1. ANI FOTOĞRAFÇILIĞI
1.3. Anı Fotoğrafı Çekimi Öncesi Gerekli Hazırlıklar
O liberalismo atingiu radicalmente a questão religiosa. Deste modo, uma religião não seria objetivamente verdadeira ou falsa, mas sim subjetivamente reconhecida como verdadeira, isto é, é verdadeira “para mim”. Deus só existe na medida em que o próprio caráter diz a cada um que existe:
Pela mesma razão que no terreno social desconhece o liberalismo toda responsabilidade comunitária, ignora no plano religioso toda possível solidariedade jurídica e mística, isto é, eclesiástica. E, se o homem no social deverá desvincular-se de toda lei supra-individual, no religioso deverá também libertar-se de toda lei dogmática. Junto do individualismo social surge, deste modo, o individualismo religioso que, no plano pessoal, apresenta a face da liberdade de consciência e, no plano social, a doutrina da separação absoluta entre a Igreja e o Estado.178
Em consequência os Estados Modernos tem de lidar com o fato do pluralismo religioso, sendo necessário promover a abertura de todos sejam religiosos, ateus, agnósticos, racionalistas, naturalistas, cientistas, ao diálogo onde se busquem os limites da fé e da razão na própria dignidade do ser humano.
Não parece nada razoável, deste modo, simplesmente extirpar a religião deste debate, sob o argumento de que o Estado moderno independe de fundamentos de fé.
Na ausência do termo secularização, localiza-se o termo secularismo na lição de Nicola Abbagnano, que, segundo o autor, deriva do latim saeculum:
Originado da reflexão presente no Novo Testamento sobre a diferença entre este mundo (v.,e) ou éon e o mundo celeste - , que qualifica a ocupação mundana (v. MUNDANO), dada a afazeres terrenos, e não exclusivamente espirituais, por parte de pessoas ou instituições (ainda que eclesiásticas. Surgiu nos séculos XVI-XVII no campo jurídico para indicar a passagem de um religioso ao estado secular ou da transição de propriedades e prerrogativas eclesiásticas a instituições seculares ou laicas; assumiu relevância sociológica,
177 LLANO CIFUENTES, Rafael. Relações entre Igreja e o Estado. 2ª ed. atualizada, Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p.83-84.
178 LLANO CIFUENTES, Rafael. Relações entre Igreja e o Estado. 2ª ed. atualizada, Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 84.
teológica e filosófica entre os séculos XIX e XX, exprimindo mais em geral a relação entre civilização moderna e cristianismo como derivação que comporta a perda de sacralidade. 179
Portanto, o termo deriva originalmente do dualismo cristão introduzido na sociedade romana do Baixo Império, como já mencionado.
Tratava também da mudança de estado de um religioso para a vida leiga. Entretanto, o termo secularismo vem sendo empregado erroneamente como sinônimo de secularização, razão pela qual se faz necessário um breve esclarecimento, na lição de Roberto de Almeida Gallego:
Com efeito, “secularismo” é uma expressão datada, porquanto diga respeito ao programa da “Londoner Secular Society”, fundada por “G.J. Holyoake, em Londres, em 1846. A expressão “secularismo”, forjada naquele contexto específico, resumia o ideário daquela sociedade, qual fosse o de interpretar e regular a vida prescindindo tanto de Deus como da religião. [...] assume ares de dogmatismo laico, ou verdadeira profissão de fé [...] a secularização, ao revés e em verdade não elimina o Mistério – a dimensão espiritual ou intangível da existência -, já que, na bela expressão de Catroga180, “a
finitude não é secularizável”. Assevera, ademais, tal autor, que “secularização não é sinônimo de antirreligião, mas afirmação da autonomia do século”. [...] Por trás desta postura está o sonho de autonomia do homem moderno.181
Pois bem, a secularização é o fenômeno iniciado com o liberalismo que confere autonomia ao poder temporal ante o espiritual. Em contrapartido ocorre também o inverso.
Então, significaria a secularização, a morte de Deus?
Muito já se disse e escreveu acerca da “morte de Deus” e do desaparecimento das religiões. O super-homem de Nietsche, em sua virilidade heroica, desaba, dançando, no abismo trágico da existência, olhando superiormente os ressentidos, quais sejam, aqueles que em sua fraqueza não conseguem mirar, sem o filtro de uma crença, o abismo do sem-sentido. Freud, por sua vez, tenta explicar a crença através do mecanismo de projeção desencadeado
179 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução Alfredo Bosi: Martins Fontes, São Paulo: 2007, p. 1027.
