1. GİRİŞ
2.1. Araştırma özetleri
Sobre gramaticalização, os primeiros indícios já eram encontrados nas gramáticas gregas e, já no século XIX, nas observações dos estudiosos comparatistas, a citar Meillet (1965, p. 130-131), que a define como sendo “a atribuição de característica gramatical a uma palavra anteriormente autônoma”. A definição do autor envolve um tipo de procedimento pelo qual há transformações dos termos linguísticos, ficando mais gramaticalizados28 no decurso do tempo ou ainda, numa abordagem paradigmática, como as formas gramaticais aparecem em um sistema linguístico, como são utilizadas pelos seus falantes e, por fim, como essas formas moldam o idioma. Com o avanço dos estudos nessa área, verificou-se a necessidade de se voltar às análises diacrônicas para a explicação dos fenômenos linguísticos que se
28Entendemos que um termo é considerado “gramaticalizado” quando passa por mudanças linguísticas em suas
gramaticalizaram com o tempo.
A gramaticalização por ter uma vertente diacrônica, determina a evolução de uma palavra ou de expressões linguísticas ao longo do tempo. A importância do enfoque diacrônico no estudo da gramaticalização incita à análise dos meios que proporcionam a sua ocorrência. No processo de gramaticalização, tanto novas funções surgem a partir das formas que já existem quanto novas formas aparecem para as funções já conhecidas na língua. A isto se deve a caracterização de uma gramática composta por expressões que estão, a todo instante, sendo negociadas na comunicação, não podendo, assim, se dissociar do discurso. Hopper (1987) afirma que uma gramática nunca está terminada, está sempre inacabada, não há fim, pois a língua está em processo constante de mudança, isto é, sempre passando pelo processo de gramaticalização.
Dessa forma, os fenômenos que geram a gramaticalização são a regularidade e a frequência do uso da forma linguística, pois uma forma será mais gramaticalizada a proporção de sua frequência na situação comunicativa, o que faz desse uso constante de um termo destacar o seu nível de gramaticalização.
É claro que se partimos dos pressupostos da Teoria de Variação e Mudança, a qual encara a língua como um produto social e que está, a todo momento, em transformação – já que são os falantes de uma mesma comunidade de fala que, ao interagir, escolhem as formas e atribuem funções que se adequem à construção discursiva – podemos dizer que o fenômeno linguístico da gramaticalização possui duas vertentes: a sincrônica e a diacrônica, pelo fato desta última descrever e analisar as modificações que aconteceram ao longo do tempo, e aquela por observar as transformações que acontecem no uso da língua.
Para Gonçalves et al. (2007, p. 16), a gramaticalização é a “maneira como formas gramaticais e construções surgem e como são usadas”. Os autores, no entanto, avaliam a gramaticalização como um “processo” em que se observam os elementos linguísticos (morfossintáticos e sintáticos) que, com o tempo, passam a ser “mais gramaticais”, isto é, passam a pertencer a mais de uma classe gramatical. Ainda para os autores (2007), a visão diacrônica dos fatos linguísticos proporciona esclarecimentos de como itens gramaticais aparecem e se processam na língua, bem como a visão sincrônica esclarece porque determinado elemento linguístico assume outras categorias gramaticais a partir dos usos que
os indivíduos fazem dele.
Embora os autores já mencionados reconheçam os atributos que separam itens lexicais e gramaticais em categorias distintas, isso não quer dizer que um item lexical (caracterizado por representar ações, estados, qualidades e processos) não possa, de acordo com o uso pelos falantes, passar a ser um item gramatical (caracterizado por unir termos, frases e partes de um texto, como também distinguir ideias temporais, aspectuais e modalizadas).
Para Castilho (s/d:7),
é o trajeto empreendido por um item lexical, ao longo do qual ele muda de categoria sintática (=recategorização), recebe propriedades funcionais na sentença, sofre alterações morfológicas, fonológicas e semânticas, deixa de ser uma forma livre, estágio em que pode até mesmo desaparecer, como conseqüência de uma cristalização extrema.
