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6. KONUT KARİYERLERİ VE TALEBİN OLUŞUMUNU AÇIKLAMAYA YÖNELİK BİR MODEL ÖNERİSİ
6.1. Araştırma Sonucu Oluşturulan Genel Temalar ve Önermeler
Os primeiros textos patrísticos não apresentam uma doutrina desenvolvida de pecado, exceto a consciência da universalidade do pecado que já está presente no Novo Testamento. A Epístola de Barnabé chega a afirmar explicitamente que as crianças nascem sem pecado e em nenhum dos outros (Didaquê, Clemente de Roma, Hermas,
Inácio) temos qualquer concepção de pecado herdado. Mesmo Clemente de Alexandria
(m. 215 d.C.) desconhece uma universalidade biológica do pecado, e coloca toda a ênfase – em parte, para combater o determinismo da doutrina gnóstica do pecado – na
liberdade humana (Wiley, 2003:340). Mas admite uma solidariedade ontológica de todos os homens com Adão.
Com os Pais antignósticos têm início as reflexões mais aprofundadas sobre a natureza da Queda, em relação com a visão bíblica da Criação. Irineu de Lyon (m. 200 d.C.) apresenta uma noção mais desenvolvida de pecado, também no contexto de luta contra o gnosticismo. Irineu afirma a bondade da Criação e rejeita a Queda cósmica dos gnósticos, afirmando uma Queda histórica. Contra as especulações gnósticas, Irineu levanta firmemente os “anteparos” da bondade da criação e da universalidade da redenção (Hägglund, 1981:37). Embora evite especulações metafísicas em torno dos efeitos dessa Queda, que é compreendida em termos principalmente morais, ele
claramente atribui um significado universal ao pecado de Adão (Seeberg, 1967[I]:130).
Segundo Wiley, a reflexão de Irineu se concentrava no que foi perdido pela Queda e recuperado pela Redenção, em termos antropológicos. Para ele Adão perdeu a perfeição pessoal, a semelhança (similitudo) com Deus, ficando apenas com a natureza pessoal, a
imagem (imago) de Deus (Wiley, 2003:41).
Dois apologistas tocaram diretamente no problema do pecado: Justino Mártir (m. 165 d.C.) e Tertuliano, outro antignóstico (m. 220 d.C.). Justino, confrontando o determinismo Estóico pôs toda a ênfase na liberdade humana individual e adotou uma versão filônica da doutrina hebraica das duas inclinações, identificando a razão com a inclinação para o bem e a as emoções com a inclinação má. Mas atribuía a origem do mal aos demônios e a origem da corrupção a Adão, sem uma herança biológica de pecado.
Tertuliano também rejeitou a Queda cósmica dos gnósticos e defendeu uma Queda histórica. Mas postulou uma unidade original entre Adão e a humanidade, para explicar a solidariedade humana no pecado com Adão, e utilizou uma teoria
traducianista da origem da alma (corpo e alma seriam gerados no intercurso sexual)
para explicar a transmissão do pecado aos descendentes. Mas o pecado, que Tertuliano via como uma irracionalidade na natureza humana, não seria transmitido integralmente. Apenas uma inclinação pecaminosa era herdada, não a atualidade do pecado. Daí a sua rejeição do batismo infantil ser indício importante de que a culpabilidade do pecado não era transmitida às crianças, sendo desnecessária a remoção pelo batismo. Mesmo assim, é muito importante considerar que Tertuliano já dispunha de noções razoavelmente desenvolvidas de transmissão biológica do mal e de unidade metafísica do homem, que serviram como arcabouço para a doutrina da transmissão do pecado original.
Com Orígenes (m. 299 d.C.) temos uma posição oposta, em muitos aspectos, a Tertuliano. Orígenes defendia o batismo infantil, como forma de remover o pecado das crianças, e usou explicitamente a expressão “pecado original”. Quanto à propagação do pecado, Orígenes rejeitou tanto o criacionismo (cada alma é criada por Deus separadamente, para o corpo) e o traducianismo de Tertuliano, optando pela teoria da preexistência da alma, de origem platonista. Para ele a punição do pecado seria a descida das almas para o mundo material – uma Queda cósmica, ou transcendental. Não havia, portanto, necessidade de uma solidariedade humana com Adão, nem conexão com um evento temporal (Wiley, 2003:48).
