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O interesse nos textos de Foucault está direcionado para essa construção histórica da norma e dos processos de normalização, bem como direcionado para os resíduos que tais processos criam, que são os anormais. E Foucault, muito atento ao que escreveu Georges Canguilhem42, percebeu que o espectro ou o raio de ação

dos processos normalizadores estava presente tanto no “protótipo escolar” como no “estado de saúde orgânico”, tanto nas fábricas quanto nas prisões, perpassava tanto a política quanto a economia. Como Foucault apresentaria posteriormente nas suas aulas, Canguilhem já enxergava no normal a extensão e a exibição da norma. O normal era a personificação da regra. O normal multiplicava e ao mesmo tempo indicava a regra. Para Canguilhem, o normal não é um conceito estático ou pacífico, mas é um conceito dinâmico e polêmico. E, por fim, a norma, a regra:

É aquilo que serve para retificar, pôr de pé, endireitar. Normar, normalizar, é impor uma exigência a uma existência, a um dado, cuja variedade e disparidade se apresentam, em relação à exigência, como um indeterminado hostil, mais ainda do que estranho (CANGUILHEM, 2002, p. 211, grifo nosso).

Podemos perceber a partir das palavras de Canguilhem e que Foucault vai compreender muito bem, é que a norma terá como função “corrigir”, “endireitar”, uma determinada existência que apresenta certas disparidades, certas variedades e, podemos incluir certas deformidades, certos comportamentos inadequados, indesejados, insuportáveis, improdutivos, resumindo, determinadas práticas e condutas perigosas, com relação à exigência padrão, com relação ao modelo ideal, e que tais características recaem sobre um “ser” indeterminado e totalmente hostil, ou seja, pior que um estranho. Já em Foucault vamos perceber que esse ser “indeterminado hostil” vai se transmutar no delinquente, no criminoso, no louco, no masturbador, no monstro, no infame, no hermafrodita, no imbecil, no idiota, no incorrigível, etc. E nas aulas de 1972-1973, esse indeterminado hostil, que a norma quer corrigir, vai ser, primeiramente, o delinquente transmutado em vagabundo, em vadio, em bêbado, em imoral, em inimigo da sociedade, inimigo público.43 Nesta

42 Ver CANGUILHEM, 2002, p. 209-210.

43 Fizemos uma análise cronológica das aulas publicadas, que foram ministradas no Collège de

France, para facilitar nossa exposição. Isso não significa nenhuma precedência sobre como se desenvolveram os processos históricos analisados por Foucault. As três aulas que analisamos,

perspectiva, Foucault percebe que o aparecimento das prisões, o modelo carcerário correcional, tem como ponto chave de análise teórico-prático o conceito de uma guerra civil, “é a noção de guerra civil que deve ser posta no cerne de todas essas análises dos sistemas penais” (FOUCAULT, 2015, p. 13).

No contexto da emergência do delinquente, Foucault se utiliza de um operador analítico que até então, na era moderna, era considerado por teóricos como Hobbes, Rousseau e Kant como algo nefasto, nocivo e corrosivo à sociedade e ao corpo do Estado que era a “guerra civil”. Com Hobbes (2008), temos a “guerra de todos contra todos” e que, a partir do contrato social e da instauração do estado, tal guerra deve cessar, pela imposição do estado, do soberano, para o bem de todos. Aqui percebemos que o poder (soberano) expulsa a guerra do meio social. Se a guerra retornar a sociedade, o estado se desfaz e, consequentemente, a sociedade também.

Com Rousseau (2000), o contrato social acordado pela vontade geral mantém a paz e o direito de liberdade de todos e uma guerra interna ou externa poderia romper tal contrato, levando a sociedade ao caos e a desintegração. Com Kant, teríamos algo de semelhante a Rousseau, pois o estado de guerra é uma ameaça constante ao estado e ao direito concebidos de forma racional. Kant (2008) almeja acabar com as guerras que dizimam e aniquilam a pessoa moral tanto do indivíduo quanto do Estado. O “estado de guerra” é o pressuposto que deve ser aniquilado como maior mazela da humanidade, e o “estado racional”, através do direito, é o objetivo a ser alcançado.

