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SONUÇ, TARTIġMA VE ÖNERĠLER

5.2. ÖNERĠLER

5.2.2. AraĢtırmacılara Yönelik Öneriler

Em maio de 1981, o artista Ney Matogrosso lançou pela gravadora Ariola

discos Ltda o seu novo long play, intitulado Ney Matogrosso4. Com contrato assinado com a nova gravadora e a empresa Matogrosso Produções Artísticas o cantor inaugura uma nova fase dentro de seu processo de concretização de sua autonomia face a ordem imposta pelo mercado fonográfico e pelo show business. No entanto, antes do lançamento oficial do LP, o cantor gravou um compacto simples com as músicas Folia

no Matagal e Seu Valdir para fins de divulgação de seu novo trabalho pela Ariola discos. Por questões de natureza moral a música Seu Valdir foi vetada pelos órgãos de repressão e censura do regime militar.

Dessa maneira, apenas a música Folia no Matagal foi liberada para a

gravação e divulgação do Lp. A revista Amiga anuncia esse fato em relação à censura: “No primeiro disco gravado pela nova marca (compacto simples), Ney encontrou, também, o seu primeiro problema. A música Seu Valdir, que inicialmente não obteve parecer positivo da censura, levou ao recolhimento de alguns exemplares do disco das lojas.” (NEY MATOGROSSO, 1981)

Passado esse entrave com a censura e com a posterior liberação da música

Seu Valdir, foi lançado oficialmente o LP Ney Matogrosso, entretanto a música outrora vetada, não foi incluída nesse novo trabalho. Apenas Folia do Matagal permaneceu. O LP trazia em sua capa a cabeça do artista5como se estivesse decepada, em cima de luzes azuis de néon,as quais representam os contornos de uma metrópole, anunciando o nome do cantor Ney Matogrosso.

Músicas:Deixaamenina(ChicoBuarque),EspinhadeBacalhau(SeverinoAraújoeFaustoNilo),Viajante(Terez a Tinoco),Mata Virgem(Raul Seixas e Tania Menna Barreto),Homem Com H(Antonio Barros),Amor Objeto(Roberto de Carvalho e Rita Lee),Vida-Vida(Moraes Moreira, Zeca e Guilherme Maia),De Marte(Luli e Lucinha),Folia no Matagal(Eduardo Dusek e Luis Carlos Góes). Ficha Técnica: Direção Artística: Mazola. Produção e Mixagem: Mazola.Projeto Musical:Fausto Nilo, Mazola, Ney Matogrosso, Alexandre Agra.Estúdios de Gravação:Sigla e Transamérica-RJ.Técnicos de Gravação:Carlão (Sigla) e Vitor (Transamérica).Auxiliares de Gravação:Serginho, João Ricardo, Eduardo e Nestor (Sigla) , Magro (Transamérica).Auxiliares e Mixagem:Ney Matogrosso, Alexandre Agra.Auxiliares Técnicos de Mixagem: Marco Aurélio, Carlos, Magro, Aníbal, Rafael Azulay (Transamérica).EquipeTécnica: Dudu,RicardoAugusto(Transamérica),Gordinho(Sigla).Montagem:WilsonMedeiros.LayOut:YukaParkins on,LuisFernandoe Ney Matogrosso.Ilustração:Yuka Parkinson. Fotos: Luis Fernando (capa) e Wilton Montenegro (encarte).Coordenação Gráfica:J.C. Mello.

5 Vale ressaltar que a arte cênica desse trabalho de Ney Matogrosso o sétimo de sua carreira solo, remete

a concepção da capa do primeiro LP do grupo Secos & Molhados, onde aparece a cabeça decepada de seus quatro integrantes servida em bandejas entre artigos de secos e molhados.

O rosto do artista apresenta-se sutilmente pintado, olhos contornados levemente de preto e os lábios com batom de tonalidade vermelho-claro. Em cima de sua cabeça, pairava uma grande águia de asas abertas, dando a impressão de estar sobrevoando a cidade conduzindo o cantor. A Folha de São Paulo comenta em matéria publicada em 16 de agosto de 1981 a concepção cênica do LP, chamando a atenção do leitor para o caráter místico da obra: “Ney escolheu para a capa a figura do gavião real. Não só pela ligação simples com a vida animal. Há também uma aproximação mística: um simbolismo de espaço, altos vôos – um pairar acima de tudo, característica reforçada por Leão, o signo forte” (TAIAR, 1981).

