i) Sertão do Promimim, Puruba, Sertão do Ubatumirim, Almada, Sertão da Fazenda, Picinguaba e Cambury. Todas elas estão situadas em Ubatuba e, portanto, sob influência do ZEE do litoral norte, do plano de manejo do Parque Estadual da Serra do Mar, do plano de manejo do Parque Nacional da Serra da Bocaina e do plano diretor municipal; e
ii) Trindade, Sono, Ponta Negra, Enseada da Juatinga, Enseada da Cajaíba, Saco do Mamanguá, Campinho da Independência, Araponga e Paraty-Mirim. Todas elas estão situadas em Paraty e, portanto, sob influência do plano de manejo do Parque Nacional da Serra da Bocaina, do plano de manejo da APA Cairuçu e do plano diretor municipal.
92 Essas comunidades foram selecionadas para os fins pretendidos por este trabalho em função dos seguintes motivos: i) a manutenção de suas práticas tradicionais; ii) a pressão imobiliária exercida sobre os seus territórios; e iii) o histórico de resistência ou reivindicação de direitos sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
Trata-se de comunidades localizadas no âmbito do território do Mosaico de Unidades de Conservação da Serra da Bocaina, na área de intersecção do Parque Nacional da Serra da Bocaina com o Parque Estadual da Serra do Mar e a APA de Cairuçu, território regido pelos planos de manejo dessas UC, pelo ZEE do litoral norte e os planos diretores de Paraty e Ubatuba48.
4.1 CAIÇARAS
As famílias caiçaras nunca se preocuparam em oficializar documentos sobre suas áreas e hoje não têm condições de comprovar a dominialidade das terras que ocupam tradicionalmente há séculos. Por não disporem de títulos registrados em cartório, suas posses são insuficientes contra a documentação muitas vezes forjada pelos sedizentes proprietários de fora (MARCÍLIO, 2006; SIQUEIRA, 1984). De tal forma que, para obterem amparo jurídico sobre suas terras, os caiçaras contam com poucos mecanismos. Os direitos territoriais caiçaras podem ser exercidos por meio de:
i) Resex ou RDS, unidades de conservação de uso sustentável, por meio das quais a segurança possessória é concretizada mediante contratos de concessão de direito real de uso, firmados entre as comunidades e o órgão ambiental.
Essas UCs são de domínio público, mas a posse da terra e o uso de recursos naturais são concedidos às comunidades caiçaras. Com a criação de reservas para os caiçaras, ficam garantidos os direitos territoriais e o acesso aos recursos naturais, de acordo com o plano de manejo da unidade definido junto ao seu conselho deliberativo.
A RDS é uma categoria de UC que parece ser adequada aos direitos e às práticas desenvolvidas pelas comunidades caiçaras. Além de ter por objetivo a conservação da biodiversidade, a RDS visa valorizar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente desenvolvido pelas populações tradicionais. Inclusive, uma porção marinha pode fazer parte dos limites da unidade, quando for o caso, para abranger as áreas de pesca que conformam o território usado pelas populações caiçaras.
48
O Plano Diretor de Ubatuba dispõe do mapa do macrozoneamento e diretrizes gerais de ordenamento territorial. O projeto de lei de uso e ocupação do solo de Ubatuba, aprovado pelos vereadores, mas vetado pelo prefeito, contém mapas e zonas que também foram utilizados neste trabalho como referência para a análise do zoneamento municipal.
93 A RDS é compatível com as práticas tradicionalmente exercidas pelas populações caiçaras, como o manejo florestal para o artesanato e para a confecção de canoas e remos, as atividades de roça de coivara e de pesca, além da prestação de serviços ligados à atividade turística. Na RDS, segundo o SNUC, são incentivadas a visitação pública controlada, a pesquisa científica sobre biodiversidade e manejo, o uso dos ecossistemas naturais em regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis.
Do ponto de vista fundiário, tendo em vista que as áreas caiçaras estão ocupadas com residências de veranistas e outras pessoas de fora, a criação da RDS dá opção ao órgão gestor da unidade de desapropriar ou não esses imóveis, decisão a ser construída com a comunidade envolvida. Mas o território fica destinado para o uso e manejo pelas populações caiçaras e delimitado para evitar a pressão imobiliária, com os direitos possessórios assegurados por contrato de direito real de uso.
ii) Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS) firmando entre a Secretaria do Patrimônio da União e a família ou uma associação comunitária.
