“Do incentivo que eu tive dentro de casa... né... e pelos sonhos que eu tenho pelos objetivos que eu tenho de alcançar... que tem que ser através do estudo.”
Marcos Pereira
Cheguei ao número 533, uma casa ainda não acabada e com sinais de construção recentes. A frente aberta, sem muro ou portões, uma porta antiga indicava a entrada principal. Fui até ela, bati e esperei para ser atendida. Na primeira tentativa, ninguém apareceu, bati novamente, e, já sem esperanças, ia saindo, quando um senhor negro, de barba e cabelos bem grisalhos veio me atender. Perguntei se Marcos Pereira morava ali e ele, com uma voz bem baixa, respondeu-me que não, que ele morava a duas casas anteriores, mas, que no momento, estava
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Este título tem como referência a obra de Pierre Bourdieu - A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo/Porto Alegre (SP/RS): Edusp/Zouk; 2007
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trabalhando. Perguntei como poderia entrar em contato com ele. Sem resposta, convidou-me para entrar. A princípio, não entendi bem se ele queria falar comigo ou chamar outra pessoa que pudesse me explicar melhor sobre quem eu procurava. Parecia que ele precisava de ajuda para dar melhores explicações sobre onde Marcos morava. Entrou para outro cômodo da casa e chamou sua esposa.
Uma senhora apareceu e recebeu-me sorridente. Apresentei-me, explicando que gostaria de falar com o Marcos. Perguntei se eles eram seus pais e quais eram seus nomes. Expedito e Maria Valentina, ela disse, mas que todos a conheciam como Tina. Expliquei que estava fazendo uma pesquisa e precisava encontrar ex-alunos da Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira que haviam participado de outra pesquisa realizada há vinte anos e que Marcos era um desses ex-alunos. Disse, também, que gostaria de saber o que aconteceu com as crianças que foram entrevistadas pela pesquisadora em 1988. Senhor Expedito, timidamente, falou que a dona Tina é quem poderia me contar melhor sobre o Marcos. “As mulheres sempre sabem mais sobre isso”- afirmou. Tentou se afastar, deixando-nos um pouco a sós. Dona Tina ficou muito à vontade em minha presença e sentou-se diante de mim, demonstrando disposição para contar toda a vida escolar de Marcos. Durante o relato, ela chamou pelo senhor Expedito que, aos poucos, voltou para o cômodo onde estávamos e fez pequenas contribuições às lembranças da esposa.
Fui recebida no primeiro cômodo da casa que parecia uma copa, nele havia apenas uma mesa de madeira com quatro cadeiras e alguns porta-retratos em cima dela. Sobre outra mesa de madeira mais baixa, dois aparelhos de som antigos. Do outro lado, uma mesinha artesanal com uma cadeira, na mesa ficava o telefone, empilhados alguns cadernos e uma agenda. Na parede, alguns quadros de santos e um de Jesus Cristo. A casa parecia grande, no entanto, do local em que eu estava sentada, não conseguia ver mais nada e ali permaneci durante toda a conversa.
Dona Tina começou confirmando que Marcos havia mesmo feito a primeira série na Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira e que, de quinta a oitava série32, teria estudado na Escola Estadual João Ferreira de Freitas (NEC), uma escola mais recente no bairro, e que depois voltou para o Juscelino para terminar o Ensino Médio. Indaguei por que Marcos não morava mais com eles, havia se casado? “Sim, há seis anos ele está casado.” – respondeu Dona Tina.
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As questões escolares se misturam com as histórias do cotidiano. O fato é que elas fazem parte da história de vida de cada pessoa que freqüentou a instituição escola. Os pais de Marcos mal me conheciam, mas me acolheram e sentiram liberdade em falar de suas dores, de suas alegrias e tristezas e de acontecimentos do dia-a-dia. Neste momento, recordei-me das entrevistas realizadas por Bourdieu em A Miséria do Mundo e resolvi dar ouvidos àquelas vozes. Possivelmente, encontraria nos relatos pessoais traços que influenciaram a vida escolar, e, conseqüentemente, a relação que os jovens entrevistados e seus familiares haviam estabelecido com a leitura e a escrita.
