Os estudos comparados conseguem ter uma função mediadora e crítica das relações existentes entre diversos paradigmas, trazendo à discussão a questão da interdisciplinaridade. Deste modo, estes estudos, por poderem trabalhar diversas disciplinas no seu amplo campo de atuação, têm “licença” para dialogar tanto com as mais diversas literaturas como com obras de diversas disciplinas das ciências sociais e humanas. Aliás, é da natureza da comparação buscar esses laços em suas possibilidades mais produtivas. “É uma ilusão crer que a obra tem uma existência independente. Ela aparece em um universo literário povoado pelas obras já existentes e é aí que ela se integra” (TODOROV, 2009, p.220). Por isso, estamos cientes de que o ato de comparar passa pelo viés da investigação, que não só trabalha elementos literários, mas também o cultural, o social, o histórico, político, questões associadas a gênero, transculturação, hibridismo, etc., já que estes categorias lhe servem como sustentáculo nesta relação de
contiguidade. Obviamente, o próprio foro da comparação estabelecerá quais áreas serão as contempladas de maneira específica em cada trabalho.
É preciso também entender a literatura segundo uma dialética essencial, a partir da qual o texto sempre comporta as marcas do contexto em que se produziu, mas, ao mesmo tempo, resguarda sua porção de autonomia em relação a este contexto. (BULHÕES, 2003, p.13).
É, então, a partir do olhar comparatista, tendo como um dos suportes a questão do diálogo interdisciplinar, que analisaremos os dois romances de nosso corpus, a partir da uma perspectiva que focaliza os estudos de gênero e o desejo colonial, mais pontualmente as questões das homossexualidades, inserida no campo das masculinidades apócrifas. Cientes das alterações que perpassam as concepções interrelacionadas com os estudos comparativos em literatura dentro do campo das ciências humanas, propomos desenvolver os estudos das masculinidades (homossexualidades). Em defesa de nossa proposta, seremos respaldados pelos estudos de gênero, pois estes são elementos basilares na formulação das construções sociais, históricas e políticas associadas às questões das masculinidades marcadas negativamente e que estão problematizadas socialmente nos dois romances. Nossa abordagem, neste trabalho, está sustentada também, pelos diversos caminhos marcados por resistências e reinterpretações ligadas aos mitos de construções e as possíveis desconstruções desmitificadoras das masculinidades numa perspectiva naturalista ambientada no final do Oitocentos.
Dos debates em torno deste campo de estudos, ao longo dos anos, diversas correntes foram formadas e muitos debates articulados. Então, destes chegamos a conclusão que,
um bom procedimento consiste em estudar a obra em todos os seus momentos e antecedentes, nas suas relações com a história política e a história das artes, enfim. A totalidade de seu ser ou da síntese histórico-estética. (NITRINI, 2010, p.22)
Assim, através da interrelação com outras áreas das ciências humanas, observamos que os espaços ligados ao interesse dos estudos comparados foram estendidos e transformados, alcançando questões ligadas à literatura e à história, à literatura e à sociologia, à literatura e à psicologia, etc., pois “todas essas disciplinas concorrem em conjunto para o estudo do literário, resguardada a especificidade de cada uma” (CARVALHAL, 2007, p.39).
Contudo, é necessário observarmos que, nos estudos comparativos em literatura, a interdisciplinaridade não deve estar norteada apenas pela questão de comparar as disciplinas, mas que esta deve apontar primordialmente para o texto como obra sempre inacabada devido às constantes leituras e reescrituras a partir de tais cruzamentos.
O caráter inventivo e constitutivo da interdisciplinaridade: cabe a ela criar novos objetos de conhecimento. Isto supõe que os sujeitos do conhecimento sejam desinstalados de seus territórios e se disponham a atravessar suas fronteiras, adotando uma mobilidade que os habilita ao diálogo com outros referenciais teóricos. (MARQUES, 1999, p. 63).