Fonte: Matogrosso site oficial (2006)

Figura 17 – Ney Matogrosso capa LP, 1981.

Esse trabalho do cantor foi produzido à época pelo produtor musical Marco Mazola, tendo sido marcado por uma multiplicidade de ritmos como, Deixa a Menina um samba de Chico Buarque, Amor Objeto uma canção pop de autoria de Rita Lee. Músicas melódicas de ritmo lento como Viajante de Tereza Tinoco, Mata Virgem de Raul Seixas e De Marte da dupla Luli e lucinha, somado a eufórica marchinha carnavalesca Folia no Matagal de Eduardo Dusek e do forró Homem com H de Antônio Barros. Essa última foi a música mais executada nas rádios, onde sugeria uma ambigüidade em função da imagem do artista aproximar-se do universo feminino em contrapartida a letra da música que remetia ao universo do “macho” nordestino.

A Folha de São Paulo publica: “Homem com H a canção está nas paradas de sucesso, e para muita gente a música parece uma provocação. Ney declara a Folha: “É uma uma provocação bem-humorada: não tem nada de agressivo. As pessoas, a meu ver, acham engraçado porque ainda tem aquela imagem de androginia no ar” (CAMBARÁ, 1981). Dessa maneira o long play do cantor ficou caracterizado por uma

heterogeneidade de sons e ritmos com grande aceitação e vendagem no mercado, resultando dessa maneira no primeiro disco de ouro da carreira solo do cantor pela gravadora Ariola. O Jornal da Tarde publica em 14 de agosto de 1981: “Em pouco mais de um mês, com apenas um show no Rio, já vendeu mais de cem mil cópias. A Ariola, sua atual gravadora até aproveitou o coquetel de anteontem para lhe entregar um disco de ouro” (NEY, 1981).

A Folha de São Paulo aborda o assunto, em 16 agosto de 1981, com a manchete: O imprevisível Nei. “Seu som e sua marca relata o momento do recebimento do disco de ouro após entrevista coletiva concedida pelo cantor a imprensa no Salão Topázio do Hotel Brasilton em São Paulo: Por isso, foi aqui que ele recebeu da Ariola, ao final da coletiva, o primeiro disco de ouro, por seu último disco ter ultrapassado o total de cem mil exemplares vendidos” (TAIAR, 1981).

Sobre o reconhecimento da mídia e da indústria fonográfica pela premiação de um disco de ouro, o cantor demonstra um certo ressentimento com esses setores em entrevista concedida à Rede Globo de Televisão, durante a veiculação de seu espetáculo

Ney de Souza Pereira no programa Grandes Nomes. Ney Matogrosso declara: “Não sou uma avis rara, sou um cantor, embora somente esse ano, após sete de carreira, tenha ganho um prêmio” ( NEY, 1981 apud FILHO, 1981, p.01).

Continuando esse reconhecimento ao talento do artista, foi publicada no Jornal da Tarde matéria enaltecendo o fato de que há muitos anos nenhum outro cantor brasileiro havia conseguido tamanha projeção, tornando-se, portanto, um astro apenas por cantar, sem compor, sem tocar instrumento e sem apadrinhamento; de que o artista foi construindo sua independência ao longo de sua carreira solo e que hoje só canta o que quer e como quer, após três mudanças de gravadoras. Comentando acerca de sua relação com as gravadoras e repertório a ser gravado o cantor declara ao jornal fazendo menção ao seu processo de autonomia artística:

Quando escolho músicas aceito sugestões, mas nunca abro mão da última palavra, sou eu quem decide. Não sei guardar nada pra depois. O que tenho de falar eu falo na hora. Bato muito a boca, lavo muita roupa suja mesmo, não tenho medo de falar mal de gravadora. Por mais amigos que todos sejam, sei que se trata sobretudo de uma relação comercial. Eu interesso a eles na medida que dou lucro, ninguém vai se lembrar de mim e me proteger quando eu estiver velho e sem voz. (PEREIRA, 1981)

O show levou o mesmo nome do LP Ney Matogrosso e estreou no início de junho de 1981 na casa de espetáculos Canecão-RJ. Tal qual a capa do LP, o cenário do espetáculo trazia a águia no fundo do palco em uma concepção mística:

Como a capa do seu último disco, o cenário do show de Nei Matogrosso, no Canecão, é dominado por uma águia. Para o cenógrafo, Marcos Flaksman, a ave tem imponência, a beleza, a agressividade e a agudeza do artista. Para seu secretário, Luisinho, Nei é a própria águia: “Ele está sempre sobrevoando, pairando sobre tudo e sobre todos”. Mas, para Nei Matogrosso, a águia tem um simbolismo especial: é a mente humana em elevação, “procurando algo que está acima de nós” (CAMBARÁ, 1981).

