Aos estudos propriamente de elites, Maria da Glória Bonelli (2002) opõe uma visão da advocacia calcada na sociologia das profissões, destacando seu aspecto efetivamente profissional, e especificamente analisando o processo por meio do qual os advogados foram gradualmente se distanciando do Estado e do mercado, a fim de delimitar seu campo profissional. Segundo Bonelli, na estruturação de carreiras e ocupações, “profissionalismo, mercado livre e burocracia concorrem entre si no
mundo do trabalho” (2002: 19). O primeiro valoriza o conhecimento especializado e
abstrato, adquirido em cursos superiores; o controle do mercado de trabalho pelos pares; e a autonomia, qualidade e independência na prestação de serviços. A ideologia do mercado livre se caracteriza pelo predomínio do saber prático; mobilidade ocupacional e geográfica; divisão cotidiana (e não padronizada) do trabalho; abertura para o ingresso no mercado de trabalho e estímulo à concorrência e à livre escolha pelos clientes. Por fim, o modelo burocrático valoriza o caráter administrativo e a eficiência; possui divisão mecânica do trabalho, controle hierárquico da carreira e administrativo do ingresso na ocupação (2002: 16-8).
Descrevendo a trajetória institucional do Instituto dos Advogados do Brasil – IAB e, posteriormente, da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB, Bonelli percebe como a organização da profissão de advogado mudou de uma associação de elite –
o IAB fundado em 1843 – para uma associação de massa, com a criação da OAB em 1930. Mais especificamente, o que o estudo de Bonelli mostra é que os caminhos da profissionalização da advocacia estão intimamente ligados à transição de uma associação inicialmente identificada com uma contra-elite liberal, desalojada do poder pela centralização conservadora do Segundo Reinado, a um modelo de organização da profissão por meio de uma associação de massa, que adquirindo gradualmente maior controle sobre o exercício profissional, delimitou fronteiras razoavelmente nítidas entre a advocacia e o Estado.
Portadores do conhecimento especializado necessário, legitimado por seus diplomas superiores – a expertise23 –, os 26 fundadores do IAB tinham por objetivo imprimir uma autoridade distintamente qualificada à sua ação junto ao Estado, ao mesmo tempo em que reivindicavam para o Instituto a fiscalização do mercado da advocacia, com poder disciplinar sobre os profissionais (Bonelli, 2002: 41-2).
Mas a principal missão institucional do IAB era mesmo a criação da Ordem dos Advogados do Brasil, o que por longo período encontrou resistências (idem: 40). Em 1917 foi instalado o Conselho da Ordem, com função disciplinar apenas sobre os sócios do IAB. Segundo Bonelli:
“Há uma clara intencionalidade por parte dos membros do IAB em criar uma
corporação com controle dos pares e do mercado, com ênfase muito distinta daquela que motivou a fundação do Instituto, como asilo para os feridos nas revoluções. A fundamentação para a instalação da Ordem é de caráter moral, embora trouxesse ganhos materiais.” (2002: 55).
A OAB foi criada pelo decreto nº 19.408 de 18 de novembro de 1930 e regulamentada pelo decreto nº 22.478 de 20 de fevereiro de 1933, com adesão compulsória, organizada em âmbito nacional e inspirada pela idéia de profissão
autogovernada (Bonelli, 2002: 57-8) – o que parece explicar o caráter moral da
fundação da OAB, presente não só na organização da representação dos interesses dos advogados, mas principalmente no controle mais específico do próprio exercício profissional de cada advogado individualmente. A postura de oposição da OAB ao Estado Novo, marcada pelo objetivo de resgate da ordem jurídica atacada pelo golpe de 1937, permitiu a ligação entre a atuação estritamente profissional e a
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“Expertise refere-se ao conhecimento especializado de caráter abstrato, produzido nas universidades e obtido através do
atuação institucional da entidade, caracterizando o que Bonelli chama de dupla
vocação. Na verdade, esse é o principal argumento da autora para a explicação do
processo de delimitação do campo profissional da advocacia em relação aos do mercado e da política:
“Isso definiu o aspecto central do profissionalismo e unificou os advogados
no Brasil, até então divididos nas disputas entre a neutralidade científica e a politização que marcaram os períodos precedentes. A polarização entre estes dois ideários persistiu, mas os freqüentes ataques à ordem jurídica mantiveram o vínculo dos advogados na busca da normalidade constitucional, gerando a identidade da OAB como possuidora de uma dupla vocação – a profissional e a institucional.” (2002: 34).
O crescimento do número de advogados e de novos campos de atuação profissional – como a advocacia preventiva, a consultoria jurídica a empresas e de negócios – imprimiu novo ritmo ao processo de ampliação dos mecanismos de controle da OAB sobre o exercício da advocacia a partir da década de 1950. As Conferências Nacionais da OAB de 1958 e 1960 discutiram e aprovaram medidas como a reserva de mercado da consultoria jurídica para a profissão e o estabelecimento de um piso salarial para os advogados empregados – esta, ao final, incluída no novo Estatuto da Ordem de 1963, juntamente com a criação do Exame de Ordem como requisito para ingresso na profissão, o que, apesar de previsto, não chegou a ser implementado (Bonelli, 2002: 61-2). A Conferência Nacional de 1968, primeira realizada após o golpe de estado de 1964, ao mesmo tempo em que incluiu na pauta de debates as discussões sobre direitos humanos, liberdade e justiça social, reafirmou a defesa da reserva de mercado das consultorias jurídicas e estabeleceu, pela primeira vez, uma tabela de honorários, fixada a partir de patamares mínimos, mas sem previsão de um teto para os valores a serem cobrados (idem: 66).
A OAB foi a única das organizações federais de fiscalização do exercício de profissões de nível superior que conseguiu manter sua autonomia frente à supervisão do Ministério do Trabalho imposta pela legislação do regime militar (Bonelli, 2002: 67). A oposição da OAB ao regime de exceção privilegiou sua vocação institucional de defesa do Estado de Direito e da democracia, e levou o debate em torno da dupla vocação para as discussões sobre nova revisão de seu
estatuto. O Estatuto de 1994 contemplou ambas as finalidades da entidade, e fortaleceu os mecanismos de controle do exercício profissional, com a previsão de um capítulo totalmente destinado à situação do advogado empregado, medidas de desburocratização de procedimentos disciplinares, regulamentação do estágio em advocacia e a confirmação do Exame de Ordem obrigatório para ingresso nos quadros profissionais (idem: 69-71).