Deste modo, vemos que a questão da interdisciplinaridade nos estudos comparatistas, ao ultrapassar as barreiras que se interpõe entre as diversas ciências sociais humanas, passa a ser ponte de diálogo entre elas. Contudo, é basilar não esquecer que este diálogo não é algo fixo, mas deve ser constantemente feito e refeito. Esta interrelação com outras disciplinas deixa em aberto os canais para entrada de novos vetores e novas experimentações nas obras literárias. Seguindo este raciocínio, podemos afirmar que “os estudos literários, em particular os da literatura comparada, e os estudos culturais evidenciam o caráter fluido e esgarçado das fronteiras que delimitam os espaços disciplinares” (MARQUES, 1999, p.67). Assim, baseado na amplitude das relações de interdisciplinaridade que comporta os estudos comparativos em literatura, em interface de diálogos com as disciplinas situadas no campo das ciências humanas, utilizaremos como suporte às teorias de gênero, mas sem desviar o olhar dos romances, como pontos fulcrais de nossa pesquisa
O espaço de comparações hoje envolve comparações entre produções artísticas estudadas por diferentes disciplinas; entre várias construções culturais daquelas disciplinas; entre tradições culturais ocidentais, tanto erudita como popular, e aquelas das culturas não ocidentais, entre produções pré e pós-contato cultural dos povos colonizados; entre construções de gênero definido como feminino e aqueles definidos como masculino, ou entre orientações sexuais definidas como normais e aquelas definidas como “gay”, entre modos de significação e análises materias de seu modo de produção e de circulação; e muito mais” (BERNHEIMER, apud. NITRINI, 2010, p.120)
Na verdade, sabemos os estudos comparados têm como um dos seus pilares o contínuo e constante movimento de superação de barreiras, por isso seus objetivos estão cada vez mais ampliados e diversificados com o surgimento de produções dos diversos segmentos considerados “marginais”, ligados às questões de gênero, raça,
ecologia, etc. Deste modo, se nos apoderarmos da afirmação de que “toda concepção de áreas cercadas por placas de ‘não ultrapasse’ deve ser rechaçada por uma mente aberta” (VAN TIEGHEM, 1998, p.76), veríamos que os objetivos do campo de atuação dos estudos comparativos não respeitam traçados fixados.
Assim, num momento histórico em que a questão da alteridade é discutida em suas mais diversas nuances, em que o “diferente” como forma de resistência se empenha cada vez mais nos movimentos em prol de uma maior visibilidade, torna-se pertinente a discussão que encetaremos sobre o lugar das masculinidades estigmatizadas negativamente nos estudos de gênero. Deste raciocínio, trabalharemos o espaço de diferenciação e de diálogo destas masculinidades marcadas negativamente – homossexualidades em Portugal e no Brasil -, sem deixar de observar os momentos históricos em que elas se apresentaram nos respectivos romances, em dois países de uma mesma língua de origem, de culturas diferentes, ex- metrópole e ex-colônia. Já o fato de que narrativas desenrolem-se num mesmo recorte cronológico, ou seja, o século XIX indica a possibilidade de leituras comparadas. Contudo, é óbvio que levaremos em consideração que Brasil e Portugal se situavam em realidades históricas, políticas e econômicas distintas. Dentro desta perspectiva é necessário observar que
as diferenças não só mostram cada vez mais a sua face, e por isso se avizinham, competem e se afrontam por exprimir sua identidade. Essa expressão chegará, no limite, a subverter a pretensa homogeneização das sociedades ditas de consumo ou de massa. Neste caso, como vedar ao comparatismo o estudo da expressão intercultural numa mesma língua ou num mesmo país? (DUARTE, 1998, p.77).
Seguindo o raciocínio da questão da “mobilidade contínua” e do não se deter em barreiras como parâmetros auxiliares nos estudos comparativos é que sentimos a necessidade de discutirmos, em nosso trabalho, as questões aventadas nos parágrafos anteriores, pois nos dois romances diversos tópicos referentes à nossa análise estão representados.
O princípio prático sustenta que a comparação é exequível quando são identificados tópicos, condições ou elementos formal ou presumidamente idênticos. É claro que aquilo que é presumivelmente, mas não realmente idênticos logo trai a diferença. Com tato e sorte, no entanto, podemos descobrir que tal diferença é grande o suficiente para criar interesse, ou então que a proposta identidade é forte o bastante para sustentar a justeza da comparação
(EARL, 1996, p.41).