A mãe de Marcos, com uma voz triste, disse que a vida do filho foi muito difícil: “Ele não teve infância, quase não sobrou tempo para brincar, começou a trabalhar muito cedo”. Aos quatorze anos, Marcos já estava na Associação Profissionalizante do Menor de Belo Horizonte (ASPROM). Foi quando o Senhor Expedito interveio, completando que, naquela época, “ele já estava fazendo quase quinze anos”. Marcos trabalhou pela ASPROM como
office boy até completar dezoitos anos. Após esse período, continuou trabalhando, mas a mãe
não soube me dizer em que empresa. No momento, ele trabalhava na Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG) e fazia curso superior em Ciências Contábeis, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), na unidade São Gabriel. Estava casado há seis anos e tinha dois filhos, um já em idade escolar. O filho mais velho estudava em uma escola da Rede do Serviço Social da Indústria (SESI) e estava na primeira série, o outro ainda não havia completado dois anos. Marcos concluiu o Ensino Médio na Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira, continuou trabalhando, namorou muito e se casou. “Contra minha vontade”- pontuou a mãe. A faculdade veio depois do primeiro filho. “Era um grande sonho de Marcos” - ela completou.
Dona Tina e senhor Expedito demonstraram ser pais muito carinhosos. Durante a conversa, tentei explicar melhor o que era a minha pesquisa, contei sobre a pesquisa anterior e disse que iria à casa de outros ex-alunos que estudaram com Marcos. Dona Tina ficou empolgada com a notícia e me perguntou se eu não desejava que ela ligasse para Marcos e marcasse um encontro entre nós. Disse que poderia ser na casa dela, pois seria mais tranqüilo. Senhor Expedito entrou na conversa e falou, com uma voz calma e muito serena, que, na opinião dele, achava que deveria ser na casa de Marcos. “Eu já penso o contrário, a vida dele é lá e eu penso que deveria ser lá” – opinou. Deste momento em diante, senhor Expedito já se apresentou mais altivo, porém com palavras muito cautelosas. Ele falava pausadamente,
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procurando expressar-se bem, o que me sugeria que era um homemmuito correto e rígido nos seus propósitos e a todo o momento deixava transparecer o carinho que tinha pelos filhos: “Sempre digo aos meus filhos que, quando precisar dizer alguma coisa, chega para o papai e diz: papai, podemos conversar? E assim eu também me comporto sempre, quando preciso lhes dizer algo”. Foi assim, segundo senhor Expedito, quando Marcos comunicou a eles que iria se casar: “Sentamos e conversamos. É isso mesmo que você quer, então vamos assinar”.
Durante toda a sua fala, senhor Expedito mostrou-se um homem de princípios. Ele disse que sempre fora um pai que cobrou disciplina e honestidade dos filhos. Contou-me que antes do Marcos entrar para a escola já sabia ler, ficou em dúvida se isso foi algo positivo ou negativo: “Não sei se a gente ajudou ou atrapalhou, mas o fato é que antes do Marcos entrar para a escola, ele já sabia ler”. Em seguida, relembrou algo, enfatizado pela pesquisa anterior, a compra de uma enciclopédia. Marcos já sabia ler e fazer contas, assim também foi com suas duas filhas, Goreth e Mônica. Goreth já fez exame de admissão ao curso superior por duas vezes, segundo os pais. Ela envolveu-se em assuntos políticos, chegando a ir até a Brasília. Na época, ela cuidava de uma senhora idosa. “É uma pessoa que se envolve muito em tudo o que faz. Já ajudou um viciado em drogas, ajudou um rapaz do Rio que estava perdido aqui em Belo Horizonte, fez teatro no NET33, aos treze anos, é uma garota que se empolga muito” – disse o pai com orgulho. Mônica não conseguiu terminar os estudos e tentava completá-los através do supletivo.
