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Ao longo das oito obras de ficção de Helena Parente Cunha, poucas são as personagens masculinas presentes, no entanto avultam pujantemente as figuras femininas, bem como as situações pertinentes ao universo em que a mulher está inserida. Discussões sobre as estruturas hegemônicas são uma constante em suas narrativas. Os pilares, aparentemente intransponíveis, das convenções sociais relacionadas a classe, gênero, geração, etnia são abalados pela voz narrativa de suas tramas. Porém, no amplo leque de questionamentos, destaca-se a problematização acerca da condição feminina, dos conflitos e inquietações que envolvem a mulher em meio às muitas transformações pelas quais a sociedade e as relações passam, de algum modo, refletidas na produção literária. Saliento aqui o interesse não apenas pelas mulheres presentes nas narrativas, mas também pelas meninas, uma vez que os enquadramentos de gênero ocorrem desde a mais tenra idade, demarcando, no ocidente, por exemplo, o rosa como relativo às meninas e o azul aos meninos, entre outras construções que tratam de emoldurar as convenções culturais acerca do que é feminino e do que é masculino.

As personagens femininas dominam as tramas da autora, sobrepujando a quantidade de personagens masculinas, como se pode notar, mais evidentemente, nos livros de contos. Conforme levantamento realizado, analisando obra a obra, verificou-se o seguinte panorama:

Tabela 01 – Quantitativo de personagens por livro, considerando gênero e faixa etária.

Livros Meninas Jovens/

maduras Idosas Personagens femininas Personagens masculinas Contos Os provisórios 06 27 03 36 33

Cem mentiras de verdade 17 53 15 85 56

A casa e as casas 01 09 03 13 06

Vento, ventania, vendaval 05 24 07 36 14

Falas e falares 11 53 11 75 43

Total parcial 1 40 166 39 245 152

Romances

Mulher no espelho 01 02 01 04 11

As doze cores do vermelho 07 05 00 12 07

Claras manhãs de Barra Clara 05 12 02 19 15

Total parcial 2 13 19 03 35 33

Total geral 53 185 42 280 185

Autoria: Lílian Almeida

A partir da leitura do quadro anterior, algumas considerações são pertinentes. Antes, porém, considero válido assinalar que o item personagens masculinas aparece no quadro tão somente com o propósito de confirmar a preferência da autora pela problematização do universo feminino. Tal item abrange distintas faixas etárias de sujeitos do sexo masculino (meninos, homens e velhos) presentes na narrativa parenteana.

Em decorrência dos distintos modos de vivenciar a experiência de ser mulher, desde a infância até a velhice, diante das determinações culturais que delineiam o feminino desde a primeira infância, optei por separar as personagens femininas por faixas etárias, com vistas a visibilizar situações que guardem similitudes, em consequência tanto de sua condição etária, quanto dos enfrentamentos de gênero daí provenientes. Para a definição das faixas etárias, tomei como referência o ECA – o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), o Estatuto do Idoso (2003) e o Estatuto da Juventude (2013). Nessas leis, respectivamente, define-se que a infância compreende desde 0 a 12 anos, a adolescência abrange o período que vai dos 12 aos 18, a juventude abarca o período entre 15 e 29 anos de idade, e o idoso está inserido na faixa dos que têm idade igual ou superior a 60 anos. Nota-se um intervalo de idades, entre 29 e 59 anos, que não é enquadrado em qualquer das legislações. Com vistas a contemporizar essas categorizações, estabeleci a seguinte divisão etária: meninas – do nascimento até os 18 anos; mulheres jovens e maduras – entre 19 e 59 anos de idade; idosas – acima de 60 anos. O

agrupamento das personagens deu-se pela observação do contexto vivenciado, enquanto índice da faixa etária, ou pela explicitação de suas idades, quando ocorre.

