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3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.3. Antioksidan Kapasite Tayin Yöntemleri

Três organizações civis dedicadas a presos comuns estiveram presentes no sistema prisional do Rio de Janeiro durante parte dos anos 1970 e 1980. Foram elas a Comissão Pastoral Penal, a Comissão de Defesa dos Direitos dos Presos e a Associação de Amigos e Familiares de Presos.

O professor Heleno Fragoso afirma que as organizações de apoio e investigação presentes na França, Escandinávia, Estados Unidos, Inglaterra, há décadas “têm sido fundamentais na luta pelos direitos dos presos, sendo organizações combativas, capazes de conseguir advogados para mover a batalha judiciária” (FRAGOSO e outros, 1980: 27). Ele lembra que “a importância dessas organizações é considerável, pois elas proporcionam os meios para conscientizar a comunidade sobre a terrível situação das prisões, promovendo os direitos dos presos” (idem: 28).

A organização não governamental que teve maior abrangência, visibilidade e importância no sistema prisional foi a Comissão Pastoral Penal, ligada à Igreja Católica, criada em 1975, e que continua em funcionamento. Era coordenada por uma figura religiosa corajosa, o padre Bruno Trombetta, que atuou com especial vigor na Ilha Grande, a partir da segunda metade dos anos 1970. Ademais de proporcionar socorro religioso e social à população carcerária e familiares, a Pastoral intervinha em disputas entre a administração e grupos de presos e buscava trabalho aos presos que saíam da prisão. Ao longo do tempo teve que assumir a missão de denunciar ilegalidades e crimes cometidos contra prisioneiros. Lembrando a preocupação da Pastoral com os direitos humanos, o padre Trombeta disse “(...) nós começamos a celebrar algumas missas por semana, depois percebemos que as missas eram muito procuradas e que não era possível ir ao presídio fazer uma missa e esquecer daquilo que era a visão humana integral”, Dizendo que deveria atingir o homem integralmente, foi criado o atendimento ao preso e a sua família, não só com o atendimento religioso, mas também com o social e o jurídico (LOBO, 2011: 25).

Mas a hegemonia concedida pelo sistema penitenciário do Rio de Janeiro à religião Católica provocava a discriminação das demais, consideradas menos sérias, e seguia a tendência religiosa do país, naquele momento. Mais recentemente, a partir da década de 1980, a presença de evangélicos no país se intensificou, e hoje, na população encarcerada,

representa o número maior e mais influente dentre missionários e presos adeptos129. Mas à época estudada isso não ocorria e a Igreja Católica é que desenvolvia trabalhos na prisão. Cultos de outras religiões também não eram frequentes, ou, sequer, permitidos. Podiam ocorrer por interesse e iniciativa dos presos, mas não eram oficiais, como os rituais e cultos afro-brasileiros130. Sobre estes últimos, chamo à atenção para que em um estado como a Bahia, que possui rica e ampla cultura de origem africana, “o Candomblé só muito recentemente passou a exercer atividade” na Penitenciária Lemos Brito, de Salvador. O autor indica a existência de disputas entre religiões e denominações pela possibilidade de exercer trabalho evangelizador no interior do estabelecimento (OLIVEIRA, 2012: 9).

Também a partir dessa época foi montada a Comissão de Defesa dos Direitos do Preso - CDDP. Apesar de alguma repercussão que teve, à época, a sua memória perdeu-se quase que inteiramente. Resta a ata de sua fundação, que ocorreu após dois anos de funcionamento informal. E, ainda, a memória de alguns integrantes que se mantêm em contato, e sua menção em cartas de presos. Foi formada pela união de ex-presos comuns, entre eles André Borges e Edison Duarte de Mello e outras pessoas que lutavam para que os direitos humanos dos presos fossem reconhecidos131. Em 1981 foi formalizada em ato no Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro, tendo prestado serviços relevantes às prisões, ao longo de dez anos, até encerrar as atividades132. Todos os membros eram voluntários e trabalhavam encaminhando ao Judiciário questões que não encontravam eco em outras instituições, orientando famílias a buscar a Defensoria Pública, pedindo a advogados amigos que participassem do atendimento

pro bono a alguns casos.