Senhor Expedito começou a falar e não parou mais. Citando poucos detalhes, ele disse que, no passado, foi ferroviário, contou sobre o processo de construção da casa, o quanto foi difícil, muito dinheiro e muitos sacrifícios para terminar a construção. Enquanto isso, dona Tina revirava os armários - eu só conseguia ouvir barulhos - ela procurava fotos de Marcos. Ia e voltava entre uma sala e outra dizendo que não encontrava - e tentava novamente. Eu e o Senhor Expedito continuávamos a conversa. Revelou que detestava dinheiro, que quem o via naquele momento não imaginava o quanto ele foi avarento e doido por dinheiro quando jovem, mas o dinheiro em suas mãos não trouxe felicidade. Afirma que é Goreth quem cuida de sua aposentadoria. Quando o dinheiro chega, ele diz: “Vem pessoal ver o nosso dinheiro, por que é nosso na verdade, não é?”.
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Núcleo de Estudos Teatrais é uma escola de teatros que promove cursos, palestras, projetos sociais, debates e produção de espetáculos infantis e adultos. É uma escola que produz espetáculos com a participação dos alunos que se destacam no curso.
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As histórias eram muitas e era impossível não me envolver. Preocupei-me se quando estivesse com os entrevistados, conseguiria centralizar o tema de estudo. A primeira conversa com os pais de Marcos não fora gravada e grande parte desse relato teve como apoio as anotações das notas de campo. Fiquei com receio de perder os detalhes. De posse de um Diário de Campo, anotava pontos mais importantes. Grande parte das anotações foi realizada após chegar a minha casa e utilizando como recurso minha memória.
Os pais de Marcos deram-me o telefone do filho. No dia seguinte, liguei, apresentei-me e disse quais eram os meus objetivos. Ao falar pelo telefone com Marcos, ele se revelou, verdadeiramente, impressionado com a proposta. Recordara-se de ter participado de uma entrevista em sua casa, mas não se lembrava dos detalhes que envolviam o trabalho. Da mesma maneira que os demais, sua primeira preocupação foi se eu já teria encontrado todas as pessoas que participaram da primeira pesquisa. Expliquei que nosso objetivo, a princípio, não seria realizar uma nova pesquisa com todos os ex-alunos, mesmo porque eles são muitos, mas sim focalizar naqueles alunos que foram, pela primeira pesquisadora, entrevistados em suas casas. Perguntei sobre seu interesse em participar da pesquisa. Ele destacou o fato de estar na graduação e que todas as experiências que pudessem gerar novos conhecimentos sobre a área educacional seriam interessantes. Ele acrescentou que, também ele, em um determinado momento, teria que passar por uma experiência semelhante a minha, no caso, a monografia, e se aproximar da realização desta investigação seria interessante. Marcos compreendeu com clareza o objetivo de meu trabalho, e isso, provavelmente, em função de sua proximidade com o meio acadêmico. Ele entendeu que sua participação poderia ser também uma oportunidade de troca de conhecimentos.
[...] porque eu vou vivenciar isso lá na faculdade também, vou precisar também de tá contado com a colaboração e tudo, porque eu vou tá fazendo um trabalho meu de pesquisa, lógico pra uma área, porque minha área é contábeis e tudo, um caráter diferente, mas uma mão lava a outra. (Marcos Pereira, 26 anos).34
Trajetórias escolares de pessoas das camadas populares podem nos parecer muito semelhantes, quando observadas quantitativamente. No entanto, no momento em que
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analisadas detalhadamente, é possível perceber certas nuances que direcionam um e outro caminho. CERTEAU35 (apud GALVÃO, 2004, p.142) pontua que “embora sendo importantes indicadores as estatísticas, tendem, como é de sua natureza, a homogeneizar, a tornar idênticas trajetórias de vida distintas, a tornar óbvio e linear aquilo que é inventado cotidianamente”. Nos casos aqui apresentados, é importante destacar as questões de ordem particular como elementos fundamentais para descrever as trajetórias de Marcos, Cassiano, Graziele e Elaine Cristina.
