era absolutamente fundamental em um país no qual as elites e empresas privadas apenas adotavam um estilo depois que tivesse sido experimentado e aprovado em obras públicas.” (CAVALCANTI, 2001, p. 13). “Muitas vezes, os clientes importantes, os empreendedores de obras de vulto, eram levados sem muita convicção a tolerar projetos ‘modernistas’ e soluções ainda não testadas, não sabendo, inclusive, julgá-las ou usufruí-las.” (LEMOS, 1979, p. 139).
Nas residências, por exemplo, as transformações do espaço doméstico significaram muito mais do que alterações físicas, exigiram mudanças nos hábitos de morar. Diante disso, o caminho da arquitetura residencial moderna brasileira foi traçado principalmente pelas encomendas de projetos feitas por uma clientela diferenciada, julgada capaz de melhor compreender e usufruir a casa moderna. Daí o fato de que as residências modernas brasileiras mais representativas foram, em regra, destinadas a famílias abastadas, pois, tanto o apuro intelectual e o acesso a informações quanto à disponibilidade de recursos dessa “elite”, possibilitaram uma melhor aceitação e realização das inovações estéticas e sociais associadas à modernidade. Sendo assim, a prática moderna de muitos arquitetos foi determinada por tal condição, como demonstram os textos a seguir sobre Lúcio Costa no Rio de Janeiro e Vilanova Artigas em São Paulo, respectivamente:
Lúcio Costa encontrou-se sem clientes dispostos a construir prédios modernos. [...] o arquiteto era contatado por uma clientela particular que desejava casas ‘em estilo’, [...] que, segundo suas próprias palavras ‘não conseguia fazer (CAVALCANTI, 2001, p. 183).
A aceitação de sua obra, que fazia uma renovação formal e propunha novos hábitos, foi dependente de uma clientela especial. Constituiu-se de famílias de intelectuais paulistas preparadas para compreender a necessidade de reorganização social associada a um novo espaço social (SANVITTO, 1994, p. 5).
No processo de conquista de clientes é provável que a repercussão de textos de divulgação da arquitetura moderna brasileira - Goodwin (1943), por exemplo - tenha sido de grande valia para a transformação do pensamento corrente e para a mudança dos valores
sócio-culturais. Com isso, acredita-se que a clientela, antes resistente ao novo estilo, passasse a encomendar projetos de empreendimentos imobiliários e casas aos arquitetos modernos.
Na esteira das inovações sócio-espaciais, características como a hierarquia sócio- espacial e o zoneamento interno tornaram diferenciada a organização dos ambientes das residências brasileiras, principalmente, daqueles inclusos na área de serviço. Por outro lado, os princípios eruditos europeus que defendiam a “planta livre” refletiram-se na arquitetura moderna brasileira através da implantação da continuidade espacial, preceito da funcionalidade racionalista.
Se no âmbito formal a arquitetura moderna pegou de empréstimo diversos elementos da tradição nacional, do ponto de vista espacial autores como Lemos (1979) afirmam que as reminiscências passadistas foram determinantes na constituição do espaço residencial moderno. Segundo o autor, nos anos 30 as alterações de programas sugeriam novos modos de morar, mas a tradição escravagista ainda tinha seus reflexos e, diferentemente dos agenciamentos franceses, os nossos propunham a separação entre acessos e entre os setores de serviço e sociais. Essa hierarquia sócio-espacial de caráter discriminatório é enfatizada através do zoneamento interno, uma particularidade das plantas brasileiras.
Do outro lado, a presença dos equipamentos modernos contribuiu para as alterações nos programas de necessidades. Nesse caso, a redução de componentes do programa colonial ocorreu em paralelo à introdução de ambientes que atendiam às necessidades do morar moderno. Exemplificando tais alterações, tanto Veríssimo; quanto Segawa (2002) afirmam que nos anos 50, com a valorização do automóvel como representante do progresso e status, a garagem conquista um lugar de destaque na residência moderna, deixando de ter uma posição discreta e submissa nos projetos.
Passando da tradição para a erudição, o conceito de continuidade espacial adotado pelos arquitetos modernistas brasileiros denuncia o comprometimento com os dogmas europeus, principalmente àqueles referentes aos cinco pontos de Le Corbusier exibidos na
Ville Savoye, como a planta livre com estrutura independente.
A planta livre, além de versátil, por ser capaz de acomodar diversos arranjos, promove a indistinção entre interior e exterior, solução que parece ter sido onipresente na arquitetura moderna brasileira, incluindo a residencial.
Segundo Lemos (1979), a continuidade espacial implantada nas casas modernas gerou superposições já que as paredes tornaram-se apenas selecionadoras de ambientes. Essa tendência, que se valeu das vantagens das modernas estruturas, tentava sugerir um novo modo de vida e novos hábitos através de uma maneira mais flexível de dispor espaços.
Diante do exposto, observa-se que o caráter da arquitetura moderna brasileira representa a quão esta arte esteve condicionada a fatores exógenos, sejam estes relativos à forte tradição nacional, às especificidades do clima ou às interpretações próprias do paradigma modernista europeu.
Os traços dessa singularidade são percebidos com certa veemência nos projetos de edifícios privados, sobretudo nas residências que “[...] expressam as peculiaridades culturais, sobretudo aquelas que emanam da organização familiar” (MARQUES, 1994, p. 7) e das relações interpessoais específicas. No entanto, a linguagem utilizada na arquitetura residencial se confunde com o surgimento do vocabulário modernista no Brasil ocorrido através dos edifícios públicos “[...] muitos dos quais permanecem até hoje como ícones da modernidade e demonstram uma enorme contemporaneidade em relação aos edifícios congêneres da Europa, quando são até em certos casos mais modernos” (MARQUES, 1994). Portanto, ao mostrarmos esses breves comentários sobre o paradigma residencial modernista brasileiro23, apresentamos um capítulo de um dos momentos mais sublimes e representativos da expressão arquitetônica do país. Através dos Brazil Build(ing)s, os modernistas brasileiros deram uma importante contribuição para o legado arquitetônico mundial desenvolvendo, a partir dos condicionantes locais, uma linguagem original e representativa que obteve significativa aprovação no cenário internacional, levando o modernismo brasileiro a “fazer o caminho de volta” às origens européias, ou seja, a complementar os preceitos eruditos.
23 Uma análise mais detalhada sobre a casa modernista brasileira será apresentada no Capítulo 03: “Análise do
Acervo Residencial Modernista Potiguar a partir do Paradigma Residencial Modernista Brasileiro”, como fundamento para o paralelo entre os modelos brasileiro e potiguar.
3 NATAL BUILD(ING)S: O SOTAQUE MODERNISTA POTIGUAR