Segundo Tatha Wiley, o desenvolvimento de uma doutrina completa de pecado Original dependeu de três grandes idéias, que aparecem dispersamente nos Pais, até o século III d.C., quando seu significado hamartiológico começa a ser discutido mais explicitamente: o batismo infantil para remissão de pecados, a transmissão biológica do pecado e uma interpretação errônea de Romanos 5.12. A noção de que a finalidade do batismo infantil seria a remissão do pecado herdado de Adão foi explicitamente
defendida por Cipriano de Cartago (m. 258 d.C.). 30 O raciocínio, aqui, é óbvio: “[...] de onde procederia o ser pecador dos infantes, se, todavia, eles não são capazes, de modo algum, de um pecado de ação, com responsabilidade pessoal?” (Pesch, 1992:321). A transmissão biológica do pecado foi ensinada por Dídimo o Cego (m. 399 d.C.), teólogo de Alexandria, que relacionava a transmissão do pecado original ao ato sexual31, explicando a pureza de Jesus, paralelamente, pela concepção virginal.32 Finalmente,
Ambrosiastro (IV século d.C.), comentador das cartas de Paulo, sustentou, com base na
Vulgata Latina utilizada em sua época, que Romanos 5.12 ensinaria que todos pecaram “em” Adão. O texto latino trazia “em quem todos pecaram”, quando o grego original reza “porque todos pecaram”. Para Ambrosiastro, isso confirmaria a noção de uma solidariedade da raça com Adão, em seu pecado, noção que, na verdade, já havia sido ensinada por diversos teólogos, como Tertuliano.33
A força da noção de solidariedade no pecado com Adão é algo bem evidente na patrística anterior a Agostinho, rejeitada apenas por alguns nomes, como Orígenes, evidentemente devido a compromissos filosóficos específicos. A idéia tinha a sua maior razão de ser na necessidade de explicar a universalidade do pecado, esta um corolário da universalidade da redenção de Cristo, e contava com o apoio de textos específicos e de noções de origem bíblica, como as idéias de pacto, de representação e de
30
Quanto ao próprio batismo infantil, textos do final do século II e princípio do século III, como A Tradição Apostólica, de Hipólito de Roma (m. 236 d.C.) registram o costume como prática estabelecida. A existência de oponentes antigos, como Tertuliano, oferece evidência adicional do costume (Wiley, 2003:50).
31
Agostinho, como se sabe, construiu uma forte associação do pecado original com o ato sexual. O pecado de origem residiria exatamente no fato de o primeiro casal ter se unido sexualmente e com prazer, contra a vontade de Deus. Mas o elemento pecaminoso na concupiscência sexual não seria o prazer, apenas, como realidade fisiológica, mas o egoísmo presente no ato (Pesch, 1992:322). Mesmo assim, vê- se a associação consumada de desejo com concupiscência, e a identificação da concupiscência com o pecado, em Agostinho.
32
Os Pais Capadócios sustentavam que a humanidade realmente caiu, com Adão, mas que as crianças seriam livres de pecado. Sua doutrina se aproximaria mais de uma idéia de corrupção original (Wiley, 2003:5).
33
O teólogo antioquiano Teodoro de Mopsuéstia (m. 427 d.C.) escreveu um tratado intitulado Contra os
Defensores do Pecado Original, no qual interpretou Rm 5.12 como ensinando apenas a transmissão dos
efeitos do pecado, isto é, da morte, e afirmou que apenas a natureza humana, e jamais o pecado, pode ser herdada (Wiley, 2003:51).
responsabilidade coletiva. Faltava, no entanto, uma melhor articulação da natureza dessa solidariedade. O contexto filosófico-religioso dos Pais forneceu possibilidades teóricas para explicar essa relação. Duas soluções emergiram: (1) a união ontológica e (2) herança biológica. A primeira surge inicialmente em Clemente de Alexandria, para quem a natureza humana de uma forma total, incorporada em Adão, cometeu o primeiro pecado, sendo recebida por nomes importantes como Tertuliano. A segunda, como vimos, foi ensinada por Cipriano de Cartago e veio a ter Agostinho entre seus maiores defensores.
