Relacionar o homem ao seu tempo é um dos objetivos do biógrafo. Expor e comentar questões mais amplas que a experiência de vida individual do biografado, além de fornecer objetividade à narrativa biográfica, confere ao texto efeito de historicidade, pois o contexto refere-se a fatos e eventos conhecidos da história nacional ou internacional. Em EJSV, a contextualização é frequente nos parágrafos iniciais de capítulos, mas também pode ser encontrada em outras partes. Por exemplo, antes da narrativa do nascimento de Eva Perón, mencionam-se questões conjunturais, perfazendo um panorama de 1919 no pós Primeira Guerra Mundial, citando Europa, Estados Unidos, México e Argentina:
El mundo estaba agitado allá por 1919. El 28 de junio, las grandes potencias vencedoras de la sangrienta Primera Guerra Mundial se pondrían finalmente de acuerdo en el Salón de los Espejos del Palacio de Versalles. Allí decidirían el reparto de Europa y se unirían para combatir al naciente primer Estado socialista del mundo, que luego sería conocido como la Unión Soviética. (EJSV, p. 13)181
Segue o historiador biógrafo listando a fundação do Partido Nacional Fascista, na Itália, por Benito Mussolini, e do Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, na Alemanha, com participação de Adolf Hitler; a Lei Seca, nos Estados Unidos; o assassinato de Emiliano Zapata, no México, e, chegando à Argentina, a ascensão do tango e o governo de Yrigoyen. Com relação a este, o evento relatado é o massacre conhecido com “Semana Trágica”, modo como o governo terminou com um protesto de trabalhadores. Ao comentar este evento, Pigna introduz dois personagens que serão várias vezes mencionados ao longo da biografia – as damas de caridade e a Igreja:
Terminada la matanza, las damas de caridad y la jerarquía de la Iglesia católica
lanzaron una colecta para reunir fondos para “darle limosna a los pobres”. Lo hacían evidentemente en defensa propia según ellas mismas confesaban: “Dime: ¿qué
menos podrías hacer si te vieras acosado o acosada por una manada de fieras hambrientas, que echarles pedazos de carne para aplacar el furor y taparles la boca?
Los bárbaros ya están a las puertas de Roma”. (EJSV, p. 14)182
181Tradução nossa: “O mundo estava agitado lá por 1919. Em 28 de junho, as grandes potências vencedoras da sangrenta Primeira Guerra Mundial entrariam finalmente em acordo no Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes. Ali decidiriam a divisão da Europa e se uniriam para combater o nascente primeiro estado socialista do mundo, que logo seria conhecido como a União Soviética”.
182Tradução nossa: “Terminada a matança, as damas de caridade e a hierarquia da Igreja católica lançaram uma
coleta para reunir fundos para ‘dar esmola aos pobres’. Faziam-no evidentemente em defesa própria segundo ele as mesmas confessavam: ‘Diga-me: que mais poderia fazer se se visse assediado ou assediada por uma manada
Neste cenário, é registrado o nascimento de Eva Perón:
Sonaba el tango y resonaban los ecos de aquella massacre cuando en el campo “La Unión”, cercano a la pequeña localidad bonaerense conocida como Los Toldos, en el
partido de General Viamonte, a las cinco de la mañana del lluvioso 7 de mayo de 1919 nacía María Eva, la futura Eva Perón. (EJSV, p. 15)183
O contexto internacional é entremeado à narrativa como, por exemplo: “Mientras María Eva crecía, la Argentina vivía la terrible crisis iniciada en octubre de 1929 en Estados Unidos y extendida como una peste a todo el mundo” (EJSV, p. 24).184 A partir do
detalhamento da informação sobre a Crise de 1929, o narrador introduz a informação sobre as migrações internas na Argentina para, então, mencionar a mudança da família de Eva de Los Toldos para Junín, em 1930 (EJSV, p. 25). Além de entremeado à narrativa, o contexto permite ao historiador tecer críticas:
Evita era una migrante más en Buenos Aires. Era parte de un proceso histórico que no la tuvo como protagonista sino como víctima. Una entre millones que habían dejado su tierra empobrecida buscando un horizonte en la gran ciudad que iba diversificando su economía. Gobernaba el país, gracias a un escandaloso y persistente fraude electoral, la más rancia oligarquía ganadera, que se desentendía de los dramas sociales de la mayoría de la población y se dedicaba prolijamente a aprovechar los beneficios colaterales de la crisis: compraba por monedas campos que antes valían millones; monopolizaba los créditos que los bancos oficiales les negaban a los chacareros, peones y trabajadores; rebajaba los sueldos de sus asalariados y aumentaba notablemente sus márgenes de ganancia, predicando el
sacrificio ajeno “para salir de la crisis” y practicando el despilfarro gracias a aquel
sacrificio. (EJSV, p. 35)185
A partir dessa informação sobre o governo argentino na década de 1930, Pigna relata como as crianças pobres viviam, enfrentando desnutrição, dificuldades para estudar, e enfermidades. O historiador apresenta a “década infame” como o cenário no qual Eva procurava trabalho em Buenos Aires: “Durante sus primeros meses en Buenos Aires, Eva de feras famintas, que lhes jogar pedaços de carne para aplacar o furor e lhes tapar a boa? Os bárbaros já estão às
portas de Roma’.”
