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5.2. ÖNERİLER

5.2.3. Araştırmacılara Yönelik Öneriler

No norte de Pernambuco e na Paraíba, Zona da Mata e da cana, a “brincadeira” do Cavalo-Marinho é uma boa surpresa para quem venha hoje das grandes cidades: dança, música de rabeca e pandeiro e as toadas ligadas a quarenta personagens de comédia e drama, ou mais. Trata-se do Bumba-meu-boi presente em outros estados, aqui numa vertente ligeira e rica em máscaras, com situações de contestação da propriedade da terra, versos tradicionais e a aprendizagem pelos mais jovens.

O que surpreende a quem estiver chegando é que esses artistas populares são gente dos bairros mais pobres, periferias de cidades do interior. São trabalhadores da cana-de-açúcar que deixaram de morar nos engenhos, perdendo o uso da terra em torno dos grupos de casas à beira dos canaviais. Lá eles plantavam roçados pequenos nas entressafras do trabalho pesado da cana, e subsistiam com seu inhame, feijão, milho, macaxeira...

Mas a partir dos anos cinqüenta as grandes Usinas compraram canaviais e engenhos, na exploração de toda a terra para a cana-de-açúcar. Sem julgar lucrativo respeitar as leis de salário mínimo que surgiam, evitaram oferecer vínculo de trabalho, moradia e roçado de alimento. Nas safras passavam a pagar apenas empreitadas de cortadores de cana diaristas, e estes homens, que realizaram as “brincadeiras” nos terreiros de engenhos por séculos, empobreceram ainda mais morando nas cidades.

Assim, hoje a brincadeira do Cavalo-Marinho quase só acontece do Natal ao dia de Reis - 6 de janeiro - ou em festa de santo padroeiro destas cidades, para apresentação a convite das prefeituras, com pouco incentivo.

No estado de Pernambuco, Condado é onde se encontram mais mestres e brincantes do Cavalo-Marinho, além de Aliança, Itaquitinga, pouco mais a norte Camutanga e Itambé, divisa com a Paraíba, e mais a sul Cidade Tabajara de Olinda. São bem conhecidos os mestres Inácio Lucindo, Duda Bilau, Biu Alexandre, Grimário, Mariano Teles, Biu Roque, Inácio Nobreza e Salustiano, e os Mateus Zé Borba e Martelo. Até há poucos anos estavam brincando ainda Mestre Batista, o Mateus Mané Jacó e o toadeiro Mané Deodato, que a memória desse povo revive.

Os personagens da brincadeira são o Capitão, os pretos Mateus e Bastião, o Soldado, o Empata-Samba, o Mané-do-Baile, os Galantes do Baile de São Gonçalo, o varredor Vila Nova, o Pisa-Pilão, a Velha-do-Bambu e seu velho, com o Padre e o Cão-de-Fogo, a Catirina, Pastorinhas, Arreliquim, Vaqueiro, Boi, Ema, Caboco-de- Arubá, o Valentão, o Sardanha, Mané Pequenino, Véio Cacundo, Matuto-da-Goma, entre tantos outros.

Eles vão entrando a cada parte ou episódio, encenados por Figureiros experientes, que precisam conhecer os versos próprios e diálogos. “Botar” cada figura, com sua máscara e vestimenta, exige experiência longa e auxílio direto de um mestre, que vai controlando as preparações na “torda” – barraca de camarim – e as entradas. Como exemplo aqui, versos que ouvi do personagem Vila Nova, o Varredor:

“-Não, não, não, meu Capitão, Inda não me vi parado... Já varri foi Aliança,

Falta só varrer Condado...” CORO:

“-Eu já varri toda cidade, Falta só

Varrer Condado, oi cidade bela... TOADA E PISADA:

“Ô vila nova, cidade... - Pa tu barrê, cidade... Ô vila nova, cidade... - Pa tu barrê, cidade...”

É realmente um teatro popular elaborado, que soma alegorias de bichos como a Ema e a Burra a seres fantásticos como o Babau de boca grande, a

Margarida gigante e o Morto-carregando-Vivo. Depois das últimas décadas de empobrecimento, surge um despertar crescente de valorização dessas brincadeiras hoje, como referências culturais da região e de todo o país. O trabalho de pesquisa recém-traduzido de John P. Murphy, etnomusicólogo americano, foi realizado há poucos anos com coleta de campo detalhada142. Existe ali um registro amplo dos personagens do Cavalo-Marinho, textos e músicas, com transcrição detalhada e visões da história e sociedade envolvente.