129 Sobre a atuação de evangélicos nas prisões ver Oliveira, 2012. 130

Patrícia Birman e Carly Machado desenvolvem interessante trabalho sobre a ação de determinado pastor sobre ex-presos e delinquentes, assim como a população em geral. Analisando suas práticas performáticas filmadas as autoras dizem que ele usa testemunhos o resgate dos pecadores da comunidade, e que “os ex-

bandidos e ex-traficantes operam como mediadores sociais para a formação de uma nova comunidade de

salvação, em oposição à vida que deixaram para trás” (2012: nota da página 58).

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Tive oportunidade de participar da concepção, montagem e direção da entidade, na qual se destacaram a também a jornalista Tânia Coelho, o advogado Anatole Arraes, ex-preso, que esteve na Penitenciária Professor Lemos Brito com André Borges; o trabalho dos advogados Ivan Senra Peçanha e Eduardo Alberto Süssekind também foi muito importante, assim como o do professor Vivaldo Barbosa, que viria a ser Secretário de Justiça do Governo Leonel Brizola, e, posteriormente, Deputado Federal; dois estagiários de Direito especialmente envolvidos eram ex-presos: Ribamar e Edison Duarte de Mello, este, egresso de vinte anos na Penitenciária Professor Lemos Brito, e uma das nossas fontes neste trabalho; D., companheira do preso Paulo César Chaves, e, mais adiante, Simone Barros Correa de Menezes, companheira de William da Silva Lima, desempenharam papéis fundamentais durante as atividades da CDDP.

A CDDP lidava apenas com causas coletivas da prisão, embora alguns casos individuais de maior gravidade também fossem atendidos. O trabalho recebeu bastante atenção de presos e familiares, porque representava a possibilidade de encaminhamento de questões como a garantia da visita íntima, inclusive para mulheres, respeito à integridade física, direito a trabalho e a estudo, reivindicações sempre presentes em incontáveis documentos dirigidos a autoridades por anos. A entidade chamou a atenção das autoridades, que tentaram inutilmente reduzir o contato de seus membros com a população prisional.

O trabalho da Comissão foi importante para divulgar o estado em que se encontravam os estabelecimentos prisionais, dando visibilidade a demandas coletivas. Confirmou que o país não dispunha de mecanismos da sociedade civil que dessem atenção a presos e se dispusessem a defendê-los pro bono. O fato de ser integrada por pessoas que transitavam no meio carcerário – inclusive familiares e ex-presos – conferia legitimidade, facilitava testemunhos e permitia que fossem encontradas testemunhas entre presidiários, guardas e demais funcionários.

Por outro lado, alguns dos raros participantes tinham conhecimento de entidades fora do país as quais era possível pedir auxílio para divulgação de denúncias. A organização nunca dispôs de qualquer financiamento e foi mantida por seus membros133. Para que tivesse mais ressonância e impacto, tentou-se que a entidade fosse abraçada por outras entidades de direitos humanos, mas já na década de 1970, os assuntos relacionados a presos comuns não despertavam solidariedade.

Alguns anos depois, em 1992, Simone Barros Correa de Menezes, companheira do preso William da Silva Lima desde o ano de 1983, montou a Associação de Familiares e Amigos de Presos e Egressos, a AFAPE. Organizou um valioso trabalho para dar visibilidade à atuação e importância da família do preso134. Em documento, dirigindo-se a sua rede de contatos no Governo de Estado e do Judiciário, familiares de presos, ONGs, e outros, que acompanham a área, ela afirma:

133 A Comissão funcionava em uma sala, no escritório que o criminalista e professor Roberto Lyra compartilhara com o advogado Ivan Senra Peçanha na década de 1960. O professor Lyra foi um dos precursores da Criminologia no Brasil, autor de obras importantes, e teve influência na formação de grande número de advogados, entre eles Heleno Fragoso. Foi um ferrenho lutador pelos direitos de presos e havia recomendado a seu colega de escritório, Ivan Senra Peçanha, que a sala fosse reservada para uso de entidades que defendessem as mesmas causas. Segundo Ivan, até 1978 não havia sido ocupada, mas cabia perfeitamente que, naquele momento, fosse utilizada pela Comissão de Defesa dos Direitos do Preso que ele estava ajudando a montar. 134 Alguns autores dirigiam o foco de seus trabalhos para o papel da família na vida de presos: JARDIM, 2010; ABRÃO, 2010; NASCIMENTO, 2005.