Como as reivindicações de grupos considerados marginalizados e suas respectivas reinterpretações da evolução cultural, apoiados nas questões atreladas ao ponto de vista da alteridade, passaram a exigir da sociedade uma postura crítica politicamente correta em prol de suas causas, observamos que as questões de gênero e culturais só têm a acrescentar às práticas comparativas, pois aquelas conseguem distender o campo em que estas atuam. Os estudos comparados, adjunciados às questões da área da interdisciplinaridade, tornam-se, assim, algo essencial nos diversos debates de reivindicação e afirmação das identidades inferiorizadas dentro do discurso hegemônico heteronormativo.
E, por meio desta discussão, em que os estudos comparados podem inserir no seu âmbito de investigação as questões que não estão circunscritas no âmbito das identidades não-marcadas negativamente e confundidas como parâmetro universal. Deste raciocínio, podemos nos aproximar da pergunta feita por Duarte (1998, p.80) àqueles que têm como foco estes estudos: “fechamos os ouvidos ou abrimo-los ao
rumor polifônico de vozes antes caladas pelo processo que equalizou desde sempre civilização e repressão?”. Seguindo este raciocínio, podemos afirmar que manteremos os olhos e ouvidos bem abertos, quando estes se debruçarem sobre as relações de vizinhança e de diferença que há entre os romances, Barão de Lavos e Bom-Crioulo e entre o Brasil e Portugal, guiados pelas mãos dos narradores dos respectivos romances.
2.2 Configurações da homogenitalidade masculina na história ocidental
Tenho o coração apertado por tua causa, Meu irmão Jônatas.
Tu me eras imensamente querido, a amizade me era mais cara do que o amor das mulheres.
(2 Samuel 1, 26)
Daremos nesta seção do nosso trabalho às questões de gênero, tendo como foco a construção e a desconstrução das identidades.Mais especificamente, nossa proposta se centra nas masculinidades, principalmente aquelas identificadas como homossexualidades7. A partir desse lugar, desse lócus, olharemos retrospectivamente para o contexto do século XIX. Este interesse advém das configurações literárias homogenitais explícitas prefiguradas nos personagens masculinos dos dois romances objetos de nosso estudo.
É por demais tentador apresentar um conceito “definitivo” de homossexualidade, mas, ao tentar definir tal significante nos deparamos - para parafrasear Bauman, em seu Amor líquido (2004) - com um ato que se iguala ao de
7 Neste trabalho, quando falarmos sobre homossexualidade ,estaremos nos reportando especificamente às
práticas sexuais masculinas. Sabemos que os praticantes da homogenitalidade receberam diversas nomeações ao longo do tempo. Entretanto fixamos esta nomenclatura, já que foi no século XIX que, segundo Foucault, esta categoria foi nomeada.
apalpar um elemento em estado líquido - por mais que se queira segurá-lo, esse acaba escapando por entre os dedos. No caso da tentativa científica de definição para o termo homossexualidade ao longo da História Ocidental, sempre esbarramos com os diversos contextos histórico-culturais em que tais discussões estão inseridas. Afirmar que alguém é homossexual em todos os tempos e em todas as culturas é tentar burlar a história, já que a categoria de sujeito homossexual que conhecemos surge apenas no Oitocentos.
Foucault, entre outros historiadores, situou em meados do século XIX uma mudança no pensamento europeu, segundo a qual as relações entre pessoas do mesmo sexo deixam de ser entendidas como uma questão de actos genitais proibidos e isolados (neste sentido, actos que qualquer pessoa poderia cometer, caso não mantivesse os apetites sob controle apertado), para serem vistas como resultado de identidades estáveis (a ponto de os traços da personalidade de cada um o poderem definir como homossexual, talvez mesmo na ausência de qualquer atividade genital).
(SEDGWICK, 2003, p.26).
