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3.4.4. Araştırmanın Değerlendirilmesi (Bulgular-Yorum)
O PTB, possuindo propostas de transformação social, abre espaço para uma via mais reformistas dentro de sua estrutura. Essa corrente reformista teve em Alberto Pasqualini o seu doutrinador e idealizador. Pasqualini, neto de imigrantes italianos que se radicaram no interior do Rio Grande do Sul, veio de um ambiente rural humilde. Pobre, ele galgou aos poucos e com sacrifício o sucesso profissional e político. Desde cedo convivendo com os pobres e com os humildes, identificou seus problemas, entendendo que as injustiças sociais precisavam ser corrigidas. Quanto ao PTB, pretendia que o partido se mobilizasse em torno de propostas de modificações econômicas e sociais. Num primeiro momento, essas modificações
225 GOMES, 1994, p. 268. 226 GOMES, 1994, p. 268. 227 DELGADO, 1989, p. 78.
seriam de caráter trabalhista, para posteriormente chegar ao reformismo. As reformas, segundo Pasqualini, deveriam ser feitas dentro do regime capitalista.228 Em seu livro Bases e Sugestões para uma Política Social,229 um dos alicerces do programa do PTB, Pasqualini critica o capitalismo selvagem e fornece diretrizes para uma verdadeira transformação social, valorizando o trabalhador brasileiro e defendendo uma sociedade mais justa e igualitária. Condenando o lucro no seu mais alto grau, considerou que, quando essa prática se desenvolve, há a exploração do trabalhador e do consumidor. Segundo Pasqualini, essa tendência é observada no capitalismo individualista, cujos métodos injustos provocam desníveis sociais e desordem no processo econômico.230 Para ele, a função do capital deveria ser o desenvolvimento da economia, a fim de atender cada vez melhor às necessidades humanas e proporcionar a ampliação da distribuição da riqueza, exigindo a justiça social que o Estado crie essa oportunidade, colocando-a ao alcance de todos para que o indivíduo possa aproveitá-la de acordo com suas aptidões.231
Na sessão de encerramento da convenção do PTB, Pasqualini mostrou as diretrizes e as características da sua proposta, sua concepção social, sua orientação política e sua posição frente aos dois mundos, o capitalista e o socialista.232 O regime socialista caracterizava-se, afirmava o petebista, essencialmente pela socialização integral dos meios de produção. Esse regime, nas concepções de Pasqualini, não se adequava ao Brasil, uma vez que aqui não havia condições objetivas, materiais, ou mesmo subjetivas para a instituição do regime socialista. Na opinião dele, o país precisava da iniciativa privada para superar o subdesenvolvimento.233
Dessa maneira, Pasqualini propunha um capitalismo humanizado, capaz de valorizar o trabalhador e os frutos do seu trabalho. Em contrapartida, condenava o capitalismo individualista, dirigido exclusivamente para o lucro e para a acumulação de riqueza. Partindo dessa premissa, propunha um capitalismo solidário, regulado por uma legislação justa. Ao mesmo tempo em que excluía o capitalismo individualista, 228 DELGADO, 1989, p. 68-69. 229 PASQUALINI, 1958. 230 PASQUALINI, 1958, p. 04. 231 PASQUALINI, 1958, p. 05. 232 PASQUALINI, 1958, p. 39. 233 PASQUALINI, 1958, p. 41.
também rejeitava a socialização dos meios de produção. Ou seja, trabalhismo e capitalismo solidarista seriam expressões equivalentes.234
Acreditava Pasqualini235 que, sendo a economia capitalista baseada no lucro, seu objetivo natural é sempre alcançar maiores lucros, tendendo a procurar obter do trabalhador maior produtividade e menor salário. Essa exploração do trabalhador é uma característica do capitalismo individualista e uma fonte de profundos desníveis sociais.
