3. İspanya ile Türkiye Arasındaki Ticaretin 2018 “TradeMap” Verileri ile RCA Analizi
3.2. RCA Analizi İle Elde Edilen Bulgular
No decorrer da interação, fica claro que o motivo de V1 ter ido à DEAM era o de obter da polícia algum tipo de “pedido formal” a ser entregue ao ex-companheiro para poder requerer seus pertences. Porém, E1 informa à V1 sobre a impossibilidade de fornecer tais documentos. Percebemos que E1, ao utilizar a expressão “a gente” (l. 109), lança mão de um dispositivo de maior proximidade social, indeterminando o sujeito da enunciação, pois pode
estar falando em nome da instituição da qual faz parte ou fazendo referência a si mesma como instância da instituição.
Percebemos que E1 emprega uma prática de proteção de sua própria face, a face institucional, e também da face de sua interlocutora (V1), amenizando, assim, o constrangimento da declarante, atitude que denota um indício empático no discurso de E1 (l. 109).
106. E1: ... dar uma carta, 107. ... assim, [MD: PLV]
108. ... pra você chegar lá pedindo,
109. ... a gente [Prox+]não tem essa condição de dar essa carta.[Fc: PPF] [Fc:PFO] [Emp:D] 110. V1: Un-hun
111. E1: A gente [Prox+] vai fazer o boletim de ocorrência né? [Fc:AmFo]
112. V1: Un-hun. [Esp-]
113. E1: Você poderia até tentar:: [Emp:D]
114. .... ir lá::, [Emp:D]
115. ... conversar com ele,
116. ... mas não é bom ir sozinha. [Emp:D]
117. V1: Pois é::: [Emp:R+]
118 E1: Você quer que a gente [Prox+] chame? [EsqIm: F] 119. ... pra conversar? [Emp:D]
120.. V1: É [Emp:R+]
121. ... porque eu sei que:: [DF: PVO]
122. ..eu e ele não dá mais certo. [FC:PFO][Emp:D] 123. E1: Deixa eu ver aqui seus dados
Após as manifestações de preservação de face de V1, tanto de orientação defensiva (para salvar própria face), quanto de orientação protetora (para salvar a face dos outros, nesse caso, do seu ex-companheiro) (l. 6-9, 31-35, 81, 82, 84-89), E1 exerce a perceptividade70 (GOFFMAN, 2011, p. 21) e pergunta à V1 se ela tem interesse em fazer o BO, a qual responde por meio de um atenuador de assentimento (l. 112), forçado pelo marcador “né?”, o qual, segundo ROSA (1992), nesse caso, serve para “diluir a força ilocutória das asserções que a antecedem” (p. 38) e atenuar sua impositividade. Como poderemos verificar nas outras análises, as escrivãs procuram ser sutis no aconselhamento às vítimas e, geralmente, lançam mão de atenuadores linguísticos, que preservam sua face enquanto protegem a da declarante.
Contudo, podemos inferir que não há, de fato, concordância por parte de V1 de registrar o BO e muito menos de chamar o acusado à DEAM, conforme verificaremos mais adiante. Na linha 111, outro dispositivo de maior proximidade é usado “a gente”, indeterminando o sujeito da enunciação, mas, dessa vez, usado com recurso inclusivo, pois se
70 Na concepção de Goffman (2011), perceptividade consiste na capacidade que membros de cada círculo social
refere também à interlocutora. Já o atenuador “unhun” (l. 112), dado como resposta à pergunta de E2 (l. 111) enquadra-se no dispositivo de menor especificidade, visto que demonstra vagueza e até um certo ponto, funciona como uma estratégia de prevenção de ameaça a sua face, já que ela precisa manter a linha de vítima. Nesse sentido, Goffman (1967, p. 15) nos lembra que um indivíduo, às vezes, “agirá de maneira completamente calculada, expressando-se de determinada forma apenas para dar aos outros o tipo de impressão que irá, provavelmente, levá-los a uma resposta específica que lhe interessa obter”.