Para esses teóricos modernos, a guerra e seus efeitos são pura negatividade: “a guerra civil é o acidente, a anomalia, aquilo que se deve evitar

inicialmente neste capítulo, mais o livro “Vigiar e Punir”, fazem parte muitas vezes de um mesmo período histórico e ora Foucault está no século XIX analisando a delinquência, ora está no século XVIII analisando a emergência do poder psiquiátrico, ora está no século XVI e XVII analisando a lepra e a peste, ou o pastorado e a penitência cristã, etc. Os contextos históricos particulares que o filósofo analisa são demarcados de acordo com a importância do objeto analisado e do seu aparecimento histórico, ou seja, das transformações que o possibilitaram. E com isso, temos que ter em mente que “estudar a emergência de um objeto – conceito, prática, ideia ou valor – é proceder à análise histórica das condições políticas de possibilidade dos discursos que instituíram e ‘alojam’ tal objeto. Não se trata de onde ele veio, mas como/de que maneira e em que ponto ele surge” (VEIGA-NETO, 2014, p. 61, grifo do autor). A análise da norma e do poder disciplinar abrange, por exemplo, uma vasta complexidade de acontecimentos históricos como o desenvolvimento dos estados policialescos, das ciências do homem, do mundo fabril e das transformações nas relações de trabalho, etc. O mesmo vai ocorrer quando Foucault analisa o dispositivo da sexualidade e sua correlação com a anormalidade e o poder psiquiátrico, ou seja, inúmeros acontecimentos históricos perpassam a emergência de tais fenômenos. As mesmas concepções serão encontradas nas análises sobre o biopoder e os dispositivos de segurança. Portanto, indicamos as leituras das aulas ministradas no Collège de France citadas neste trabalho para suprimir quaisquer dúvidas.

justamente por ser a monstruosidade teórico-prática” (FOUCAULT, 2015, p. 13). Já para Foucault, a guerra possui tanto negatividade quanto positividade e, nesta perspectiva, o filósofo concebe uma guerra civil permanente dentro da sociedade, como matriz de todas as lutas pelo poder, como operador analítico que nos permite compreender diversas táticas de luta, dentre elas o aparecimento dos sistemas penais modernos e suas estratégias de reclusão:

A guerra civil é a matriz de todas as lutas pelo poder, de todas as estratégias do poder e, por conseguinte, também a matriz de todas as lutas a propósito do poder e contra ele. É a matriz geral que possibilitará compreender a instauração e o funcionamento de determinada estratégia da penalidade: a da reclusão (FOUCAULT, 2015, p. 13-14).

No conjunto das aulas “A Sociedade Punitiva”, Foucault situa suas análises na primeira metade do século XIX, justamente porque este foi o momento da instauração e do funcionamento do grande sistema penal, com vários códigos penais sendo sancionados nos países europeus. Neste período, Foucault observa que uma verdadeira guerra social está em curso e se desenrola na Europa: “não a guerra de todos contra todos, mas a guerra dos ricos contra os pobres, dos proprietários contra aqueles que não possuem nada, dos patrões contra os proletários” (FOUCAULT, 2015, p. 21).44 Neste contexto, Foucault volta a analisar a concepção hobbesiana sobre a guerra, principalmente, porque em tal concepção fica claro que o poder (soberano) expulsa a guerra do espaço social, coloca o poder e a guerra em campos opostos. Foucault não concorda com tal concepção. Para o

