Na cidade de Fortaleza, o coletivo Massa Crítica, além da tradicional bicicletada da última sexta-feira do mês, acabou por concentrar também a realização de ações diretas51 e de intervenções no espaço urbano. Essas ações se constituem tanto como forma de protesto como de comunicação com os outros citadinos e com o próprio estado. A análise e a reflexão sobre essas práticas, como evidencia Barreira (2014), são um promissor percurso metodológico a ser seguido pelo sociólogo, já que evidenciam linguagens de protesto e repertórios políticos e culturais presentes no universo simbólico do grupo.
Apresento agora algumas dessas ações, principalmente em sua relação com os repertórios políticos e formas de produção do espaço por parte dos ciclistas urbanos. Uma das primeiras ações desse tipo realizada pelo grupo na cidade de Fortaleza foram as ghost bikes (bicicletas fantasmas). Esse tipo de intervenção é tradicional no cicloativismo de todo o mundo. No endereço eletrônico criado por Willian Cruz, o Vá de Bike, um dos maiores produtores e difusores de notícias e informações sobre o universo do ciclismo urbano no Brasil, a definição
51Numa definição simples, “[...] ação direta é uma forma de ativismo, que usa métodos mais imediatos para produzir mudanças desejáveis ou impedir práticas indesejáveis na sociedade, em oposição a meios indiretos, tais como a eleição de representantes políticos, que prometem soluções para uma data posterior, ou o recurso ao sistema jurídico.” (WIKIPEDIA, 2015). Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/A%C3%A7%C3% A3o_direta>. Acesso em: 13 mar. 2015.
de ghost bikes é a seguinte:
[...] são bicicletas brancas instaladas em locais de acidentes fatais com ciclistas, como memoriais em homenagem a quem perdeu a vida para a pressa de alguém, para a falta de planejamento viário, para a omissão do poder público. Também têm o objetivo de evitar que aquela morte caia no esquecimento, sendo considerada apenas um inconveniente temporário ao trânsito de uma tarde qualquer. [...] As bicicletas brancas servem como um alerta aos condutores de automóveis para que tomem mais cuidado com as vidas que pedalam pelas ruas, lembrando que um ciclista é uma pessoa, e não um obstáculo, com família, amigos, filhos, amores e sonhos. (CRUZ, 2013, s.p., grifo meu).
Além de fixar a ghost bike no local do atropelamento – geralmente a instalação é feita no alto de postes, tanto para dar maior visibilidade ao monumento quanto para dificultar a remoção da bicicleta, o que, na maioria das vezes, é feito pelo próprio poder público –, os contornos de corpos, como os que ficam marcados no chão depois da realização de perícias em casos fatais, são pintados no asfalto juntamente à frase “Respeite o ciclista”.
O sentido desse tipo de ação fica claro na definição apresentada: as ghost bikes são, ao mesmo tempo, um protesto – contra a violência no trânsito e a “omissão” do poder público –, uma homenagem ao ciclista morto e uma tentativa de alertar e sensibilizar os motoristas para a presença das bicicletas no trânsito – ou, mais especificamente, das “vidas que pedalam pelas ruas”52. Protesto, homenagem e comunicação são diferentes aspectos dessa mesma ação.
Imagem 10 – Ghost bike instalada durante a Massa Crítica de novembro de 2014
Fonte: Massa Crítica Fortaleza (2014).
Legenda: Ato realizado em memória de um ciclista atropelado por um motorista de ônibus na Avenida Barão de Studart.
Há, ainda, uma clara ideia de “pessoalizar” – visando a um efeito de sensibilização
52É marcante a perspectiva dos cicloativistas de personificar os atores cotidianos do trânsito. Assim, em vez de “bicicleta”, “pessoas andando de bicicleta”; em vez de “um carro”, “o motorista do carro”. Adiante retomo a discussão sobre as terminologias e a disputa simbólica em torno delas.
e de responsabilização – os atores do trânsito: “O ciclista é uma pessoa”. A mesma lógica é utilizada para todos os outros modais: “Uma pessoa dirigindo um ônibus (ou um motorista de ônibus)”, por exemplo, e não simplesmente “Um ônibus”.
O Die in53 é outra forma de intervenção/protesto que, muitas vezes, é realizado juntamente à fixação das ghost bikes nos espaços públicos. A ação está também ligada a uma crítica diante da violência e imprudência no trânsito. Nesse tipo de intervenção, vários ciclistas se estendem sobre o asfalto, em silêncio e inertes, ao lado de suas bicicletas, bloqueando o trânsito como que simbolizando uma massa de ciclistas atropelados ou mortos. Por vezes, alguém cumpre o papel de explicar aos motoristas e demais pessoas no local em que consiste a ação. Parece ainda haver uma outra mensagem implícita, a do empoderamento e da proteção do ciclista através de um maior número de adeptos ao modal, mediante a tomada das ruas. A posição de alta vulnerabilidade dos ciclistas – que ficam deitados e parados – tem o desdobramento de mostrar aos motoristas sua responsabilidade diante de outros atores do trânsito: ou esperam ou “passam por cima”, literalmente, já que estão todos ao nível do chão.
Imagem 11 – Die in em frente à Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor)
Fonte: Massa Crítica Fortaleza (2015).