183 Tradução nossa: “Soava o tango e ressoavam os ecos daquele massacre quando no campo ‘La Unión’, próximo a pequena localidade bonoarense conhecida como Los Toldos, na comarca de General Viamonte, às
cinco da manhã do chuvoso 7 de maio de 1979 nascia Maria Eva, a futura Eva Perón”.
184Tradução nossa: “Enquanto María Eva crescia, a Argentina vivia a terrível crise iniciada em outubro de 1929
nos Estados Unidos e estendida como uma peste a todo o mundo”.
185Tradução nossa: “Evita era mais uma migrante em Buenos Aires. Era parte de um processo histórico que não a teve como protagonista e sim como vítima. Uma entre milhões que haviam deixado sua terra empobrecida buscando um horizonte na cidade grande que ia diversificando sua economia. Governava o país, graças a uma escandalosa e persistente fraude eleitoral, a mais rançosa oligarquia pecuarista, que era indiferente aos dramas sociais da maioria da população e se dedicava excessivamente a aproveitar os benefícios colaterais da crise: comprava por uma ninharia campos que antes valiam milhões; monopolizava os créditos que os bancos oficiais negavam aos pequenos agricultores, peões e trabalhadores; abaixava os salários de seus assalariados e aumentava
notavelmente suas margens de lucro, pregando o sacrifício alheio ‘para sair da crise’ e praticando esbanjamento
vivía en una humilde pensión de la zona de Congreso. Sobrevivía, como millones de argentinos, aquella “década infame” (EJSV, p. 36).186
O funeral do famoso cantor de tango, Carlos Gardel, em 1936, é apresentado como contexto para o narrador falar sobre o processo de modernização da Avenida Corrientes187 e seus teatros, para narrar o início das atividades teatrais de Eva (EJSV, p. 44). As necessidades pelas quais Eva passava são relacionadas à crise do teatro que, por sua vez, ressentia-se da crise nacional:
El teatro fue la actividad cultural que más se resintió con la crisis económica: las compañías duraban una temporada y sólo estrenaban comedias ligeras y sainetes con bajos costos de producción. El teatro de revista mantenía su éxito en Buenos Aires, pero según los productores, Eva no reunía las condiciones exigidas por el género. Vivía con lo justo y se alimentaba a mate cocido y bizcochos y algún que otro café con leche con medialunas. (EJSV, p. 48)188
Em alguns momentos, a contextualização é sobre obras teatrais ou funções artísticas contemporâneas às apresentações de Eva: “Por entonces, Aníbal Troilo, “Pichuco”, había debutado con su orquestra en el Marabú, estrenando Mi tango triste” (EJSV, p. 51).189 Por vezes, a informação sobre o contexto é incrementada por mais detalhes em nota de rodapé, como a nota 31 que esclarece sobre o teatro Marabú, informando sua localização e sua importância na noite portenha. A menção a estabelecimentos com detalhes sobre seu funcionamento marca a narrativa com dados extraídos da realidade, ajudando a conformar o imaginário sobre a historicidade dos eventos da biografia de Eva como narrados.
Pigna utiliza o recurso de misturar temporalidades ao acrescentar informações futuras ao panorama de época apresentado, antecipando situações:
Aquel verano del ’44 parecía uno más en Buenos Aires. Hacía un calor asfixiante y
los balnearios de la costanera estaban a pleno, alegrando a las mayorías que ni soñaban con Mar del Plata, refugio todavía de las clases altas que gozaban de sus mansiones y sus playas exclusivas sin siquiera imaginar que en apenas dos o tres
años serían “invadidos” por la chusma, que gozaría de su flamante derecho a
vacaciones pagas y llenaría los nuevos hoteles sindicales, que daría una nueva
fisionomía a la “perla del Atlántico”. Pero por ahora, en aquellos días de enero el
coronel Perón era apenas el secretario de Trabajo y Previsión y no asomaba aún
186Tradução nossa: “Durante seus primeiros meses em Buenos Aires, Eva vivia numa humilde pensão da zona
do Congresso. Sobrevivia como milhões de argentinos, aquela década infame”.
