ÜÇÜNCÜ KISIM
6) Araştırma ve geliştirme faaliyetlerinde bulunmak
Ao vermos a passeata “Brasil sem armas” tanto por meio da telenovela Mulheres Apaixonadas quanto pelos veículos noticiosos91, aquela inquietude, gerada pelo imbricamento entre as mídias ficcionais e factuais, ganha um novo impulso, suscitando de forma gritante uma pergunta: afinal esse evento é irreal ou real? Na verdade, não é nenhum dos dois, mas sim um simulacro.
Segundo Baudrillard (1991, p. 26), “a simulação caracteriza-se por uma precessão do modelo, de todos os modelos sobre o mínimo facto – os modelos já existem antes, a sua circulação, orbital como a da bomba, constitui o verdadeiro campo magnético do acontecimento”. Quer dizer, a referida passeata é produto da conjunção de modelos sem referência, ou melhor, cuja referência se encontra nas realidades midiáticas, “no sentido em que estão antecipadamente inscritos na decifração e na orquestração rituais dos media, antecipados na sua encenação” (p. 31-32).
Assim, mesmo levando-se em consideração que a passeata “Brasil sem armas” tinha um objetivo concreto – a luta em prol do desarmamento92 –, sua origem, desenvolvimento e conseqüências foram essencialmente midiáticos: Manuel Carlos havia planejado esse evento como o ponto culminante, em seu enredo, da discussão sobre a violência urbana que vinha tecendo através do drama vivido por Fernanda e Téo – personagens que, como apontamos acima, protagonizaram uma cena na qual foram atingidos por balas perdidas. Resolvendo aproveitar o ensejo, o movimento Viva Rio se uniu ao autor da telenovela transformando a passeata ficcional em uma concreta manifestação. O resultado foi um acontecimento que reuniu mais de 40 mil pessoas, onde ao lado de indivíduos reais e autoridades políticas estavam personagens e figurantes de Mulheres Apaixonadas.
Tal cena ao ser veiculada, tanto pela narrativa novelesca quanto pelas instâncias jornalísticas, conduziu a um embaralhamento perceptivo. Como pensar um evento que aparentemente está entre o ficcional e o factual? A problemática surge devido à ordem
91 Cf. FERNANDES, Lilian. Personagens e cidadãos contra as armas. O Globo, Rio de Janeiro, 07 set. 2003. Revista da TV. Disponível em: <http://www.tv-pesquisa.com.puc-rio.br/ImprimDoc.asp?CodRegistro=90641>. Acesso em: 6 abr. 2009; MOREIRA, Paulo Ricardo. Atores gravam cenas de “Mulheres Apaixonadas” durante manifestação. O Globo, Rio de Janeiro, 15 set. 2003. Rio. Disponível em: <http://www.tv-pesquisa.com.puc- rio.br/ImprimDoc.asp?CodRegistro=90816>. Acesso em: 6 abr. 2009; CIMIEIRI, Fabiana; FIGUEIREDO, Talita. Sob chuva, 40 mil defendem desarmamento. Folha de São Paulo, São Paulo, 15 set. 2003. Cotidiano. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1509200301.htm>. Acesso em: 6 abr. 2009. 92 Cf. DA REDAÇÃO. Congresso discute lei mais dura para controle de armas. Folha de São Paulo, São Paulo, 22 set. 2003. Folhateen. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2209200325.htm>. Acesso em: 6 abr. 2009.
estabelecida não ser capaz de oferecer subsídios aos indivíduos para que possam lidar compreensivamente com tal acontecimento, tendo em vista que esse está “para além do verdadeiro e do falso, para além das equivalências, para além das distinções racionais sobre as quais funcionam todo o social e todo o poder” (BAUDRILLARD, 1991, p. 31).
“Vai ser uma passeata histórica”, anunciava o jornal O Globo em 07 de setembro de 2003. De fato, a partir dela evidenciou-se claramente que a experiencia cotidiana, na contemporaneidade, se dá na interação com as realidades midiáticas. Não se trata mais de diferenciações entre o real e o irreal, pois o que se precebe é a crecente predominância dos modelos midiáticos. Esses, “já não constituem uma transcedência ou uma projecção, já não constituem um imaginário relativamente ao real, são eles próprios antecipação do real, e não dão, pois, lugar a nenhum tipo de antecipação ficcional – são imanentes, e não criam, pois, nenhuma espécie de transcendência imaginária” (BAUDRILLARD, 1991, p. 152).
4.1.4. ...Vê-se, então, uma estruturação em rede
Com a comprovação empírica do trânsito informacional nos vasos comunicantes, evidenciado através da interação entre telenovela e jornalismo, unimos os últimos pontos que nos levam a compreender mais claramente a condição reticular sob a qual se encontram estruturalmente os variados media, que juntos dão origem a ambiência midiática. Vale ressaltar que nem o tipo de suporte físico – televisão, impresso, rádio, computador... – nem a qualificação aplicada aos produtos de mídia – factual, ficcional – são empecilhos à existência dessa perfeita coesão, pelo contrário, acreditamos que toda potencialidade desse novo ambiente se deve justamente pela sua capacidade de abarcar um universo sensorial e discursivo tão amplo – nesse sentido, demonstramos que não foi ao acaso a opção em analisar a interação entre uma telenovela e periódicos impressos do campo jornalístico93.
Tal arquitetura levou o trânsito informacional a atingir seu ápice, o que propiciou à ambiência midiática a criação de sua própria via de sustentação: ela auto-abastece-se de si mesma na medida em que as mensagens provindas das diversas mídias que a compõem se entrelaçam, combinam-se, legitimam-se mutuamente – isso acontece porque essas mídias já foram previamente legitimadas pelos indivíduos.
93 Apesar de considerarmos de extrema importância a análise em pormenores da interação entre mídias sob a perspectiva tecnológica, ou seja, atentando para as modificações pelas quais a informação pode passar a fim de se adequar às características idiossincráticas de cada espaço midiático por onde transita, tal trabalho tornaria extensa por demais a presente pesquisa, inclusive fugindo do nosso foco principal que se direciona no sentido de perceber a interação midiática sob o prisma do campo discursivo.
Partindo da telenovela, podemos perceber as ramificações midiáticas quando os temas provenientes daquela expandem-se por outras mídias que lhe dão eco. Motter corrobora essa nossa constatação ao expor que a irradiação dos conteúdos novelescos se dá em dois sentidos, a saber, horizontalmente e verticalmente:
No primeiro caso a relação é intermídia e no segundo intramídia [...]. No primeiro modo estariam os jornais, as revistas informativas, outras emissoras de TV e o rádio [acrescentaríamos aqui a internet]; no segundo, a programação da emissora de TV que exibe a telenovela, que a recupera sob a forma de subproduto, como é o caso do Vídeo Show da TV Globo, ou a retoma em programas de auditório, em programas de humor sob a forma de sátira ou paródia, em programas de entrevistas, programas do tipo informativo como telejornais e de reportagem. Os programas de auditório dão oportunidade a entrevistas com atores que falam sobre o personagem e sua relação com a história. (MOTTER, 1998, p. 97)
Dessa forma, vê-se que tamanha é a rede de circulação formada a partir da telenovela que mesmo aquelas pessoas que não a acompanham acabam sendo inseridas no âmbito das discussões que sucinta. Esse é um exemplo característico do efeito mais sensível da ambiência midiática sobre os indivíduos, ou seja, ninguém escapa aos seus tentáculos.