O GT II passa a contar com uma rede maior de colaboradores, em relação aos demais GT, e as analises tendem a se regionalizar (BOLIN, 2007). Os capítulos continuam a ser majoritariamente embasados por dados das Ciências Naturais, mas já aparecem capítulos que tratam de aspectos diretamente sociais de vulnerabilidade e adaptação (INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE, 2001). No entanto, o principal autor coordenador desse GT é Pablo Osvaldo Canziani, com formação somente em Ciências Físicas (ACADEMIA.EDU, 2016).
4.1.5-2007: quarto relatório
O quarto relatório data de 2007, e foi apresentado na Conferência do Clima de Bali. Neste, considerou-se que haveria 90% de chance de que o aquecimento fosse causado por ação antrópica (BBC BRASIL, 2007). O objetivo da Conferencia era avaliar os resultados obtidos a partir de Kyoto. O resultado, no entanto, não foi como o esperado, havendo uma posterior redução de apenas 0,8%. Os EUA não se comprometeram com as reduções, embora o custo não ultrapassasse os 0,06% do PIB desta nação (ANTONUCCI, 2010). Paradoxalmente, o tratado de Montreal, que visava reduzir as emissões do gás CFC, principal responsável pelo buraco na camada de ozônio, logrou êxito, praticamente banindo o composto do mercado (SCHOIJET, 2008).
A novidade aqui reside no Mapa do Caminho de Bali, um documento que visa simplificar a adesão ao tratado, e que cria um fundo de recursos para que os países em desenvolvimento se adaptem a produzir com baixas emissões de gases do efeito estufa (PROTOCOLO DE KYOTO INFO, 2015).
4.1.5.1-Criticas e Controvérsias
Segundo dados compilados de Nisbet e Meyers (2007), em 1986, 23% dos norte- americanos já ouviram falar de aquecimento global. Em 2007 eram mais de 90%. No entanto, somente 23% estariam convencidos da sua realidade. Mas ainda assim, em
100 2007, os norte-americanos apontaram o aquecimento global como o maior dos problemas ambientais. Em anos anteriores, era a qualidade da agua (NISBET E MEYERS, 2007).
Além disso, a complexidade do tema, e a serie de fatores correlacionados, confunde o publico (e mesmo os cientistas não se encontram de acordo em relação aos efeitos em cadeia provocados pelas mudanças climáticas). Eventos geograficamente distantes, como o derretimento do gelo no Ártico, o qual por sua vez modifica as correntes marítimas, causando furacões, são de difícil compreensão. Além disso, embora em media a temperatura do planeta esteja se aquecendo, as mudanças climáticas podem causar um inverno rigorosamente frio, como vem ocorrendo no hemisfério norte (RIVA, 2010).
Quanto ao alcance do risco, o público tende a pensar em si mesmo e nas suas famílias ou na Humanidade como um todo. Raramente correlaciona mudança climática com sua localidade, e também não considera ser esta uma questão fundamental, pois haveria questões mais importantes, como saúde, economia e segurança. A ciência chega ao publico mediada pela mídia. De um lado, os catastrofistas, que utilizam expressões como “ponto de não retorno”. Além disso, diversas produções cinematográficas que mostram consequências catastróficas das mudanças climáticas, como “Water World21 (1995)” e “The Day after Tomorrow22” (2004)”. Mesmo que este tipo de produção não tenha a intenção de ser um documentário, acaba por influenciar a percepção do publico. E por outro lado, os negacionistas, que se valem dos argumentos dos catastrofistas para deslegitimarem as ciências do clima, e mesmo questionar a existência do aquecimento global (BOLIN, 2007; RIVA et. al, 2010).
Mike Lockwood, físico que afirma a existência do aquecimento global e nega qualquer causa não-antrópica, diz que o publico ouve os céticos porque estes dizem o que as pessoas querem ouvir (SCHOIJET, 2008). E de fato, é mais confortável pensar que não existe aquecimento ou que existe, mas que nada se pode fazer. Além disso, como já dito, os cientistas escrevem para seus pares, enquanto os divulgadores escrevem para o grande publico. Sendo assim, mesmo que seus argumentos não tenham muita fundamentação, atingem um publico maior e são mais facilmente compreendidos. Além disso, a questão das mudanças climáticas sensibiliza menos o publico do que o buraco na camada de ozônio, problema este que avançou mais em soluções do que a mitigação
21 No Brasil, “Water World- o segredo das aguas”. 22 No Brasil, “O Dia Depois de Amanhã”.
101 das mudanças climáticas. No caso do ozônio, havia uma correlação clara e explorada pela mídia entre danos no ozônio e incidência de câncer de pele. E a solução fora apresentada como algo relativamente simples: o banimento dos CFCs. No caso das mudanças climáticas, embora as consequências sejam potencialmente catastróficas, o assunto é imbuído de incertezas, e implica em reestruturação geral da economia global (BOLIN, 2007; ORESKES, 2007; ORESKES; CONWAY, 2010).
