4. ĠNSANSIZ HAVA ARAÇLARI
4.5. AR.Drone‟nun Hareket Kontrolü
Vou iniciar falando de um tipo de tapete encontrado: as tapeçarias, os tapetes de paredes. As tapeçarias são verdadeiros quadros tramados que levam nossos olhos e mãos por caminhos da expressão artística. Tapeçarias sempre carregam histórias, e em geral nos contam histórias.
No curso-pesquisa, realizamos várias tapeçarias ao longo do percurso. Elas foram produzidas a partir dos exercícios de imaginação, por meio das práticas artísticas, propostos por mim e pelos professores pesquisados. Os exercícios conclamavam o fazer desenhos, pinturas, montagens e tantas outras formas de expressão plásticas coletivas e individuais.
Como em uma tapeçaria, essas imagens produzidas, ora por uma, ora por várias mãos, revelavam as diferentes urdiduras e as tramas do processo criador dos professores. As superfícies passaram por papéis, tecidos, pisos, até mesmo corpos. As mãos desenharam, montaram, amarraram, amassaram, recortaram, colaram, rasgaram, costuraram, pintaram, quebraram e moldaram. As imagens nos mostraram as muitas dimensões e possibilidades do corpo desenhante, aquele que se entrega às forças da mão laboriosa.
Os movimentos fundamentais aqui revelados foram o urdir, o tramar e dar os nós. Em uma tapeçaria, tanto as urdiduras quanto as tramas são formadas por fios. A origem desses fios pode ser variada. Uns são fiados pelo próprio tecelão e outros podem ser adquiridos. Isto é, a matéria-prima das tapeçarias do corpo desenhante é tanto de origem interna do sujeito como também pode ser externa.
Urdir é montar a cama, estruturar a base existencial para que sobre ela e em seus cheios e vazios se possam tramar os planos poéticos da vida e dar os nós, fazendo as amarrações necessárias para essa realização. É desenhar e, nesse
movimento, desenhar-se.21 E como aprendi com Bachelard (2002, p.4), ―é possível
estabelecer, no reino da imaginação, uma lei dos quatro elementos‖, para que encontremos as forças que animam a imaginação material e alimentam a alma poética dos sujeitos criadores.
21
123
Figura 19 - Rafa, recorte e colagem "Formação", em 18.09.2009.
Nessa imagem, Rafa tece a tapeçaria de sua formação formal e não formal (exercício realizado em nosso primeiro encontro), relatando-nos sobre sua vida, suas escolhas profissionais, sua sexualidade e a influência da espiritualidade, dos animais e da estética africana e indígena em sua história. Essa foi a primeira imagem que Rafa nos apresentou. Nela, ele se revelou para nós e ao longo do curso continuou tecendo imagens de bichos e homens, transitando entre o sagrado e o profano nas tensões do corpo e do espírito.
Figura 20 - Rafa, Fotografia, em 11.12.2009.
Rafa tecia em sua urdidura de carne com fios de coragem e traços de fogo se entranhando em sua própria expressão, atando-se a ela com nós bem firmes
124
refletindo a sua subjetividade, seus símbolos, sua sensibilidade e sua poética de bicho-homem.
Se, refletindo na essência da subjetividade, eu a encontro ligada à essência do corpo e à essência do mundo, é porque minha existência como subjetividade é uma e a mesma que minha existência como corpo e com a existência do mundo, e porque finalmente o sujeito que sou, concretamente tomado, é inseparável deste corpo aqui e deste mundo aqui. (MERLEAU-PONTY, 2006, p. 547).
Já com a urdidura da terra e as tramas da água, Ida realizava suas tapeçarias. Suas imagens poéticas sempre nos levavam a caminhar e sentir o calor da terra e o frescor da água. Suas tapeçarias traziam suas origens, ligadas à natureza e ao conhecimento ancestral indígena. As histórias e ensinamentos da avó eram sempre presença marcante em suas propostas poéticas. Eram os nós que sustentavam sua trama aquática. No exercício As árvores da floresta, sua árvore não tinha raízes na terra, e sim na água, mas era essa água sua verdadeira terra. O seu ponto de ancoragem. ―O sonhador despede-se e entra na lagoa. Só então as imagens vêm, saem da matéria, nascem, como em um germe, de uma realidade sensual primitiva‖ (BACHELARD, 2002, p. 131).
