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Anayasa’da Düzenlenecek bir Olağanüstü Hal

3.1. ANAYASA DEĞİŞİKLİĞİ TASARISI

3.1.1. Anayasa’da Düzenlenecek bir Olağanüstü Hal

O discurso a respeito do assalto a cidade de Mossoró realizado por Lampião e seu bando no dia treze de junho de mil novecentos e vinte e sete, recebe novo dimensionamento

em E9. Partindo da ficção narrativa, uma das características marcantes da literatura de cordel em que são inseridos elementos sobrenaturais para o desenvolvimento da temática proposta, o enunciador transporta-se para um universo paralelo, para o mundo dos sonhos, ou como

relata, “E sonhei está noutro plano...// num mundo contundente// que fica entre o a lua e o sol// Em um jardim estridente”, com o intuito de narrar o referido acontecimento.

Nessa ótica, a fim de compreender os efeitos axiológicos de sentido que emanam de E9, trazemos para discussão as ideias do Círculo de Bakhtin (1919-1929) cujo discurso é construído por meio das relações dialógicas, que por sua vez, se constituem entre vozes sociais. Dito de outro modo, entendemos os dizeres expressos em E9 como vozes que se remetem para os já-ditos sobre o episódio, assim como, promovem dizeres futuros, permitindo o acesso a um conjunto de diferentes perspectivas sobre o objeto, conforme observamos nos versos a seguir que retratam o acontecimento de vinte e sete na voz de Lampião, cujo cangaceiro ordena que seu interlocutor narre o episódio, a partir de sua ótica. Vejamos:

Pode escrever e dizer Para toda aquela gente Que hoje mais de uma metade Acredita firmemente

Na estória de mim contada Que você vai lá e desmente... [...]

Agora vá a Mossoró Conte o mesmo que contei Defenda minha defesa Diga que não enganei, Pois ainda tem muita gente Crendo no que não preguei...

A história de Lampião em Mossoró passada de geração em geração ao longo dos anos, vem, insistentemente, vestindo a cidade de um status quo de resistência registrado, principalmente, na memória coletiva de parte de seus munícipes, ocasionando o silenciamento, ou quase que totalmente, o apagamento de outras apreciações. Todavia, revelando um desnudamento do sentimento epifânico que circunda os já-dito sobre o fato percebemos nos fragmentos em destaque, uma ressonância dialógica que rompe com a memória social dos dizeres oficiais aceitos como verdade.

Esse rompimento já se inicia no título do cordel, “A defesa de Lampião”, que emite

uma ressalva a imagem construída do cangaceiro no espaço-tempo de vinte e sete. Nesse fluxo dialógico, o discurso refrata-se de modo a descentrar a tentativa de unicidade vocal, que

implica em referendar o fato histórico, a partir do destaque dado a heroica defesa da cidade, reivindicando um revozeamento para/ na constituição do ato enunciativo do episódio.

Para ressignificar as vozes que constituem o discurso da resistência, aceito como a versão oficial dos fatos, em que se fundamentam a história e a identidade da cidade, o enunciador dialoga com discursos não oficiais, efetivando-se, de modo explícito, a alteridade. Vejamos:

Recado de seu político Não nego que já dei bico Nunca me chamou atenção [...]

Mas como não tinha visto Nem nunca ninguém contar Um prefeito executivo A meu cangaço pagar Para seu lugar invadir Pra ser um ser popular...

O sujeito de E9 desconstrói a imagem histórica de Mossoró como espaço de resistência, assumindo uma posição responsiva que faz emergir duas vozes sociais, a primeira alicerçada no caráter duvidoso, conforme semea: “Lembrei que faz 80 anos/ Que Lampião passou aqui/ Dando nome a Mossoró/ Que até hoje causa enganos...”, contestando a versão hegemônica sobre a ação de resistência da cidade, revestindo de criticidade seu dizer. A segunda, numa espécie de validação de suas reflexões, dialoga com os dizeres de corrupção que ecoam socialmente acerca da classe política.

De acordo com o enquadramento dado ao discurso em E9, percebemos que a identidade da resistência atribuída a cidade de Mossoró é construída a partir de um horizonte social valorativo instaurado no engodo, sendo resultante de uma negociata entre o prefeito e o rei do cangaço para que o primeiro conseguisse beneficiar-se, através da fama de herói da resistência. Observemos:

Lá no sítio Bom Jesus Um dos meus cabras trazia Antes do dia sair de cena Um homem que conduzia Mandado pelo prefeito Um bilhete que dizia “Caro, caro Virgulino

[...]