44 Vale ressaltar que esta problemática da guerra social não é a mesma coisa, ou simplesmente não é

o mesmo problema metodológico, que a problemática da luta de classes apresentada e explicitada por Marx e os marxistas. Segundo Harcourt, “o curso de 1973 é lido como um texto marcado por forte tonalidade marxizante. No entanto, não se trata em absoluto de um texto marxista. Em primeiro lugar, [...] Foucault desloca a noção de ‘plebe sediciosa’ para a de ‘ilegalismo popular’, noção que ele qualifica como ‘mais operacional’. Em segundo, [...] Foucault substitui a noção de luta de classes pela de guerra civil. Sem dúvida, ele às vezes volta a um uso rotineiro da expressão ‘luta de classes’; por exemplo, durante a entrevista dada depois de sua visita à prisão de Attica em 1972 e em seu debate com Noam Chomsky no mesmo ano. Mas, em 1973, o esforço explícito visa a superar essa noção. A partir daí, o próprio Foucault se corrige; assim, no manuscrito da aula de 21 de março de 1973, escreve e depois risca a expressão ‘luta de classes’ e a substitui por ‘relação de classes’” (HARCOURT, 2015, p. 263-264). A guerra civil, para Foucault, não se reduz à opressão por uma classe dominante, e isso ele explica claramente: “Evidentemente, nessa espécie de guerra geral através da qual se exerce o poder, há uma classe social que ocupa lugar privilegiado e, por isso, pode impor sua estratégia, conseguir diversas vitórias, acumulá-las e obter para seu proveito um efeito de superpoder, mas esse efeito não é da ordem da superposse. O poder não é monolítico. Nunca é inteiramente controlado de certo ponto de vista por certo números de pessoas. A cada instante, ele se desenrola em pequenas disputas singulares, com inversões locais, derrotas e vitórias regionais, desforras provisórias” (FOUCAULT, 2015, p. 207-208). Portanto, para Harcourt, “o modelo da guerra civil deve substituir o modelo baseado na existência de uma classe dominante” (HARCOURT, 2015, p. 264).

filósofo, a guerra não é oposta ao poder, não é exterior a ele. A guerra se desenrola no teatro do poder, não existe guerra sem o poder. Nestas aulas, vemos Foucault desenvolver uma genealogia do poder, a qual ele vai aprimorando e que o acompanha durante todas as análises que perpassarão a problemática da norma. Foucault concebe o exercício do poder, de certa maneira, como travar a guerra civil. E para ele, “o importante para uma análise da penalidade é ver que o poder não é o que suprime a guerra civil, mas o que a trava e lhe dá continuidade” (FOUCAULT, 2015, p. 31).

Nesta perspectiva, podemos perceber que Foucault desfaz as concepções teóricas que tomam o poder como algo que se possui. Para Foucault, e isso veremos constantemente nas suas análises, o poder não é algo que uma classe possua, como a burguesia, ou que algumas pessoas o possuam, como o soberano. Para o filósofo francês, o poder “é algo exercido em toda a espessura, em toda a superfície do campo social, segundo todo um sistema de intermediações, conexões, pontos de apoio, coisas tênues como família, relações sexuais, moradia, etc.” (FOUCAULT, 2015, p. 207). O poder, nesta concepção, é concebido de forma microfísica, pois nos capilares mais tênues da rede social encontramos o poder. Outra observação é que ou se consegue exercer o poder ou não, pois o poder é sempre certa forma de enfrentamentos estratégicos instantâneos e continuamente renovados entre vários indivíduos.

Portanto, o que está no cerne do poder é uma relação belicosa, agressiva e combatente, e não uma relação de apropriação. Para Foucault, o poder nunca está inteiramente de um lado. “Não existem aqueles que têm o poder e o aplicam brutalmente naqueles que não o têm de modo algum. A relação de poder não obedece ao esquema monótono de opressão, dado de uma vez por todas” (FOUCAULT, 2015, p. 207). Enfim, o poder não é monolítico. Como também não é uma riqueza que alguém possa possuir como propriedade. “O poder não deve ser equiparado a uma riqueza que alguns possuam; é uma estratégia permanente que se deve pensar sobre o pano de fundo de guerra civil” (FOUCAULT, 2015, p. 208). Mas Foucault também nos adverte que é preciso abandonar a ideia segundo a qual o poder, por meio de um contrato, seria conferido a alguns pela vontade geral e aqueles que desrespeitassem o contrato estariam fora da sociedade, retomando a guerra de todos contra todos. Por fim, temos que pensar “o poder, a legalidade de que ele se serve, os ilegalismos que ele arregimenta ou aqueles contra os quais luta,

tudo isso deve ser pensado como certa maneira de travar a guerra civil” (FOUCAULT, 2015, p. 208).

Em “Vigiar e Punir”, vemos o filósofo francês tocar na temática sobre a guerra. De forma rápida, numa única frase, Foucault reproduz uma conclusão a que chegou durante as aulas de 1972-1973: “É possível que a guerra como estratégia seja a continuação da política” (FOUCAULT, 2004b, p. 141). Somente nas aulas de 1975-1976, “Em Defesa da Sociedade”, veremos novamente Foucault explorando e se debruçando sobre tal operador analítico. Este curso, que vamos analisar no segundo capítulo, mostra como a guerra se conecta ao poder e a problemática da biopolítica e, como consequência, ao racismo de estado. Veremos também como tal perspectiva possui ressonâncias com o pensamento de Giorgio Agamben.