A mãe de Marcos demonstrou ter grandes sonhos para o filho, sonhos estes que se iniciaram com o desejo de que ele pudesse freqüentar todos os níveis de escolaridade. Ela relatou, com bastante tristeza, a rigidez do pai, que acreditava que as primeiras noções escolares deveriam ser formadas em casa e que seus filhos não deveriam dar trabalho para a professora. Assim, não permitiu que Marcos freqüentasse o pré-escolar. Durante a conversa, ela contou com muita felicidade o fato de ver seu neto, o filho mais velho de Marcos, ter acesso ao que seu filho não teve.
Essas vivências familiares, acredito, foram fundamentais para a relação que Marcos constituiu com a escola. Sem rupturas e grandes percalços, ele revelou que foi bem durante toda a sua trajetória escolar, destacou que a primeira fase do Ensino Fundamental, antigamente denominada primeira a quarta série, foi mais tranqüila, pois podia contar com o apoio do pai. Marcos era uma das crianças da pesquisa de Castanheira (1991) que demonstrou alguns conhecimentos sobre a escrita quando entrou para a primeira série. No decorrer da entrevista, ele relembrou que as contribuições do pai, direcionando-o na escola, foram fundamentais para alcançar sua formação naquele momento.
Às vezes assim, queria malandrar, chegava, deixava de lado e queria brincar, tudo, ele já chamava na responsa, falava: não, pera aí! Primeiro as obrigações. Sempre foi isso. Primeiro a obrigação, cumprimento do dever, depois você tem o seu dia livre pra brincar. Então acho que isso para mim até hoje é um exemplo assim. É... quando você cumpre sua obrigação, quando você cumpre o seu papel, eu acho que você fica aliviado, tranqüilo, pra tá desenvolvendo atividade paralela, né! Diversão, seja lá o que for. (Marcos Pereira, 26 anos).36
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CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.
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A disciplina que recebeu do pai foi aplicada na vida estudantil e na vida profissional. O seu jeito disciplinado o fez ser uma criança mais tímida e gostar de realizar seus estudos sozinho. Marcos destacou que saber alguma coisa de leitura e escrita foi primordial para sua entrada na escola. Foi o que o impediu de ter “aquele impacto, aquela dificuldade”- de acordo com suas palavras. A partir da quinta série, as coisas se modificaram na vida escolar de Marcos, pois o pai percebeu que já não possuía condições de acompanhá-lo nos conteúdos escolares. Isso devido à formação escolar, o pai havia estudado até a oitava série e, segundo o relato de Marcos, já não acreditava que pudesse contribuir para o processo escolar do filho. Solicitei a Marcos, assim como fiz com os outros entrevistados, que falasse sobre sua trajetória escolar. As recordações do acompanhamento do pai, ao fazer o dever de casa, e a cobrança de disciplina nos estudos destacaram-se no relato de sua trajetória escolar.
Eu acho assim, meu processo educativo, né? Como no geral, acho que essa, esse primeiro período antes de iniciar a escola, a primeira série, que eu tive em casa, eu acho que foi fundamental pra mim. Essa preocupação que meu pai teve, né! De tá dando pra gente aquele primeiro passo de procurar ensinar a ler, escrever, eu acho que foi determinante, porque eu cheguei à escola e não tive aquele impacto, aquela dificuldade. Nó, o que é isso! Vou ter que aprender, a professora vai ter que ter todo aquele trabalho de tá ensinando a ler, a escrever. Então eu já tive essa facilidade, né! Então ali, até a terceira série, quarta série, eu não tive praticamente problema nenhum porque foi até esse período que meu pai teve essas condições de tá acompanhando diariamente os exercícios, os para casa, aquela coisa toda. A partir da quinta série, ele já não tinha mais condição de acompanhar, porque a escolaridade também é limitada e tudo, mas”.(Marcos Pereira, 26 anos).37
Ao sair da quarta série, Marcos passou a freqüentar outra escola. Dessa nova instituição, ele fez referência à dedicação dos professores. Um período em que ele não podia mais contar com o acompanhamento do pai, e, mesmo com algumas dificuldades, como as vividas na disciplina Matemática, ele teve boas lembranças desse período, pela dedicação dos professores.