A função do capital, adverte, deveria ser o desenvolvimento da economia e o aperfeiçoamento dos meios de produção, a fim de contribuir para o progresso social. Os objetivos deveriam ser considerados não tendo em vista apenas o lucro, mas também a justiça social. Dentro dessa perspectiva, o trabalhismo deveria defender também a valorização do trabalhador. Valorizar seria, além de salários básicos e garantias trabalhistas, a oportunidade de usufruir dos bens que eles próprios produzem. Nesse sentido, o partido de caráter trabalhista deveria cobrar do Estado a atenção às necessidades e interesses dos trabalhadores, elevando o padrão econômico e educacional das massas.
Na Constituição está assegurada essa valorização do trabalhador. No entanto, muitas vezes a lei fica apenas na retórica. Para atingir essa valorização, são necessárias medidas adequadas. A Constituição garante a todos igual oportunidade em relação à propriedade, o problema é que não possibilita os meios de obtê-la. Para a aquisição da casa própria ou de um pedaço de terra, o trabalhador precisa de recursos, o crédito. No entanto, se o pequeno agricultor fizer um empréstimo a juros correntes, trabalhará apenas para pagar os juros. Por isso, o crédito usual é inacessível a esse grupo. O índice de concentração fundiária no Brasil é bastante alto, já advertia Pasqualini, causando outras dificuldades: baixos salários para o trabalhador rural, atraso da mecanização agrícola, não fixação do trabalhador no campo, pequeno tráfego férreo e destruição do solo agrícola. A solução desses problemas era discutida no plano de reforma agrária, prevendo: facilidade de utilização de áreas suficientes para a lavoura, para a criação e habitação rural,
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PASQUALINI, 1958, p. 42-45.
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fixando o homem no campo; utilização da tributação territorial para melhor aproveitamento da terra, combate à concentração fundiária; estabelecimento do crédito ao pequeno produtor a juros suaves e estímulo à instalação de cooperativas. A proposta de superação desse obstáculo seria a criação de contribuições sociais. Pasqualini236 sugere a criação de um Fundo Social destinado aos financiamentos do pequeno produtor e à aquisição da casa própria para o assalariado. O empréstimo teria como finalidade não o lucro, mas a eqüidade social. Se a habitação é uma necessidade fundamental do homem, exige a justiça social, argumenta o trabalhista, que lhe seja assegurada a possibilidade de obtê-la. Igualdade de oportunidade significa acesso ao dinheiro. Os empresários, ao contribuírem para esse Fundo, não estariam apenas cumprindo seu dever social: uma vez que a base do processo econômico é o consumo, se não houver aquisição, não haverá razão para produzir. Nesse sentido, quanto maior o mercado consumidor maior a possibilidade de expandir os negócios. Portanto, os recursos empregados na melhoria de vida dos trabalhadores se reverteriam em aumento de consumo.
O Fundo Social seria decorrente de uma tributação adicional dos artigos de luxo, cuja justificativa proposta por Pasqualini237 consistia na afirmação de ser injusto muitas mulheres usarem casacos de pele, enquanto outras não tinham como cobrir o corpo dos filhos. A injustiça social seria mais evidente no padrão de consumo de cada um. Assim sendo, o supérfluo deveria ser taxado. Dessa maneira, os de mais recursos contribuiriam para os de menos.
Nessa perspectiva, o regime político ideal para a eliminação dessas desigualdades sociais seria o socialista, todavia, o petebista acreditava que, se no Brasil se coletivizasse os meios de produção, a economia seria liquidada. A socialização integral dos meios de produção tornaria o Estado todo-poderoso, dificultando a administração de todos os recursos sem que houvesse corrupção, por isso o regime socialismo era por ele desaconselhado.
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PASQUALINI, 1958, p.54-59.
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As reformas deveriam ser feitas por dentro do regime capitalista. Porém, distinguia ele duas formas de capitalismo: o capitalismo individualista e o capitalismo solidarista. O capitalismo individualista seria aquele dirigido exclusivamente para o lucro, para a acumulação da riqueza, explorando o trabalhador, sugando toda a sua energia e desconsiderando os pressupostos éticos ou sociais. As suas últimas conseqüências seriam o monopólio, a exploração do povo e o imperialismo.