A guerra social como operador analítico é um ponto chave no campo de análises dos sistemas penais, porque o “criminoso” surge como inimigo da sociedade, aquele que rompe o pacto social e reinsere a guerra na sociedade.45

Foucault percebe que ocorrem várias mudanças no contexto histórico do século XVIII alinhadas às análises econômicas da delinquência. O que ocorre é que a delinquência começa a se tornar objeto de análise da economia política, assiste-se ao surgimento de uma análise da delinquência através dos processos econômicos. Tais análises da delinquência, através dos processos econômicos, demarcam a posição do inimigo público quanto à produção;46 o critério que possibilita designar o inimigo da sociedade vai ser “qualquer pessoa que seja hostil ou contrária à regra da maximização da produção” (FOUCAULT, 2015, p. 49). E não somente isso, as mudanças no contexto histórico do século XVIII também provocam toda uma série de efeitos em relação ao saber, agrupados em torno da emergência do criminoso como indivíduo em guerra com a sociedade, inimigo da sociedade, irredutível às leis e normas sociais. Segundo Foucault, vamos assistir à constituição da possibilidade de uma apreensão psicopatológica ou psiquiátrica do criminoso que o define como inimigo público e, também, fixa-se à possibilidade de uma sociologia da criminalidade como patologia social.47

45 Ver FOUCAULT, 2013a, p. 83. 46 Ver FOUCAULT, 2015, p. 43.

47 O criminoso, o inimigo da sociedade, segundo Foucault, “é alguém irredutível à sociedade, incapaz

de adaptação social, que vive uma relação de agressividade constante com a sociedade, sendo estranho a suas normas e a seus valores. Em torno do fenômeno da criminalidade nascerão discursos e instituições como os que se organizam com o nome de psicopatologia do desvio” (FOUCAULT, 2015, p. 34).

Nesse panorama histórico, o filósofo francês percebe que ao mesmo tempo em que era formulado e posto em prática o princípio do criminoso como inimigo social, “aparecia uma nova tática punitiva: a reclusão” (FOUCAULT, 2015, p. 58). E qual era a característica fundamental que marcava essa mudança estratégica quanto à punição, que demarcava o nascimento das prisões modernas cujo modelo seria o projeto Panóptico? A característica fundamental, a variável estratégica era o tempo de vida dos indivíduos. “A prisão é o sistema que substitui todas as variáveis previstas nos outros modelos pela variável tempo” (FOUCAULT, 2015, p. 65). Essa conclusão permite que Foucault compare, quanto à variável estratégica tempo, a forma-prisão com a forma-salário, que não deriva da ordem jurídica ou punitiva. “Assim como se dá um salário pelo tempo de trabalho, toma-se inversamente, certo tempo de liberdade como preço de uma infração” (FOUCAULT, 2015, p. 65). Enfim, o que é possível extrair dessa conclusão foucaultiana é que o tempo foi introduzido tanto no sistema do poder capitalista quanto no sistema do poder penal.48

A problemática sobre o tempo, o controle do tempo será fundamental para o desenvolvimento das disciplinas. Em “Vigiar e Punir”, percebemos como o poder disciplinar vai se apropriando do tempo das existências singulares dos indivíduos; como vai reger as relações do tempo, dos corpos e das forças, para realizar uma acumulação da duração para inverter e converter em lucro ou em utilidade sempre aumentados com o movimento do tempo que passa. “As disciplinas, que analisam o espaço, que decompõem e recompõem as atividades, devem ser também compreendidas como aparelhos para adicionar e capitalizar o tempo” (FOUCAULT, 2004b, p. 133). A sequestração do tempo dos indivíduos marca profundamente as transformações históricas pelas quais passaram as instituições dos séculos XVIII e XIX. As escolas, por exemplo, vão desenvolver complexas formas de controle do tempo. As seriações que são introduzidas nas salas de aula são técnicas de controle do tempo sobre os corpos dos indivíduos. Assim, o tempo disciplinar se impõe:

Pouco a pouco à prática pedagógica – especializando o tempo de formação e destacando-o do tempo adulto, do tempo do ofício adquirido; organizando diversos estágios separados uns dos outros por provas graduadas; determinando programas, que devem desenrolar-se cada um durante uma determinada fase, e que comportam exercícios de dificuldade crescente; qualificando os indivíduos de acordo com a maneira como percorreram essas séries. O tempo ‘iniciático’ da formação tradicional (tempo global, controlado só pelo mestre, sancionado por uma única prova) foi substituído

pelo tempo disciplinar com suas séries múltiplas e progressivas. Forma-se toda uma pedagogia analítica, muito minuciosa (decompõe até aos mais simples elementos a matéria de ensino, hierarquiza no maior número possível de graus cada fase do progresso) [...]. (FOUCAULT, 2004b, p. 135).