A AFAP/RJ – Associação de Familiares e Amigos de Presos do Estado do Rio de Janeiro tem propostas de reorientação de políticas públicas para o sistema penitenciário.

O Complexo Penitenciário Nacional é o caos; e a AFAP/RJ busca dentro do caos perceber alguns caminhos através da resistência pacífica e organizada, para chegarmos a um estado de espírito que nos permita não só a conviver mas modificar esta realidade.

A AFAP/RJ nasceu da constatação de que a família carcerária também parte importante no processo de liberdade do seu preso. Queremos, como cidadão, participar desse processo doloroso que é a prisão, não como vítimas ou como meros observadores estáticos e sim ajudando através de ações positivas que tenham o objetivo de fazer com que a família tome da sua capacidade de intervenção.No processo de reintegração social, a família é peça chave, portanto trabalhar a sua auto-estima, sua auto-valorização, é fortalecer a estrutura dessa família para a luta pela liberdade de seu preso/a.

Por isso, a importância do companheirismo, e da solidariedade entre os componentes da família carcerária.

Se a família não for ajudada a perceber sua importância nesse processo e o quanto é necessária para modificar a realidade em que o familiar se encontra, será simplesmente um peso morto a arrastar semanalmente as sucatas135 e os problemas para dentro dos muros dos presídios, mas sem o comprometimento nem a capacidade de tentar ajudar esses homens e mulheres a viverem com o mínimo de dignidade e alcançarem a Liberdade (MENEZES, 2003).

O texto de Simone Menezes atribuiu essa presença à expectativa de que a família contribuísse para a ressocialização dos presos. Há cerca de dez anos a AFAP interrompeu seus trabalhos, pela falta absoluta de estrutura, mas, atualmente, com William da Silva Lima em liberdade, está sendo articulada a sua reativação.

O reconhecido filósofo Zigmund Bauman (1999) se refere à expectativa de ressocialização do condenado, presente no meio social até a década de 1970, e que foi frustrada, e resultou na política atual de esquecimento do encarcerado, de falta de investimento e na pura exclusão de sua presença no meio social. Como ele, outros autores reconhecidos, que estudam a evolução das políticas de segurança pública em diversos países, ressaltam o abandono da prisão como locus de atuação da sociedade, por desinteresse, medo, ou outras razões, como mostra o sociólogo inglês David Garland (1995).

O sociólogo Loïc Wacquant (2001) concorda e entende que a principal razão que leva a isso é o fato de que, a partir da década de 1970, o Estado tem alterado suas políticas e se

voltado à maximização do uso da prisão como contenção ao descontentamento. Por conseguinte, a reabilitação, ou socialização, ou integração social, ou outro termo utilizado para justificar a estadia na prisão não encontram o apoio de alguns dos principais pensadores sociais do momento.

Como eles, entendemos que prisão, na atualidade, é a ferramenta considerada adequada pelo Estado para retribuir ao criminoso o mal que perpetrou, para puni-lo e dar satisfação ao ofendido pelo dano sofrido, para vingar sociedade a cada crime sofrido por um de seus membros. Mesmo que, formalmente, lhe sejam atribuídas outras funções mais louváveis, e pouco confrontadas, que fazem com que permaneça em pleno uso, apesar de comprovadamente ineficiente. Parte da sociedade reconhece que ressocialização como resultado de política punitiva não é viável, e que somente em casos individuais e excepcionais torna-se possível obter resultados positivos da estadia na prisão. A formidável reincidência de criminosos é a comprovação do fracasso da pena de prisão. Como afirma Bauman, até o momento, não há qualquer tipo de evidência que apoie ou possa provar as suposições de que a “prisão desempenhe os papéis a ela atribuídos em teoria e que alcancem qualquer sucesso se tentam desempenhá-los (...)” (BAUMAN, 1999: 122). Ao contrário, afirma o autor, desde seu início, e ainda hoje, tem sido “altamente discutível se as casas de correção, em qualquer de suas formas, preencheram alguma vez seu propósito declarado de ‘reabilitação ou reforma moral dos internos’, de ‘trazê-los novamente ao convívio social’” (idem: 118).

Benzer Belgeler