As argamassas de cal hidratada com gorduras foram utilizadas durante centenas de anos e com bons resultados. Há não muito tempo ressurgiu o interesse por este tipo de argamassa, quer por razões de interesse histórico quer mesmo por motivos ligados à necessidade de uma construção mais sustentável.
Os aditivos orgânicos podem estar presentes tanto nas argamassas de cal, quanto nas tintas à base de cal. No passado, foram utilizados compostos orgânicos como, por exemplo, polissacarídeos (mucilagem vegetal), proteínas (caseína do leite, clara de ovo), óleos animais (peixe etc.), vegetais (linhaça) e gorduras (sebo). Também era comum adicionar fibras vegetais (palha) e de animais (crina, estrume), as quais contribuem nas propriedades das argamassas, influindo em sua trabalhabilidade e consistência, no controle das retrações, na absorção e difusão da umidade e, por fim, na durabilidade e resistência final das argamassas às intempéries. Ainda se misturavam, como aditivos hidráulicos, materiais pozolânicos que modificavam a pega, a cura e outras propriedades das argamassas à base de cal (VENTOLÀ et al., 2011).
Desde o meio da década de 90 que é comercializada em Portugal uma cal com a designação de “cal D.Fradique”, que é produzida com incorporação de borra de azeite (oleína). Esta cal teria surgido (segundo se pensa) devido às diligências do arquiteto Quirino da Fonseca, que tinha sido incumbido de selecionar um ligante para as argamassas a serem utilizadas nas obras de conservação das muralhas do Castelo de São Jorge, em Lisboa (STOLZ, 2007).
Stolz (2007) estudou o comportamento de rebocos contendo cal D.Fradique no revestimento de paredes de pedra e cal, tendo observado que embora os rebocos à base de cal com gorduras (1:3), tenham uma elevada capacidade de impermeabilização, apresentam por outro lado baixa resistência superficial e uma menor resistência ao arrancamento, que os restantes dos rebocos à base de cal aérea e cimento (0;5:0,5:3) e cal hidratada (1:3). Pelo fato que a cal aérea apresenta maior grau de compactação, conjugado com a presença de gordura, contribui para retardar o fenômeno da carbonatação e logo o desenvolvimento da resistência.
Segundo Veiga (2003), a utilização indiscriminada de revestimentos à base de cal hidratada com gordura tem, a par de alguns sucessos, conduzido também a maus resultados (Figura 2.5). Uma explicação para os referidos insucessos pode ser o retardamento da carbonatação, típico deste tipo de cal.
Figura 2.5 – Perda de coesão e erosão em argamassa recente de cal hidratada com gordura (VEIGA, 2003).
É importante saber se diferentes tipos de gorduras, como a de óleo de colza cuja produção está prevista ser iniciada em Portugal a breve prazo, constituindo-se assim como um aditivo de baixo custo, influenciam diferentemente o comportamento destas argamassas e quais as gorduras que aperfeiçoam o desempenho de argamassas para conservação e restauração (VIKAN e JUSTNES, 2006).
A capacidade impermeabilizante de argamassas de ligantes hidráulicos por intermédio de óleos vegetais foi já estudada por outros autores, os quais referem que se podem obter bons desempenhos com percentagens de óleo vegetal de apenas 0,5% e também que o óleo de colza é o óleo mais barato, mais ainda que o azeite de oliva (VIKAN e JUSTNES, 2006).
Segundo pesquisa realizada por Ventolà et al. (2011), misturas de cal, areia (usada como um agregado) e de água com diferentes componentes orgânicos (polissacarídeos, proteínas, cola animal e ácidos graxos) foram preparadas segundo métodos tradicionais utilizados na América do Sul e México. A relação de Cal / agregado selecionados foi 1:3 em volume, que é a razão mais comum citada na literatura (MALINOWSKI, 1981). As misturas de argamassa foram preparadas usando a quantidade de água necessária para obter uma consistência normal e uma boa trabalhabilidade (medida pelo teste de consistência). O peso percentual dos aditivos foi de 5% em massa.
Os resultados do teste de resistência mecânica à tração e compressão revelaram que o resultado mais significativo foi obtido utilizando-se cola animal, quando a resistência foi aumentada por um fator de quase 2.
(a) (b) (c)
(d) (e) (f)
(a) amostra em branco; (b) caseína; (c) cola animal; (d) nopal como pó; (e) nopal como mucilagem; e (f) azeite de oliva.
Figura 2.6 – MEV de amostras de argamassas (VENTOLA et al. , 2010).
A micrografia da argamassa com azeite de oliva (Fig. 2.6f) é consistente com os resultados da análise de porosidade, o que mostra ser a amostra com poros de tamanhos menores. Uma observação interessante é que as argamassas contendo um aditivo, cristais aciculares de aragonita, polimorfo do carbonato de cálcio (CaCO3), estão presentes (Fig. 2.6f,
c, d, e), a única exceção da caseína quando foi adicionada (Fig. 2.6b). Neste último caso, mesmo quando a presença de aragonita foi confirmada por difração de raios X, a natureza do cristal não foi acicular, indicando que a caseína determina a morfologia do cristal. O crescimento de cristais aciculares de aragonita (CaCO3), devido à utilização de um aditivo,
pode ajudar a melhorar a consistência da argamassa e resulta em melhor resistência à compressão.
- A adição de cola animal (um material de proteção) como aditivo aumentou a resistência mecânica da argamassa (após 28 dias, muito provavelmente, a resistência seria maior com um tempo mais longo). Isto pode ser importante para usos ocasionais em que a carga pode ser aplicada ou para novas construções em que a carga incremental é aplicada para as articulações, enquanto as paredes crescem.
- A frente de carbonatação foi melhorada significativamente pela adição de nopal tanto como um pó e como mucilagem, principalmente material de um polissacarídeo. Em muitos casos de recuperação, este é um fator importante para evitar a deterioração de argamassa após a aplicação devido à chuva, a erosão ou por outro fator mecânico.
- O uso de azeite (um material gorduroso) como aditivo ajuda a reduzir o sistema de poros pela metade (em percentagem do volume) e diminuiu o tamanho dos poros. Além disso, ele melhora a impermeabilidade da argamassa, o que significa que ele pode ser usado em casos, por exemplo, quando uma superfície à prova de água é necessária para proteger uma área particular da chuva direta. Cola animal também reduziu o número e o tamanho dos poros, embora de forma menos significativa.
Pesquisa realizada por Santiago (2011) utiliza o grude da Gurijuba como material orgânico obtido da bexiga do peixe que leva este nome, tendo sido, possivelmente, utilizado por séculos na construção artesanal, na região de Belém, PA. O referido estudo visa analisar a influência da adição deste material nas propriedades físicas e mecânicas de argamassas de cal, procedimento consagrado pela tradição oral. O grude foi adicionado às argamassas nos teores de 2% e 5% em relação à massa de cal, sendo os seus resultados comparados à amostra de referência (sem adição). Os resultados obtidos de resistência à tração na flexão e à compressão simples apresentaram que a adição da cola produzida com o grude de gurijuba aumentou consideravelmente a resistência mecânica das argamassas de cal, indicando uma razoável capacidade aglomerante deste material, como, também, a presença do referido aditivo reduziu a porosidade total e capilar das argamassas de cal, o que refletiu na redução da absorção de água total e por capilaridade, o que mostra ser viável sua utilização em argamassa de cal.
3 REFERENCIAL TEÓRICO