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Para a construção deste recorte ocorreram três etapas bem definidas: a primeira que se constituiu da coleta e digitalização das imagens (duzentas e setenta e cinco imagens); a segunda: identificação das figuras e temas que se repetiram ao longo do corpus coletado (treze imagens) e a terceira: seleção das imagens (quatro imagens) que significam as recorrências de figuras e temas que são referências para a análise semiótica desenvolvida nesta pesquisa.

práticas sociais, práticas culturais e práticas de consumo. E assim identificamos, na globalidade, o universo do cotidiano feminino. Desta forma percebemos uma coerência textual, auxiliando-nos no entendimento do mecanismo sintagmático englobado nas isotopias encontradas ao longo do discurso delimitado e apreendido, que são compostas de temas e figuras numa dimensão semanticamente discursiva.

Assim as recorrências referem-se aos temas e figuras relacionados a um discurso da moda que se constrói nas práticas e valores do cotidiano feminino manifestados, como o casamento, a maternidade, e os modos de vestir-se. O tema casamento manifesta-se na figura da noiva, o tema maternidade nas figuras mães e filhos e o tema moda na figura de corpos femininos vestidos e construídos (desenhos dos figurinos). E

desta forma utiliza-se o método de identificar as repetições de figuras e temas que são percebidas no universo total do corpus, e a partir destas recortar as imagens que serão referências para nossa análise e descrição.

Segue abaixo um quadro no qual sistematizamos e delimitamos as figuras, os temas e sub-temas abordados:

Quadro 1: Temas.

TEMAS E SUB-TEMAS DO UNIVERSO COTIDIANO FEMININO

01 CASAMENTO Noivas Enxoval Lingerie 02 MATERNIDADE Mamães Filhinhas Maninhos

03 MODA Moda internacional Moda feminina Moda infantil

constituídos de uma narrativa do social, em que os seus actantes são figurativizados nas relações entre sujeito – objeto e destinador – destinatário.

O destinador revista O Cruzeiro (D1) e o destinador o figurinista Alceu Penna

(D2) designam uma operação sintáxica do enunciado do fazer. Estes fazem fazer suas

leitoras, destinatários, estas sujeitos de estado, a tornarem-se em conjunção com o objeto de valor que são as criações ou propostas das novidades de figurinos desenhados por Alceu Penna, inspiradas na moda internacional e da moda para ocasiões diversificadas.

Assim, a revista semanal em foco, enquanto veículo de comunicação de massa presta-se em informar-nos sobre o cotidiano, colocando-nos em relação com aquele mundo presente, em que experiências cotidianas são vividas, como podemos ver logo a seguir, apresentando as imagens do recorte deste corpus, um conjunto de imagens que figurativizam o cotidiano feminino na preparação para o casamento, na relação maternal e nos seus diferentes modos de vestir.

Todos os elementos e figuras que compõem a veiculação desta revista englobam-se na espacialidade deste semanário, que está consonante com as questões da relação do corpo e roupa, ou seja, ocorre a distribuição topológica no seu modo de mostrar os figurinos de moda e os corpos que os vestem.

No conjunto de imagens acima referente ao cotidiano feminino, apresentando um discurso da preparação do casamento, Alceu Penna propõe figurinos, desde o enxoval, composto de vestes íntimas como modelos de lingeries tipo robes, anáguas e camisolas. até o vestido de noiva. Neste discurso projeta-se um tipo de simulacro feminino moldado ao casamento, a relação com o masculino, ou seja, a inserção no social como constituição de família, abrangendo também a relação filial, vendo-se assim uma mulher que se projeta coletivamente. E além disso configura-s também um tipo de corpo feminino que é construído por meio do desenho de moda, ou seja, o figurino se faz na dimensão visual do desenho que Alceu Penna desenvolve, que dá ênfase para o

Fig. 13: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1952, vol. 30 e pg. 50/51. Fig. 12: Imagem da coluna Figurinos, na revista

O Cruzeiro, 1954, vol. 29 e pg. 78/79.

Fig. 14: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1950, vol. 49 e pg. 126/127.

