Estudaremos agora o papel da influência do direito português através das Ordenações Afonsinas, Filipinas e Manuelinas, na construção da realidade brasileira.
50 HOMMERDING, Adalberto Narciso. Fundamentos para uma compreensão Hermenêutica do Processo Civil. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2007. p. 61/62.
Pesquisas51 demonstram que no direito português não havia a preocupação sistemática de motivadar sterem as decisões judiciais.Deve-se às Ordenações Afonsinas (Livro III, Título L), o título de primeira legislação portuguesa a exigir tal obrigação, e ocorria apenas nas sentenças definitivas).
As Ordenações Filipinas (Livro III, Título 7), em 1603, limitaram praticamente a repetir as considerações traçadas nas Ordenações Manuelinas. Em ambas existia o dever dos magistrados de declarar especificamente em suas sentenças definitivas, tanto na primeira como na segunda instância, as causas que se fundam em condenar, absolver, confirmar ou de revogação da decisão52.
No direito português, ocorreu uma mitigação ao princípio da necessidade de serem motivadas as decisões judiciais, no ano de 1784, por força de uma lei que concedia ou denegava o pedido do consentimento paterno para a celebração dos esponsais53, “sem que individuem fundamentos alguns”, tendo como justificativa a proteçao à intimidade na medida em que ao fundamentar concedendo ou denegando a celebração dos esponsais inegavelmente adentra-se em questões de direito de família.54 O período da independência brasileira até 1891 caracteriza-se pela forte dependência, ainda, às normas processuais portuguesas, notadamente pelo esforço de adequacão da doutrina brasileira, ainda em formação com aquela. Inexistia a preocupação com a ciencia do direito processual, até pelo fato desta ainda encontrar-se em formação no contexto histórico europeu. Os princípios de direito processual e o respeito à Constituição de um Estado ainda ficava em segundo plano, sendo o processo ainda dependente do direito material. A teoria da ação predominante era a civilista da
ação, em nítida dominação no cenário processual do revogado art. 75, do CC, “a todo direito corresponde uma ação que o assegura”.
51 CRUZ e TUCCI, José Rogério. A motivação da sentença no processo civil. São Paulo: Saraiva,
1987,.
52 CRUZ e TUCCI, José Rogério. op. cit., p. 50-51.
53 De acordo com Maria Helena Diniz, é o compromisso de casamento entre duas pessoas
desimpedidas, de sexo diferente, com o escopo de possibilitar que se conheçam melhor, que aquilatem,mutuamente, suas afinidades e seus gostos. DINIZ, Maria Helena. Dicionário Jurídico. Volume 2. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 392.
Em meio a este contexto histórico específico, foi editado o conhecido Regulamento 737, cujo propósito era disciplinar as normas de natureza comercial, mas que continha também normas processuais, o que levou a ser aplicado às demandas cíveis, e não apenas às comerciais.
O citado Regulamento, no seu art. 232 determinava expressamente a obrigatoriedade da decisão judicial ser motivada, de acordo com Moacyr Lobo, o
“Regulamento 737 deve ser observado em função de seu tempo e de acordo com a mentalidade brasileira no momento de sua elaboração e de sua promulgação”55. A base do direito processual civil brasileiro é, portanto, o Regulamento 737, que instaurou um consciência processual nos ainda tímidos processualistas brasileiros.
O Brasil teve ainda o Período da vigência dos códigos processuais
estaduais. Fase em que a “República Federativa dos Estados Unidos do Brasil”
esforçava-se para ser uma federação aos moldes dos Estados Unidos da América, precisando para isso de um federalismo forte, onde os estados-membros tivessem, de fato, certa independência econômica, política, social e, sobretudo, política. Assim, a Constituição de 1891 estabelecia já a forma federativa, prevendo a dualidade de
“justiças” (da União e dos Estados, conforme previsto no art. 34, no 26) e de “processos” (art. 34, no 23), de modo a possibilitar a cada estado federado a sua
organização e legislação sobre processo.
Temos então nesta fase, a dupla competência legislativa em material processual, a competência dos estados-membros e da União. Neste período os códigos processuais estaduais pecavam, pela pouca técnica e praticamente repetiam o que já constava no Regulamento 737 a respeito da obrigatoriedade da motivação da sentença, que deveria ser clara.
Somente com o advento do Código de Processo Civil Brasileiro de 1939, sob a égide da Constituição Federal Brasileira de 1937, a motivação da decisão judicial veio à lume com autonomia legislativa em matéria de direito processual (art. 16, XVI), tendo o art. 280, do citado Código Processual, disciplinado que:
A sentença, que deverá ser clara e precisa, conterá I – o relatório; II – os fundamentos de facto e de direito; III – a decisão. Parágrafo único: O relatório mencionará o nome das partes, o pedido, a defesa e o resumo dos respectivos fundamentos.
55 COSTA, Moacyr Lobo da. Breve notícia histórica do direito processual civil brasileiro e de sua
O Código de Processo Civil Brasileiro de 1939 ainda não havia se posicionado em relação à ausencia de motivação, se seria nula ou anulável, podendo,
pois, ser sanável. De acordo com Lopes da Costa, “a motivação da decisão judicial, além de preceito de ordem pública constitui “rigorosa obrigação moral e jurídica, do juiz é dar as razões por que decide”, e, como tal, passível de ser nula a decisão, não sanável posteriormente, senão por recurso cabível”.56 Estava, pois, construído o atual formato do princípio da motivação das decisões judiciais.
O Código Processual Brasileiro atualmente em vigor no Brasil é o de 1973, tratando diferentemente a decisão judicial e a sentença, no que se refere aos requisitos que cada uma dela deve externar. A sentença deve obrigatoriamente, a teor do art. 458, conter:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;
II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito; III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões, que as partes Ihe submeterem.
No tocante às decisões interlocutórias, a teor do CPC somente devem ser
motivadas, nos termos do art. 165: “As sentenças e acórdãos serão proferidos com
observância do disposto no art. 458; as demais decisões serão fundamentadas, ainda
que de modo conciso” , não havendo necessidade de presentes os incisos I e III do artigo
458, apesar de inerente a elas mesmas, justamente para não serem atacadas por possíveis embargos de declaração.