E1, então, sugere que V1 vá reaver seus pertences e, em tom de aconselhamento, recomenda que o faça acompanhada, o que nos sugere uma doação empática (l. 113-116), a qual é recebida positivamente por V1 (l. 117). Posteriormente, E1 ratifica sua intenção em ajudar, visto não poder prover a carta solicitada por V1, ao perguntar à V1 se ela gostaria que o acusado fosse “chamado para uma conversa” pela polícia, porém, utilizando a expressão “a gente” na linha 118, que, como já vimos nas linhas 109 e 111, indetermina o sujeito e provoca um sentido de maior proximidade social, visto que não fica claro se fala em nome da instituição ou se o “a gente” inclui a interlocutora. De todo modo, ser chamado para uma “conversa” na delegacia denota um esquema de imagem do tipo FORÇA COMPULSÓRIA subjacente, o que pode ocasionar um constrangimento para V1, que, ao que nos parece, não demonstra interesse em prejudicar o acusado, o que pode ser inferido quando (l. 121, 122), mais uma vez, justifica-se por acatar a sugestão da representante policial. Esse trecho (l. 121, 122), que é marcado por prolongamento de vogal, hesitação e pausa, sugerindo um grau de incerteza ao enunciado, “diluindo também a força ilocutória das asserções” (ROSA, 1992, p. 52), pode ser interpretado como um indício empático, pois a incerteza pode ser considerada como um atenuador de um ato potencialmente ameaçador à face do outro, o acusado.
De acordo com as Normas Técnicas de Padronização das DEAMs (2010), “a atividade investigativa é parte fundamental do inquérito policial (p. 30)”. Portanto, se torna necessário colher todas as provas para que seja analisado, dentre outros fatores, se a mulher corre risco de morte. Para isso, é importante averiguar se há reincidência na violência.
No excerto seguinte, E1 questiona se V1 já havia feito outro BO antes contra o mesmo acusado, a qual admite que sim, mas demonstrando uma evidente dificuldade de processamento cognitivo e formulação textual (l. 134-136), que pode ser um sinal de “estratégias adotadas pelos falantes para resolver problemas que surgem no processamento que é, ao mesmo tempo, de forma e conteúdo” (FÁVERO, 2005, p. 153). Ao mesmo tempo, verificamos o uso do dispositivo “lá”, o que denota uma marcador de menor proximidade, o
que nos ajuda a inferir sua intenção em abrandar a revelação de que as agressões sofridas são reincidentes.
Ademais, acreditamos, no entanto, que a hesitação exibida nesse trecho refere-se mais a questões de conteúdo do que de forma, pois V1 precisa tentar preservar sua face e faz isso “provocando no ouvinte um efeito de dúvida, imprecisão e incerteza e, assim, diminuindo sua responsabilidade’’ (GALEMBECK, 2005, p. 188).
Nesse sentido, podemos dizer que era esperado que a vítima tivesse tomado as providências para cessar as agressões sofridas desde a primeira ocorrência, pois esses são os princípios que organizam esse tipo de experiência. Isso se comprova pela pergunta retórica feita por E1 (l. 138), o que pode representar uma ameaça à face de V1, pois a deixa em uma situação potencialmente desconfortável.
132. E1: É o primeiro boletim é ? 133. ...que você faz? [FC: AmF] 134. V1: Foi:: [DF: PVo]
135. ... eu -eu [DF: An] fiz esse aqui mas já tá com::; [DF:Pvo]
136. ... Foi lá [Prox-] na delegacia da Parangaba:: ((entrega boletim para a escrivã))
137. E1: Humm. ((lê boletim))
138. ....E você nem fez exame de corpo e delito né? [FC: AmF]
139. V1: Não, 140. ... não.
141. ... A gente [Esp-][Vol-] tem pena [EsqIm: F] né? [Emp:MD EL] [Emp:EL] 142. Que a pessoa [Esp-] seja preso? [Emp:EL] [Emp:D]
Na linha 141, observamos que V1 usou um dispositivo de menor especificidade e de menor volicionalidade, pois usa “a gente, ” ao invés de usar a 1a. pessoa do singular, o que demonstra maior vagueza e menor comprometimento com o enunciado. A expressão “a gente” agora está sendo utilizada para se referir à vítima, que, ao utilizar esse recurso de menor especificidade, indicia uma ação de preservação de face, pois fala em nome da coletividade. Desse modo, constatamos um movimento de preservação de face, além de um forte indício de empatia pelo agressor no discurso de V1 (l. 141, 142).
Ademais, nas linhas 141 e142, há uma sobreposição de movimentos empáticos neste trecho, pois, ao mesmo tempo em que demonstra sentir empatia pelo acusado (l. 141, 142), há um marcador de elicitação de empatia, de aprovação (l. 141), cuja sugestão é de que V1 gostaria que E1 compreendesse seus motivos: “a gente tem pena” (l. 141).
Além disso, podemos inferir, com essa passagem que “ter pena” parece estar estruturado pelo esquema de imagem de FORÇA do tipo BLOQUEIO (JOHNSON, 1987), pois funciona como uma força paralisadora que boqueia a tomada de atitude de V1.