Um termo poderá ser gramaticalizado quando os falantes de uma determinada língua, sentindo o imperativo de se fazer compreender e não encontrando a forma-função adequada para compor seu discurso, a recategorizam semanticamente, instaurando, assim, uma nova funcionalidade para um termo na língua. Em Neves (2006, p. 258), a gramaticalização é vista como se fosse um desdobramento semântico da forma gramatical original para atingir um determinado propósito comunicativo, o que não quer dizer que este anule o significado original da palavra gramaticalizada, podendo, até mesmo, estarem em competição; ao contrário, as possíveis variações funcionais podem ocorrer de acordo com a situação em questão.
A autora (1997) apoia-se nos pressupostos de Hopper e Traugott (1993, p. 2) para afirmar que existem dois caminhos a tomar quando se fala em gramaticalização. O primeiro refere-se à gramática histórica, que se propõe pesquisar como se processou o surgimento das expressões gramaticais e suas possíveis transformações ao longo do tempo; o segundo refere- se às análises linguísticas do real uso que o falante faz da língua em seu grupo social. E vai mais além, quando decide categorizá-la como sendo um “processo pancrônico” de ajustamento linguístico (2002, p. 176).
Vale ressaltar que forças que pressionam o discurso do falante não se resumem apenas às suas questões particulares, como necessidades de informação, de interesse, argumentativas, discursivas; trata-se, pois, de forças que interferem na língua em uso, atingindo as formas gramaticais e ocasionando, de fato, mudanças polissêmicas ou mudanças de significado.
O processo de gramaticalização, segundo Heine (1991), diz respeito à diacronia, já que objetiva analisar o progresso das expressões de uma língua à medida que reconstrói seu panorama histórico, relacionando essas expressões atuais do uso dos falantes aos protótipos que as antecederam. Assim, para o autor, uma forma gramaticaliza-se quando adota um ou mais papéis gramaticais, sendo esse fenômeno encarado como uma mudança linguística, propensa a consequências gramaticais, referentes aos mecanismos de variação.
Destaquemos a formação e o uso do futuro do pretérito no Português sob a ótica do processo de gramaticalização. À época do Latim vulgar, ou seja, o Latim falado, o auxiliar
habere – verbo com sentido completo no Latim – passou a ser auxiliar, gramaticalizando-se,
uma vez que no Latim não existia tempos compostos, muito menos perífrase verbal com valor de futuro. Habere direcionou-se para uma categoria gramatical, deixando de ser lexical e assim abrindo novos caminhos para a formação do futuro do pretérito em Português.
Câmara Jr., em seu dicionário de linguística e gramática (2004, p. 130), define a gramaticalização como um
Processo que consiste em transformar vocábulos lexicais, ou palavras (v.), providos de semantema, em vocábulos gramaticais (v. vocábulos). É em principio a origem diacrônica de todos estes últimos vocábulos. Quando num estado linguístico coexistem a palavra e o vocábulo gramatical, decorrente da gramaticalização, tem-se um caso de derivação imprópria (v.) [...]
As gramáticas sofrem transformações a partir do processo de gramaticalização29 das formas verbais, de acordo com Bybee, Perkins & Pagliuca (1994). Os autores dizem que verbos modais de obrigação são mais frequentes no discurso, e por essa razão, ir e vir, que exprimem movimento (ser levado em direção a algo ou alguém), tendem a se gramaticalizar
29
quando aparecem num contexto que expressa futuridade, pois denotam uma espécie de
intencionalidade discursiva futura por parte do usuário. Eles assinalam, também, que a
genealogia do futuro, de uma maneira geral, é justamente a que acusa intencionalidade do falante, como desejo, volição, obrigação, dever e necessidade.
