THE PROLOGUE
30. And shortly, whan the sonne was to reste,
Vigotski (1987) postula que o verdadeiro curso do desenvolvimento do pensamento não vai do individual para o socializado, mas, do social para o individual, definindo a tese central de que as origens das formas superiores de comportamento consciente deveriam ser encontradas nas relações sociais que o indivíduo estabelece com o mundo exterior. Para ele, os processos psicológicos humanos se desenvolvem, inicialmente, no plano social, como processos interpessoais e interpsicológicos, para depois, tornarem-se individuais, ou seja, intrapessoais ou intrapsicológicos. Nesse sentido, se opôs a duas tendências importantes na Psicologia. Primeiramente, às concepções que consideram que o comportamento social é derivado do individual. Em segundo lugar, às que defendem que o indivíduo sofre influências sociais de modo passivo, baseada em um conceito de ambiente pautado num conjunto de contingências que, dependendo de suas características, podem ou não oferecer elementos que facilitem o desenvolvimento.
Essas duas vertentes: objetivistas e subjetivistas deveriam ser superadas. O objetivismo por entender os fenômenos psicológicos como simples reflexo do mundo exterior e o subjetivismo por analisá-los como criações subjetivas e independentes do homem. Procurava-se compreender a determinação sócio-histórica do psiquismo, de forma não mecânica e reducionista, desfazendo falsas dicotomias, capazes de determinar teorias, que transformam contradições sociais em problemas psicológicos, bem como aquelas que se restringem a um enfoque, exclusivamente sociopolítico, que explica todos os problemas sob a ótica das relações sociais.
De acordo com Vigotski e Luria (1996), seria necessário considerar as complexas relações entre a base material da sociedade e a superestrutura, tendo em vista o objeto específico da Psicologia. Eles afirmam que:
Do mesmo modo que a crescente supremacia do homem sobre a natureza baseia-se não tanto no desenvolvimento de seus órgãos naturais, quanto no aperfeiçoamento de sua tecnologia, assim também o crescimento contínuo de seu comportamento origina-se primordialmente no aperfeiçoamento de signos externos, métodos externos e modos que se desenvolvem em determinado contexto social, sob a pressão de necessidades técnicas e econômicas. Todas as operações psicológicas naturais do homem são reconstruídas sob essa influência. Porém, o mais importante, o mais crucial e o mais característico para todo o processo, é o fato de que seu aperfeiçoamento vem de fora e é afinal determinado pela vida social do grupo ou do povo a que o indivíduo pertence. (Idem, p. 143-144). O psiquismo humano, para Leontiev (1978a), também é determinado pelas relações reais dos homens com o mundo, as quais estão na dependência das condições objetivas de vida. Ao analisar o desenvolvimento histórico do psiquismo humano, esse estudioso buscava apreender a reorganização dos processos psíquicos, no trajeto da evolução histórica e ontogênica, tendo apontado que as condições que produziram o processo de hominização e a passagem à consciência foram proporcionadas pela atuação humana sobre a natureza. Através do trabalho, os homens se objetivam, nos produtos que constroem e transferem para os objetos, materiais ou não, sua atividade física e mental e, desta forma, criam e transformam sucessivamente a cultura humana.
Ao apresentar essas idéias para a Psicologia, o autor supracitado sugeriu a categoria da atividade como núcleo central de sua teoria, propondo traduzir no nível psicológico a visão marxista de história. De acordo com ele, diferentemente do que ocorre com os animais, as atividades humanas são formadas por um conjunto de ações nas quais não há uma vinculação imediata entre o significado e o sentido das ações. Essa relação é mediatizada e indireta.
A consciência do homem precisa lidar constantemente com o sentido e o significado das ações, que apenas podem ser prontamente percebidos dentro da totalidade mais complexa, da qual se originou, ou seja, a atividade. Porém, se o sentido e o significado não coincidem na consciência, dá-se uma estruturação alienada da consciência. Ainda para Leontiev (ibid.), esse processo originou-se na divisão social do trabalho, posterior ao surgimento da propriedade privada.
Para se constituir, além de se objetivarem nos objetos, materiais e não materiais, através de sua atividade social e histórica, os homens precisam se apropriar da cultura já acumulada, pois, para a Psicologia Histórico-Cultural, a apropriação é o principal mecanismo que determina o desenvolvimento do psiquismo humano. Diferentemente
dos animais, o homem assegura suas aquisições apropriando-se dos objetos humanos, mas não se adaptando ao mundo desses objetos.
Leontiev (1978a, p. 247) não rejeitava a dimensão biológica, porém, a considerava como uma condição inicial para que o homem se colocasse como
“candidato” à humanidade. Para ele, a humanidade apenas se efetiva quando, em
contato com o mundo objetivo e humanizado, transformado pela atividade real de outras gerações e por meio da relação com outros homens, o indivíduo também aprende a ser humano. No seu entender:
As propriedades biologicamente herdadas do homem não determinam as suas aptidões psíquicas. As faculdades do homem não estão virtualmente contidas no cérebro. O que o cérebro encerra virtualmente não são tais ou tais aptidões especificamente humanas, mas apenas a aptidão para a formação destas aptidões.
Compreende-se que é o processo de apropriação da experiência acumulada pelo gênero humano, no percurso da história social, que propicia o alcance das qualidades, capacidades e características humanas, bem como a criação sucessiva de novas habilidades e desempenhos psíquicos. Esse processo de humanização é possível, apenas na relação com outros homens. Entretanto, essa relação do homem com o mundo não é direta, é mediada por instrumentos e sistemas de signos, que apenas os humanos são capazes de criar.
De acordo com Vigotski (1994), na atividade psicológica, o signo age como instrumento psicológico, de modo semelhante a um instrumento de trabalho, permitindo aos indivíduos controlar suas atividades voluntárias e desenvolver suas capacidades. A linguagem é um signo mediador, essencial para a construção das funções psicológicas superiores. Nas palavras do autor:
A capacitação especificamente humana para a linguagem habilita as crianças a providenciarem instrumentos auxiliares na solução de tarefas difíceis, a superar a ação impulsiva, a planejar uma solução para um problema antes de sua execução e a controlar seu próprio comportamento. Signos e palavras constituem para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças, distinguindo-as dos animais. (idem, p. 38).
De início, social e externa, a fala vai se internalizando e promovendo a construção do pensamento. Com a apreensão da linguagem, os processos mais simples vão se transformando e tornam-se mais complexos. Assim, a linguagem não apenas é instrumento de comunicação do pensamento, constitui-se fator crucial para o
desenvolvimento humano, é a demonstração mais nítida da natureza histórica da
consciência. “A consciência se reflete na palavra como o sol em uma gota de água. A
palavra está para a consciência como o pequeno mundo está para o grande mundo,
como a célula viva está para o organismo, como o átomo está para o cosmo”.
(VIGOTSKI, 2000, p. 486). Conforme esse autor é na relação com o contexto, relação esta, mediada pelos instrumentos e símbolos, desenvolvidos culturalmente, que ampliamos formas de pensamento e linguagem, as quais fornecem a chave necessária para que a Psicologia compreenda a natureza da consciência humana.
Na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, o individuo interioriza algumas formas de funcionamento oferecidas pela cultura, no entanto, ao apropriar-se delas transforma-as em instrumentos de pensamento e ação. Desse modo, não pode ser compreendido como objeto e produto, pois é, simultaneamente, sujeito e produtor das relações sociais. Assim sendo, compreende-se a relação entre o sujeito psicológico e o contexto histórico no resgate do sentido subjetivo e pessoal do indivíduo, inserido na trama complexa das relações sociais.