180 Fernando José de Almeida Catroga. Professor Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Instituto de História e Teoria das Ideias.
181GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado e a ágora: religião e laicidade no Estado democrático de direito in (Re)pensando o direito: estudos em homenagem ao Prof. Cláudio de Cicco. Coordenação Álvaro de Azevedo Gonzaga, Antonio Baptista Gonçalves, São Paulo, 2010, RT, p. 281.
a partir da dolorosa percepção do pai castrado. Marx, ampliando as intuições iniciais de Feuerbach, entende Deus como o produto do processo de alienação através do qual a classe proletária entrega, passivamente, as rédeas do seu destino a um Deus imaginário, com o beneplácito e o interesse da classe dominante, que assim continua a oprimi-la.182
E mais:
O darwinismo, por seu lado, investe contra a ideia de telos na natureza, substituindo a ideia de um Deus criador e ordenador do universo pelo binômio design cego/ vastidão temporal, os quais, por si mesmos, seriam capazes de explicar a vida na terra.183
Mas a religião obstinadamente não desaparece, ao contrário, tem se afigurado relevante para extensas camadas populacionais ao redor do mundo.
Segundo Roberto de Almeida Gallego estudos tem demonstrado que a
conturbada contemporaneidade, denominada de “pós-modernidade”, tem algumas
características próprias, dentre as quais o niilismo (não haveria qualquer sentido maior na existência) e o individualismo na relação com o sagrado, bem como o fundamentalismo como resposta à vulgarização da vida.
Isto porque, o ser humano não suporta a falta de sentido para a vida. Por esta razão, desde os primórdios: “o sagrado tem sido, nas variadas civilizações, o verdadeiro organizador do mundo e da vida”.184
Atualmente, porém, a “secularização abriga, em seus contornos, a ideia de que o mundo imanente é absolutamente autônomo da religião, compreendendo- se, não mais a partir desta, mas, unicamente, a partir de sua própria imanência”185.
182 GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado e a ágora: religião e laicidade no Estado democrático de direito in (Re)pensando o direito: estudos em homenagem ao Prof. Cláudio de Cicco. Coordenação Álvaro de Azevedo Gonzaga, Antonio Baptista Gonçalves, São Paulo, 2010, RT, p. 281.
183 GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado e a ágora: religião e laicidade no Estado democrático de direito in (Re)pensando o direito: estudos em homenagem ao Prof. Cláudio de Cicco. Coordenação Álvaro de Azevedo Gonzaga, Antonio Baptista Gonçalves, São Paulo, 2010, RT, p. 282. Telos equivale a finalidade e determinação em oposição ao acaso.
184 GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado e a ágora: religião e laicidade no Estado democrático de direito in (Re)pensando o direito: estudos em homenagem ao Prof. Cláudio de Cicco. Coordenação Álvaro de Azevedo Gonzaga, Antonio Baptista Gonçalves, São Paulo, 2010, RT, p. 283.
185 GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado na esfera pública: religião, direito e Estado Laico. Dissertação de Mestrado em Filosofia do Direito apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010, p. 87.
2.2.1 A Secularização e o Desencantamento do Mundo
O direito é fato social e, portanto, objeto da sociologia jurídica, que se ocupa do relacionamento entre direito e sociedade explorando, cientificamente, esta relação, com um conhecimento rigorosamente comprovável por métodos e técnicas de pesquisa: “A tarefa fundamental da sociologia jurídica é definir a (sic) direito como fato social”.186
Muito bem. O fenômeno da secularização está relacionado a um outro a
que o sociólogo Max Weber187 designou de “desencantamento do mundo”. Em sua
análise com o final da Idade Média e início dos tempos modernos, ocorre a eliminação da magia188 como meio de salvação ou a racionalização da religião.
Com efeito, o mundo religioso se opõe ao mundo mágico, por ser dualista no sentido de propiciar distinção entre ação e norma (ser e dever-ser), esta coincidente sempre com a vontade divina. Aqui os rituais mágicos dão lugar a um esforço racional para absorver os mandamentos divinos e aplicá-los na vida prática, sendo este, somente, o caminho para a salvação.
Deste modo, o catolicismo é entendido por Weber como uma religião de rituais mágicos, pois se acredita que o sacerdote é capaz de oferecer sacrifícios em expiação dos pecados e absolver o penitente, fazendo uma ligação entre humano e o divino através dos sacramentos.
