Selma não é uma personagem previsível, e sim por vezes imperscrutável, dotada de complexidade. Reflete a ambiguidade própria da tragédia e seu ensinamento ontológico de que o homem não é um ser que se possa ―descrever ou definir, é um problema, um enigma cujos duplos sentidos jamais se chegou a decifrar‖ (PUCHEU, 2010:118). Em sua condição Selma reúne a mesma coincidentia opositorum que habita a trajetória de Édipo – e, em certa medida, a de todos os homens –, que é ―a um só tempo o que sabe muito e o que nada sabe, o exagero das duas direções contrárias contidas na mesma pessoa‖ (VERNANT apud PUCHEU, 2010:118).
A protagonista se vê enredada em um conflito ético após matar Bill (o que a remete a uma esfera do trágico, segundo Lesky), embora o primeiro tiro tenha sido disparado acidentalmente. Bill lhe armara uma cilada ao roubar suas economias reservadas para a cirurgia de Gene. A falha de Selma é o que desencadeia a sua trajetória trágica. O dilema ético se apresenta, no entanto, ainda antes de Selma cometer seu erro, pois é visível sua hesitação e sofrimento perante a encruzilhada em que está inserida (diante da escolha de cometer ou não o assassinato, de salvar ou não o filho) e ante o pedido de Bill.
De fato, ao contrário da epopeia e da poesia lírica, onde não se desenha a categoria da ação, já que aí o homem nunca é encarado como agente, a tragédia apresenta indivíduos em situação de agir, coloca-os na encruzilhada de uma opção com que estão integralmente comprometidos, mostra-o no limiar de uma decisão, interrogando-se sobre o melhor partido a tomar (VERNANT; NAQUET, 1999:21).
Ao matar seu amigo, Selma revela-se uma espécie de anti-heroína. Tentando traçar um paralelo com o melodrama, podemos destacar que um herói melodramático não cometeria tal hamartía, visto que seria um herói de excessiva bondade e qualidades, desconhecedor do erro. Ou então seria a antítese disso, um herói excessivamente mau, um vilão. Em suma, o herói do melodrama não conhece a dúvida e caminha irresolutamente ou no caminho do bem ou no do mal, não possuindo nuanças psicológicas. ―No melodrama há objetivos a alcançar ao invés de dilemas de consciência‖ (HUPPES, 2000:113).
A cena em que Selma atira em Bill pela primeira vez configura, a princípio, um acidente, já que ocorre quando Selma tenta reaver o dinheiro das mãos de Bill, que está armado. Selma, no entanto, na seqüência acaba por matá-lo, coagida por ele a fazer isso e também para reaver seu dinheiro e salvar seu filho. É verdade que Bill lhe pede várias vezes para que seja morto, porém o faz mais na intenção de criar tempo para que Linda (Cara Seymour), sua mulher, chame a polícia. Posteriormente, a cena é carregada de outros elementos, como o fato de Selma machucar o rosto de Bill e posteriormente sabermos que ela o feriu mais de 30 vezes, o que denota a complexidade da personagem. Ao mesmo tempo em que ela contém o extremo da bondade e abnegação, encerra também o exagero da mácula, o que denota uma ambiguidade concernente à personagem e aos heróis trágicos, suas tensões e paradoxos: ―na perspectiva trágica, o homem e a ação se delineiam, não como realidades que se poderiam definir ou descrever, mas como problemas. Eles se apresentam como enigmas cujo duplo sentido não pode nunca ser fixado ou esgotado‖ (VERNANT, 1999:16).
Em Dançando no Escuro não há estereótipos de personalidade. Selma se questiona acerca do ato cometido e sofre a culpa por tê-lo feito, expressando isso quando se imagina, enquanto canta, pedindo desculpas a Bill. Afirma constantemente: ―tudo parece tão errado‖. Além de entremear seu canto com a afirmação, referindo-se a si mesma em segunda pessoa: ―Selma, sua tola, a culpa é toda sua‖. Numa das cenas ela senta-se diante de um espelho,
como a interrogar-se a si mesma o que está acontecendo. Nesse momento, solta os grampos do cabelo e o assanha, como a apontar para o estado aflitivo em se que encontra.
Quando se abstrai (por meio de seu canto pungente) da realidade em que está vivendo, Selma se imagina sendo perdoada por Bill e por sua mulher pelo erro cometido. Imagina também seu filho, andando de bicicleta em círculos do lado de fora da casa e afirmando – qual um canto ditirâmbico, um coro trágico – que ela fez o que deveria ter feito (you just did what you have to do), que fez o que foi preciso. Logo em seguida, porém, Selma reafirma que a culpa é toda dela própria. A afirmação de Gene reflete o murmúrio das ruas, isto é, o que talvez de fato o público pensa, pois, no contexto da antiguidade grega e da tragédia clássica, o público ―reencontrava a si mesmo no coro da orquestra‖ (NIETSZCHE, 2007:55).
Gene, qual um coro trágico, afirma que Selma fez o que deveria fazer.
Ainda sobre a cena posterior à morte de Bill, o perdão que Selma roga ao casal, Bill e Linda, não se refere, no entanto, somente a Bill e a sua mulher, mas à própria sociedade dos Estados Unidos. Roga que ela a ―perdoe‖ por sua condição de estrangeira, de outsider. E, agora, criminosa. Isso fica simbolizado ainda nessa cena, no momento em que Selma, em sua imaginação, sai da casa de Bill e vê uma bandeira americana tremulando. Aqui fica evidente o viés político do qual o filme é perpassado: a bandeira dos EUA representando o estilo de vida americano e a felicidade que Selma almejava ter ao imigrar nos EUA para tratar seu filho; estilo de vida que acaba por enredá-la na situação em que está. Na cena do tribunal, quando ela está sendo julgada, Selma imagina ainda que é a estrela de um musical e, assim, sonha que todos estão ali para homenageá-la e perdoá-la. Na cena seguinte, ela é condenada.
A ação trágica em Dançando no Escuro ocorre entre pessoas que possuíam um forte laço de amizade, no caso, Selma e Bill. O espaço da tragédia, segundo Aristóteles, se encontra no cerne das fortes alianças, pois somente as ações que se sucedem entre pessoas próximas – um amigo, um pai, um irmão – são capazes se suscitar a piedade e o terror, pois consoante o filósofo, se a ação se passasse entre inimigos, não seria causadora de compadecimento e não produziria a catarse. Como endossa Szondi (2004: 82), acontecimentos dolorosos podem ser considerados ―terríveis e tocantes no mais alto grau quando ocorrem em relações de afeto, ‗quando por exemplo um irmão mata um irmão ou a mãe mata o filho...‘‖.