No primeiro livro de contos, Os provisórios (1980), as personagens são contabilizadas integralmente ao longo dos contos. Em Cem mentiras de verdade (1985), no entanto, isso não acontece, devido à presença de contos intitulados como Bodas de diamante: primeira estória, ou Primeira estória de guardador de carros, entre outros, que apresentam enredos distintos, embora algumas personagens se mantenham nas diferentes narrativas, como acontece, por exemplo, com as seis estórias do Coronel Titino Cravo, nas quais as personagens (o coronel, sua esposa e sua filha) se repetem em algumas delas. Em Falas e falares (2011), há três estórias de motorista de táxi, todavia, diferente do que ocorreu no segundo livro de contos, as personagens presentes em cada um deles não se repetem, o que se mantém é a profissão delas. Nos livros A casa e as casas (1996) e Vento, ventania, vendaval (1998), há partes cujas personagens se mantêm ao longo dos distintos textos. Nos casos em que as personagens peregrinam por enredos distintos, a contabilização delas é feita tão somente uma vez.

Em A casa e as casas (1996), praticamente inexiste personagem na idade infantil, à exceção da personagem Luísa, apresentada em um período da infância e em outro da velhice. Devido a isso, é feito o seu registro tanto no agrupamento personagens meninas, quanto no agrupamento personagens idosas. A etapa final da vida também está pouco presente, com apenas três personagens. A predominância, como nos demais livros, é de personagens femininas entre a juventude e a idade adulta. Esse livro é dividido em quatro partes, intituladas: A casa é a casa, de onde deriva a maior parte das personagens desse volume; Viagem ao redor do divã, em que se revisita a mesma personagem feminina ao longo de vinte e quatro textos de prosa poética; O colar de coral, formado por 16 composições, também em prosa poética, em que figuram um homem e uma mulher; e Hora de fogo, cujos sessenta minutos transbordam poesia e uma realidade apocalíptica. Como a última parte distancia-se das características do conto, não trazendo personagens, e se aproxima do poema como um grito de clamor e indignação, esses textos não integram os dados da tabela.

Vento, ventania, vendaval (1998), por sua vez, apresenta a seguinte divisão: os contos de Vento, ventania, vendaval; e os de Aragem, brisa e ventos pequenos. Na primeira parte, há contos com temáticas diversas, enquanto a segunda dedica-se ao universo infantil das personagens Marcelo, Davi e Júlia, inseridas no quadro anterior.

Nos romances, a situação não é muito diferente, embora o número de personagens masculinas não seja tão menor em decorrência das características estruturais do romance, que

congrega vários núcleos, girando em volta de várias situações. Saliento que, na contagem das personagens dos romances, em decorrência da passagem das mesmas personagens por distintas fases, elas são contabilizadas na categoria criança e também como mulher jovem ou madura. Na trama de Mulher no espelho (1983), destacam-se: a mulher bipartida (protagonista), apresentada aparentemente como duas personagens distintas; e as figuras da mãe, do pai, do irmão, da ama, do menino negro em cima do muro, do marido, dos três filhos, do amante amigo do marido, do amante escritor, do amante negro, o professor de Biologia. Em As doze cores do vermelho (1989), prevalecem, outra vez, as personagens femininas: a protagonista, ao longo da infância, juventude e maturidade; suas amigas (a dos cabelos cor de fogo, a dos olhos verdes, a negra, a de cabelo loiro); e suas filhas (a menina maior e a menina menor); o namorado da pasta preta e depois marido; o namorado de olhos cor de mel; o professor de Desenho; o arquiteto, marido da amiga loura; o marchand; e o pintor boliviano. Em Claras manhãs de Barra Clara (2002), não há um grande distanciamento quanto ao número de personagens femininas e masculinas. Fazem parte da trama: a narradora nos tempos da infância e adultidade, sua mãe e seu pai, Maritinha, Irmã Isabel, Mãe Donana, Dona Lélia, Lulu, Zezé, Dona Zefinha, Genézia, Dona Isaura, Juca, João Pitanga, Benvindo, Dr. Felisberto, Seu Joca da Garoupa, Seu Juvenal, Padre Santoro, D. Severina, Dr. Frederico, D. Tonha, Dr. Macário, Alexandre, Janjão, Gildete, Damiana, Zé Açougueiro, Mateus, Seu Bené, Rosa, Vovó Pombinha e Giovanna. Embora não haja muito afastamento entre o número de personagens femininas e masculinas nos romances, é válido pontuar o papel de destaque das primeiras. Nos três romances, as personagens femininas conduzem a trama, que se movimenta em torno delas próprias ou, como em Claras manhãs de Barra Clara, é narrada por Heloísa, mas se move em volta da enfermeira Donana.

