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Ankara Mahpusu’nda Kalabalık İçinde Yalnızlık ve Yabancılaşma

III. KENTİN PANORAMASI

III.3.2. Ankara Mahpusu’nda Kalabalık İçinde Yalnızlık ve Yabancılaşma

A apresentação do personagem no romance de Rios Preto já mostra a tensão existencial que o lança ao mundo da desordem: ele era um negro que vivia na escravidão e, tão logo recebe a liberdade, o caminho que assume é o do crime. A primeira estrofe deixa implícito que mais do que destino seu gesto foi uma escolha. Armado, anda em bando, aterrorizando “pobres pais de famílias” que vivem conforme a ordem e a lei.

Rios Preto er’ um nego Vivia na escravidão Recebeu a liberdade Deu logo pra valentão Vivia da cartuchera E do granadeiro facão

No romance cantado por Dona Militana, o enredo se limita a contar um episódio de suas “valentias”, quando, atacando uma família, cujo dono da casa está ausente, queima sua casa e

ameaça desonrar a mulher. Esta demonstra firmeza de ânimo, barganhando com o bandido sua integridade moral, oferecendo-lhe o cavalo do cercado. Sendo recusado, a mulher retruca, preferindo ter a cabeça arrancada a deixar-se possuir pelo negro. Nesta versão não fica explícito se o negro atingiu o seu intento, apenas diz que, tão logo ele parte, chega o marido.

Ele mais dois camarada Conduzira a casa em pó A mulé lhe ofereceu O cavalo do cercado – Nós não qué o seu cavalo Nós tamo tud’ amuntado Nós querem’ é a senhora E deixe de palavriado

– Meu marido anda osente Pra cima por tá em co E argum dia é de chegá A cabeça pode ir

Mas o corp’ é que não vai lá.

A mulher evita contar-lhe o ocorrido, mas as vizinhas o fazem. O homem se junta a dois cunhados, que lhe fazem juras de fidelidade, e partem igualmente armados em busca de Rios Pretos. Encontraram-no “brincando com uma bela”, roubada a um padre de quem era sobrinha. Os três atiram e matam o negro, que ainda pede clemência, desejando confessar-se, ao que não é ouvido. O romance se encerra com “os grandes” do lugar festejando o feito, soltando fogos no ar.

Eles encontrar’ um velho Segurand’ em uma vela Rios Preto tá na rede Brincando com uma bela Subrinha do Padre Armanço Que robô ela donzela Os oto tá no escuro Rios Preto tá no claro Levar uso peit’ in frente Todo três lhe atirarum E Rios Preto sartô Eles pidir’ uma luz Pra Rios Preto caçá

Pu Barroca e pu Baboca Por ond’ ele havia ‘stá – Minha gente eu vos peço Num me acabem de matá Me levem pa Esprito Santo Qu’ eu quero me confessá Os homes grande de lá Vinhero log’ encontrá D’ alegria que tiveram Sortaro fogo no ar.

Se compararmos o enredo de Rios Preto com os dois textos anteriormente estudados, ressalta imediatamente a exuberância imagética daqueles frente à escassez deste. Os romances de Marina e Alzira são férteis e ricos em metáforas, enquanto o romance de Rios Preto parece concentrar-se no eixo sintagmático. É um romance de ação, para homens de ação. Essa característica não é uma particularidade desse romance, mas de todos os que narram a aventura de heróis guerreiros como o Cabeleira, o Romance de Severo, o Romance de Inácio, e muitos outros preservados por Dona Militana. Parece se construir na memória e na oralidade um padrão narrativo masculino e outro feminino. A riqueza metafórica dos romances cujos heróis são mulheres constrói uma trama vertical que se superpõe ao enredo como um outro texto além da fábula. No caso dos

romances com heróis guerreiros, mais do que uma trama, o que se nota é a urdidura, costurando uma ação na outra, impulsionando horizontalmente a fábula ao desenlace trágico.

