• Sonuç bulunamadı

Analitik Bütçe Sistemine Göre Bütçenin Ekonomik Sınıflandırması

Há uma espécie de mística. Fortaleza tem para além do seu traçado xadrez em que ruas se cruzam o tempo todo – não seria destempero chamá-la de cidade dos cruzamentos -, uma constelação inusitada de linhas invisíveis destacadas do mapa, que esboçam atuações e transformações possíveis. Estas linhas, menores, destituídas de resguardo oficial, são forças latentes desencontradas. Podem inclusive dar vazão, se conectadas umas às outras, a todo um circuito alternativo que se desenvolve independente: minúsculas Fortalezas em constante ebulição.

É preciso atentar para uma energia, ou pelo menos, uma renovação de determinadas forças que contrapõem esse sentimento de abandono. Em Fortaleza, “desapareceu muita coisa, porém não morreu o espírito” (GIRÃO, 1974, p. 133). Uma característica resistente está presente em diversos personagens e práticas cotidianas, por aqui mesmo com todas as agruras que a atingem. Fortaleza “é alegre, quando devia, pelas contingências humanas, ser profundamente triste” (MENEZES, 2000, p.35).

Estas forças menores que compõem Fortaleza podem ser evidenciadas através do riacho Pajeú, que, contra todas as lógicas e perspectivas, acabou dando as bases para o assentamento e evolução de uma futura metrópole, o que nas palavras de Raimundo Girão (1979, p.34), “não é pouco”.

Inexpressivo dentro do quadro físico, já de si era quase indigente de encanto expressional. Mas o riozinho foi escolhido para dominar e condicionar o assento de um fortim, germe de uma aglomeração humana. Deu a ele a chave da solução que urgia encontrar-se, em determinado momento e sob a pressão de determinadas circunstâncias. (GIRÃO, 1979, p. 34)

É como se o menor, nos dias de hoje, não pudesse mais ser tolerado, o que, se nos fosse dado a traduzir, poderíamos considerar um estado de recalque que desagua, como reação, em sucessivos atos de supressão de vitalidade, e que, por sua vez, dá voz a argumentos de requalificação urbana por parte do poder público: os que administram a cidade21.

Contudo, é exatamente nesta zona de tensão que sobrevive o mistério, pautado pelo menor, que continua a respirar provocativo, e por isso, a ser encarado como obstáculo a

21 Por muito tempo o Ceará fora dependente comercial de Pernambuco. Todo o comércio aqui praticado deveria passar pelo intermédio deste Estado. O decreto que livrou o Ceará desta dependência só vigorou no ano de 1799. A isto está vinculada uma eterna acusação de atraso econômico, o que acabou se consolidando como um elemento competitivo entre estes dois estados.

ser indefinidamente superado. O riacho foi esquecido e soterrado, mas ainda está lá – será possível amordaçar uma corrente de água? - poucos sabem, poucos conhecem. É como se a cidade, ou um modelo centralizador de cidade, por assim dizer, balbuciasse: “não precisamos de você”. Ingratidão em forma de usos e abusos; meio ambiente descartável. Como é possível a uma cidade desprezar a sua própria natureza constitutiva a ponto de estrangular as margens da sua artéria principal?

O paradoxo performático de Fortaleza reside, em boa parte, neste quesito: foram os seus elementos menores que sempre a sustentaram e impediram sua destruição completa. Há uma resistência implícita, que se efetiva através de um mistério que substantivou-se em um meio de existência da própria cidade, tática orgânica, que tem a furtiva missão de fazer ver (ou transver, como diria Manoel de Barros), pedaços ou rastros de Fortalezas que se encontram adormecidos e fragilizados, mas que resistem, confiantes ainda que amedrontados de não poder ser de todo expurgados da cidade.

Este retrato misterioso da cidade, gangorra de contradições, pode ser especificado em um fato bastante simbólico, que deve aqui ser recuperado. A locomotiva chamada de

Fortaleza fora a primeira a desfilar nos trilhos da linha férrea da capital do Ceará. No dia 3 de

agosto de 1873 deu-se o primeiro apitar do trem pelas bandas de cá. Uma multidão reuniu-se para presenciar a estrondosa e estridente novidade. Naqueles tempos, a cidade em sua quase totalidade atabalhoava-se diante das novidades que por aqui, mais cedo ou mais tarde, aportavam. Aplausos entusiasmados, que refletiam um mosaico de sentimentos e que se alternavam entre a alegria e a estranheza, denotando uma intensa sede de progresso por parte do cearense, que parecia, desde já, como bem destacou Raimundo de Menezes (2000), afeito aos grandes empreendimentos.