De quanto você pedir63 [...]

Tendo em prática meu plano Sem nada se destruir... Não mude a sua estratégia Entre chamando atenção Dos poucos que aqui ficaram Tão todos sem guarnição Esperando sua passagem

Sem nada de confusão...”

[...]

Como não creio em político Com o pé atrás aceitei, Aceitei a dita proposta De volta o homem mandei Com outro bilhete na mão Dizendo que eu concordei.

Corroborando com a crença que atravessa a sociedade a respeito da ilicitude e da falta de compromisso com a população que circunda a esfera política, o enunciador de E9, na sequência, traz à tona o descumprimento, por parte do prefeito, do acordo entre ele e Lampião. Observemos:

E na entrada da cidade Antes da tarde findar O cangaço fazia hora Esperando o dia esfriar Para atravessar as ruas Sem um tiro disparar... [...]

Quando percebi era tarde A entrada numa emboscada Que logo se confirmou Com os sinos em badalada Nos três cantos da cidade, Agora era tudo ou nada...

O contexto em que está inserido o enunciado coloca em descrédito o discurso da resistência, pois Lampião e seu bando somente foram derrotados devido ao ato ludibrioso do prefeito. Nessa direção, o enunciador de E9 ao situar o seu dizer em outra versão, concebe e representa a identidade da resistência, não como “fatos da vida”, como algo determinado, como essência de Mossoró, mas como elemento fabricado discursivamente nas relações sociais e culturais em que se encontra inserida.

Significa dizer que, do ponto de vista ideológico e cultural, a noção de identidade de Mossoró é ativamente produzida no interior das práticas sociais. De acordo com o

63 Alertamos para o fato de que no cordel (E9) a fala do prefeito é destacada com o uso do itálico e do sinal

emolduramento desse enunciado, entendemos que ao assumir a identidade da resistência

como “criatura da linguagem” (SILVA, 2009, p.76), o enunciador de E9 entra em uma tensão

dialógica de desacordo com os enunciados inseridos em enunciados anteriores, que se

preocupam em manter o “espírito de resistência” da cidade.

Justificamos nossa compreensão com trechos finais do enunciado, quais sejam: “Se foi

sonho não sei // Se foi verdade talvez// Se foi mentira não sei”, por compreender que, embora

o enunciador na construção de sua fala tente colocar-se numa posição de neutralidade, o uso

do “se” associado ora a negativa “não sei”, ora ao advérbio de dúvida “talvez”, apresenta um

posicionamento ante aos já-ditos ainda mais contundente, visto que linguisticamente, o “se” funciona como elemento da oração que integra de modo duvidoso o sentido do verbo “ser” e faz com que se atenue o efeito axiológico de incredulidade sobre a realidade tecida da resistência.

Entretanto, observamos que nos discursos que atravessam E9, circulam também relações dialógicas de concordância entre E9, E5 e E8, no tocante a construção identitária de Mossoró, conforme os fragmentos a seguir:

Eu perguntei a Lampião Qual se tinha algum caminho! Pra sair daquele lugar. Ele disse: - Ache um ninho Que fica a minha direita E monte num passarinho... Ele vai voar bem alto E quando você avistar Quatro torres fumaçando, Rios poluídos sem cantar Muitas praças sem ter árvores Você poderá pular...

O discurso de degradação da cidade, neste enunciado, evoca vozes de denúncia e indignação social circunscritas nos enunciados E5 e E8, demarcando uma refração, a qual veicula e valora o dizer. Novamente, a identidade da resistência fragmenta-se e abre caminho para a identidade urbana, construindo outra imagem para Mossoró.

A identidade citadina é valorada pelo viés da censura, a partir da tessitura de imagens

negativas: “Quatro torres fumaçando// Rios sem cantar// praças sem ter árvores”. Reflexo,

portanto, das transformações urbanas do progresso em oposição a cidade bucólica idealizada e representada em outros enunciados (E1, E2, E3 e E6), registrando uma ressignificação identitária.

5.6 A TEMÁTICA DA RESISTÊNCIA NOS CORDÉIS ANALISADOS: DIÁLOGOS