Segundo depoimento do próprio artista a concepção de tal espetáculo foi direcionada ao público no sentido do entretenimento desvinculado de correntes político- filosóficas. Dessa forma, o trabalho do artista recebe críticas negativas por parte de alguns segmentos de esquerda e da mídia que naquele momento ansiavam por ver um comportamento em cena do artista mais politizado em relação às questões sociais. O patrulhamento político-ideológico exercido por alguns setores da mídia e dos partidos de esquerda, os à época chamados “inteligentistas”, era expressivo, pois exigiam um “engajamento” do artista nas causas sociais. Ney declara sua intenção sobre a montagem de seu novo espetáculo ao Jornal O Globo:

A minha intenção é fazer um show que divirta as pessoas, quero que vejam um espetáculo bonito, bem feito, fazer o melhor. Penso que nos momentos de crise, o povo merece um pouco de diversão. Existe uma parte da inteligentzia que me cobra atitude, mas eu só quero divertir as pessoas. Meu Deus! Não preciso falar nada, as pessoas estão vendo, sentindo...Não é um trabalho menor distrair alguém por uma hora, durante um dia! A inteligentzia quer que eu fale de miséria, mas está tudo tão claro, flagrante, todos sabem que o País, que o mundo, que o planeta vai mal, está nos seus estertores. Quero divertir as pessoas e sinto prazer quando termino um show e vejo o público feliz. (PENTEADO, 1981a)

O primeiro passo dado pelo artista rumo à sua consagração face ao público e, sobretudo à mídia, deu-se em função da montagem desse seu novo trabalho. Devido à grande projeção em âmbito nacional que alcançada pelo espetáculo, esse teve a faceta de desvincular a atual da antiga imagem do cantor, a de ex-Secos e Molhados. Dessa maneira o cantor liberta-se de forma significativa do estigma de ex-vocalista do grupo, que foi por anos cultivada pela da mídia.

A partir do espetáculo Ney Matogrosso, inicia-se a consagração popular e a lenta retomada do cantor enquanto fenômeno comercial de massa, em razão da venda inicial de mais de 300 mil cópias de seu novo LP e o retorno de suas apresentações em grandes espaços, com uma produção que incluía diretor, coreógrafo, cenógrafo, bailarinos e uma banda de nove músicos. O cantor Ney Matogrosso declara ao Jornal O Globo a ruptura com o estigma de ex-Secos & Molhados, bem como sua volta aos grandes espaços:

A princípio, eu não sabia como seria. Mas, pela primeira vez, vou ter um diretor – Amir Hadad; um coreógrafo – Ciro Barcelos; três bailarinos; cenografia do Marcos Flaksman, e uma banda com nove músicos. Pretendo fazer um espetáculo grande, para ser apresentado em locais grandes, com grande público. Sempre tive muito pudor em utilizar os “Secos & Molhados”, achava que estaria apelando. Mas cheguei à conclusão de que eu fui “Secos & Molhados”, por isso vamos abrir um show com um número dessa época, feito pelos dançarinos. Eu não estarei no palco nessa hora, mas é uma forma de identificação. A partir daí, resolvemos fazer uma retrospectiva da minha carreira, sem clima de “hora da saudade”, ou “Minha vida é assim”, pois estarei com outras roupas. Vou intercalando músicas antigas com novas e também com músicas que ouço no rádio. Não tenho preconceito em cantar nada que esteja no hit-parade. Somente pinto os olhos e a boca, porque são dois pontos do rosto, no palco,que tem de ser realçados. Agora estou voltando superfantasiado, utilizando esses detalhes como recursos, não preciso mais me esconder de nada. (PENTEADO 1981a)

Em matéria redigida pela jornalista Isa Cambará da Folha de São Paulo, Ney

Matogrosso canta a imponência da águia, publicada em 23 de junho de 1981, é apontada a ruptura do artista com o estigma de ex-Secos & Molhados. Em função da menção feita ao grupo pelo artista em seu novo espetáculo, a Folha publica:

