Revogação é norma geral e concreta que traz o fato revogatório no seu antecedente e a conseqüência de que todos seriam obrigados a não mais respeitar a norma revogada.
Revogação é um ato de fala que retira, portanto, a validade de uma dada disposição, afetando, por via de conseqüência, a vigência e eficácia das normas revogadas.
Lembra-se que não se pode confundir a revogação, ato de vontade direcionado a retirada de validade de norma de um dado sistema com a anulação(gênero)/inconstitucionalidade(espécie), que é ato de demonstração de incompatibilidade com a regra de competência de um dado sistema.
Logo, a norma geral e concreta que trata da revogação possui uma obsolescência programada através da potencialização da entropia dialógica do enunciado que o faz obsoleto em virtude de sua única aplicação.
A revogação pode ocorrer em uma série de planos dentro do processo de construção de sentido do direito, do que a revogação, enquanto retirada de validade, atingiria de forma direta ou indireta tais construções, como será melhor elucidado.
A revogação (chamada, aqui de legal) de texto atua no plano da literalidade, do que as disposições são retiradas do sistema do direito positivo, sendo substituídas por outras que as revogam, com a possibilidade de adicionar-se, ainda, regras novas sobre o mesmo objeto da relação jurídica ou mesmos fatos.
Outra forma de revogação, a revogação normativa, é a diminuição de repertório de um dado agente, agindo na geração de impossibilidade de produção de enunciados normativos (S2) ou proposições/normas jurídicas (S3), que sejam, os
chamados por Mendoca139 de normas derivadas.
Lembra-se que, com relação ao fato de a revogação trazer novas
normas ao sistema, não se pode olvidar a disposição do artigo 1º, § 4º da LICC140.
139 Como interpretado por: MOUSSALEM, Tárek Moysés. Revogação em matéria tributária. São
Paulo: Noeses, 2007.
140 Art. 1º Salvo disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país quarenta e cinco dias
Tal parágrafo 4º pode ser considerado como se a revogação fosse correções de uma dada lei, do que uma interpretação possível seria de que as normas introduzidas modificando uma dada lei realizariam o efeito de realizar uma nova série de comunicações jurídicas entrelaçadas, que seja, normas dependentes de outras normas.
Conforme já elucidado, entende-se que a revogação atinge a validade de uma norma e, como a vigência e eficácia (no plano de irritações posteriores ao ato de fala revogatório, tempo no fato) dependem desta para atuarem, ficam prejudicadas, o que será aduzido a seguir.
Obviamente, o sistema de referência adotado é distinto daquele de
Barros Carvalho141, já que este autor sugere que a validade somente é retirada pela
revogação quando a norma não puder ser mais vigente para as situações.
Como contraposição a tal idéia surge a necessidade de que o sistema crie o seu repertório e a sua memória, do que a possibilidade de que os estados alcançados se refiram a tempos ainda não processados pelo sistema.
Logo, a forma de atuação do sistema jurídico funciona sob a lógica da dicotomia ordenamento e sistema, em que as comunicações/programas/normas modificam o seu código a partir da sua revogação no sistema, mas estão disponíveis, enquanto ferramenta instrumental, para a produção de novas comunicações que, por se referirem a tempos anteriores, possuem o código lícito.
Em outro giro, as comunicações revogadas, possuem o código ilícito, mas dito pelo direito, mantendo a forma de acesso ao tempo do sistema, em
§ 1º Nos Estados, estrangeiros, a obrigatoriedade da lei brasileira, quando admitida, se inicia três meses depois de oficialmente publicada. (Vide Lei 2.145, de 1953)
§ 2º A vigência das leis, que os Governos Estaduais elaborem por autorização do Governo Federal, depende da aprovação deste e começa no prazo que a legislação estadual fixar.
§ 3º Se, antes de entrar a lei em vigor, ocorrer nova publicação de seu texto, destinada a correção, o prazo deste artigo e dos parágrafos anteriores começará a correr da nova publicação.
§ 4º As correções a texto de lei já em vigor consideram-se lei nova.
141 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário: linguagem e método. 2ª edição. São Paulo:
contraposição ao tempo do ambiente pelas ferramentas trazidas pela regra que regula o tempo do fato como sendo aquela do momento de produção do evento (tempo no fato) e, ainda, a possibilidade de o sistema gerar desapontamentos a partir do processamento, ainda que não imediato, de uma dada irritação no plano do sistema jurídico.
Reelaborando, o sistema de referência para uma construção normativa segue o tempo no fato para visualizar a lei aplicável aquele momento, do que o fato construído, ainda que com referencia ao passado, é tratado, juridicamente, através da norma aplicável naquele momento histórico.
Portanto, dizer que a revogação atingiria primeiro a eficácia, para posteriormente, atingir o vigor é utilizar ferramentas que contrastam com as premissas adotadas neste excerto.
Por fim, deve ser dito que as categorias de validade, vigência e eficácia de normas jurídicas tratadas referem-se à norma revogada, do que, quanto
a norma revogadora, subsiste o problema apontado por Tárek142 da jurisprudência
do STF que trata da revogação das leis revogadoras por problema de validade, gerando o retorno das leis revogadas.
3.3.2.1. Revogação tácita: uma impossibilidade sob o ângulo do Construtivismo Lógico-Semântico.
Inicialmente, deve ser verificada a interação entre o artigo 2º da LICC e o artigo 9º da LC 95/98, do que, a partir desta interação normativa, algumas interpretações são possíveis.