Historicamente - das populações insulares do Pacífico, passando pela Grécia, Roma, grupos autóctones das Américas até nosso mundo moderno - foi dado ao homossexualismo tratamento diferenciado e variável. O que não se pode negar é a ocorrência de comportamentos homogenitais comprovados em várias ou quase todas as sociedades tradicionais. Diversos críticos, a partir das pesquisas desenvolvidas pelo antropólogo belga Levi-Strauss no Brasil, defenderam que:
O homossexualismo não só existiu, como foi um fato comum. Claude Levi-Strauss, um líder da escola burguesa da antropologia, em seu relatório sobre os índios Nhambiquara do Brasil Central (no seu livro Tristes trópicos), observou que as relações homossexuais entre os jovens se manifestavam de maneira pública, ao contrário das relações heterossexuais. (...) Muitos observadores notaram que, entre os Papuas, os Keraki e os Kiwai da Nova Guiné, os atos entre os homens mais velhos e os mais jovens são parte essencial dos rituais de passagem para adulto. (OKITA, 1980, p.13)
Estudos sobre sociedades indígenas da América do Norte, frequentemente destacam a figura do berdache. Este “não é definido como macho, nem como fêmea; se costuma afirmar que ele/ela gosta de se vestir com roupas que não condizem com seu corpo físico. Para os nativos, um berdache macho é um homem com coração feminino e uma berdache fêmea, a mulher de coração masculino. (SCHNEIDER, 2008, p.176). A presença deste, em cerimônias religiosas, era essencial para o sucesso das mesmas. Além disso, o berdache assumia um papel preponderante no rito de iniciação sexual. Os índios Sioux, Fox, Sacs e Laches davam anualmente uma grande festa em homenagem aos seus berdaches, indicando a importância que tais sujeitos sem papeis sexualmente fixos assumiam para o grupo do qual fazia parte. É sabido também que nas sociedades primitivas, a sexualidade, como todas as necessidades básicas eram compartilhadas por todos os membros de forma mais livre. Isto porque a questão do binarismo sexual não era definidor do gênero como nós conhecemos nas sociedades cristãs ocidentais. A homossexualidade, como algo integrante da completude da sexualidade humana era, portanto, naturalmente aceita.
Vale considerar que as práticas sexuais entre homens foram tratadas de diferentes formas ao longo da história e em diferentes culturas. Na Antiguidade Clássica, as relações homogenitais ocorriam, através da “pedagogia homossexual” e da prostituição, contudo diversas regras haviam de ser respeitadas. A pedagogia homossexual consistia no aprender questões ligadas à virilidade, através da homossexualidade. A prostituição era oficialmente proibida aos cidadãos gregos e “os prostitutos masculinos que exerciam a sua atividade em bordeis e pagavam as taxas impostas sobre a sua profissão eram, supostamente, em sua maioria estrangeiros” (DOVER, 1994, p.52). Os homens livres podiam praticar a pederastia com os efebos (jovens adolescentes), desde que aqueles assumissem um papel ativo, já que para o
padrão exigido para sexualidade de então, ser passivo era se humilhar. Assim, assumir tal posição era não permitido legalmente a um cidadão grego.Os gregos que permitiam ser penetrados, se descobertos, perdiam todos os direitos que a cidadania lhes auferia, passando, assim a ser considerados como estrangeiros ou colocados no mesmo patamar das mulheres. O sexo praticado na Grécia antiga, entre erástes e erômenos era o intercrural. Este atavismo cultural, herdado do patriarcalismo, chega a nós, colocando o exercício da passividade como algo que acarreta desgraça ao seu praticante. Segundo Friedman, “um homem que consentiria a si mesmo a experiência de uma mulher era considerado um cinadeus, termo emprestado do grego que significa homem que tinha prazer com tais humilhações” (FRIEDMAN, 2002, p.29-30).
Frisamos aqui que não se via, neste período, uma heterossexualidade se opondo à homossexualidade.
Mas quando os varões gregos da mesma classe social faziam amor se colocava um autêntico problema, uma vez que nenhum deles queria se humilhar perante o outro (...). Na atualidade esse problema continua ocorrendo entre os homossexuais. A maioria acha que o papel passivo é, em certa medida, humilhante. Na verdade, as relações Amo-Escravo vieram atenuar um pouco esse problema. (FOUCAULT, 2005, p.37)
Em Roma, seria também indigno para um cidadão ser sexualmente passivo, pois isto estava vinculado a uma posição servil. Aqueles que exerciam os papeis de passivos sexualmente se situavam no mais baixo patamar da hierarquia romana. Também era recomendado que a união sexual entre um adulto e um jovem fosse rompida quando os primeiros sinais de barba surgissem. Nesta prática sexual de caráter homossexual havia um significado pedagógico, já que os jovens deveriam aprender a tornarem-se homens-cidadãos através do contato íntimo com os adultos do sexo masculino. Em todo o Império Romano havia cultos prestados ao membro viril masculino, inclusive foram encontrados em Pompéia desenhos de pênis em seus muros
com a seguinte inscrição: Hic habitat felicitas. Traduzida do latim esta frase significa: aqui habita a felicidade, que se referia diretamente ao membro sexual masculino ereto. A felicidade, deste modo, não estaria localizada em algum lugar determinantemente geográfico, mas num lugar especificamente anatômico masculino.
