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Consideramos que o intuito de conhecer as características sociais e econômicas desses estudantes foi conhecer a realidade que constrói o contexto para que se engendrem as representações sociais destes sujeitos, acerca da problemática trabalhada neste estudo. Assim, o objetivo não foi o de delinear, estatisticamente, o perfil dos

132 estudantes negros de uma universidade federal, o que, por si só, renderia um estudo à parte.

Apresentamos a seguir as informações socioeconômicas6 específicas dos estudantes entrevistados, visando melhor caracterizar os sujeitos cujas representações foram analisadas e descritas neste capítulo.

As cidades de origem dos estudantes estão situadas, basicamente, no estado de São Paulo, capital e interior, com exceção de duas pessoas que relataram ter nascido em Januária/MG e no Rio de Janeiro/RJ, conforme demonstra a Tabela 1.

Tabela 1: Distribuição do número de estudantes negros entrevistados de acordo com a cidade de origem

dos participantes.

Cidade de Origem Número de

Estudantes % São Paulo 3 23 Ribeirão Preto 3 23 Santo André 1 7,7 Franca 2 15,5 Taubaté 1 7,7 Pirassununga 1 7,7 Januária/MG 1 7,7 Rio de Janeiro/RJ 1 7,7 Total 13 100 Fonte: Entrevistas.

Sete participantes eram do sexo masculino e seis do sexo feminino. A idade variou de 19 a 28 anos, média de 21,6 anos. Cinco estudantes eram estudantes da área de Ciências Humanas, cinco das Ciências Exatas e três das Ciências Biológicas (Tabela 2).

6 Contamos com o auxílio do bolsista de iniciação científica PIBIC/CNPQ/Ações Afirmativas, Felipe Luiz Nicássio Velozo, que contribuiu tanto para a organização dos dados socioeconômicos.

133 Tabela 2: Distribuição do número de estudantes negros entrevistados de acordo com os cursos e

respectivas áreas do conhecimento.

Área Curso Número de

estudantes

%

Ciências Humanas Biblioteconomia 2 15,4

Psicologia 3 23

Ciências Biológicas Biologia 2 15,4

Educação Física 1 7,7

Ciências Exatas Engenharia Química 1 7,7

Engenharia Física 1 7,7 Estatística 1 7,7 Química 1 7,7 Matemática 1 7.7 Total 13 100 Fonte: Idem.

Nove pessoas ingressaram em 2008, três ingressaram em 2009 e uma em 2010. Foi solicitado aos participantes que se classificassem quanto à cor ou raça de acordo com as categorias utilizadas pelo IBGE. Sete autorreconheciam-se como pretos e seis como pardos. Os pardos encontravam certa dificuldade para classificarem-se de acordo com essas categorias, porque para eles ―pardo‖ é uma classificação que remete mais à questão de cor do que à questão de etnicidade e raça.

É interessante notar que, de acordo com as informações fornecidas pela UFSCar, por meio da relação de estudantes ingressantes pelo Programa de Ações Afirmativas, 12 desses estudantes entraram pela reserva de vagas tanto para escola pública quanto para negros. Apenas um estudante não optou por nenhuma delas. Contudo, quatro estudantes alegaram não ter optado pela vaga para negros ou não lembraram-se de tê-lo feito.

Sete estudantes residiam na moradia estudantil da universidade; cinco moravam em repúblicas estudantis e uma pessoa com a família.

134 Onze estudantes declararam já ter trabalhado, enquanto dois deles não tiveram experiências de trabalho. Onze deles exerciam alguma atividade remunerada no momento da entrevista. Em geral, eram bolsistas atividade7 ou de iniciação científica; estagiários; ou fazem ―bicos‖ como garçons/garçonetes ou como ajudantes de pesquisa. A manutenção dos seus gastos na universidade era feita com bolsa estudantil (30,2%); trabalhando e contando com a família (30,2%); só com recursos da família (23%); com bolsa estudantil e com o auxílio da família (8%); e com bolsa estudantil e trabalhando (8%). A variedade das atividades já exercidas é bastante ampla, como pode-se notar no Tabela 3.

Tabela 3: Frequencia das atividades profissionais relatadas pelos estudantes entrevistados.

Atividade Exercida Frequencia

Professor de Música 1 Professor de Espanhol 1 Garçon 2 Estagiário/Aprendiz 3 Ajudante de Pesquisa 1 Office Boy 2 Auxiliar de produção 1 Auxiliar Administrativo 2 Ajudante de Lava-rápido 1 Bolsista 8 Servente de Pedreiro 1 Monitor de Recreação 1 Total 24 FONTE: Entrevistas

Foram 24 relatos de atividades já exercidas, num total de 12 atividades. A atividade mais frequente foi bolsista, de Iniciação Científica, Extensão ou Bolsa Atividade.

7 O Programa de Bolsa Atividade de natureza social, acadêmica e cultural é destinado aos alunos com dificuldades de permanência na Universidade, por motivos socioeconômicos, com prioridade, os calouros. Os bolsistas deverão estar envolvidos em projetos por oito horas semanais e para tanto são remunerados.

135 As trajetórias educacionais relatadas revelaram muitas interrupções e mudanças, em geral, devidas a problemas financeiros; mudança de casa ou de cidade, necessidade de trabalhar, e às próprias lacunas da escola pública. Todos os participantes cursaram o ensino fundamental em escolas públicas e 92% cursaram o ensino médio integralmente em escola pública. O único participante que não cursou o ensino médio em escola pública foi, consequentemente, aquele que não entrou pela reserva de vagas, uma vez que o primeiro critério para o ingresso via reserva de vagas é ter cursado todo o ensino médio em escola pública.

É interessante constatar que todas as estudantes do sexo feminino relataram ter estudado durante o ensino médio em escolas técnicas, ou nas melhores escolas públicas municipais ou estaduais de suas respectivas cidades, o que lhes conferia um ensino de relativa boa qualidade. Os homens, por sua vez, relataram ensino muito ruim nas escolas públicas municipais ou estaduais por que passaram. A fragilidade da preparação para o vestibular durante a trajetória do ensino médio levou 90% dos estudantes a fazerem cursinho pré-vestibular. No geral, foram cursinhos com bolsa de estudo parcial ou total e cursinhos comunitários. Seis pessoas já haviam ingressado em outro curso superior, mas abandonaram8.

É importante salientar a centralidade das redes de apoio apontadas por esses estudantes, tanto para os incentivarem a prosseguir nos estudos e alcançar a universidade, quanto para ajudá-los a manter os estudos. Apoio este que é proveniente, sobretudo, do círculo familiar: pai, mãe, irmãos, namorado (a), amigos e outros parentes. É preciso também destacar o importante papel exercido pelos modelos,

8 Inclui aqueles que iniciaram algum curso superior em instituição pública ou particular e o cursaram por algum período e aqueles que matricularam-se e, em seguida, abandonaram o curso por terem sido chamados pela UFSCar. Consideramos que a vivência em outro curso e/ou universidade, mesmo que por período curto, pode ser determinante de formas de representar as relações que tomamos como objeto de estudo nesta dissertação.

136 pessoas que já cursaram universidade e cuja trajetória serviu de exemplo e estímulo para estes estudantes prosseguirem os estudos e ingressar na universidade.

As características das trajetórias educacionais e de trabalho corroboram os dados apontados pelos indicadores que apontam maior atividade de jovens negros no mercado de trabalho, assim como maiores deficiências educacionais, o que somado, resulta nas tantas dificuldades para alcançar e permanecer no ensino superior.

4.2. Raça e privilégios sociais em pauta: A perspectiva de estudantes universitários