Mas toda essa profusão não durou. Pouco durava. Outro elemento novo estava sempre chegando, sempre assinalado por essa torrente de curiosidades e encantamentos instantâneos. Talvez por isso a locomotiva A Fortaleza não teve o seu reconhecimento velado por uma preocupação carinhosa. Seu destino não teve qualquer correspondência se comparado a sua aparição. O oposto se deu, acabou esquecida, substituída por outras, mais modernas, sempre a modernizada e os seus atropelamentos a custa de insensíveis destruições. Virou sucata tão logo apresentou os primeiros sinais de desgaste provocado por muitos anos de trabalho: “cheia de cansaço, cheia de velhice, foi recolhida ao depósito de coisas usadas, como imprestável” (MENEZES, 2000, p.59)

No entanto, por franca ironia de uma cidade impossível, esta Fortaleza não se deu por vencida, pois, ainda que “atirada a um canto, como ferro-velho” (MENEZES, 2000, p.59),

acabou desaparecendo, sem que ninguém soubesse de seu paradeiro. Virou lenda, até que um dia, ressurgiu “noutro ponto da cidade, numa oficina de ferreiro” (MENEZES, 2000, p.59). Ninguém soube relatar o que de fato aconteceu, o caso é que acabou sendo desmontada e teve seus pedaços utilizados em outras funções.

Esta ideia de mistério abre uma margem e expressa um contexto indeterminado (a dúvida persiste como um solo que não se sabe fértil ou infértil) e que, contra todos os desígnios progressistas, parece propicio a atos de semear: situações de criar. Uma cidade inteira submersa, uma cidade inteira ainda porvir, uma cidade, quem sabe, muito menor do que esta Fortaleza dominante que supomos conhecer e controlar.

Maioria supõe um estado de dominação, não o inverso. Não se trata de saber se há mais mosquitos ou moscas do que homens, mas como o homem constituiu no universo um padrão em relação ao qual os homens formam necessariamente (analiticamente) uma maioria. Da mesma forma que a maioria na cidade supõe um direito de voto, e não se estabelece somente entre aqueles que possuem esse direito, mas se exercem sobre aqueles que não o possuem, seja qual for o seu número, a maioria no universo supõe já dados o direito ou o poder ao homem. É nesse sentido que as mulheres, as crianças e também os animais, vegetais, as moléculas são minoritárias (DELEUZE; GUATTARI, 1997, p. x).

A expansão demasiadamente veloz que imposta ao espaço urbano de Fortaleza, principalmente a partir dos anos 50/60, pouco explorou ou praticou seu espaço. A expansão deu-se em níveis superficiais. É como se boa parte de tudo que a compõe ou a define estivesse flutuando alguns centímetros sobre o solo, e por isso, não se sabe ao certo, que tipos de solos temos sob nós e o que pode vir a brotar dali. Há então uma dispersão física com a cidade. Não sabemos mais pisá-la; esta ação, hoje atrofiada, foi, ao longo de seu desenvolvimento desgovernado, duramente extraviada do nosso convívio.

Quando falamos em pisar a cidade, estamos nos referindo em específico ao espaço da rua, que aparece e acontece aqui como um lugar de inserção embrionária, povoado destas minúsculas Fortalezas; lugar em que foram desesperadamente despejadas sem qualquer constrangimento: depósito a céu aberto. Fortaleza faz crer que é com as ruas e ao caminhá-las que posso me conectar novamente com a cidade. É a partir dessa ação que posso experimentar e visualizar suas linhas de força menor. Meus passos, também menores, na rua, se tornam uma membrana umbilical (menores que se encontram) ao mesmo tempo em que se avolumam como pressupostos criativos que criam (ativam) e recriam narrativas cotidianas acerca da cidade. É preciso, portanto, “pisar outra vez na terra”, como narrou Hélio Oiticica (2009) sobre a sensação de uma amiga, não apenas apegando-se a um mote de denúncia, mas sim, construindo subjetivamente estados outros e simultâneos de escutas - que circulem!

Precisamos pisar outra vez na cidade, reencontrar a cidade naquilo que ela tem de sopro vital, e romper com esta Fortaleza embrutecida que aparta os nossos pés do solo.

Não se habita o mundo da mesma forma quando se escutam vozes misteriosas ou do além, quando se tem medo do escuro e também do claro, quando não se sabe se é dia ou se é noite, quando não mais importa se homem ou mulher, se árvore ou um riacho. (ARANTES, 2012, p.93)

Não é a tarefa de revelar o mistério, ato magnificente (o de zerar), mas o de deixar fluir sua presença, assumindo-o e materializando-o em ações criativas. Aspirar ao grande labirinto urbano, como desejava Hélio Oiticica.

Fortaleza carece de ser caminhada e escutada. Suas ruas, nesse sentido, carregam semelhanças com o Pajeú; a sustentam ao mesmo tempo em que são transformadas em feridas de concreto, e quase sempre acabam por narrar e criticar, a sua maneira, o acelerado crescimento horizontal e vertical da cidade. Há a necessidade de abrir novas vias de acesso a mobilidade, mas não podendo controla-las há que investir em uma espécie de evacuação, de encolhê-las de ação e participação, para isso, recorre-se a um princípio que investe na acumulação e sedimentação de resíduos que, nesse caso, podem ser de qualquer ordem e que atravanquem a passagem, em especial dos corpos, e que sejam tomados como barreiras intransponíveis. Servem somente a um propósito vago, o de estabelecer a passagem (uma apenas) de um ponto específico a outro. São leitos de um rio que supostamente está seco e onde ninguém poderá banhar-se. No entanto, ignora-se que estes acúmulos originem (misteriosamente) tipos de paisagens - que Robert Smithson chamará de paisagens entrópicas - e possibilidades outras de ação na cidade.