187 Uma das principais e mais famosas de Buenos Aires.
188 Tradução nossa: “O teatro foi a atividade cultural que mais se ressentiu com a crise econômica: as companhias duravam uma temporada e só estreavam comédias ligeiras e sainetes com baixos custos de produção. O teatro de revista mantinha seu éxito em Buenos Aires, mas segundo os produtores, Eva não reunia as condições exigidas pelo gênero. Vivia com o dinheiro contado e se alimentava com chá e biscoitos e um ou
outro café com leite e pão.”
189Tradução nossa: “Naquela época, Aníbal Troilo, ‘Pichuco’, havia debutado com sua orquestra no Marabú, estreando Mi tango triste.”
como una figura amenazante en el imaginario de los ricos de Argentina. (EJSV, p. 72)190
Ao tratar sobre a obra de ajuda social de Evita em oposição à beneficência das senhoras oligarcas, Pigna contextualiza a Sociedade de Beneficência de Buenos Aires, narrando um breve histórico da mesma desde a sua fundação, em 1823, até a intervenção do governo peronista na entidade, em 1946. Esta contextualização enseja a crítica de Pigna à história oficial: “La historia oficial, que ha sido tan ‘piadosa’ y ‘distraída’ con la Sociedad de Beneficencia, reservó toda su ‘agudeza’ y ‘perspicacia’ para cuestionar hasta en sus más mínimos detalles la monumental obra social de Eva Perón” (EJSV, p. 126).191
A narrativa da viagem de Eva Perón à Espanha em celebração aos acordos comerciais que socorreram este país num momento de crise é acompanhada por informação crítica sobre o contexto mais atual, mais aproximado da escrita da biografia, embora sem maiores esclarecimentos, dando a entender que o narrador imagina dirigir-se a leitores que têm conhecimento sobre os eventos que narra:
Durante la crisis de 2001 el hambreado pueblo argentino esperó una actitud de reciprocidad histórica por parte del gobierno español, que por entonces estaba en manos del derechista José María Aznar. Pero el amigo hispánico del presidente norteamericano George W. Bush y defensor de las empresas españolas que habían saqueado la Argentina en los ’90, se encogió de hombros y fue el pueblo español y no su gobierno el que transformó el recuerdo en solidaridad. (EJSV, p. 137)192 O contexto dos debates e atos sobre a candidatura de Evita à vice-presidência é, no plano internacional, o da Guerra Fria, e no nacional, o da oposição das Forças Armadas e de setores da Igreja. Tal contexto é apresentado pelo historiador com marcas de subjetividade:
Eran tiempos en que la guerra fría lucía sus peores galas. El “héroe del Pacífico”, aquel general Douglas MacArthur que había supervisado la ocupación del Japón después de los miles de muertos de Hiroshima y Nagasaki, se peleaba con el presidente norteamericano Harry Truman por la estrategia que debían seguir en la guerra de Corea. MacArthur pidió que arrojaran la bomba atómica sobre la
190Tradução nossa: “Aquele verão de 1944 parecia mais um em Buenos Aires. Fazia um calor asfixiante e os balneários da costa estavam lotados, alegrando as maiorias que sonhavam com Mar del Plata, refúgio ainda das classes altas que gozavam de suas mansões e suas praias exclusivas sem sequer imaginar que em apenas dois ou
três anos seriam ‘invadidos’ pela gentinha, que gozaria de seu flamejante direito a férias remuneradas e encheria
os novos hotéis sindicais, o que daria uma nova fisionomia à ‘pérola do Atlântico’. Mas por agora, naqueles dias de janeiro o coronel Perón era apenas o secretário de Trabalho e Previsão e não aparecia ainda como uma figura ameaçante no imaginário dos ricos da Argentina”.
191 Tradução nossa: “A história oficial, que foi tão ‘piedosa’ e ‘distraída’com a Sociedade de Beneficência,
reservou toda sua ‘agudeza’ e ‘perspicácia’ para questionar até em seus mínimos detalhes a monumental obra social de Eva Perón”.