Antes de concluir o Ensino Fundamental, Marcos iniciou sua vida profissional. Momento também em que surgiu a oportunidade de realizar um grande sonho, ser jogador de futebol. Ele foi selecionado, entre duzentos meninos, pela escolhinha de futebol do Clube Atlético Mineiro.
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[...] tive a oportunidade de ir lá, fiz dois, três testes lá, mas, complicado. Que eu morando aqui em Ibirité, os treinos lá na Pampulha, né! Não tinha custeio de ônibus, nada. Meus pais, humildes, não tinham condições de pagar. Eu tive que já tomar uma decisão, falei: não, eu preciso trabalhar! Não tem jeito, eu preciso trabalhar, eu vou ter que tirar essa coisa de futebol da cabeça, isso pra mim infelizmente, hoje impossível, não tem como. (Marcos Pereira, 26 anos).38
Foi necessário que Marcos fizesse uma escolha de acordo com sua condição de vida naquele momento. Ele precisava decidir se poderia dar prioridade ao seu sonho, ser jogador de futebol. Pensou primeiro em suas condições reais de vida, entendendo que seus pais não estavam em situação de custear esse desejo. Acreditou que deveria ter como objetivo fundamental os estudos e ponderou que ao continuar estudando garantiria, com maior segurança, um futuro profissional. Bourdieu (1974/1998) leva-nos a refletir sobre vivências, como a de Marcos.
[...] as práticas engendradas pelo habitus são ajustadas a essas condições objetivas toda vez que este for o produto de condições semelhantes àquelas às quais deve responder, isto é em todos os casos em que as estruturas e os mecanismos que as reproduzem e/ou a posição dos agentes relativamente a essas estruturas não tenham sofrido alteração importante. Nesse caso, a concordância das expectativas com as probabilidades, das antecipações com as realizações, está no princípio dessa espécie de “realismo”, enquanto sentido da realidade e senso das realidades que faz com que, para além dos sonhos e das revoltas, cada um tenda a viver “de acordo com a sua condição. (BOURDIEU, 1974/1998, p.91)
A escolha realizada por Marcos, provavelmente, esteve permeada pelos valores constituídos no meio familiar. Neste caso, aqui, a noção de realidade, valor se não constituído totalmente pela família, estava permeado pelas relações familiares. Este valor do senso da realidade fez com que Marcos analisasse sua situação e entendesse que, dentro de suas condições reais econômicas, o sonho de ser jogador de futebol deveria dar lugar a uma outra busca que propiciasse a ele uma formação profissional.
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Não demorou muito e a primeira oportunidade de trabalho, surgiu na ASPROM. Por meio de informações cedidas por colegas e vizinhos, Marcos descobriu que aos quatorze anos poderia conciliar trabalho e estudo. Confessou que, a princípio, pensou que seria complicado administrar a vida de estudante e trabalhador, ouvia sempre muitos amigos falando sobre as dificuldades em trabalhar durante o dia e estudar à noite, mas “eu não me conformava. Não, não tem condições, tenho que dar um jeito” - disse. A partir de então, trabalhando e estudando Marcos começou a se preocupar com seu futuro profissional, o que iria fazer “da vida”. A primeira influência profissional a que ele fez referência foi à docência. Neste momento, comparo a história de Marcos a de Cassiano, cuja história será relatada posteriormente neste capítulo. Marcos não foi o único cuja escolha por uma profissão contou com o incentivo de um profissional da educação, o professor. Cassiano também foi influenciado pelo convívio com esse profissional. Porém, diferentemente de Cassiano que prosseguiu em seu sonho, Marcos sentiu apenas o desejo de se tornar professor de História, não seguiu essa profissão. Mais uma vez, as condições objetivas não deram a ele oportunidade de optar pelo sonho, desejo, teve que fazer a escolha por uma formação que estava dentro de suas possibilidades. A escola em que Marcos cursava o Ensino Médio optou por não mais oferecer a modalidade Científico. Assim, por acreditar que não iria conseguir vaga em outra escola, resolveu fazer o curso de Contablidade. Iniciou desinteressado, mas acabou gostando. No curso de Contabilidade, atribui a outro professor o fato de ter se apaixonado pela área contábil e decidir