O espetáculo do Canecão que, como o disco, se chama simplesmente, “Nei Matogrosso” – pretende ser uma retrospectiva de sua carreira, ”mas sem um aspecto saudosista”. Pela primeira vez, depois da dissolução do conjunto, Nei relembra, no palco, o conjunto “Secos & Molhados”. “Eu sempre evitei relembrar o conjunto, pois isso me parecia uma tentativa de faturar com o passado. Depois vi que era um preconceito. Afinal, eu fui um dos “Secos & Molhados”. Assim, quando o Amir Hadadad (diretor do show) sugeriu que o espetáculo fosse montado em cima dos meus melhores momentos, resolvi reviver o início da minha carreira. Só fiz uma exigência, que a música escolhida não fosse “O Vira”, que foi a marca registrada do “Secos”, pois não sei se a minha cabeça agüentaria a pressão. Assim, a primeira música do show é a mesma que abria os espetáculos do “Secos & Molhados”: “Mulher Barriguda”. Ao contrário do que muita gente esperava, Nei não surge rebolando em cena. Canta fora do centro do palco, onde brilham três bailarinos, vestidos e maquiados à Secos & Molhados”, representando o conjunto. Quando aparece, não traz no rosto a pintura que usava como vocalista do seu ex-grupo, mas uma máscara” (CAMBARÁ, 1981).

Com esse espetáculo o artista chega segundo o relato de alguns setores da mídia e de sua própria percepção ao requinte artístico em seus figurinos e cenários. A Jornalista Denise Pirez Vaz relata em seu livro Ney Matogrosso um cara meio estranho: “Corria o ano de 81, e o espetáculo, que levava apenas seu nome e é considerado hoje por Ney como o ponto máximo de requinte em termos de figurinos e cenários, chegava ao extremo de um filão exageradamente sexual” (Vaz, 1992, p.117). Continua descrição:

No palco, três bailarinos quase nus contracenavam com Ney em vários momentos, como uma multiplicação da sua própria figura: o show começava com os bailarinos dançando só de tapa -sexo, com o rosto pintado de preto e branco, relembrando a época do Secos & Molhados. Numa determinada hora, o original surgia detrás dos três, o rosto pintado da mesma maneira, só que utilizando o recurso cênico de uma máscara-retirada, ela deixava aparecer o rosto apenas com a boca e os olhos pintados. A roupa, mais tarde, seria retirada pelos bailarinos, culminando no tal strip-tease: deitado sobre as costas de um dos bailarinos, Ney era despido pelos outros dois, ao som de uma batucada, e ficava somente com um tapa-sexo tacheado (VAZ, 1992, p.117).

Em matéria publicada acerca do novo espetáculo do cantor a Folha de São Paulo descreve a indumentária do artista:

São dois figurinos, em que a ousadia é a marca maior. A primeira já foi chamada de “calça frente única”, pois tem aberturas estratégicas na parte de trás. A segunda toda branca, é dominada por um arranjo de couro, em tiras, que Nei usa hora na cintura, ora no dorso nu. Sua nudez, aliás, é quase completa no final da primeira parte, quando ele faz um “strip-tease” – mais um – no palco, mas desta vez, sem espelhos ou biombos. Tanta ousadia já gerou comentários na imprensa, do tipo “vamos ver onde o próximo espetáculo vai acabar”, e “não precisava mostrar tanto”. Mas o público adora, aplaude e pede bis (CAMBARÁ, 1981).

Sobre esse momento de concepção de figurino o artista declara a Folha:

“Mandei fazer uma roupa completamente desvinculada do espetáculo. É uma roupa que não tem compromisso com nada. Se quiser modificá-la, amanhã, posso fazer isso, sem susto. Quis mostrar que a atual fase da minha vida é de transformação, de passagem”. (CAMBARÁ, 1981).

Tal espetáculo foi o primeiro da série de outros em que houve a participação de um diretor em sua montagem e concepção. O show Ney Matogrosso teve em sua

direção o teatrólogo Amir Haddad 6 que acompanhava o artista desde os idos da década de 60. O Jornal do Brasil relata esse encontro entre o cantor e o diretor em matéria publicada em 05 de junho de 1981:

À primeira vista a reunião do cantor com o diretor poderia parecer inusitada, mas o contato e a amizade dos dois é antiga, desde na montagem de O Coronel de Macambira, no TUCA de São Paulo no final da década de 60, quando o futuro Ney Matogrosso assinava os adereços da peça. Trabalhando atualmente só com o Grupo Tá na Rua, Amir Haddad não encontrou dificuldades em dirigir o ator-cantor, como ele o define. O diretor preferiu defini-lo (espetáculo) como uma viagem. (ARAGÃO, 1981)