A pedagogia homossexual, muito mais antiga do que em geral se acredita, aparece nas sociedades onde a virilidade tem um estatuto de valor moral absoluto, como assinala John Boswell; entre os povos antigos era comum dizer que os homens que amavam outros homens eram mais masculinos do que seus homólogos heterossexuais. E isso em nome do argumento lógico (que pode nos deixar céticos) de que os homens que amarem homens procurarão igualá-los e ser como eles, enquanto os que amarem mulheres se tornarão como elas, quer dizer, efeminados. (BADINTER, 1993, p.79)
Deste modo, segundo Badinter, a homossexualidade, pedagogicamente, era tanto o portal de entrada que inseria o jovem ao mundo adulto, como era também necessário para o processo de construção da masculinidade. Vê-se, assim, que esta não dependia de um sentimento de identificação direta, mas sim era uma sabedoria transmitida por uma relação íntima e de iniciação contínua de geração a geração. A masculinidade era percebida como sendo transmitida literalmente nesse “corpo a corpo”, já que o sexo servia de suporte para o jovem adquirir conhecimento. “Da formação do guerreiro para o batalhão sagrado da antiga Tebas à formação do honesto cidadão ateniense, toda a educação masculina reservava um lugar importante à homossexualidade iniciática e pedagógica, que tinha peso de instituição” (BADINTER, 1993, p.81).
Já em Roma, “muitos imperadores praticaram oficialmente a homossexualidade. Antínoo, favorito do sábio imperador Adriano, chegou a ser objeto de culto oficial, após sua morte precoce.” (BADINTER, 1993, p.79). A despeito de a homossexualidade e a degradação moral terem sido, segundo alguns historiadores, a
causa da decadência do Império Romano, é deveras simplista, primária e insatisfatória a idéia de se cogitar tal afirmação. Na verdade, a base material para aquela desintegração gradual foi à decadência de um sistema econômico e político que não mais controlava o Império que havia criado, e não devido a certa tolerância no que se refere ao comportamento sexual.
Seguindo os caminhos das configurações da homogenitalidade na História Ocidental, sabemos que sempre houve o surgimento e desaparecimento de pequenas seitas entre os pobres e escravos romanos como núcleos de resistência e manutenção de suas culturas e, dentre essas, aparecem os cristãos, que eram veementes opositores dos desejos terrenos. Um de seus principais líderes, Paulo, admoestava os cristãos contra essas tentações, dentre elas as tentações do pecado da carne. Como sabemos, Paulo era judeu, e, por conseguinte, adepto do Vétero-Testamento e avesso às questões sexuais. Este pregava que os neófitos cristãos renunciassem à sexualidade, como ele o fizera. Esta rejeição judaica às questões sexuais e, principalmente, a homossexualidade, advinha deste atavismo cultural, já que em Israel, a família era base da continuidade e perpetuação dos valores religiosos judeus e ponto fulcral da unidade daquele povo. Segundo a tradição judaica um homem podia ter várias mulheres, pois engendrar filhos era uma benção de Yaweh, pois, agindo assim, colaborava para perpetuação da nação escolhida por Ele para propagar Seu nome; todas as outras práticas sexuais, além da heterossexualidade reprodutora, eram consideradas abominação. “Abominação que se traduz mais claramente como “impureza ritual”” (SULLIVAN, 1996, p.31). A rejeição da homossexualidade no Ocidente teve, portanto, raízes político-religiosas.
Para os israelitas a condenação da homossexualidade era um fator de agrupamento e defesa da nação, pois a não prática deste ato era fator de identidade para eles. Assim, em Levítico o mandamento da condenação da homossexualidade, pode ser