Esses opostos na verdade se complementam num todo em que trama e urdidura fazem na memória o tecido da experiência da comunidade. Se o feminino nos oferece o mythos, revelando os atos rituais que religam o homem ao sagrado, cabe ao masculino o ethos, ditando os comportamentos imperativos a boa socialização da comunidade. Assim, esses romances coligidos com um só imaginário fazem um conjunto em que, retomando as palavras de Georges Dumézil, “conceitos, imagens e ações se articulam e formam, ao se ligarem, uma rede na qual, de direito, toda matéria da experiência humana deve ser capturada e distribuída” (apud VERNANT, 2001, p. 45).

É a liberdade do negro Rios Preto que o leva à desordem revolta. Seu atentado contra o pai de família gera o desejo de vingança, culminando com a morte do “valente”. Se lá nos romances “femininos”, as metáforas criavam uma imagem simbólica que transcendia ao plano mundano, apontando para o transcendente, portanto para o mito, no Romance de Rios Preto o que se eleva é a construção de um ethos. É o caráter e a moral das relações entre os homens que desenvolve a história. Assim, a revolta, a vingança, a amizade são os elementos que se exibem em função dos laços e do contato social de cada personagem. O negro se une a dois outros em bando, provavelmente enlaçados pelos mesmos valores e pela mesma indignação contra a privação da liberdade, tão cara ao homem. O marido e os dois cunhados se unem pelo parentesco e pelo desejo de vingar a honra atingida. Em ambos os casos há o elo de uma amizade que se erige. Por outro lado, de certa forma, tanto o negro quanto o marido atingido por ele também se unem moralmente pelo desejo de vingança, embora a deste receba as aprovações sociais, autorizadas pela “alegria” dos “grandes” do lugar.

Polarizam-se, dessa forma, as ações quanto à aprovação e à reprovação. O atentado à casa de família é uma ação reprovada socialmente, enquanto a vingança do dono da casa é admitida e louvada. A “vingança” aleatória do negro situa-se, por isso, no domínio da selvageria, mais apropriado ao mundo natural; enquanto aquela executada pelo dono da casa, o pai de família, pertence ao domínio da cultura, porque defende valores estabelecidos ritualisticamente pela sociedade. A família assume aí ares de um ambiente sagrado que não deve ser maculado, legalizando com isso a vingança e o assassinato ritual como forma de restabelecer a ordem rompida.

Todavia, embora a morte seja autorizada, o assassinato ainda assim é tido como um ato tabu, como se percebe pelo simbolismo do claro e do escuro. Embora Rios Preto deva ser punido, na hora de sua morte ocorre uma inversão de valores, ao ser mostrado no claro, enquanto seus algozes se encontram no escuro. Para legitimar seu ato, os homens pedem luz para caçar Rios Preto, como já a recebera do velho que lhe indicara o lugar onde se escondia o bandido. Além disso, no momento extremo, Rios Preto dá provas de arrependimento e de retorno à ordem sagrada ao cobrar o direito à

confissão diante do Espírito Santo. Este apelo, de certa forma, ratifica o restabelecimento da normalidade, posto que a natureza selvagem fora domada, muito embora ainda seja necessária a morte. Pode-se dizer enfim que a normalidade só se reinstala quando se atinge o grau zero do ato tabu. O assassinato e a morte, enquanto elementos instauradores do caos e da desordem, só se anulam com a repetição desse gesto. Foi necessário por isso que o pai de família, também armado e em bando, repetisse o gesto criminoso, nivelando-se àquele para transcendê-lo na salvação do socius.

Mais do que a morte é o assassínio que se mostra na ponta do iceberg da saga desses heróis bandidos. Ele é um ato tabu, e, como tal, deve ser encarnado e executado por um herói. Porém, mesmo assim, deve ser legitimado para que tenha validade mítica. Este gesto fatal emoldura todas essas narrativas, dialogando com a inquietação de uma sociedade frente à tragédia cotidiana da violência. Assim, em todos esses romances, o assassinato acaba sendo mostrado como uma revolta contra uma injustiça, motivado por vingança, ou resultado de uma herança familiar mal construída, como é o caso do Cabeleira, cujo pai incentiva o filho ao crime, à revelia da mãe que tenta conduzi- lo no caminho da fé e da religião.

Benzer Belgeler