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4. ANALİZ ÇIKTILARI

Uma fotografia exprime uma realidade própria da imagem, que nada tem a ver com a ilustração ou documentação de um fato. Com efeito, um fotógrafo sempre produz um tipo de realidade ficcional, próprio da fotografia, tangenciada pelas máquinas concretas e abstratas que configuram o campo do ato fotográfico. O índio que posa para a fotografia participa ativamente da construção do discurso da imagem, endossando aquilo que Arlindo Machado diz sobre a pose, sendo esta uma “luta para introjetar no momento aleatório da fotografia o momento ideal da pintura”. (MACHADO, 1984. p.51)

Machado ainda completa que “se for inevitável que a câmera roube alguma coisa de nós, que ela roube então uma ficção.” (MACHADO, 1984. p.51) A respeito disso, Deleuze afirma que a fotografia, incluindo a instantânea90, possui uma

pretensão muito diferente da proposta de se constituir como representação, ilustração ou narração.91 (DELEUZE, FB. p. 17) Ainda que não tenha se delongado muito a

respeito da imagem fotográfica, Deleuze nos apresenta algumas definições da imagem, em geral, que a coloca próxima da pintura, problematizada segundo os meandros de um enquadramento imagético.

Em vista de uma “filosofia da diferença” e de um “pensamento sem imagem”, Deleuze, desde Différence et répétition (1968) e Logique du sens (1969), coloca a questão da imagem atrelada a uma noção de identidade, segundo os pressupostos da representação, fixados por uma aparência rememorada. Todavia, a partir de seus

90 As fotografias instantâneas podem ser as fotografias de documento 3x4, radiografias, etc.

91“Representar, ilustrar e narrar”, constituíram-se, no período clássico, como o “exercício superior das artes” e por isso Deleuze diz que a fotografia detém uma pretensão que se difere de um exercício artístico superior, ainda que muitas vezes ela possa ser associada à técnica da representação, ilustração e narração. Veremos adiante que esta relação será melhor desenvolvida a partir das falas de Francis Bacon a respeito da relação entre a fotografia e a pintura.

estudos sobre a pintura e também com o cinema, conforme vimos, Deleuze passa a propor um novo conceito de imagem em geral, e também propõe uma nova relação da imagem para com o pensamento, através do plano de imanência.92

Em Diferença e repetição temos a imagem do pensamento definida pelo seu dogmatismo, ortodoxia e moral, acompanhada da proposta de uma crítica radical à Imagem e dos postulados aos quais ela implica. (DELEUZE, DR. p.192-193) Já em

Lógica do Sentido, encontramos nos simulacros, uma definição de Imagem, fixada por

um sistema de semelhanças em oposição ao ícone93 que seria a busca da cópia por

meio de um modelo ou fundamento. (DELEUZE, LS. p.264)

Deleuze parte do projeto platônico de separar o modelo do simulacro94, como

um modo de perceber que existe uma distinção que se faz entre as duas espécies de imagens. De um lado a cópia está relacionada a um pretendente bem fundado, uma vez que se faz a partir da semelhança, do modelo ou ideal. Já o simulacro é apresentado como um falso pretendente, que se constrói por meio da dissimilitude e implica uma “perversão e desvio essenciais” (DELEUZE, LS. p.262)

Assim, a motivação platônica pode ser definida como a tarefa de assegurar a primazia das cópias sobre os simulacros, de forma que estes últimos, sempre submersos na dessemelhança, permaneçam recalcados abaixo da superfície. E quanto às cópias, cujas pretensões se apresentam claramente, Platão empreende seu projeto na determinação das boas e más cópias, sempre em relação com a Ideia e a virtude.

Com efeito, a grande disparidade entre Ideia e Imagem torna palpável o critério da distinção para qualificar as duas espécies de imagens. A cópia percorre o ideal e além de passar pela ideia de semelhança, faz menção às formas identitárias. Já o

92 Para Deleuze e Guattari, uma imagem do pensamento seria a imagem do que significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar no pensamento. O plano de imanência é o plano que envolve as totalidades fragmentárias que são os conceitos filosóficos, sem precisar tomar a forma deles. Já os conceitos são como dimensões absolutas, que diferente do plano de imanência, que opera por intuições em movimentos sobre o infinito, os conceitos são como que as ordenadas desses movimentos no plano, na qual o infinito se encontra somente na velocidade dos movimentos finitos. “O plano de imanência não é um conceito pensado nem pensável, mas a imagem do pensamento, a imagem que ele se dá do que significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar no pensamento. (DELEUZE. OQF. P.47)

93 SILVA (2011, p.84) destaca que o termo ícone, advém do grego e corresponde à imagem, sendo a última, uma palavra de origem latina. Silva também ressalta que o conceito de ícone adquire um novo sentido em Lógica da sensação (2006), pois reverte as relações de modelo e cópia em vista da imagem como presença.

simulacro se estabelece como a própria dessemelhança que também faz menção a um tipo de forma que se difere do modelo relativo às cópias, para o encontro de um modelo do Outro, de onde decorre uma dessemelhança interiorizada.