Mas o fato é que a maior parte das instituições científicas relacionadas ao clima concorda que a mudança existe e é causada pelo homem. Mas existem dificuldades em torno do assunto. No século XIX, não havia tantos cientistas nem tantas especialidades, de modo que qualquer individuo instruído pudesse compreender as publicações cientificas, ao contrario de hoje em dia (ORESKES, 2007).
A partir do buscador “climate change”, pode-se constatar que a maior parte dos artigos encontrados na Web of Science, afirma a existência do aquecimento global e que o mesmo tem origem antrópica. É claro, não necessariamente os cientistas afirmam com essas palavras, mas é que já se sabe que o clima do planeta muda, e que está mudando mais rápido do que os modelos previam, e que nenhum outro fato explica melhor essa mudança do que a ação antrópica (ORESKES, 2007; ORESKES; CONWAY, 2010).
Embora o próprio IPCC afirme que exista 90% de probabilidade de a mudança ter origem antropocia, e não exista nenhuma maneira de comprovar com 100% de certeza, não existe nenhum motivo para acreditar que a mudança climática não esteja ocorrendo. Os céticos, além de não serem cientistas (ou são, mas não tiram suas conclusões a partir de pesquisas cientificas), se limitam a questionar a ciência, os métodos de laboratório, etc.. E como se não bastasse, o clima da Terra vem sendo medido desde o século XIX, e desde então, a temperatura só vem aumentando. Seria absurdo inferir que o próximo ano será mais quente do que o anterior? (ORESKES, 2007; ORESKES; CONWAY, 2010).
Como já dito, na modernidade tardia, sociedade de risco, modernidade reflexiva, alta modernidade, enfim, independente da denominação, a ciência passa a ser questionada. E assim como acreditamos que os argumentos dos céticos não devem balizar o debate sobre mudanças climáticas, também não devemos assumir acriticamente as proposições do IPCC, uma vez que as controvérsias existem e seria até ingênuo negá-las (JASANOFF, 2010).
No entanto, há que se ter cuidado com as polaridades. O público tende a ter uma visão fundamentalista da ciência: sempre que algum escândalo ocorre, como o caso do
102
climategate, o publico tende a desacreditar totalmente a ciência como se não fosse
confiável (LAHSEN, 2013b).
Climategate é o nome que se deu ao vazamento de e-mails de pesquisadores da
Unidade de Investigação Climática da Universidade de East Anglia. Nestes e-mails, os cientistas afirmavam a possibilidade de as mudanças climáticas não ser tão graves quanto afirma o IPCC (LAHSEN, 2013b).
No entanto, como já evidenciaram os Science Studies, não obstante a percepção do publico, a ciência não necessariamente é corrupta e falha quando embebida em politica, na verdade, assim funciona a ciência (ver capitulo 1). O publico leigo tenderia a enxergar a ciência como completamente neutra e objetiva, e quando percebe alguma falha, tende a deslegitima-la completamente (LAHSEN, 2005b). A existência dos céticos e a pouca transparência do IPCC, muitas vezes serve somente ao fim de deslegitimar a importância das mudanças climáticas enquanto evento em si (LAHSEN, 2013b). E por isso mesmo, mais uma vez reiteramos a importância de mais participação das ciências sociais no debate.
Assim, embora o público comece a se convencer da realidade das mudanças climáticas, ainda assim, a série de fatores e controvérsias de difícil compreensão para o leigo, reduz a importância da questão aos olhos do publico.
4.1.5.2. GT II e Aspectos Sociais
Quanto ao GT II, o presidente continua a ser Osvaldo Canziani, e as temáticas mais estritamente sociais continuam ganhando espaço, bem como a regionalização dos dados (INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE, 2007).