No protestantismo se nega os sacramentos e a intercessão de santos, pois o Deus transcendente não poderia ser conjurado pela prática de rituais mágicos. Evidentemente que para esta visão de mundo
somente a relação especificamente religiosa com o eterno traz a salvação e esta se dá através da observância diuturna dos mandamentos éticos de estrita regulamentação da conduta humana. A prática religiosa se funde com a atividade cotidiana.189
186 CARNIO, Henrique Garbellini; GONZAGA, Álvaro. Curso de Sociologia Jurídica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p. 145.
187 WEBER, Max.
A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Tradução.José Marcos Mariani de Macedo, revisão. Antonio Flávio Pierucci, 7ª reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p.106-107.
188 Entenda-se a visão mágica da sociedade em Weber como aquela para qual no mundo existem duas instâncias, uma sendo habitada por seres temporais e outra, não visível, habitada por espíritos do bem e do mal. Nessa sociedade não há um abismo intransponível entre homens e espíritos, posto que estes podem ser evocados pelo fiel, por meio de rituais específicos.
189 GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado na esfera pública: religião, direito e Estado Laico. Dissertação de Mestrado em Filosofia do Direito apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010, p. 91.
Interessante o diagnóstico de Max Weber que entrelaça o protestantismo (especialmente o calvinismo) e o capitalismo, em virtude da convicção que somente o chamado de Deus para a atuação no mundo, segundo sua vocação profissional, lhe daria a certeza da salvação. Não que, de certa forma, se “adquiria” a salvação pelo trabalho, já que esta competia somente à Graça de Deus, mas a dedicação diária ao trabalho conferia ao crente a certeza de estar realizando a vontade divina.
Pois bem,
O acúmulo de capital, de modo ascético, no âmbito do trabalho vocacionado, era a única maneira de alguém se certificar de sua salvação. A incerteza da salvação é que obriga o puritano a se dedicar, diariamente, ao trabalho como um dever. Tal trabalho deve ser prestado à conformação racional do cosmos que nos circunda, tendo ele, pois, um objetivo impessoal. [...] o amor ao próximo se expressa, em primeiro plano, no cumprimento da missão vocacional- profissional, o que lhe empresa contornos de objetividade, impessoalidade e racionalidade.190
Desse racionalismo religioso teria brotado o capitalismo, que, posteriormente, “emancipou-se da religião; entretanto, já se mostrava irreversível no Ocidente, a racionalização da vida”.191
Ainda na perspectiva weberiana não há falar-se em fim da religião, diante do processo secular, mas de um realocar de posição, enquanto antes era quem direcionava a sociedade, agora ficou na esfera do privado, gerando a possibilidade do pluralismo.
Mas teriam sentido equivalente para Weber o desencantamento e a secularização? Segundo Roberto de Almeida Gallego, não, pois:
Em uma relação continente-contido, poder-se-ia afirmar que, em Weber o processo de racionalização é mais amplo e abrangente do que o desencantamento do mundo e, neste sentido, o abarca. O desencantamento, por seu turno, tem duração histórica mais extensa que a secularização e, sob este prisma, contem-na.
Certo é que Weber distingue os dois processos, reservando o sintagma “desencantamento do mundo” para a antiga luta da religião
190 GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado na esfera pública: religião, direito e Estado Laico. Dissertação de Mestrado em Filosofia do Direito apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010, p. 93-94.
191GALLEGO, Roberto de Almeida. O sagrado na esfera pública: religião, direito e Estado Laico. Dissertação de Mestrado em Filosofia do Direito apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010, p. 94.
contra a magia, e o termo “secularização” para o embate da modernidade cultural contra a religião. E a secularização implica, também, em um desencantamento do direito, que passa a não mais admitir formas outras de dirimir conflitos que não persuasão racional do juiz.192
Significa dizer que, o desencantamento do mundo gera a perda de sentido, ou seja, a ciência, em última análise, ao transformar o mundo em um mecanismo causal, desprovido de mistérios insondáveis, retira o sentido místico e não é capaz de lhe emprestar outro em substituição. Esse desencanto, esta perda de sentido não seria motivo para que alguém não se sentisse capaz de construir uma comunidade política terrena, dotada de leis racionais, discutíveis e revisáveis. Esta é a secularização do Estado.193