O princípio da proibição da reformatio in pejus é um mandamento recursal básico, segundo o qual o recorrente visa apenas melhorar sua situação mediante a submissão da lide à apreciação de um órgão superior.
Pelo princípio da proibição da reformatio in pejus, o recurso somente poderá beneficiar a parte-recorrente, o que implica dizer que nunca a parte que está recorrendo poderá vir a ser prejudicada pela interposição dele, isto é, não poderá ter sua situação piorada pelo julgamento de seu próprio recurso.119 A referida “piora” na situação do recorrente se liga ao aspecto prático desse gravame,120 não somente ao aspecto jurídico. Assim, não seria um
118 “Está enraizado no espírito público, quase como um cânone impostergável, que nem necessitaria de
prescrição legal, para que fosse respeitado. Por essa razão, nem mesmo se funda, expressamente, em dispositivos constitucionais. Poderá ser restringido, em determinados casos. Nunca, porém, extirpado da ordem processual. As próprias disposições constitucionais oferecem margem a que o legislador ordinário não a suprima, pois, em última análise, isso importaria, até mesmo, em extinguir organismos e entidades previstos no próprio texto fundamental, nos sistemas similares ao brasileiro. Dentro do esquema de nossa Lei Magna (e daqueles que adotem orientação análoga), cabe ao legislador ordinário apenas indicar os remédios mediante os quais os órgãos judiciários exercerão sua competência recursória”. (LIMA, Alcides de Mendonça. Introdução aos recursos cíveis. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1976. p. 140).
119 Cf. ALVIM, José Manoel de Arruda. Notas a respeito dos aspectos gerais e fundamentais da existência dos
recursos – direito brasileiro. Revista de Processo, n. 48. São Paulo: Revista dos Tribunais, jan./mar. 1985. p. 23.
120 “Há reformatio in pejus quando o órgão ad quem, no julgamento de um recurso, profere decisão mais
desfavorável ao recorrente, sob o ponto de vista prático, do que aquela contra qual se interpôs o recurso” (MOREIRA, José Carlos Barbosa. Comentários ao Código de Processo Civil. 16. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2011. v. V. p. 434). “Não será violado esse princípio, evidentemente, se não houver desvantagem no plano prático para o recorrente, como, por exemplo, na hipótese de o tribunal modificar somente a fundamentação da decisão impugnada”. (VASCONCELOS, Rita de Cássia Corrêa de. Princípio da
fungibilidade. Hipóteses de incidência no processo civil contemporâneo. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2000. p. 77). Embora o Superior Tribunal de Justiça fale em reformatio in pejus quando piorada a situação processual, o mesmo, quando julgou e feriu tal assunto, o fez quando houve efetivo prejuízo prático para o recorrente: “A proibição do reformatio in pejus tem como fundamento o princípio dispositivo de que o tribunal não pode piorar a situação processual do único recorrente, retirando-lhe a vantagem concedida pela sentença, sem pedido expresso da parte contrária. In casu, sem nenhum recurso interposto pela Autarquia Previdenciária, foi decretado o cancelamento da execução, que tinha por objeto a atualização do valor do precatório, com a inclusão dos índices governamentais fixados, até a data do efetivo pagamento”. (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça, 5ª Turma, REsp 418629/SP, rel. Min. Jorge Scartezzini, j. 18.02.03, DJU 17.03.03. p. 265).
desrespeito ao mencionado princípio recursal a mudança no fundamento da decisão recorrida que mantivesse sua improcedência.
O mencionado princípio se associa precipuamente ao efeito devolutivo dos recursos. A matéria devolvida ao Tribunal tem a possibilidade de apenas melhorar a situação do recorrente. Exemplo disso é uma apelação cível que visa aumentar o valor de uma indenização: o Desembargador tem a faculdade de aumentar tal valor, ou não, mas não o de diminuí-lo, para não extrapolar a matéria devolvida a ele.
O mesmo ocorre quando se veda a apreciação de pedido formulado na inicial, que não foi objeto de recurso, salvo quando interposto recurso adesivo121 que provoque a manifestação sobre aquele. Por exemplo, quando há dois pedidos de indenizações por fatos distintos, se o recorrente ventila, em recurso, somente um deles, que entendeu ter sido concedido em valor baixo, vedado está ao Tribunal apreciar a correção da decisão na parte que apreciou o outro pedido de indenização.
Exceções existem. Na apelação cível, apesar de o art. 515, caput submeter somente o impugnado para a apreciação do Tribunal, pode este mesmo Tribunal, conforme o caso, ingressarr em questão ainda não decidida (cf. art. 515, § 1º, do CPC), quando presente matéria de ordem pública, conforme constante dos arts. 301, § 4º, e 267, § 3º, ou ainda quando ocorrer uma das causas de prejudicialidade. Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery122 enfatizam:
[...] a possibilidade de o tribunal conhecer das questões discutidas e debatidas no processo, ainda que a sentença não as tenha apreciado por inteiro (art. 515, § 1º, CPC), e também de todos os fundamentos da ação ou defesa (art. 515, § 2º, CPC), configura, de qualquer forma, exceção ao princípio aqui analisado [dispositivo], porque caracteriza espécie de benefício comum. Esse caráter ‘bilateral’ do efeito devolutivo, entretanto, não autoriza o julgamento com reforma para pior relativamente ao recorrente, mas, ao contrário, encontra na ‘reformatio in pejus’ o verdadeiro limite para a incidência do efeito devolutivo.
