SOSYAL BÜTÜNLEŞMESİ 2
2. AraĢtırmanın Problemleri
ram as habitações e os modos de morar das camadas pobres na cidade como sendo um dos focos de irradiação de epidemias e propagação de vícios de todos os tipos e o combate à existência dos cortiços marcou o crescimento de inúmeras cidades paulistas (CHALHOUB, 1996). Nas pesquisas de documentação referente ao período em São Carlos, encontramos um edital de demolição de cortiços existentes na cidade (ver figura 07), localizados nas ruas Jesuino de Arruda, Visconde de Inhaúma, Uruguayana (atual 9 de julho), São Carlos (atual avenida São Carlos), Aquidabam, Riachuello, José Bonifácio, e rua do Mercado (atu- al Geminiano Costa). Diferente do que outros autores defenderam até o presente momento, as intimações publicadas no jornal confirmam a existência de cortiços na cidade pelo menos em fins do século XIX.
Para os higienistas, o fato era sinônimo da proliferação de do- enças contagiosas; para a elite econômica, a presença dessas edificações
de moradia coletiva distanciava cada vez mais o centro urbano dos tão desejados moldes europeus; e finalmente, para a população de baixa renda, o cortiço era uma das poucas soluções de habitação no centro, demonstrando a dificuldade do acesso à moradia29.
Bortolucci destaca que a preocupação das autoridades com a demanda por moradia pode ser identificada na criação de leis como a de número 225, de 1919, que incentivou a construção de casas a serem destinadas especificamente ao aluguel (de preço controlado) sem, no entanto, deixar de lado os requisitos de higiene.
Art. 1o: A Camara Municipal de São Carlos concederá
isenção de todos os impostos municipais pelo prazo de 20 annos, em favor dos proprietários que fizerem edificar, nesta cidade, em sitios escolhidos de accordo com a Prefeitura e nas conformidades das plantas que
29 _ Para um estudo mais detalhado sobre os cortiços nos centros urbanos, ver o tra- balho de Sidney Chalhoub “Cidade Febril - Cortiços e epidemias na corte imperial”, 1996.
Figura 07 _ Reportagem do jornal O São Carlos do Pinhal, diário republicano, publicado no dia 07 de maio de 1896.
forem approvadas, grupos de, pelo menos, cinco casas cada um, obedecendo as precisas condições hygienicas, e destinarem taes casas a serem alugadas por preço não excedentes a 30 mil réis cada uma (Código de Posturas da Camara Municipal de São Carlos do Pinhal, 1902, p.23).
Vale ressaltar que o benefício seria aplicado a casas construí- das em locais determinados pela Prefeitura, demonstrando mais uma oportunidade de efetivar a segregação espacial da população pobre na cidade. Complementa esta estratégia a lei de número 217, elaborada em 1917, que fazia uso de prêmios anuais, como a isenção de impostos, da- dos às construções esteticamente mais elaboradas no núcleo da cidade. Nota-se que o recorte cronológico desta pesquisa, das décadas de 1880 a 1920, foi marcado não apenas pelo adensamento da popula- ção urbana, mas também, em resposta a esse processo, pela expansão da cidade. Se por um lado era importante a criação de normas para sanar os problemas ligados à saúde e de uma linguagem urbana na con- figuração da então São Carlos, por outro lado, era essencial atender às demandas de uma classe social pobre e necessária para a manutenção dos serviços na cidade, mas que não poderia arcar com as consequên- cias advindas da valorização dos imóveis reformados, como o aumento no aluguel. A resposta a essa problemática foi dada através da expansão urbana. Na medida em que o núcleo central ia se modernizando, com a adequação das construções já existentes aos ideais estéticos e sanitá- rios da época, ocorreu um processo natural de expulsão da população de baixa renda da região central para novos bairros periféricos, criados pela iniciativa privada. Por se distanciarem do miolo central da cidade, esses loteamentos não receberam com a mesma rigidez a aplicação das normas sanitárias e dos Códigos de Postura, possibilitando que a po- pulação de baixa renda construísse suas casas como pudesse. A falta de infra estrutura nos bairros permitiu que eles se tornassem acessíveis a esta população, que puderam morar de aluguel, ou até mesmo comprar terrenos para construir suas habitações.
A similaridade das casas nas figuras 08 e 09 demonstra como as normas de construção foram utilizadas de maneiras diferentes na cidade. O que era condenável no núcleo central já em 1918 (figura 08), era considerado aceitável nos bairros periféricos como a Vila Isabel e ainda existia na década de 1980 (figura 09).
Até 1888 a cidade tinha sofrido uma expansão apenas no sen- tido norte-sul, direcionada a partir da então rua São Carlos (avenida, hoje) com as demais ruas paralelas e perpendiculares a ela, seguindo o modelo hipodâmico implantado em grande parte das cidades paulistas criadas desde meados do século XVIII. Com a chegada da ferrovia em 1884, o traçado do núcleo central da cidade se expandiu em sua direção, no sentido sudoeste. Da mesma forma, a implantação do cemitério no extremo norte da rua São Carlos, em 1890, provocou outro eixo de ex- pansão. A partir de 1890, a cidade passou por uma significativa expan- são, com a criação de novos bairros distribuídos na periferia urbana,
Figura 08 _ Casas na rua Episcopal, no núcleo central, que não satisfaziam os requisitos de higiene em 1918. Fotógra- fo desconhecido.
Figura 09 _ Casa na Vila Isabel na década de 1980. Um dos bairros periféricos criados no final do século XIX.
abertos em um curto espaço de tempo, mas com características bastan- te variadas (ver tebela 01 e figura 10). Analisando-os isoladamente, po- demos extrair a porcentagem de negros de cada população específica, como demonstrado na figura 11.
Ano de implantação Nome do parcelamento Proprietário Área (hec.)
1889 Vila Nery Joaquim Alvez de Souza Nery 15,0 1891 Vila Isabel Casimiro C. de O. Guimarães 17,0 1891 Vila Pureza Manoel Antônio Mattos 26,8 1893 Vila Prado Leopoldo de Almeida Prado 57,7
Tabela 01
Bairros Periféricos em São Carlos
Fonte: LIMA, 2008, p. 57.
Figura 10 _ Delimitação dos bairros cria- dos até 1893 e estudados nesta pesquisa, na cidade de São Carlos.
Vila Nery
Vila Isabel
Núcleo Central Bairros Periféricos
Vila Pureza
Figura 11 _ Porcentagem de negros em cada um dos bairros, em 1907. Dados do Recen- seamento Populacional de São Carlos, 1907.
12,3% _ 944 dos 7.688 moradores 30,1% _ 132 dos 438 moradores 41,7% _ 68 dos 163 moradores 46,7% _ 93 dos 199 moradores Vila Pureza Vila Nery Vila Isabel Núcleo Central Vila Prado
Planta Cadastral da Vila Nery
Legenda:
1_ Antigo cemitério 2_ Balão do bonde 3_ Nery Parque
planta cadastral da VILA NERY
Elaboramos esta Planta Cadastral na bus- ca de ilustrar como seria o bairro no recorte cronológico da pesquisa: de 1890 a 1920. Para isso, utilizamos como referência ma- pas, plantas cadastrais e levantamento foto altimétrico de São Carlos, coletados na pes- quisa e incluídos no anexo desta disserta- ção, junto às devidas fontes. O desenho é da autora.