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Para melhor compreensão acerca do tema debatido, torna-se imprescindível abordar alguns casos que envolvem a realização da morte com dignidade. A apresentação da história de Jack Kevorkian é de suma importância tendo em vista sua atuação pioneira em garantir o auxílio médico a pacientes terminais, ao fornecê-los seus serviços para alcançar a morte digna.

Os demais casos elencados foram escolhidos com base na atenção da opinião pública. Marieke Vervoot, atleta paralímpica, provocou a discussão sobre o direito a exercer sua vontade, ao anunciar ter requestado a licença para submeter-se à eutanásia em decorrência de sua doença degenerativa. In casu, apesar de tratar-se da eutanásia voluntária, o cerne da questão encontra-se no fato da atleta recorrer à morte com dignidade como solução para a situação em que se encontra.

A escolha por apresentar a experiência de Brittany Maynarda provém, outrossim, da influência provocada na sociedade, tendo em vista advogar, publicamente, em favor da assistência médica à morte, baseando-se em seu próprio desejo por abreviar

16 BOBBIO; MATTEUCCI; PASQUINO; 1998, p. 602-603. A desigualdade de tratamento, chamada

também de regra de distribuição ou regra de nivelamento, quando justificável, é verdadeiramente igualitária e, portanto, justa”.

seu processo de morte como consequência do diagnóstico de estar acometida por um câncer termina.

Em suma, os exemplos demonstrados permitem melhor entendimento referente à perspectiva de pessoas que conviveram e convivem com situações nas quais a morte com dignidade é a única alternativa ao processo lento de deterioração.

3.2.1 O Dr. Kevorkian e a máquina do suicídio

Jacob Kevorkian iniciou sua carreira médica como patologista, dedicando- se a compreender a morte e o momento no qual está concretizada, por conseguinte, recebeu a alcunha de “Dr. Morte”. O contato constante com o momento final da vida de diversos pacientes, o fez perceber que muitos não possuíam temor à morte, na realidade, desejam sua chegada, como forma de se proporcionar um alívio para períodos de tormento.

A motivação para seu trabalho de fornecimento de assistência à morte assistido surgiu enquanto sua mãe, acometida por câncer nos ossos, enfrentava seus últimos momentos e almejava o auxílio médico para que tivesse uma morte digna. Kevorkian não encontrou qualquer profissional que estivesse disposto a ajudar sua mãe a extinguir seu sofrimento e observou-a agonizar com os efeitos do estágio terminal da neoplasia17.

Na década de 1980, Kevorkian desenvolveu uma máquina, nomeada Thanatron, que tornava possível a prática do suicídio pelo paciente por meio da injeção de 03 (três) compostos químicos, cada um incluso em um compartimento específico, conectados ao paciente por ligação intravenal18.

O funcionamento da Thanatron iniciava quando o enfermo pressionava um botão que estimulava a liberação dos fármacos. Primeiramente, era emitida uma solução de cloreto de sódio. Posteriormente, ocorria a injeção de tiopentato de sódio, um barbitúrico que induz o sono e, por último, ocorria a aplicação de cloreto de potássio que interrompia, imediatamente, os batimentos cardíacos.

Após a publicação de diversos anúncios em jornais oferecendo serviços como “conselheiro da morte”, a primeira paciente a utilizar a Thanatron foi Janet Adkins, 54

17Proliferação celular anormal.

18 Injeção intravenosa ocorre quando a concentração desejada de um fármaco é inserida diretamente no

anos, havia sido diagnosticada com doença de Alzheimer. A decisão pelo suicídio assistido foi realizada com o aparecimento dos primeiros sinais de deterioração de sua saúde. Em junho de 1990, Janet cometeu suicídio por meio da máquina desenvolvida por Kevorkian (BELKIN, 1990).

Em meio às percepções públicas negativas em relação ao acontecimento, o Dr. Morte foi acusado de homicídio doloso, do qual foi absolvido após julgamento. Depois do auxílio fornecido a mais duas pacientes, o Conselho de Medicina de Michigan suspendeu indefinidamente a licença médica de Kevorkian. Impossibilitado de adquirir os medicamentos necessários para o funcionamento da Thanatron, passou a utilizar um recipiente contendo monóxido de carbono, nomeado Mercitron.