É válido salientar que, no amplo universo das personagens femininas parenteanas, atenho-me àquelas envolvidas em situações que problematizem o universo feminino, que sugerem ou provocam inquietações perante as demarcações de gênero. Para empreender as análises dos textos ficcionais, na diversidade de categorias de personagem que defini para estudar, fez-se indispensável estabelecer diálogos com distintos referenciais teóricos, passando por discussões que abarcaram: as construções acerca da infância; as ingerências que envolvem as mulheres jovens, maduras e idosas; e os debates sobre as relações de gênero. Para investigar como todas essas mulheres são representadas, torna-se imperativo o diálogo com estudiosos de distintas áreas, sobretudo das Ciências Sociais e da História, que emergem ao longo das análises. No entanto, é subjacente a todo trabalho a consciência da literatura de autoria feminina como uma “tecnologia de gênero” (LAURETIS, 1994) e o estabelecimento

de relações com as esferas de cultura sinalizadas pelas narrativas, revelando um discurso em duplicidade de vozes (a dominante e a dominada), em convergência com o “modelo cultural da escrita das mulheres” proposto por Elaine Showalter (1994).

O breve mapeamento indica uma marcante preocupação com o universo em que a mulher se encontra inserida, as construções culturais que a formatam, bem como toda a sorte de sujeições e dilemas a que está submetida, como poderá ser observado ao longo das análises, evidenciando o posicionamento político da autora acerca das lutas e conquistas empreendidas pelas mulheres.

3 TECIDO EM FLOR: MENINAS

Eu tenho a minha infância e um eco surdo de tambores no escuro.

Myriam Fraga (2008, p. 323)

Entre as personagens femininas presentes na ficção de Helena Parente Cunha, destaco, nesta seção, as meninas. Em toda a narrativa parenteana, elas estão presentes, como em Vento, ventania, vendaval (1998), que dedica uma parte – Aragem, brisa e ventos pequenos – a histórias e percepções da infância, ou nos demais livros de contos cuja presença se dá desde a mais tenra idade, entremeando-se com os apelos televisivos, os descuidos sociais e as exigências frente às mudanças da vida em sociedade. Porém é nos romances que elas assumem maior destaque, uma vez que a infância tem uma contribuição marcante para o desenvolvimento das narrativas. É na infância que as vozes cerceadoras são mais altamente ouvidas pelas protagonistas de Mulher no espelho (1983) e As doze cores do vermelho (1989), gerando a culpa, o remorso e o medo, os quais elas precisarão enfrentar para alcançar um lugar de maior estabilidade emocional. Em Claras manhãs de Barra Clara (2002), o medo também é disseminado na infância, todavia seu poder de ação é diminuído pela presença da personagem Mãe Donana. A infância, aqui, sobreleva-se, pois é este o lugar que a narradora escolhe para se posicionar e contar as histórias da enfermeira Ana, do bairro Barra Clara e dela própria.

Na infância, acontecem as repressões assegurando a manutenção de modelos relacionados às delimitações e definições do e para o feminino, atavicamente transmitidos. Tendo em vista a presença de imagens recorrentes nos romances – como o muro e a dúvida entre o lado de lá ou o lado de cá, a cisterna e o seu fundo assustador – e temáticas como a repressão impingida pelos ensinamentos cristãos, optei por agrupá-los, analisando as construções de gênero empreendidas na infância, a partir de pontos de convergência para onde confluem as personagens meninas dos romances.