E com certeza a contribuição poética, musical e teatral do Cavalo-Marinho é significativa para todo o ambiente da cultura popular. Versos de personagens que em outras brincadeiras do Brasil também eram conhecidos podem ser re-aprendidos aqui. E pode ser assimilado um princípio narrativo próprio da transmissão oral, com balanço e abertura de modelos tradicionais a novos sentidos e criações. O que move é uma força cômica e crítica que renasce nestas representações públicas dos contrastes da sociedade, a cada ano.

Vistos agora mais de perto, vários episódios da brincadeira mostram agressividade dos personagens entre si e com o negro Mateus, que guarda a propriedade do Capitão debochando, junto ao irmão Sebastião. O confronto inicial dos Mateus com o Soldado é devido a uma desobediência desses irmãos pretos, que à primeira saída do Capitão liberaram o uso do espaço para uma sambada ao seu gosto. Depois da perseguição e embate com o Soldado, aceitam respeitar a propriedade e o patrão, mas recolhem dinheiro do público e dão ao Soldado, expulsando-o finalmente.

Assim, existe um confronto social e étnico na visão dessas danças, que se dilui em pancadas e risos, mas que é sempre representado e posto à prova, coroando a seqüência inicial. Os pretos Mateus usam na mão bexigas de boi secas e cheias de ar, batidas no ritmo do Baiano dando o som mais grave do conjunto, e batidas também expulsando seus oponentes, como o Soldado.

Isso evoca uma constância dos personagens raciais em muitas “brincadeiras” da presença afro-brasileira, com a temática da confrontação do patrão branco e da associação com povos indígenas. Em outras brincadeiras e cortejos pernambucanos alguns desses personagens também estão representados, como nos maracatus, caboclinhos, pastoris e mamulengos. O Baque Virado dos maracatus de Nação –

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lembrando Nagôs e outras nações africanas – presente no carnaval de Recife e Olinda, traz as Catirinas, personagens pretas cantadeiras, os Reis negros, a Dama do Paço com sua boneca Calunga, Lanceiros e Batuqueiros, que se expressam através das toadas cantadas e do gestual de dança diferenciado. E nos maracatus de Baque Solto do interior, além de Reis e Catirinas, a figura do Caboclo de Lança é destaque, que precisa ser conhecido. Explicam os brincantes da Zona da Mata Norte que foram os mesmos Mateus do Cavalo-Marinho que desenvolveram essa figura para os carnavais, acrescentando os chocalhos no surrão das costas, a gola bordada e a cabeleira, e trocando a bexiga pela lança.

Já nos Caboclinhos se representa às vezes o rapto de uma moça branca criada entre índios, e o confronto havido entre guerreiros índios e negros que se associaram a diferentes chefes brancos, entre portugueses, franceses e holandeses. Se somarmos a essas “brincadeiras” de confronto o Mamulengo e o Pastoril, salta aos olhos uma linha tênue e viva que liga eventos antigos e modernos, uma linha que costura comicidade e confronto de cores.

No Mamulengo ou Babau, teatro de bonecos de luva com cabeças entalhadas em madeira, o herói preto Tiridá ou Benedito triunfa sobre um conquistador meio galego que disputa os amores da heroína, expulsando-o com porretadas hilariantes. E no Pastoril de estilo chamado Profano, não aquele encenado por senhoras e moças, dois cordões de dançantes disputam o agrado do público junto a um velho que no Recife recebeu nomes como Velho Faceta e Velho Xaveco, portando um bastão em forma de cobra. Seus trocadilhos de malícia envolvendo esse objeto e as pastoras, em versos e músicas, caíram no gosto da população no correr do século XX e geraram um sucessor televisivo: o Chacrinha. De fato, o pernambucano Abelardo Barbosa declarou em entrevista biográfica à TV Cultura que o seu Chacrinha, com a buzina, é um velho de Pastoril.

Isso faz pensar que da cultura popular saem muitos personagens narrativos e figuras que as populações urbanas modernas associaram à televisão e ao rádio, mas que já estavam sendo elaborados bem antes, criados, apresentados e re- criados a cada ano em festejos antigos como o do dia de Reis. E no Brasil se foram fortalecendo e inovando na superação do regime escravocrata e racista, que só recentemente começa a se resolver.

Benzer Belgeler