01 CASAMENTO

Noivas Enxoval Lingerie

A figuratividade da relação entre mãe, filhos e filhas, mostrada no conjunto de imagens referentes a maternidade, foi construída a partir do fazer criativo de Alceu Penna, que é um fazer modalizador, projetando as suas leitoras, um simulacro de mulher, que ao esperar seus bebês nascerem, ao interagir com seus filhos na fase da infância, produzem relações no social, com o ser masculino e também com o ser infantil. Há uma variedade de discursos que são construídos a partir das diferentes fases de vida de um tipo de mulher inserida na família.

Fig. 15: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1955, vol. 30 e pg. 78/79.

Fig. 16: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1955, vol. 53 e pg. 110/111.

Fig. 17: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1952, vol. 15 e pg. 123.

Fig. 18: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1952, vol. 13 e pg. 107.

Mamãe Filhinhos Maninhos

Neste terceiro conjunto manifestam-se imagens referentes ao discurso da moda, uma moda internacional e nacional. Alceu Penna, enquanto destinador, delega papéis sociais a um sujeito de estado, um tipo de mulher, que se torna conjunta com seu objeto de valor, doando-lhe competência de um fazer querer trajar as criações relacionadas a um modo de vestir, de um aparecer feminino, estendendo-o ao modo de aparecer infantil. Destaca-se a moda feminina e internacional. A partir desta, Alceu Penna no seu fazer interpretativo desenvolvido no plano da expressão, trouxe das últimas novidades

Fig. 19: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1953, vol. 39 e pg. 66/67.

Fig. 20: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1954, vol. 26 e pg. 78/79.

Fig. 24: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1951, vol. 17 e pg. 107.

Fig. 22: Imagem da coluna Figurinos, na revista

O Cruzeiro, 1953, vol. 36 e pg. 64/65.

Fig. 21: Imagem da coluna Figurinos, na revista

O Cruzeiro, 1953, vol. 14 e pg. 62/63.

Fig. 23: Imagem da coluna Figurinos, na revista O Cruzeiro, 1955, vol. 51 e pg. 110/111.

Como o semioticista Eric Landowski propõe em seu texto intitulado “Uma Semiótica do Cotidiano (Le Monde, Libération)”, é possível fazer um recorte partindo do ponto de vista do cotidiano, considerando a produção de sentido inscrito no discurso da mídia, pois trata-se de um corpus inserido numa revista semanal segundo Eric Landowski este discurso “[...] caracteriza-se como um instrumento excepcionalmente poderoso de integração dos múltiplos universos de referência que ele toma como objeto” (1992, p. 117). Um veículo de comunicação de massa que nos informa de tudo, incluindo uma coluna de figurinos de moda onde estão construídos discursos de moda, instalando uma relação comunicativa entre enunciador e enunciatário, ambos, pressupostos na enunciação das imagens de moda criados pelo figurinista Alceu Penna. Este é o enunciador, que opera as marcas constituintes da narrativa do cotidiano feminino, sendo as leitoras, as enunciatárias. Estas poderiam pertencer a determinado grupo social de mulheres sendo educadas para um modelo feminino, não nos cabe agora, um aprofundamento deste assunto, mas referir apenas, que os estudos sobre as mulheres, mais especificamente os estudos de gênero relacionados à educação profissional feminina abordam esta questão. E para melhor compreensão do grupo social ao qual Alceu Penna poderia estar destinando seus desenhos de figurinos de moda. Para as mulheres, que poderiam ter acesso aos modelos internacionais por meio da revista, serem estas possivelmente, de uma formação profissional de corte e costura (formação de costureiras e modistas) e de prendas domésticas (formação para o

a construção do sentido empreendido no todo da obra dos figurinos de moda criados por Alceu Penna, situada naquele contexto social do universo do cotidiano feminino. Por conseguinte, a figuratividade apresentada nas imagens selecionadas abaixo, transcorrerão em um fazer descritivo e reflexivo.

4 Ver FERNANDES, Rosane Schmitz. “Escola profissional feminina de Florianópolis: reproduções

sociais e culturais “costuradas” pela educação popular (1935-1983)”. Dissertação de Mestrado em Educação e Cultura. Universidade do Estado de Santa Catarina. Florianópolis. 2007. E também FERNANDES, Rosane Schmitz; GARCIA, Letícia Cortellazzi. “Escola Profissional Feminina e Ginásio Feminino do Colégio Coração de Jesus: uma análise comparativa das práticas escolares em Florianópolis (1935-1945)”. ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: MÍDIA E CIDADANIA, XI. Anais Eletrônico, Florianópolis, 2006.

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