Agostinho teve, acima de qualquer dúvida, papel central na formulação da doutrina cristã clássica da Queda e do Pecado Original. É um erro, no entanto, afirmar que ele simplesmente “inventou” a doutrina. Ele não poderia produzir uma teoria coerente e influente sem lançar mão de fragmentos de tradição e de reflexão que já estavam disponíveis e que tinham importância no cristianismo de seu tempo; ademais, ele foi capaz de demonstrar uma conexão orgânica entre hamartiologia, antropologia, soteriologia e cristologia. Sob sua influência, os concílios de Cartago (411-418 d.C.) e de Orange (529 d.C.) viriam a formalizar o dogma clássico do Pecado Original.
A despeito de sua importância, a controvérsia com Pelágio não foi a origem das idéias de Agostinho sobre o pecado. Sua preocupação com o tema era anterior, e ele chega mesmo a distinguir pecados pessoais e o pecado original em suas Confissões (escritas por volta de 398 d.C., cerca de 12 anos antes do início das controvérsias pelagianas), sem apresentar já uma noção de herança, mas com a idéia de solidariedade com Adão (Wiley, 2003:58). A rejeição do maniqueísmo o afastara definitivamente das idéias de preexistência da alma e Queda transcendente, bem como de qualquer negação da bondade da Criação original, reforçando a exigência por uma Queda histórica e uma solidariedade da raça no primeiro pecado. O conflito com os Donatistas garantiu a
rejeição do perfeccionismo religioso e, com o reforço da experiência própria com o pecado, levou Agostinho a rejeitar a possibilidade de pureza moral e espiritual na vida presente. Ele promoveu ainda a articulação das idéias de Cipriano sobre batismo infantil para remissão de pecados, de transmissão biológica de Dídimo o Cego, via Ambrósio de Milão (m. 397 d.C.) e Jerônimo (m. 420 d.C.), e a interpretação “latina” de Romanos 5.12, de Ambrosiastro. A primeira foi aproveitada na controvérsia com os Donatistas; a segunda e a terceira ganharam importância durante a controvérsia pelagiana. Além dessas três, indicadas por Wiley, é preciso destacar a idéia de bondade da Criação que, juntamente com a universalidade da Redenção de Cristo, apertava os fragmentos de reflexão sobre o pecado.
Agostinho desenvolveu uma antropologia para explicar a condição humana criada, caída e redimida, reproduzindo em sua reflexão a “tríade” Criação-Queda-
Redenção, presente explicitamente desde Irineu. A criação do homem o colocou no
estado de Bênção Original, na qual ele tinha condições de não pecar (posse non
peccare). A Queda aconteceu quando Adão se encheu de orgulho, desejando ser como
Deus e recusando a dependência absoluta. A soberba é a causa da Queda. Seeberg é mais específico: a essência do pecado para Agostinho seria o amor sui, ou “amor de si” (Seeberg, 1967:341). O resultado foi a morte, a ignorância e a fraqueza para fazer o bem. A fraqueza se dá em razão do afastamento de Deus ter lançado o homem na
concupiscência: uma desarmonia entre a razão e as paixões corporais, de modo que o
desejo interfere nas escolhas da razão (Wiley, 2003:64).