Em seguida a fala do diretor, em entrevista ao Jornal do Brasil, elucidando a sua direção no tocante ao espetáculo, no sentido de exercer seu papel de provedor e não propriamente dito de um diretor no sentido tradicional do termo. Amir Haddad declara:

Quando falo em dirigir o Ney Matogrosso fica a impressão e que digo pra ele fazer isso ou aquilo. Não dirijo mais ninguém, a nação já tem muitos dirigentes. Há muito tempo que trabalho com a fertilidade das pessoas e Ney é uma cornucópia infindável. A única coisa que fiz foi organizar a criatividade e a fertilidade do Ney e por isso meu trabalho tem pouco em comum com a idéia tradicional de direção. Cito, como, exemplo, de afloração desta fertilidade, que ele tem, a sua procura maior do corpo. (ARAGÃO, 1981)

A Folha de São Paulo notifica esse trabalho reforçando a idéia de criação artística em matéria da Jornalista Isa Cambará, publicada em 23 de junho de 1981, enfocando afinidade e a parceria feita entre diretor e artista fora do sentido tradicional de direção:

Nei e Amir conhecem-se a muito tempo, mas essa é a primeira vez que trabalham juntos. O convite partiu de Nei, “pois todas as vezes que nos encontrávamos, durante meus espetáculos, Amir me dava uns “toques” que coincidiam com meus pensamentos: senti que ele via além de outras pessoas”. Convite feito, convite aceito, pois Amir é muito ligado em música e movimentos, “e um espetáculo de Nei é isso tudo”. O diretor só não gostou de uma pergunta que lhe passaram a fazer, quase que obsessivamente: “E difícil trabalhar com Nei Matogrosso?”. Perguntavam como se a direção fosse o domínio de uma pessoa sobre a outra, como se a única linguagem possível fosse a autoritária. E o que há entre eu (sic) e Nei é, principalmente, respeito.” E foi justamente esse clima, na opinião do cantor, que possibilitou o surgimento de um espetáculo bonito, sincero, aberto. A sinceridade segundo ele mesmo, aparece até na roupa do ‘show’. A imagem está no palco. É o resultado de nosso trabalho, pois quando comecei não tinha uma imagem formada de Nei e acho que, se tivesse, o teria aprisionado. Meu trabalho foi

6Durante a montagem de O Coronel de Macambira, no final da década de 60, no Tuca de São Paulo (na

qual Ney era uma das pessoas que confeccionava objetos de cena), ficou conhecendo Amir Haddad, que, mais de dez anos depois, viria a ser seu primeiro diretor de show (VAZ, 1992).

criar condições para que essa imagem aflorasse no palco. E surgiu uma imagem forte, poderosa, atraente, excitante. No fundo, a própria identidade do artista, embora exista muito da minha expressão no espetáculo. Só que essa expressão não é ostensiva, pois o show, claro, é de Nei Matogrosso” (CAMBARÁ, 1981).

Durante a estréia do espetáculo Ney Matogrosso em junho de 1981 no

Canecão-RJ o artista não somente conseguiu afastar-se do estigma passado, mas também projetou novamente sua imagem perante alguns setores da mídia que o mantinha em um estado de anonimato, como o Jornal do Brasil, que por um período de dois anos vetou qualquer menção ao cantor. Dessa maneira o artista ganhou outra vez notoriedade e visibilidade de forma relevante na mídia, reaparecendo como um novo fenômeno de massa, fato esse que lhe foi atribuído no início de sua carreira quando vocalista do grupo Secos & Molhados.

Sobre tal episódio o cantor declarou de forma contundente, em entrevista concedida ao Jornal da Tarde em setembro de 1981, que só pôde se mostrar para o grande público em sua íntegra, sem cortes oriundos dos órgãos de repressão e censura do regime militar, nem tampouco de alguns segmentos da própria mídia, por meio do programa Canal Livre veiculado pela Rede Bandeirantes de Televisão em julho de 1981.

Os meios de comunicação nunca falaram de uma pessoa, eu, mas da imagem Ney Matogrosso. Na televisão eu só pude me mostrar como sou num programa recente (o canal livre, da Bandeirantes), mas pelo menos desde 73 eu falo tudo. Se não publicavam era um problema de censura dos jornais, nunca meu. Sei de jornais onde minhas fotos foram proibidas e de rádios que passaram anos sem tocar meus discos por preconceitos pessoais dos seus diretores ou donos. ( NEY, 1981 apud PEREIRA, 1981)

Em entrevista a Rede Globo de Televisão durante as gravações de seu