Grande parte do Nordeste encontra-se nas depressões interplanálticas, com exceções como o Planalto da Borborema (Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas) ou o platô Apodi, no Rio Grande do Norte. O sertão levemente ondulado e montanhoso originou-se dos processos de pediplanação ocorridos no decorrer do Terciário e Quaternário (AB'SÁBER, 2003) descobrindo as superfícies de rochas cristalinas do Pré-Cambriano (gnaisses, granitos e xistos) (PRADO, 2003).
Segundo Tricart (1961) o processo de pediplanação seguiu dois tipos de processos erosivos: a esfoliação milimétrica que, com apenas alguns milímetros de profundidade, resulta em areias levadas pelas águas correntes dos pedimentos, modelando as planícies inclinadas típicas da topografia do semiárido do Nordeste; o outro processo é a esfoliação métrica que explora fissuras paralelas à superfície com cerca de um metro de profundidade, esse processo produz grandes rochas encontradas nas bases dos inselbergs e montes cristalinos.
Os inselbergs, as serras e chapadas são considerados como remanescentes de superfícies jovens dentro das Caatingas. É possível destacar que as chapadas apresentam características completas das superfícies sedimentares de arenito originais do Terciário, por outro lado as serras indicam um estágio mais avançado do processo de pediplanação e os inselbergs são os últimos remanescentes a serem erodidos (PRADO, 2003).
Os inselbergs são caracterizados por elevações ilhadas que aparecem em regiões de clima semiárido, são considerados como resíduos de pediplanação em climas áridos quentes e semiáridos (GUERRA, 1989). A pediplanação ou pediplano é definido como uma superfície inclinada formada pela coalescência (união) de pedimentos (GUERRA, 1989; JABOTOBÁ, 1994). Os pedimentos, por sua vez, são materiais trazidos por rios formando um lençol semelhante a um leque logo na saída das montanhas. Esse pedimento será aplainado formando uma superfície de erosão ou "glacis" de erosão.
No domínio das Caatingas as superfícies aplainadas, segundo Ab'Sáber (1969) tem notável participação na composição dos compartimentos de relevo e na caracterização das paisagens no semiárido. Ab'Sáber (1969, p. 1) destaca que:
os efeitos paisagísticos dos pediplanos interiores, ainda hoje sujeitos às ações de climas semiáridos (ao contrário do que aconteceu com outras áreas) e revestidos pela vegetação das caatingas, contribuíram para fixar um dos termos de maior capacidade de evocação dos ambientes globais, existente em todo território brasileiro: a palavra sertão.
As chamadas depressões sertanejas, que se prolongam por depressões interplanálticas, que caracterizam-se por baixas altitudes, situam-se entre maciços antigos e chapadas eventuais, formando intermináveis colinas esculpidas em xistos e gnaisses com baixa decomposição química. Tais colinas estão sujeitas ao clima quente do semiárido, sulcadas por rios e riachos intermitentes.
Devido a sua grande importância, geógrafos como Ab'Sáber em seus trabalhos ligados a geomorfologia destacam a participação do Planalto da Borborema na compreensão e interpretação do relevo nordestino. Dentre os variados núcleos de planaltos cristalinos que formam o extenso e diverso Planalto Atlântico do Brasil, a "Borborema destaca-se pela surpreendente conservação de seus níveis de erosão e pelo rejuvenescimento relativamente modesto que foi sujeita nos períodos geológicos mais recentes" (AB'SÁBER, 1953, p. 54).
Ab'Sáber (1956) aponta que nas diversas direções (Norte, Oeste ou Sudeste da Borborema) que se viaje no Nordeste é notável que as áreas semiáridas se encontram situadas entre rebordos da Borborema e as "cuestas" interiores, correspondendo as zonas periféricas esculpidas em fases climáticas mais úmidas do paleogeno (referente a períodos do Terciário) e posteriormente atingiram, no pleistoceno, condições de semiáridez mais definidas.
É marcante a participação das superfícies aplainadas do maciço da Borborema sobre as paisagens nordestinas, isso devido às extensas superfícies interplanálticas que se iniciam a nordeste da Bahia e penetram pelo Ceará até os sopés do Ibiapaba e do Araripe (AB'SÁBER,
1969). O maciço antigo da Borborema é envolvido por pediplanos sertanejos do fim do Terciário; sobre as pediplanações nordestinas, Tricart (1957) apud Ab'Sáber (1969) ressalta que as superfícies aplainadas caracterizam as paisagens, por serem superfícies bem desenvolvidas e nítidas quando formam chapadas e tabuleiros e, também, quando cortam rochas cristalinas.
O Planalto da Borborema é apenas um dentre os diversos tipos de formas que apresentam o relevo nordestino, de acordo com trabalho desenvolvido por Sá et al. (2003) sobre uma descrição da diversidade de macropaisagens do nordeste brasileiro, com ênfase na região semiárida. Dentro da pesquisa desenvolvida por Sá et al. (2003) foram descritas grandes unidades de paisagens (quadro 3), correspondentes a geologia e geomorfologia no semiárido.
Quadro 3 – Grandes Unidades de Paisagem no Semiárido nordestino
UNIDADE DE PAISAGEM ÁREA (Km2) % DO NORDESTE
Depressão Sertaneja 368.216 22,16
Chapadas Altas 147.059 8,84
Superfícies Dissecadas dos Vales do
Gurguéia,Parnaíba, Itapecuru e Tocantins 110.782
6,66 Superfícies Retrabalhadas 110.120 6,63 Chapada Diamantina 91.199 5,48 Superfícies Cársticas 76.917 4,62 Planalto da Borborema 43.460 2,61 Bacias Sedimentares 40.262 2,42
Maciços e Serras Baixas 35.439 2,13
Áreas de Dunas Continentais 9.846 0,59
Fonte: Adaptado de Sá et. al. (2003)
A influência destes elementos é marcante, tanto nos solos como na vegetação das Caatingas. Nesse caso, a geologia fornece uma série de elementos químicos que irão afetar diretamente esses dois elementos naturais, como o PH, enquanto a geomorfologia, particularmente a posição do relevo em relação a direção das massas de ar, estabelecerá áreas com maior ou menor umidade. Logo, em conjunto, todos esses elementos apresentam
influências recíprocas que se caracterizam por uma dinâmica complexa ainda pouco conhecida.
2.3 FISIONOMIAS DAS CAATINGAS: OS IMPACTOS AMBIENTAIS E AS SUAS