Na visão de Agostinho, a Queda danificou a imagem de Deus no homem, mas não a destruiu. A despeito disso, sua hamartiologia era decisivamente pessimista: a capacidade de não pecar tornou-se a incapacidade de não pecar (necessitas peccandi). Isso não significava, no entanto, uma ausência de liberdade, mas uma distorção da
liberdade; uma liberdade para escolher sempre o mal que alterou a natureza do indivíduo (Gonzalez, 2004[II]:44-45). Além disso, os filhos de Adão não têm meramente o “mau exemplo” de seu ascendente, nem herdam apenas a “corrupção do pecado”: o que é transmitido é a atualidade do pecado, isto é, a atitude pecaminosa e a sua culpabilidade. Somos pecadores per generatione non imitatione, e não apenas vítimas: pecadores, de fato. Seeberg cita Agostinho:
“Pelo qual [o pecado de Adão], tendo em vista a magnitude deste pecado, a condenação mudou e corrompeu a natureza, de maneira que o que, no primeiro homem pecador, se originou punitivamente, continua de maneira natural nos demais homens desde o nascimento... Porque o que é o pai, também o é sua descendência... Em tão grande medida foi a natureza humana mudada e corrompida nele, que tem de suportar a desobediência da concupiscência batalhando em seus membros e ser submetida à necessidade da morte” [...] (Agostinho,
Civitate Dei. Apud: Seeberg, 1967[I]:338).
A Redenção tem início com Deus, em sua eleição graciosa, e se manifesta temporalmente na conversão e no batismo, que elimina o Pecado Original e a culpa pela concupiscência. Mas o batismo não elimina a concupiscência; a vitória sobre ela depende do controle da razão sobre as paixões, sob a influência curativa da graça. A Redenção garantirá, finalmente, um estado superior ao de Adão antes da Queda: a
incapacidade de pecar.
O monge britânico Pelágio (m. 420 d.C.) teria lido as Confissões por volta de 405, mas as reações de Agostinho só se iniciaram por volta de 415 d.C. Pelágio via o pecado como fruto de condicionamento, basicamente, e como uma condição reversível, por meio da reeducação e do exemplo. O pessimismo da concepção Agostiniana de Pecado Original parecia-lhe algo perigoso, um estímulo à frouxidão moral. Pelágio rejeitou a idéia de que a prática do bem exigisse assistência especial de Deus (bonun
qualquer defeito na natureza humana tivesse sido causado pelo pecado de Adão; que existisse uma herança do pecado original (de traduce peccati). Basicamente, Pelágio construiu uma visão do pecado na qual a natureza humana é neutramente aberta para o bem e para o mal, sendo que o pecado de Adão foi apenas um “mau exemplo”.
Visivelmente, a visão Agostiniana do pecado foi articulada, grandemente, em reação às idéias de Pelágio. O núcleo de seu argumento, poderíamos dizer, foi a afirmação de uma visão decididamente pessimista da natureza humana: o homem não estaria apenas enfermo, ou aprisionado por maus hábitos e condicionamentos, mas num estado de revolta positiva contra Deus, que de algum modo apegou-se à natureza humana, e do qual nem mesmo os batizados estão completamente livres. Além disso, Agostinho captou não apenas a universalidade do pecado, mas a solidariedade dos homens em sua rejeição a Deus e em sua culpabilidade, e formulou uma doutrina que respondia à visão ortodoxa da Criação, à universalidade da Redenção. O concílio de Cartago (411-418 d.C.) debateu e rejeitou as idéias de Pelágio, e o concílio de Orange (529 d.C.), embora rejeitando a noção agostiniana de que a liberdade humana foi completamente perdida com a Queda, reafirmou a visão “positiva” do pecado como transformação da natureza humana, levando a uma conclusão dos debates patrísticos sobre natureza moral e pecado original (Wiley, 2003:73).
As idéias de Queda histórica e de solidariedade com Adão no pecado, o pessimismo quanto à natureza do pecado, a visão norte-africana do batismo, a idéia de transmissão biológica, a interpretação de Romanos de Ambrosiastro; o conjunto desses
fragmentos de tradição, colocados sob a pressão da bondade da Criação de Deus e da necessidade de uma explicação coerente da universalidade do pecado correspondente à universalidade de Cristo, levariam naturalmente a uma Hamartiologia abrangente,
originatum).34 As controvérsias com os Maniqueus, os Donatistas e Pelágio, especialmente, serviram para dar ignição e, de certo modo, encaminhar um processo orgânico de formulação dogmática: o fogo das controvérsias soldou materiais que já estavam presentes, sob a arte de um verdadeiro mestre.35