Previsto na Portaria n° 89/10, da SPU, o TAUS consiste na concessão de uso exclusivo e a segurança na posse da terra para populações tradicionais em áreas federais de várzeas e mangues, mar territorial, praia marítima ou fluvial, ilhas situadas em faixa de fronteira e terrenos de marinha. Com ele inicia-se o processo de regularização fundiária, podendo ser convertido em contrato de concessão de direito real de uso. Este mecanismo pode ser utilizado principalmente em áreas não protegidas, fora de UCs, onde as comunidades ou famílias caiçaras se encontram sob ameaça de perderem a posse de suas terras. O TAUS também pode ser aplicado em APA, categoria de UC que não impõem a desapropriação de imóveis particulares e que por isso criam risco à ocupação e à posse caiçara.
iii) Zoneamento específico, no qual esteja prevista uma zona especial de moradia e usos exclusivos de comunidades caiçaras, como é o caso da Zona de Expansão das Vilas Caiçaras da APA Cairuçu e da Zona Histórico-Cultural Antropológica do PESM. Contudo, esses zoneamentos devem ser acompanhados de instrumentos administrativos, urbanísticos e financeiros, de competência municipal, bem como de medidas de regularização fundiária, para que garantam os seus objetivos.
iv) Usucapião individual e coletivo em face de áreas ou terrenos particulares, conforme previsto no Estatuto da Cidade e no Código Civil.
Contudo, apesar da funcionalidade desses instrumentos, a população caiçara, por estar abrangida pelo conceito de que trata a Política Nacional de Povos e Populações
94 Tradicionais, somente terá assegurados os seus direitos coletivos fundiários com a instituição de um território tradicional.
Nesse sentido, para além da Resex ou RDS, é possível pensar na criação de um Território Caiçara, área protegida específica, fora do regime do SNUC, uma construção jurídica e política inovadora, que merece debate e estudos sobre qual órgão seria competente por sua criação e sobre a gestão territorial autônoma, o acesso a políticas públicas, dentre outros aspectos.
As populações caiçaras abrangidas por UCs de proteção integral têm o direito de acesso e uso direto de recursos naturais enquanto eles foram imprescindíveis à sua subsistência (que não é meramente alimentar, mas envolve também fonte de renda para o básico da vida digna). Por essas práticas não podem ser punidas. O órgão gestor da UC tem o dever de firmar termos de compromisso, acordos, ou outros instrumentos similares para assegurar esses direitos das populações tradicionais. Esses instrumentos transitórios podem resultar na recategorização da UC ou na criação de novos tipos de áreas protegidas, a partir de estudos interdisciplinares e do próprio acompanhamento e avaliação das práticas desenvolvidas pelas comunidades.
Os direitos territoriais das comunidades caiçaras no território estudado estão apresentados a seguir.
A área de Puruba está fora do PESM, mas abrangida pela zona de amortecimento da unidade e inserida na zona mais restritiva do ZEE. As terras de Puruba são ocupadas por cerca de 20 famílias caiçaras, distribuídas em duas áreas próximas à foz dos rios Quiririm e Puruba, que vivem da pesca e do turismo. O entorno dos terrenos dos caiçaras se constitui de terras de propriedade privada (Imagens de satélite 1).
Praia e Sertão do Puruba Ocupações caiçaras em Puruba Imagens de satélite 1 – Puruba. Fonte: Google Earth, datada de 06/06/10. Acesso em 13/12/10.
95 De acordo com os caiçaras entrevistados, não há pressão imobiliária sobre as terras onde vivem. A preocupação deles é com o significado da destinação territorial da Zona de Interesse Turístico Estratégico, pois o texto do projeto de lei municipal não deixa claro qual o regime de uso e ocupação do solo. Ele apenas delimita o bairro de Puruba nos mapas como Zona 3 e prevê usos e ocupações que contribuam ao desenvolvimento do turismo.
Soma-se a isso o fato de que algumas atividades turísticas, como a pesca esportiva, são realizadas de forma livre, descontrolada e sem organização, o que aumenta a preocupação dos caiçaras de Puruba sobre os efeitos de estarem abrangidos pela noção de “interesse turístico estratégico”.
Durante a pesquisa de campo, os caiçaras de Puruba não se mostraram devidamente informados sobre os seus direitos territoriais, tampouco cientes dos efeitos benéficos que pode lhes trazer a delimitação cartográfica das áreas que ocupam, de acordo com a Resolução n° 34/05 do Conselho Nacional das Cidades. Apenas uma das áreas ocupadas pelas famílias caiçaras é delimitada pelo plano diretor de Ubatuba (Mapa 6), definida como Macrozona de Gestão Compartilhada das Populações Tradicionais das UCs.