As duas ações precedentes são tradicionalmente realizadas por grupos de cicloativistas de todo o mundo; os próprios nomes – em inglês – denunciam o caráter internacional desse tipo de atividade. Contudo, uma das ações mais conhecidas e que têm maior repercussão – inclusive com ampla cobertura da mídia impressa e televisiva na maior parte das vezes – são as “ciclofaixas cidadãs” ou “ciclofaixas populares”. A ideia, ao que tudo indica, foi concebida pelos cicloativistas de Fortaleza e virou uma marca da Massa Crítica na cidade, sendo
reproduzida por grupos de cicloativistas Brasil afora.
Os cicloativistas se reúnem – geralmente no período da madrugada ou no princípio da manhã, horários de pouco movimento nas ruas – depois de se organizarem e combinarem a ação via internet54. Uma máquina caseira, produzida com um carrinho de supermercado, ajuda na confecção das ciclofaixas populares, que são implementadas tanto em locais onde já houve a promessa de instalação de estrutura cicloviária – e esta não ocorreu – como em locais percebidos como de grande fluxo de ciclistas. As ciclofaixas das ruas Ana Bilhar e Gonçalves Ledo, por exemplo, foram instaladas pelo poder público – ou “oficializadas”, segundo os cicloativistas – após a implantação das ciclofaixas cidadãs.
Imagem 12 – Confecção da ciclofaixa cidadã na rua Ana Bilhar
Fonte: Massa Crítica Fortaleza (2013)
A pintura dessas ciclofaixas é uma escrita no espaço urbano que, como uma bandeira, sinaliza e comunica aos demais munícipes a presença dos ciclistas na cidade e sua luta por espaço e respeito no trânsito; é também uma forma de ação política que, além de pressionar – entre outros meios, através da “deslegitimação” da representatividade – os agentes estatais responsáveis por esse tipo de intervenção urbana, indica uma perspectiva de “indivíduo responsável”, de cidadania “direta”, “sem mediação”55.
Além das ciclofaixas, já foram pintadas também faixas de pedestres em alguns
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Como já apresentado, a grande maioria das atividades do cicloativismo em Fortaleza é divulgada por intermédio da internet. As bicicletadas da Massa Crítica são tanto “convocadas” como posteriormente divulgadas na página oficial do grupo. No entanto, a realização das ações diretas, por seu caráter ilegal, é organizada em uma página à parte, da qual um grupo mais reduzido – cerca de 50 pessoas – participa. A realização de ações diretas (de caráter ilegal) durante a bicicletada (que é um evento público e consolidado) já gerou tensões e conflitos no grupo, especialmente no tocante à comunicação para a realização das ações e sua posterior divulgação – que é feita pelos próprios participantes. Volto ao assunto posteriormente.
pontos da cidade. A mais emblemática foi produzida na rotatória da Praça Portugal, no contexto das discussões sobre sua retirada para as obras de estrutura viária do Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (Paiit) de Fortaleza. A faixa de pedestres foi feita ligando a calçada à praça, que fica localizada no meio de uma rotatória e na qual não há qualquer estrutura que facilite e regule o acesso de pessoas a pé.
Imagem 13 – Faixa de pedestres pintada na Praça Portugal
Fonte: Massa Crítica Fortaleza (2015).
Na imagem, que faz parte da divulgação on-line feita pelo próprio coletivo, fica evidente a mensagem que se pretende passar com a confecção da faixa de pedestres: a rua e os espaços públicos da cidade – a “praça” é símbolo por excelência dos espaços públicos – devem ser para as pessoas. A faixa funciona simbolicamente como uma ponte, que convida os citadinos a ocupar a praça, cumprindo ainda o papel de crítica às entidades responsáveis, que não se preocuparam em colocar qualquer tipo de estrutura para facilitar o acesso dos munícipes.
O fato de a ação ter sido realizada no calor das discussões sobre a retirada da praça – ou “requalificação”, como preferem os órgãos estatais – com vistas a aumentar o fluxo de veículos motorizados, deixa entrever uma polarização de discursos – empreendida pelo próprios ativistas – a partir dessa ação: a prefeitura da cidade é associada ao fim da praça, à sua retirada; a “população”, com quem o coletivo propositalmente se identifica, quer ocupá-la, quer fruí-la, como na foto acima, que retrata as pessoas atravessando a rua pela faixa em direção à praça.
Essas ações evidenciam o caráter do fazer político do coletivo Massa Crítica na disputa pela produção do espaço urbano a partir de uma estrutura descentralizada e não hierárquica e de ações que visam tanto a comunicar-se diretamente com a população da cidade
e os agentes estatais.
Essas ações evidenciam, dentre outras coisas, o tipo de ação política que é proposta e realizada pela Massa Crítica Fortaleza. O “diálogo” com o estado só se dá por meio dessas ações ou de notas públicas lançadas amiúde pelo coletivo, ficando outras formas de ação mais formais ou institucionalizadas de fora do repertório do grupo. Foi a partir da necessidade – sentida por alguns integrantes da Massa Crítica Fortaleza – de abrir um diálogo mais institucionalizado e contínuo com os órgãos estatais, lançando mão de outras vias de atuação política, que surgiu a Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza, ou simplesmente Ciclovida.