125
A delicadeza com que os dedos tocam a água nessa imagem revela a sutileza do toque das tapeçarias de Ida em nossa alma, como ondas que iam se propagando no grupo. Paradoxalmente, essa leveza contrasta com a força das linhas do pé e da exuberância das folhagens que dele brotam. Assim é Ida: força e fluidez, terra e água.
Figura 22 - Ida, Lápis aquarelável s/ papel Eu e i ha avó , e 16.10.2009
Quem é a senhora e quem é a criança? Paradoxalmente, Ida e a avó são as duas ao mesmo tempo. O ancestral e o nascente se misturam no velho pote de barro que traz a água azul, que se derrama nos corpos das figuras, sobre a terra vermelha, forjando a fogo, a terra e a água.
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem. De mim veio a mulher e veio o amor. Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida. Sou o chão que se prende à tua casa. Sou a telha da coberta de teu lar. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranquila ao teu esforço. Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador, e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz. (...)
126
Da terra para o ar, Katita tramou suas tapeçarias com o vento e o voo ilusório das borboletas. Até seus tapetes eram feitos de ar e para o ar. Suas composições voejavam como a borboleta no crânio do cavalo, entrando e saindo, revelando-nos tesouros.
Figura 23 - Katita, objeto "Formação", em 18.09.2009.
Na tapeçaria de sua formação, logo de início revelava-nos as linhas percorridas pelo voo de entre e sai, sobe e desce de sua alma livre e inquieta. Não tinha receio nem medo de dizer que é uma artista e ama criar e fazer arte.
Figura 24 - Katita, recorte e colagem "O fio da vida", em 16.10.2009
Nessa tapeçaria, o pálido azul do céu, nas asas de suas borboletas, conduzia-nos delicadamente a descobrir o tênue fio da vida, ―os fios dourados. Afinal trazem parte de uma teia atraente que integra o esforço, o respeito, a sobrevivência
e a criatividade de um povo‖.22 Em muitos momentos via as tapeçarias de Katita não
22
127
como materializações, mas, sim, desmaterializações. ―A imaginação substancial do
ar só é verdadeiramente ativa numa dinâmica de desmaterialização‖ (BACHELARD,
2001, 165). Dissolvia a imensidão do espaço em lugares do ―dentro‖. Paradoxalmente, o espaço, o grande palco de suas composições, era o fechado, como o casulo, a casa, o abrigo da lagarta que não viria a ser borboleta. O casulo que nos trouxe seria, para a borboleta e a lagarta, o sonho de uma e o pesadelo da outra, e vice-versa.
Figura 25 - Katita, papel marchê "Casulo", em 11.12.2009.
Devaneios puros do ar são muito raros, em geral se misturam aos da terra, do fogo e da água. As tapeçarias que iam surgindo à minha frente baralhavam os elementos, mas não pensava em separá-los, classificá-los, simplesmente queria senti-los. Vê-los, ao meu olhar cambaleante, era o desafio.
128
A árvore aérea de Paulo Henrique, que, diferentemente de Katita, diz-se um não artista, um não convidado ao mundo da criação e da imaginação, também nos convidava ao voo. Era como vento que muda de direção, que ascende, descende e gira no espaço. A árvore que sempre foi o modelo de ―heróica retidão‖, Paulo Henrique nos apresentou em três folhas de papel que podiam se unir. Mas também podiam estar separadas se assim quiséssemos. ―Deixemo-la proliferar, deixemo-la viver, e pouco a pouco sentiremos em nós mesmos que a árvore, ser estático por
excelência, recebe de nossa imaginação uma vida dinâmica maravilhosa‖
(BACHELARD, 2001, p.211).
Figura 27 - Paulo Henrique, aquarela "Formação", em 16.10.2009.
A aquarela de Paulo Henrique não refletia a água, mas o vento. Na verdade os ventos que o guiaram por suas trajetórias formativas. ―A alma que ama o vento se anima aos quatro ventos do céu. Para muitos sonhadores, os quatro pontos cardeais
são sobretudo as quatro pátrias dos grandes ventos‖ (BACHELARD, 2001, p. 241).
Paulo Henrique sempre estava em busca de seu norte, do caminho certo a guiar aquele grupo como seu coordenador. Porém, isso também estava refletido na sua história. Talvez por isso não se permitia entregar-se aos devaneios, mas suas tapeçarias sempre o denunciavam.
Não foram apenas as tapeçarias aéreas que nos convidaram ao voo. Encontramos também os tapetes mágicos, que literalmente nos levaram para outras paisagens.
129