192 Tradução nossa: “Durante a crisde de 2001 o esfomeado povo argentino esperou uma atitude de reciprocidade histórica por parte do governo espanhol, que naquela época estava nas mãos do direitista José María Aznar. Mas o amigo hispânico do presidente George W. Bush e defensor das empresas espanholas que haviam saqueado a Argentina nos anos 1990, deu de ombros e foi o povo espanhol e não seu governo o que transformou a
recientemente proclamada República Popular China. Truman no estuvo de acuerdo y
MacArthur se tuvo que ir con su “heroísmo” a otra parte. Pero aunque el conflicto no salió de las “armas convencionales”, lo cierto es que el mundo volvía a estar en
guerra y crecía el protagonismo de los círculos castrenses. Los camaradas militares de Perón fueron los primeros en expresar su enojo y preocupación por la candidatura de Evita. Bajo sus gorras bien calzadas, aquellas mentes machistas no querían siquiera imaginarse a una mujer y mucho menos a “esa mujer” presidiendo unaeceremonia militar y dando órdenes a los uniformados. Ni mucho menos la hipótesis de máxima, la muerte de Perón violenta, accidental o natural, y la asunción
de “la Eva” a la primera magistratura y, por lo tanto, al cargo inherente de
comandante en jefe de las Fuerzas Armadas del aire, mar y tierra. (EJSV, p. 261).193 O último exemplo de contextualização apresentado neste trabalho é o que menciona as mudanças ocorridas na economia e na política argentina após a morte de Evita:
Si, como aseguraba el doctor Ara, el cuerpo de Evita permanecía “intacto”, todo
alrededor comenzaba a cambiar. Los signos de la crisis económica que se venía incubando desde hacía más de dos años empezaban a volverse indisimulables. […] El país iniciaba los tiempos sin Evita con un Plan de Emergencia Económica, al que pronto se sumaría la puesta en marcha del Segundo Plan Quinquenal, orientado al aumento de inversiones (incluidas las extranjeras) y de la “productividad”, con incrementos salariales que empezaban a retrasarse con respecto al costo de vida. (EJSV, p. 337, grifo do autor).194
A contextualização, como já mencionado, é um dos elementos que possibilitam o efeito de historicidade justamente por ser uma das principais marcas da biografia escrita pelo historiador que demonstra ter conhecimento não apenas sobre a vida do biografado como também do contexto em que este viveu, possibilitando a inserção do sujeito em seu tempo. Com isto, por um lado, o autor constrói sua imagem de historiador que segue um conjunto de práticas investigativas e maneja um amplo conhecimento sendo, portanto, digno de consideração, e, por outro lado, o leitor pode dar crédito ao ofício do historiador manifesto em sua narrativa.
193Tradução nossa: “Eram tempos em que a Guerra Fria mostrava sua pior face. O ‘herói do Pacífico’, aquele general Douglas MacArthur, que havia supervisionado a ocupação do Japão depois dos milhares de mortos de Hiroshima e Nagasaki, lutava com o presidente norteamericano Harry Truman pela estratégia que deveriam seguir na Guerra da Coreia. MacArthur pediu que lançassem a bomba atômica sobre a recentemente proclamada
República Popular da China. Truman não esteve de acordo e MacArthur teve que ir com seu ‘heroísmo’ a outra parte. Mas embora o conflito não tenha saído das ‘armas convencionais’, o certo é que o mundo voltava a estar
em guerra e crescia o protagonismo dos círculos castrenses. Os camaradas militares de Perón foram os primeiros a expressar seu aborrecimento e preocupação com a candidatura de Evita. Sob seus quepes bem ajustados,
aquelas mentes machistas não queriam sequer imaginar uma mulher e muito menos ‘essa mulher’ presidindo
uma cerimônia militar e dando ordens aos uniformizados. Nem muito menos a hipótese máxima da morte de Perón, violenta, acidental ou natural, e a assunção ‘da Eva’ à primeira magistratura e, por tanto, ao cargo inerente
de comandante em chefe das Forças Armadas do ar, mar e terra.”
194Tradução nossa: “Se, como assegurava o doutor Ara, o corpo de Evita permanecia ‘intacto’, tudo ao redor começava a mudar. Os signos da crise econômica que vinha se incubando desde mais de dois anos começavam a se tornarem indissimuláveis. [...] O país iniciava os tempos sem Evita com um Plano de Emergência Econômica, ao qual logo se somaria a colocação em marcha do Segundo Plano Quinquenal, orientado ao aumento de
investimentos (incluídos os estrangeiros) e da ‘produtividade’, com incrementos salariais que começavam a se defasar com relação do custo de vida”.