Na perspectiva de Bybee (2003, p.146), a gramaticalização caracteriza-se pelo “processo pelo qual um item lexical ou uma sequência de itens se tornam um morfema gramatical, mudando sua distribuição e função no processo”.30 Outra caracterização do termo é vista em Traugott e Köing (1991, p.208-209), em que dizem ser algo “dinâmico, histórico, unidirecional pelo qual itens lexicais no curso do tempo adquirem um novo status como gramaticais, formas morfossintáticas, e no processo passam a codificar relações que ou não eram codificadas antes ou eram codificadas diferentemente” 31.
Para Givón (1979), é a partir do discurso32 que se parte para a compreensão das unidades estruturais de um sistema linguístico. Em sua célebre frase “a morfologia de hoje é a sintaxe de ontem” (GIVÓN, 1971, p. 413), o autor diz que é no fenômeno da gramaticalização que a pragmática comunicativa dá acesso à sintaxe dentro do texto. A utilização das expressões linguísticas faz com que a gramática sofra adaptações. Assim, a repetição ou frequência da noção de um termo ou construção da língua é o meio pelo qual os ajustamentos da língua acontecem (cf. Givón, 1979).
Givón (1991, p. 81-127), por seu turno, ressalta, numa perspectiva diacrônica, que elementos gramaticalizados se modificam no decorrer do espaço temporal. Já em uma perspectiva cognitiva, esses elementos passam por um fenômeno imediato (ajustamento gramatical e de significação linguística), no qual estão envolvidos os aspectos semânticos, pragmáticos, morfossintáticos e fonológicos – estes últimos ligados à estrutura da língua e aqueles ligados à funcionalidade das formas no contexto comunicativo.
Englobando as definições acima, podemos concluir que o processo de
30
“Grammaticalization is usually defined as the process by which a lexical item or a sequence of items becomes a grammatical morpheme, changing its distribution and function in the process.”
31“[…] refers primarily to the dynamic, unidirectional historical process whereby lexical itens in the course of
time acquire a new status as grammatical, morpho-syntactic forms, and in the process come to code relations that either were not coded before or were coded differently.”
32Entendido como estruturas sintáticas de grande porte, que se encaixam, formando um bloco, passível de
gramaticalização – que ocorre ao longo do tempo, daí seu viés histórico – ocasiona mudanças nas estruturas linguísticas: unidades que pertencem ao léxico (as palavras) sofrem alterações em seus campos semânticos, devido às pressões externas produzidas pelos falantes de uma comunidade, transformando-as em unidades gramaticais para suprirem uma lacuna que não está sendo preenchida com as expressões já existentes.
Cabe salientar, também, que a frequência com que um termo gramaticalizado pelos indivíduos é utilizado faz parte do processo em questão. Dessa forma, tanto a diminuição do uso da forma-função original, quanto o aumento do uso do novo estatuto funcional adquirido pela forma anterior, condicionam a gramaticalização. Determinadas construções gramaticais trocam de papel e permanecem processando novas funções gramaticais. É o exemplo latino da perífrase verbal de futuro, na qual o verbo habere exercia a função de auxiliar. No decurso do tempo, adveio a concentrar a ideia de futuridade.
Diante do exposto, questionamo-nos a respeito das possíveis consequências dos processos de gramaticalização. Sabemos, pois, que é um fenômeno que não pode estacionar no espaço, nem, conscientemente, o falante pode estabelecer critérios para itens lexicais serem gramaticalizados. Destarte, Lichtenberk (1991, p. 38) diz que as estruturas linguísticas são “produtos de desenvolvimento histórico, entre eles a gramaticalização”, acarretando novas classes gramaticais para um mesmo item lexical, sobrepondo-se, por vezes, à classe a qual pertencia, podendo perdê-la ou mantendo-a. E, corroborando a observação de Lichtenberk (1991), temos Lehmann (1991) que nos mostra algumas implicações do processo de gramaticalização nas línguas: primeiro, a acessibilidade de uma unidade menos gramatical para mais gramatical; segundo, sons e sentido se alteram, e terceiro, essa unidade acaba por se tornar imprescindível em certos contextos de uso, o que faz com que ela tenha menos flexibilidade posicional dentro da frase.