No romance Mulher no espelho, a narrativa desenvolve-se pelas falas da personagem bipartida entre a mulher escrita e a mulher que escreve, identificadas, mais uma vez, pelo uso do itálico presente nos posicionamentos da mulher que escreve. As alusões à infância decorrem de lembranças surgidas no desenrolar do processo de reconhecimento de si pelo qual a personagem passa. Fazem parte dessa fase o pai, a mãe, o irmão, a ama e o menino preto, filho da cozinheira, promovendo situações de formação e enformação da protagonista

menina, as quais contribuirão sobejamente para as amarras da vida adulta. As cenas evocadas da infância refletem um mundo patriarcal tributário de um passado escravocrata, haja vista a babá da personagem ser referenciada através do vocábulo “ama” e o patrão através do termo “iozinho” e haver, não apenas na meninice, a expressa segregação racial e social. O trânsito da personagem criança ocorre preponderantemente dentro de casa, sob os cuidados da família. Em As doze cores do vermelho, mais uma vez, a infância é trazida via ato mnemônico, localizada no ângulo 1 da narrativa tripartida, cujo tempo é o passado narrado por um eu, a protagonista. Relacionam-se com a personagem principal: as amigas definidas por uma característica (a dos olhos verdes, a dos cabelos cor de fogo, a de cabelos loiros, a amiga negra); o namorado que queria ser arquiteto; o namorado de cabelos cor de mel; e algum representante passageiro da escola (a diretora, a professora, o professor). As experiências circulam entre o espaço da casa, da escola e em alguns espaços externos a esses ambientes, quando as vivências da adolescência se fazem prementes e fora dos ambientes cerceadores representados pelo lar e pela escola.

Em Claras manhãs de Barra Clara, a narrativa desenvolve-se pela voz da narradora Heloísa, lembrando a infância vivida em Barra Clara, sob forte influência da enfermeira Mãe Donana. As percepções infantis, trazidas pela narradora em diálogos à janela com sua vizinha Maritinha, algumas vezes, são interceptadas pela Heloísa adulta, que relê as situações do passado, com o entendimento que a maturidade lhe oferece. É válido salientar a recorrência das meninas comentando o mundo que lhes chega através das janelas, presente no conto Duas meninas na janela, do livro Vento, ventania, vendaval. Destacam-se as meninas Heloísa, Maritinha (companheira de janela), Lulu, Gildete e Ana Damiana, além dos pais, do primo Juca, da enfermeira Donana e um amplo leque de pessoas que transitam pelo bairro de Barra Clara, compondo as engrenagens que se manifestam no processo formativo das meninas.

No século XVIII, com o surgimento da filosofia das Luzes, como pontua Maria Lúcia Rocha-Coutinho (1994), e da noção de infância, uma revolução sentimental ocorre a partir das ideias de igualdade e felicidade, proporcionando o desenvolvimento da amorosidade. Como assinala Philippe Ariès, “a família tornou-se o lugar de uma afeição necessária entre os cônjuges e entre pais e filhos, algo que ela não era antes. Essa afeição se exprimiu, sobretudo, através da importância que se passou a atribuir à educação” (ARIÈS, 1981, p.11). A criança passa a assumir uma posição diferente no contexto familiar, ela adquire valor e importância, e os adultos passam a se ocupar com a sua instrução:

Os adultos passam a se preocupar com sua (das crianças) educação, carreira e futuro. Tornou-se conveniente manter as crianças em casa durante o máximo de tempo possível e ‘amarrá-las psicológica, financeira e emocionalmente à unidade familiar até o tempo em que estivessem prontas para criar uma nova unidade familiar’. Foi criada, assim, a Era da Infância [...] (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 29).

Por conta do reconhecimento de que a criança não é um adulto em miniatura, ela torna-se alvo das atenções adultas, que visam a educá-la, moldá-la segundo os padrões socioculturalmente aceitos. Ao se dispor a “formá-la”, os adultos estabelecem as bases de crescimento e desenvolvimento dos pequenos seres que, mais tarde, serão adultos também, confirmando a concepção de criança comumente aceita e exposta por Manuel Jacinto Sarmento: “a criança é considerada como não-adulto, e este olhar adultocêntrico sobre a infância registra especialmente a ausência, a incompletude ou a negação das características de um ser humano ‘completo’” (SARMENTO, 2007, p. 33). A proposta de formação costuma vir sobrecarregada de formatos e modelos que a criança deve aprender e se adequar. É nesse momento que os enquadramentos de gênero são disseminados, e que as vozes castradoras se impregnam na menina, contribuindo sobremaneira para a manutenção dos paradigmas hegemônicos a que as personagens femininas adultas se veem enredadas.