Tais instrumentalizações tecnológicas temporais nos permitem perceber como o poder agenciou, modulou e controlou os corpos singulares dos indivíduos através do tempo disciplinar. As contabilidades sobre o controle e a extração do tempo dos indivíduos vão resultar em lucros, cujas técnicas administrativas e econômicas reverteram em ganhos de produtividade. A articulação entre o poder e o tempo é fundamental para compreendermos a construção das sociedades disciplinares. Portanto, temos que “a extração da totalidade do tempo é a primeira função destas instituições de sequestro” (FOUCAULT, 2013a, p.116). No caso da escola, em particular, a colocação em série das atividades sucessivas permite todo um investimento da duração do tempo pelo poder:

Possibilidade de um controle detalhado e de uma intervenção pontual (de diferenciação, de correção, de castigo, de eliminação) a cada momento do tempo; possibilidade de caracterizar, portanto, de utilizar os indivíduos de acordo com o nível que têm nas séries que percorrem; possibilidade de acumular o tempo e a atividade, de encontrá-los totalizados e utilizáveis num resultado último, que é a capacidade final de um indivíduo. Recolhe-se a dispersão temporal para lucrar com isso e conserva-se o domínio de uma duração que escapa. O poder se articula diretamente sobre o tempo; realiza o controle dele e garante sua utilização (FOUCAULT, 2004b, p. 135-136).

Vimos que uma das características fundamentais das instituições penais é o controle do tempo. Mas vimos também que esta característica não se restringe exclusivamente às prisões. É uma das características que vai marcar o nascimento de um novo tipo de sociedade. Outra característica da forma-prisão, como instituição e como prática e que também marcará outras instituições, é o elemento religioso e moral que esta forma carrega. Foucault percebe, através de suas pesquisas genealógicas, buscando as filiações desta forma-prisão a partir das relações de poder, que há proximidade da forma-prisão com as concepções protestantes desenvolvidas na Inglaterra e na América do Norte dos séculos XVII e XVIII.49 O

entendimento sobre o poder dessas concepções religiosas marca de forma preponderante o sistema de reclusão. Isso porque o poder político dentro dessas

concepções é concebido como uma força de coerção e de moral. Essa seria sua verdadeira vocação.

Esses grupos religiosos desenvolveram vigilâncias e controles morais, moralização de práticas e costumes desviantes, e aplicavam tais vigilâncias e controles sobre seus próprios indivíduos. Percebe-se aqui uma junção entre práticas morais e práticas penais, que aos poucos foram se estatizando. Esse movimento de estatização, que procurou moralizar ou remoralizar o sistema penal através do Estado, não está diretamente ligado ao desenvolvimento das leis, do direito e da justiça, mas vamos encontrá-lo alinhado ao nascimento e desenvolvimento da polícia e toda uma rede de instituições de vigilância e de correção. A preocupação das classes mais elevadas, que controlam o poder, não é mais tanto punir a infração, mas se prevenir, através da vigilância e do controle, para que os indivíduos não cometam infração. Aqui surge a noção de periculosidade e tal noção significa que o indivíduo deve ser considerado pela sociedade de acordo com “as suas virtualidades, e não de acordo com seus atos; não no que concerne às infrações efetivas a uma lei efetiva, mas às virtualidades de comportamento que elas representam” (FOUCAULT, 2013a, p. 86).50

O panorama sobre as instituições coercitivas vai convergir para um objetivo essencial: combater os ilegalismos populares. O sistema penal terá como objetivo essencial romper com o “continuum ilegalismo popular e organizar um mundo da delinquência” (FOUCAULT, 2015, p. 138). De acordo com Foucault, “as prisões, colônias, exército, polícia foram meios para romper o ilegalismo e impedir

Benzer Belgeler