A condenação por homicídio culposo foi exarada em decorrência da prática de eutanásia voluntária televisionada no caso de Thomas Youk, que se encontrava nos últimos estágios da esclerose lateral amiotrófica19. Com a obtenção do consentimento

informado, Kevorkian aplicou uma injeção letal, caracterizando, portanto, homicídio. Durante seus 04 julgamentos, o fato de inexistir uma legislação específica referente ao suicídio assistido permitiu a absolvição do médico. Entretanto, ao injetar o composto químico que ocasionou a morte de Thomas Youk, Kevorkian não mais estava apenas fornecendo auxílio ao suicídio, na realidade, atuou como o agente causador da morte do paciente (BELLUCK, 1998).

Em 1999, a sentença estipulando o cumprimento de 10 a 25 anos de prisão foi exarada. Em 2007, como consequência de complicações geradas pelo contágio de Hepatite C, com a expectativa de vida de apenas 01 ano, Kevorkian foi liberado em condicional, aos 79 anos, comprometendo-se a não auxiliar qualquer paciente terminal ou manifestar-se a respeito do suicídio assistido.

Com os seus aproximados 130 casos, o procedimento adotado por Kevorkian era composto por comunicar aos seus pacientes todas os aspectos necessários para a formulação de uma escolha, certificando-se de que eles estavam capazes de exercer o

19 PICON; KRUG; AMARAL; 2016, p. 313: A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) é um distúrbio

neurodegenerativo de origem desconhecida, progressivo e associado à morte do paciente em um tempo médio de 3 a 4 anos.

discernimento e, por fim, obtinha o consentimento informado, o quais eram registrados por meio de gravação em vídeo.

Em 2008, Kevorkian concorreu ao Congresso20, apesar de não conseguir ser

eleito, defendendo a inclusão do suicídio assistido como direito garantido pela 9ª Emenda da Constituição estadunidense, a qual estipula que “a enumeração de certos direitos na Constituição não poderá ser interpretada como negando ou coibindo outros direitos

inerentes ao povo”21.

A visão de Kevorkian era a de que, apesar de a morte com dignidade não estar elencada na Constituição, não significa que não seja considerada um direito de todos os cidadãos estadunidenses.

Até o seu falecimento em 03 de junho de 2011, Jack Kevorkian dedicou-se a promover a discussão sobre a importância de uma morte digna, apesar das limitações impostas à sua liberdade de expressão, visando à elaboração de dispositivos legais que permitissem a prática escolha do enfermo em relação ao término de sua vida.

A polêmica gerada em torno das ações do “Dr. Morte” iniciou o debate a nível mundial sobre o direito de morrer. A partir do início do século XXI, diversos países passaram a permitir o suicídio assistido para pacientes terminais.

3.2.2 A atleta Marieke Vervoot

A atleta belga, Marieke Vervoot, captou a atenção do público durante a realização das Paralimpíadas do Rio em 2016, ao anunciar sua aposentadoria após a participação no evento, em decorrência de ser portadora de doença degenerativa. Tal diagnóstico motivou a sua busca pela autorização para se submeter à eutanásia voluntária, permitida na Bélgica.22

Acometida desde a adolescência com uma doença degenerativa espinhal, cuja definição específica ainda não foi possível, Vervoot, hoje com 37 anos, encontra dificuldades em realizar atividades simples do cotidiano, dentre elas, dormir. Em relação à sua motivação de sua escolha de abreviar a própria vida, alegou:

20 Kevorkian anuncia candidatura ao congresso. Disponível em: < http://online.unisanta.br/2008/04-

05/intern-2.htm>. Acesso em 03 de dezembro de 2016.

21 Estados Unidos da América. United States Constitution.

22Atleta nega eutanásia após os Jogos: “Quando chegar o momento, farei”. Disponível em: <

http://torcedores.com/noticias/2016/09/atleta-nega-eutanasia-apos-os-jogos-quando-chegar-o-momento- farei>. Acesso em 03 de dezembro de 2016.

Eu tenho uma doença progressiva. Se você me visse anos atrás, eu era capaz de desenhar, de pintar obras incríveis. Eu só enxergo 20%, tenho vários ataques epilépticos... Mas os papéis me dão uma tranquilidade. Eu curto cada momento23.