O capitalismo solidarista inspirar-se-ia na cooperação e na solidariedade social. Nesse sistema, as relações entre capital e trabalho seriam reguladas por uma legislação justa, contabilizando a cooperação do trabalhador na acumulação de riquezas, ou seja, teríamos um capitalismo humanizado. Destacava, ainda, que o trabalhismo não possuía afinidades com o comunismo. O trabalhismo não se sustentava na luta de classes, mas na cooperação entre os diversos grupos sociais, cabendo ao Estado atender às necessidades da população trabalhadora.
A política e a ação do Poder Público deverão ser conduzidas no sentido do desenvolvimento da economia nacional, das forças da produção e do progresso social [...] O Estado terá principalmente em vista as necessidades e os interesses das classes trabalhadoras, a justiça e a solidariedade social.O desenvolvimento da economia e a justiça social somente poderão ser realizados pela adoção de meios eficazes tendentes a elevar o nível econômico e cultural das massas trabalhadoras rurais e urbanas, pela melhor distribuição e aplicação da renda e da riqueza nacional.No campo econômico, será mantida a iniciativa privada [...]A posse de riquezas e de meios de produção impõe o dever de contribuir para a realização de finalidades assistenciais e para corrigir os desequilíbrios econômicos e sociais.A legislação trabalhista deverá ser mantida e aperfeiçoada, tornando-se extensivos os seus benefícios a todo o proletariado.A distribuição da propriedade territorial terá por objetivo o seu maior rendimento econômico e social. Para esse fim, poderá ser desapropriada mediante justa indenização.
Essas propostas foram elaboradas tendo em vista o objetivo principal do trabalhismo, a eliminação da usura social. Há usura social toda vez que se conseguem bens materiais pelo trabalho alheio, no pagamento de salários miseráveis e onde as relações econômicas não são baseadas na justiça social. O trabalhismo sustentava, ainda, que nenhum ganho era justo se não correspondesse a uma atividade socialmente útil. Sendo o trabalhismo de Pasqualini contrário a toda forma de totalitarismo, essas reformas eram previstas tendo em consideração todos os limites democráticos. Portanto o projeto em nada feria os princípios constitucionais.
A criação do PTB, para Pasqualini, inaugurou uma fase nova na vida dos trabalhadores, de proteção e benefícios. Esquecendo a tradição de luta dos trabalhadores, ele afirma que no Brasil a massa não conquistou a legislação social, esta teria sido “outorgada”, já que os trabalhadores não se organizaram para conquistá-la.
As leis sociais e trabalhistas foram, sim, promulgadas pelo governo, no entanto, como já foi discutido, faziam parte de uma série de reivindicações antigas e anteriores ao Estado Novo, de lutas constantes dos trabalhadores por melhores condições de vida e salário.238
Portanto, o objetivo básico do trabalhismo, idealizado e proposto por Pasqualini, era a organização de uma sociedade baseada nos princípios da justiça social e na valorização do trabalho. O trabalhismo seria o meio de implantar um sistema que mantivesse a propriedade privada e no qual se eliminasse a exploração dos trabalhadores.239 Ressaltava, ainda, as questões sociais, salariais e as reformas sociais como sendo prioritárias para o desenvolvimento do país.
Os petebistas reformistas objetivavam um PTB independente, e por isso eram contrários aos acordos eleitoreiros do partido. Para os pragmáticos, esses acordos desviavam os trabalhistas de seus objetivos de reforma social.240A partir dos anos 50, predominou o reformismo como uma nova linha de atuação para o PTB, e a linha de pensamento de Pasqualini, que antes era defendida quase que isoladamente por ele, foi adotada de forma mais uniforme pelo partido.241