Ainda que produza um efeito de semelhança, o simulacro é construído sobre uma diferença, uma vez que ele se transforma e se deforma junto a um ponto de vista que o acompanha. (DELEUZE, LS. p.264) Devido a uma espécie de pluralidade associativa, Deleuze diz que este agenciamento surge como uma espécie de “devir- louco”, uma vez que as suas qualidades aumentam e diminuem de grau ao mesmo tempo, em função das múltiplas conexões que este agenciamento é capaz de operar. Talvez este seja um dos motivos pelos quais o simulacro se torna recalcado no projeto platônico, em detrimento ao ícone que passa a ser exaltado, devido à sua pretensa singularidade fixada.

O platonismo funda, dessa maneira, um projeto ancorado no domínio da representação preenchido pelas cópias-ícones definidas mediante uma relação subordinada ao modelo ou fundamento. O desdobrar da representação como bem fundada e limitada, finita e mimética, é antes o objeto de Aristóteles, que busca na representação o domínio que percorre dos mais altos gêneros às menores espécies, juntamente ao processo da divisão categórica de toda a causalidade do mundo.

Ainda, podemos atribuir ao cristianismo uma outra concepção da representação, cujo projeto, buscou torná-la possível, não por meio de uma finitude, mas através da pretensão do ilimitado diante do Ser, sobretudo para além dos gêneros maiores e aquém das menores espécies. Mesmo como parte da conquista do infinito, a imagem não deixa o elemento da representação, uma vez que ainda é referência de algo que se limita à semelhança aumentada ou diminuída. (DELEUZE, LS. p.265)

A estética, nesse sentido parece sofrer uma “dualidade ainda mais dilacerante”, segundo Deleuze. De um lado ela designa “a teoria da sensibilidade como forma da experiência possível e do outro, a teoria da arte como reflexão da experiência real.”95

Mas para que estes dois sentidos se juntem é necessário que “as próprias condições da experiência em geral se tornem condições da experiência real” e somente assim a obra de arte pode ser considerada uma experimentação. (DELEUZE, LS. p.255-266)

Deleuze utiliza o exemplo da literatura moderna, como um tipo de arte cujo procedimento faz coexistir uma série de histórias ao mesmo tempo, alheios a uma regra de convergência. A unidade dessas regras divergentes é como um “caos excentrado, que se confunde com a grande obra”. (DELEUZE, LS. p.266) Se compararmos à pintura, seria como que a disposição de uma variedade de Figuras que se confundem com o grande plano da superfície da imagem e o mesmo vale para a fotografia que atua como recorte de um extenso plano em movimento.

Este caos atua como um plano de imanência que a obra engendra e funciona como uma potência de afirmação, na medida em que afirma todas as séries heterogêneas, complicando-as. O que se afigura internamente é uma espécie de ressonância que passa a forçar um movimento dentro do quadro, fazendo assim transbordar todas as séries, sejam elas palavras e letras, como no caso da literatura, ou Figuras e corpos, no caso da pintura e da fotografia.

No momento em que estuda o simulacro de Platão, Deleuze ainda enquadra a imagem à representação, mas afirma que uma teoria do pensamento sem imagem se assemelha à pintura, na medida em que ela passa da figuração para a abstração. Porém, como constata Silva (2011 p.82-83), no momento de retomada de Deleuze das artes imagéticas, através da pintura, sua atenção se volta para Francis Bacon, um artista que pinta figuras. Daí é possível atestar o fato de que algo na obra deleuziana estava para ser mudado, algo que pôde marcar uma significativa mudança do conceito de imagem.

Logo no início de Francis Bacon: Lógica da sensação (2007) Deleuze define por Imagem o isolamento de uma Figura em meio a um campo operatório, de forma que ela, em seu lugar isolante, defina um fato, a realização de alguma coisa.96 Em

96 Veremos adiante que para que o fato ocorra, será preciso a atuação de um diagrama, sendo que este se constituirá como um ato de criação ou produção.

Benzer Belgeler