A licença que concede o direito à morte com dignidade foi emitida ainda em 2008, após o cumprimento do processo composto pelo acompanhamento por diversos médicos que atestem a condição terminal ou degenerativa do indivíduo e de seu consentimento informado.24

Apesar de ser defensora do ao falecimento digno, a atleta não almeja fazer uso imediatamente de seu direito adquirido. Durante sua estadia no Brasil, expressou a necessidade de mudança da percepção negativa em relação à prática da eutanásia voluntária e a tranquilidade proporcionada ao adquirir a certidão que a torna apta para o procedimento. O aludido documento representa para a atleta a possibilidade de exercer a sua própria vontade no momento em que não mais tiver a capacidade de realizar as atividades que tornam sua vida completa. 25

3.2.3 O caso de Brittany Maynard

Em outubro de 2014, Brittany Maynard publicou um vídeo em favor da organização Compassion & Choices, que advoga em benefício da expansão de leis favoráveis à morte com dignidade pelos EUA, informando sua escolha pela realização do suicídio assistido.

Inicialmente diagnosticada com neoplasia cerebral, astrocitoma em estágio 2, Maynard submeteu-se a procedimentos cirúrgicos que não conseguiram impedir o avanço da doença para astrocitoma em estágio 4, resultando na expectativa médica de que apenas sobreviveria por, apenas, mais 06 meses26.

23 Medalhista explica doença e autorização legal para eutanásia, mas afirma que decisão não é

imediata. Disponível em: https://www.rio2016.com/paralimpiadas/noticias/medalhista-explica-doenca-e-

autorizacao-legal-para-eutanasia-mas-afirma-que-decisao-nao-e-imediata. Acesso em 20 de novembro de 2016.

24A história de Marieke Vervoot, a atleta paraolímpica que assinou sua eutanásia. Disponível em:

<https://melhorcomsaude.com/a-historia-de-marieke-vervoot-a-atleta-paraolimpica-que-firmou-sua- eutanasia/ Notícia >. Acesso em 20 de novembro de 2016.

25 Marieke Vervoort e a defesa da eutanásia. Disponível em: https://noticias.terra.com.br/marieke-

vervoort-e-a-defesa-da-eutanasia,f3e6b9f4f1d465fd1f8120d09487d60egffdlyby.html. Acesso em 23 de novembro de 2016.

26 My right to death with dignity at 29. Disponível em:

<http://edition.cnn.com/2014/10/07/opinion/maynard-assisted-suicide-cancer-dignity/>. Acesso em 01 de dezembro de 2016.

Ao decidir por ter uma morte desprovida de sofrimento, Brittany mudou-se para o estado de Oregon, cuja legislação permite que o indivíduo possa cometer o suicídio auxiliado por médico após a emissão de pareceres por 02 profissionais capacitados da saúde, confirmando que o solicitante possui uma expectativa de vida inferior a 06 meses, além da realização de diversos testes comprovando que não está depressivo, agindo impulsivamente ou sob coerção27.

No dia 01 de novembro de 2014, aos 29 anos, Brittany expressou seus últimos pensamentos em sua página do Facebook28, conforme transcritos a seguir:

Adeus a todos os meus amigos e família. Hoje é o dia que escolhi para falecer com dignidade em face de minha doença terminal, este câncer cerebral terrível retirou tanto de mim mas poderia ter retirado muito mais. O mundo é um lugar belo, viajar foi meu maior professor, meu amigos próximos e parentes são os melhores cuidadores. Eu tenho, inclusive, um anel de apoio na minha cama enquanto estou digitando. Adeus mundo. Espalhem boas energias. (Tradução livre)29

O caso em questão levantou questionamentos em relação ao significado de consentimento informado. No dia de seu óbito, Maynard havia superado a perspectiva médica de que possuía apenas 06 meses de vida. Nesse aspecto, os esclarecimentos médicos fornecidos ao paciente exercem um papel crucial na decisão pelo suicídio assistido. A falibilidade do conhecimento científico abre margem para que muitos acreditem na possibilidade do surgimento de uma cura, pois cada indivíduo responde de maneira diferente a um tratamento.

Maynard, durante processo de formulação de sua escolha, considerou aguardar por melhoras. Em diversos momentos expressou seu desejo por viver30,

entretanto a qualidade de sua vida se reduzira progressivamente e os últimos minutos na companhia de seus entes queridos seriam repletos de aflição. Ao exercitar sua vontade, almejava finalizar seus dias de forma indolor, permitindo que as lembranças de bons momentos permanecessem após sua morte.

27 Estados Unidos da América. Death with Dignity Act.

Benzer Belgeler