3. YÖNTEM
3.3. Veri Toplama Araçları
Na Europa do século XIII, não havia a hegemonia cultural por todo o continente. Devido às grandes distâncias, à falta de formação do clero, falta de matérias de leitura, enfim, por diversos motivos, a cristandade não possuía uma interpretação igual das fontes da fé cristã. As interpretações divergentes começaram a ganhar uma proporção que comprometia a unidade religiosa. Exemplo disso são os albigenses, uma seita de cunho puritano e dualista que não aceitava o matrimônio e a riqueza deste mundo, oriunda do sul da França, em clara resposta às condições abusivas que o cristianismo de então se encontrava.
A heresia, já pelo fim do século XII, começou a propagar-se com rapidez tão assustadora, que punha em risco não só a fé cristã, mas também a ordem social. (...) Reuniu-se, em 1184, o sínodo de Verona, onde Lúcio III e Frederico I baniram os hereges e seus fautores e ordenaram aos bispos que fizessem vistorias pelos lugares suspeitos. As decisões de Verona foram confirmadas por diversos outros sínodos e, sobretudo, pelo 4º concílio de Latrão. 62
Foi neste século que surgem ordens mendicantes, por inspiração de São Francisco e de São Domingos; a reforma dos mosteiros, como a de Cluny, veio pouco antes, mas como resposta à decadência da vida regular. Também houve outras iniciativas não muito ortodoxas, como os albigenses e as beguinas de reformar o cristianismo. Como evitar tais desvios destas iniciativas, muitas das vezes promovidas sem má intenção e motivadas por uma interpretação errônea da tradição, já que o acesso à Sagrada Escritura era restrito?
A Igreja e o Estado possuem uma interação. As iniciativas eclesiásticas, desde Carlos Magno, deveriam ser financiadas pela Coroa. E com esta não poderia ser diferente. As regiões dos albigenses não eram caracterizadas pela paz, pois a ideia de Estados nacionais não significa uma existência de ordem pública em aldeias e vilarejos, muitas vezes marcados pela miséria e pelas pestes. A justiça era feita pelas próprias mãos, com base em julgamentos públicos, sem direito de defesa. Assim, tal presença de inquisidores deveria ter o aparato do Estado para poder ter acesso a esses lugares.
Frederico II, por ocasião da sua coroação imperial (1220), ofereceu à Igreja o apoio secular e estabeleceu, em diversos decretos, a pena de morte contra os hereges. O mesmo fez Luís IX da França (1229). Depois da guerra dos albigenses, foi organizado, finalmente, no sínodo de Tolosa (1229), um tribunal próprio para atalhar a perversidade herética e, por bula de 1231, instituiu o papa Gregório IX a Inquisitio haereticae pravitatis.63
Henrique Mendes Lucarelli, em seu estudo sobre as visitações do Santo Ofício no período colonial, apresenta uma intuição acertada que parece coerente para interpretar até mesmo este momento da história. Para ele, “a vida pública aqui é apresentada como sinônimo de política, dessa maneira, é nas suas narrativas que encontro a proximidade capaz de unir a história e a narração biográfica”64 Assim, a política é não só um escambo entre forças
institucionais, mas uma encarnação das escolhas dos sujeitos concretos. Isto para dizer que a mancomunação entre interesses Igreja e Impérios vai além de acordos baseados na intenção de salvaguardar o Evangelho e seus valores, de modo que as mais das vezes, salvaguardar o Evangelho significou ir por cima dele mesmo.
Se for ver bem, algum tipo de inquisição episcopal, no sentido de buscar aqueles que erram e trazê-los à ortodoxia, existia desde o período da Igreja pós-apostólica. Os castigos temporais, inclusive a pena de morte, passaram a existir com o Código Justiniano, com hereges adeptos do maniqueísmo, do donatismo e do priscilianismo.65
Contudo, ao longo da Idade Média, tal imagem vai ganhando um corpo e uma característica simbólica não projetada no começo, a ponto de que, para ganhar vida, precise se
63 Cf. ROMAG, D. Compêndio de História da Igreja. V 2. Petrópolis: Vozes, 1950. p. 210-211.
64 LUCARELLI, H.M. Notas iniciais sobre a carreira dos Inquisidores que visitaram a America Portuguesa. In
www.encontro2012.sp.anpuh.org/anais/17/1342391644_ARQUIVO_Anpuhtexto-HenriqueMendes Lucarelli.pdf. Último acesso em 23 de abril de 2013.
revestir de sistemas e estruturas, além de atribuir significados a seus gestos e ritos, aponto de crescer, ganhar vida própria, alcançar a maioridade e se emancipar do seu passado e servindo como braço armado do Estado de direito por volta do século XV, de tal modo que algumas coroas queiram instituir em seus territórios uma Inquisição própria, mais ligada ao poder do Rei do que ao do Papa. Este foi o caso das Inquisições ibéricas: tanto Portugal quanto a Espanha vão criar a Inquisição como uma espécie de sérico de inteligência do Estado, não só em suas terras como também em seus domínios.