Uma forma de interpretar é dizer que ocorreu uma (impossível) revogação tácita da LICC com relação ao artigo 9º da LC 95/98, mas que geraria uma contradição em termos da LC, já que ela prevê que a única forma de revogação é a expressa.
Outra forma de tratar é utilizar a atecnia legislativa como forma de compatibilização de tais enunciados, já que quando o § 1º da LICC trata de lei, na realidade trataria da revogação de normas, entendendo que, no plano da produção de significações a partir do texto de direito positivo por parte de sujeitos autorizados/participantes do sistema, retirar-se-ia a possibilidade de se construir normas individuais e concretas a partir de normas gerais e abstratas produzidas através da significação dada por aqueles textos incompatíveis.
Logo, não se trataria, no caso da LC, de revogação no plano S1 e S2 e no caso da LICC de revogação no plano S3, emitindo comandos que impossibilitariam os agentes de produção de individualizações e concretudes a partir das disposições gerais e abstratas incompatíveis.
Como conclusão necessária, deve ser dito que a LICC trata da interpretação no direito brasileiro, enquanto metanorma interpretativa, do que se a norma é criada pela interpretação autêntica, logo, a LICC trata de construção de normas e não de textos de direito positivo/enunciados prescritivos.
Outrossim, não existe, no direito brasileiro a figura da revogação tácita conforme construída pelos doutrinadores, do que a revogação que é dada é construída e positivada, inexistindo regra de revogação que não seja expressa ainda que em uma outra norma, do que a revogação somente ocorre para o sistema do direito, quer seja de norma quer seja de texto, quando explicitada através de norma válida no sistema.
A inconstitucionalidade, conforme já dito, trata de invalidade de uma dada norma, por incompatibilidade do sistema, que é caso de anulação e não caso de revogação, que surge por conveniência ou observação posterior para a melhoria da consistência de um dado sistema, com a eliminação de normas contrárias ou contraditórias entre si.
Logo, quando se trata de inconstitucionalidade superveniente, trata- se de caso de invalidação e não caso de revogação.
No caso de Barros Carvalho143, sofisticado pelas contribuições de
Gabriel Ivo144, a revogação expressa atuaria no plano S1, enquanto a tácita no plano
do S2 e S3, apesar da diferença apontada entre tal tese com relação a forma como se visualiza a solução de antinomias, em especial com o uso dos critérios clássicos destas soluções, com o qual não se pode concordar pelo fato que tais critérios não se consideram positivados.
Diversamente, Tárek145 trata da revogação expressa como possível e
da revogação tácita como sendo impossível pelos mesmos motivos já expostos, que seja, a necessidade que a revogação tácita (uma contradição em termos) seja realizada sem que exista um enunciado revogatório expresso por meio de ato de fala de autoridade competente para o sistema.
3.3.2.2. Revogação e declaração de inconstitucionalidade.
No plano destas formas de declaração de inconstitucionalidade, o que ocorre é o impedimento de construções por meio dos intérpretes (autênticos ou não) do sistema, já que o plano afetado não seria o S1, mas o S2 ou S3, dentro do
que Mendonca146 chamaria de normas formuladas e normas derivadas.
É dizer que, no plano dos interpretantes autorizados pelo sistema de direito positivo, ter-se-ia o impedimento de construção derivativa de outras normas, já que dentro da clássica formulação da teoria das classes aplicada a lingüística e, por via de conseqüência ao direito: de um enunciado pode surgir uma proposição; de vários enunciados podem surgir várias proposições; de um enunciado podem surgir várias proposições; e de vários enunciados pode surgir uma proposição (um com um; vários com vários; um com vários; e vários com um).
143 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário: linguagem e método. 2ª edição. São Paulo:
Noeses, 2008.
144 IVO, Gabriel. Norma Jurídica: produção e controle. São Paulo: Noeses, 2006.
145 MOUSSALEM, Tárek Moysés. Revogação em matéria tributária. São Paulo: Noeses, 2007. 146 Novamente, como interpretado por: MOUSSALEM, Tárek Moysés. Revogação em matéria
Dentro da lógica das classes citadas, de um surgem vários, que são limitados pela norma da inconstitucionalidade, forçando-se a proporção um a um.
Nestas espécies, portanto, de Adin sem redução de texto ou com interpretação conforme, há, tão somente, a redução das possibilidades (semânticas) da plurissignificação de um dado bruto textual, que é passível de construção de várias proposições jurídicas/normas jurídicas a partir de tais signos.
Logo, o que perfaz a Adin é, justamente, a redução do campo de irradiação semântica das significações construídas a partir da leitura de um texto bruto, do que, as proposições possíveis de serem emitidas são reduzidas a uma só ou, ainda, diminui-se das n possibilidades interpretativas um número x de significações.
Formalizando: n = significações possíveis; x = número de significações reduzidas. Logo:
• possibilidade 01 (intepretação conforme): n – x = 1;
• possibilidade 02 (inconstitucionalidade sem redução de texto):
n – x > 1.
Dentro da idéia de que revogação é retirada da validade de normas (emitidas por participantes do sistema)/enunciados de um dado sistema, o que ocorre é a revogação destas normas do sistema baseadas no esquema interpretativo retirado do sistema.
É distinguir, portanto, a retirada de normas individuais e concretas produzidas, revogando-as, anulando-as, portanto, gerando a revogação destes enunciados prescritivos (no campo da possibilidade) para os participantes do sistema.
Neste caso específico, como normas jurídicas foram produzidas no sistema com base em significações dadas por agentes participantes do sistema, logo, a revogação atingiria, sim, as normas individuais e concretas produzidas.