121 “No julgamento do recurso, destarte, pode-se acolher ou não o pedido de reforma formulado pelo Recorrente,
mas não se tolera que a pretexto de reexame da decisão impugnada se lhe possa impor um gravame maior do que o constante da decisão reexaminada, e que não tenha sido objeto, também, de recurso do adversário do Recorrente. Valer-se do recurso para agravar a situação do recorrente importa, em outros termos, decidir
extra ou ultra petita, atuar jurisdicionalmente de ofício, e violar a coisa julgada ou a preclusão, no tocante
àquilo que se tornou definitivo para a parte que não recorreu”. (THEODORO JUNIOR, Humberto. Curso de
direito processual civil. 44. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2006. v. I. p. 611-612).
122 NERY JUNIOR, Nelson. Princípios fundamentais: Teoria geral dos recursos. 5. ed. São Paulo: Revista dos
Quanto à cognição sobre matéria de ordem pública pelo Tribunal, diversa daquela devolvida a seu conhecimento, trata-se de dever de um Tribunal, atrelado à sua função de tutelar o processo sob seus pilares básicos. O Código de Processo Civil permite amplamente a cognição de tais matérias, como se dá com as condições da ação, pressupostos processuais, nulidades absolutas e outras matérias presentes na legislação, a exemplo da impenhorabilidade do bem de família.
A cognição das matérias de ordem pública não fere o princípio da proibição da reformatio in pejus, pois é parte do princípio inquisitório, de acordo com Flávio Cheim Jorge.
O § 3.º do art. 267 do CPC autoriza expressamente a cognição de matérias referentes à admissibilidade do processo e da ação em qualquer grau de jurisdição, desde que em instância ordinária.
No caso das indenizações, anteriormente usado como exemplo, o Tribunal poderia, ao receber o recurso, o que devolveria à sua apreciação uma das indenizações, negar provimento a ele, com a extinção do processo sem resolução de mérito, em razão da ilegitimidade ad causa de uma das partes, o que implicaria negar as duas indenizações.
Apesar de ser a apelação cível um recurso típico, ou seja, o recurso do qual se pinçam as regras subsidiárias para outros recursos, tais regras não se aplicam a todos os recursos. Aplicar-se-iam, por exemplo, nos embargos infringentes, em que pode o relator negar o pedido do recorrente extinguindo a ação por ilegitimidade ad causam, mas o mesmo não ocorre no agravo de instrumento.
No agravo, não se está tratando de decisão final; terá o pedido de ser apreciado na sentença ou ainda em apelação cível. Desse modo, não poderia o relator do agravo negar seguimento a ele por ilegitimidade para a ação no primeiro grau. Trata-se de supressão de instância, por flagrante desrespeito ao princípio da non reformatio in pejus, em conformidade com o Tribunal de Justiça de Santa Catarina123 e com o Superior Tribunal de Justiça.124
123 “Embora a legitimidade das partes seja matéria de ordem pública, apreciável a qualquer tempo e grau de
jurisdição, a postergação da sua análise para quando da apreciação do mérito da ação não acarreta prejuízo quando a ela se confunde. Além do mais, o Tribunal encontra-se restrito à analise do acerto ou desacerto da decisão, sendo obstado discorrer sobre questões não deliberadas, já que importaria em supressão de instância”. (BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, 3ª Câmara Cível, AgIn n. 2006.022853-4, rel. Des. Fernando Carioni, j. 30.01.07).
124 “Ao Tribunal não é dado, de ofício, reconhecer a carência de ação e extinguir o processo sem o conhecimento
do mérito, no recurso de agravo de instrumento manifestado pelos requerentes, visando a ampliar os efeitos da tutela antecipatória. Precedentes do STJ. Recurso especial conhecido e provido”. (BRASIL. Superior Tribunal de Justiça, 4ª Turma, REsp 363529/DF, Rel. Min. Barros Monteiro, j. 17.02.05, DJU 28.03.05. p. 259, g. n.). No mesmo sentido o TJDF: “Processo civil. Agravo de instrumento. Ação de rito ordinário. Preliminar de prescrição não apreciada no juízo a quo. Antecipação de tutela. Nomeação e posse no cargo de médico da rede pública de saúde. Requisitos preenchidos. 1. Ainda que referentes à matéria de ordem pública, não devem ser apreciadas, em sede de agravo de instrumento, as preliminares que sequer foram