A diferença é que, ao contrário de sua vizinha Espanha, Portugal não cria em suas colônias um tribunal de Inquisição. Aqui no Brasil, por exemplo, não havia um tribunal. O que houveram, foram quatro visitas do Santo Ofício. A primeira (1591-1595, na Bahia e em Pernambuco) e a segunda (1618, na Bahia), no momento em que Portugal e Espanha estavam sob a égide de um monarca espanhol. As outras, como controle das partes mais ao sul da colônia e última na segunda metade do século XVIII, no Grão Pará.66
O trato do Santo Ofício era constituído de todo um ritual, de um processo. Aqui no Brasil, geralmente o processo durava cerca de trinta dias. A chegada tinha um algo de teatral. Chegava a comitiva com o estandarte à frente, portando em si o letã da Inquisição: “Misericórdia e Justiça”. As pessoas teriam um tempo para virem se confessar voluntariamente, antes que alguém viesse fazer alguma denúncia à mesa do inquisidor. O tema da bandeira inquisitorial poderia ser entendido assim: misericórdia a quem viesse se confessar voluntariamente e justiça para quem escondesse algum delito contra a fé, à moral e os bons costumes. Ao que parece, o foco da vigilância de consciências era a busca por cristãos-novos, e o confisco de seus bens, até pela relação que tinham com o dinheiro e a usura.67 Isso deixou um rastro de delação por onde a visitação passava. 68
A Inquisição começou na história da Igreja como um movimento de origem acadêmica com a finalidade de conter erros e abusos dos albigenses, tanto no nível moral quanto no doutrinário. Tal movimento vai ganhando corpo ao longo da Idade Média. Como o contexto é
66 Cf. AZZI, Riolando. A teologia católica na formação da sociedade colonial brasileira. Rio de Janeiro: Vozes, 2005, p. 117.
67 KNOWLES D.; OBOLENSK, D. Nova História da Igreja. Petrópolis: Vozes, 1974. p 405-413. Neste capítulo, não é exagero transcrever estas informações dos autores: “A raça judaica é um caso único na história da Europa, por sua teimosa sobrevivência e difusão em todas as épocas e por sua coesão e caráter fortemente marcado. Em determinadas regiões e épocas, como na França merovíngia, os judeus tomaram parte na exploração dos recursos naturais dos campos; mas seus talentos naturais em atividades financeiras, o sistema feudal da Europa e, mais tarde, as restrições legais e canônicas, se juntaram para levá-los a concentrarem-se nas cidades, favorecendo a aplicação de seus talentos em atividades financeiras e, mais tarde mercantis. Sempre que gozaram de paz foram, e são ainda hoje, capitalistas e agiotas; bastava este fato para provocar desconfiança e inveja numa sociedade que não tinha noções da função e do uso do dinheiro como capital.” p. 409-410.
o da união entre Estado e Igreja, tais iniciativas acontecem com o patrocínio do Estado. O que começa como movimento acadêmico vai, aos poucos, se tornando um braço do Estado de controle social e político. O desvirtuamento chega a tal ponto, que nos reinos ibéricos, por exemplo, a Inquisição ganha autonomia em relação à Igreja, ficando sob comando das Coroas, sendo elas conhecidas, principalmente a partir do século XV, por sua violência em métodos de arrancar das pessoas o que a Coroa gostaria de ouvir.
Já no século XVIII, pelo tempo de Pombal, a Inquisição já tinha toda uma estrutura de braço armado da Coroa. De modo que Paulo de Carvalho, irmão de Pombal, assume a presidência deste órgão estatal, com a intenção, como se verá, de facilitar o uso simbólico desta instituição para atacar a Companhia de Jesus na pessoa de Malagrida.
Assim, a Inquisição servirá como instrumento do Estado para controlar a ordem. A sua secularização, sobretudo nas coroas ibéricas, vai se voltar para julgar iniciativas nascidas até mesmo no seio eclesiástico, como no caso dos jesuítas e, mais particularmente, de Malagrida. Por ter um maquinário próprio de força e de burocracia, prestará valioso auxílio na beira do mundo, visto que, num regime absolutista, não há divisão de poderes, estando todas as forças sujeitas à vontade do rei, ou de que ele delegar.