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O Estatuto da Criança e do Adolescente trouxe novos dilemas à implementação de políticas destinadas a crianças e jovens. Há um maior questionamento sobre as violações dos seus direitos e sobre o não reconhecimento de sua cidadania. O processo democrático enseja uma infinidade de abordagens sobre as instituições e elege como legítima a participação dos jovens no debate em torno das políticas públicas que se constroem à margem de outras prerrogativas, a dos direitos sociais, da passagem da condição de objeto sob o qual o Estado preservava o poder de intervir para a de sujeito de direito.

Com vista a contribuir com esse ensejo, diversas foram as pesquisas no âmbito acadêmico que elegeram os jovens como os principais “porta-vozes” de suas condições, a de sujeitos privados de liberdade e as dos que vivenciavam o cotidiano das instituições. A perspectiva do “dar a voz” aparece no âmbito de diferentes produções, das Ciências Sociais à Educação, da Psicologia ao Serviço Social. Portanto, as pesquisas ocupam lugares importantes não apenas no âmbito da academia, mas, de igual modo, nos debates públicos sobre as continuidades e descontinuidades dos modelos punitivos, ressaltando-se a forte presença do Estado e de outras instâncias não-governamentais na implementação e gestão de um projeto socioeducativo.

As problematizações dessas questões articuladas às que envolvem juventude, direito e democracia são recorrentes. A questão central passa a ser a reflexão em termos teórico-metodológicos de quem está autorizado a falar sobre as juventudes, neste caso em especial, sobre a juventude em conflito com a lei. Tornou-se consenso entre muitos pesquisadores a ideia de que uma escuta ética-

política das vozes das juventudes implicaria, em primeiro lugar, considerar a condição social e, de igual modo, o recorte étnico-racial, as relações de gênero, religião, grupos sociais, dentre outros aspectos definidores da identidade juvenil (GROPPO, 2011); portanto, a ideia de fortalecer a concepção de juventude como categoria forjada em processos históricos, sociais e culturais. É no cotidiano, no interior de diferentes práticas sociais, educativas e interações que os jovens e as jovens constroem as suas sociabilidades, cultura e diferentes linguagens, de forma flexível e diferenciada da geração adulta. Essa concepção lança olhar sobre a diversidade.

Os processos constitutivos da condição juvenil se fazem de modo diferenciado, tensionado e negociado, segundo as suas condições sociais, necessidades, os anseios, renda familiar, região do país, condição de moradia rural ou urbana, no centro ou na periferia e identidades. Neste sentido, reconhece-se a especificidade das juventudes sob duas vias de análise: o reconhecimento da singularidade desse momento da vida em relação a outras gerações; e a própria questão da diversidade, que dimensiona a condição objetiva juvenil sobre diferentes experimentações, formas de atuação e participação política, relações intersubjetivas de pertencimento e de engajamento social. É relevante a análise do modo de vida dos/as jovens com referência às suas trajetórias de vida, de suas experiências, estratégias e vivências de fortalecimento de suas identidades e condições juvenis, que são plurais, multifacetadas, diversas e desiguais (PAIS, 2005).

No Brasil, dado o período histórico e de invisibilidade dessas vozes, sobretudo nas produções acadêmicas, o “dar voz”, não mais sem razão, significou um avanço nas problematizações dos processos sociais, políticos de vitimização e institucionalização e das diferentes estratégias e mecanismos de controle sobre os jovens e as jovens. Invisibilidades que podem ser apontadas como originárias da negação da cidadania a que crianças e jovens ficaram desprovidas num longo percurso da história do país. Não foi sem razão que, nos contextos de reivindicações dos direitos sociais, civis e políticos, estiveram à frente grupos e movimentos, o que implica afirmar que, no processo de elevação da condição de sujeitos de direitos, foi central a mediação das gerações adultas. E mesmo que se possa ressaltar a relevância social e política dos movimentos sociais na construção dos direitos da infância e da juventude, tais ações revelam algumas lacunas, a ausência de uma

escuta das vozes daqueles que juridicamente passavam de uma condição de objetos abertos a intervenções a sujeitos de direitos.

Em outros termos, abriu-se mão da cidadania para a construção de relações que reforçaram uma tutela e reduziram suas posições na esfera e na agenda pública, a de simples beneficiários, gerando constantes tensões, como as de serem agenciados pelas gerações adultas e a impossibilidade do diálogo e da escuta de suas vozes. O reconhecimento da cidadania de jovens na legislação brasileira é recente; e mais recente ainda, a visibilidade das preocupações relacionadas à representatividade dos e das jovens no processo de construção, reivindicação pública de seus direitos e de políticas públicas14. No âmbito das produções acadêmicas, forjam-se termos como o protagonismo juvenil, para defender a ideia de que jovens devem ser sujeitos centrais nas tomadas de decisões, reflexões e ações, que se relacionam com as diferentes formas de sociabilidade, principalmente em contextos sociais formativos, em ações coletivas e deliberativas, na defesa pela autonomia, cooperação, decisão e responsabilidade de planejar, executar e avaliar as políticas de juventudes e se fazerem, sobretudo, presentes nas pesquisas realizadas com/sobre eles.

A defesa central é de que, enquanto sujeito de direitos, estes deveriam falar por si, numa fala de si, como fator constitutivo de compreensão de sua própria condição; de uma fala que registra e documenta as marcas culturais, socioeconômicas, relações de gênero, etnia, sexualidade, suas sociabilidades e experiências formativas em diferentes espaços, institucionalmente apontadas como formativos ou não. De uma fala que, no mais, revela filiação a certa maneira de pensar, agir e se relacionar com o mundo, no sentido de que o direito à cidadania é também o direito à diferença e à diversidade, ao reconhecimento de suas identidades; uma forma de pensar, agir, relacionar-se, que ,ao mesmo tempo em que produz linguagem, reforça e dá destaque ao seu lugar nas relações e interações com as pessoas. Nessa prática ética, política e, sobretudo, democrática, as possibilidades de diálogos, de construção dos lugares e modos de refletir, pensar e se viver as juventudes parecem ser central para o debate.

14 O Estatuto da Criança e do Adolescente, a concepção de cidadania está presente no Artigo 16,

incisos I ao VII, que tratam dos direitos de: ir e vir nos espaços públicos e espaços comunitários; de

ter opinião e expressão; de escolher sua crença e vivenciá-la; brincar, praticar esportes e divertir-se;

No interior dessas perspectivas teórico-metodológicas, destacam-se pesquisas que vão procurar descortinar os cotidianos institucionais, centrados em metodologias a partir das quais os jovens institucionalizados15 tornam-se os principais interlocutores dos e das pesquisadores/as. Neste sentido, são notórias pesquisas com enfoque na educação – jovens em conflito com a lei e a relação com a escola - (DIAS, 2011; CONCEIÇÃO, 2009); os efeitos da execução da medida de internação, tendo como referência as normativas legais que regulamentam as medidas de privação e a dinâmica institucional, sendo esta última descrita sob a ótica dos jovens (ALMEIDA, 2012; MASSARO, 2008).

A estas pesquisas incluem-se as que eu desenvolvi desde a Graduação, quando procurei, já na iniciação científica, analisar as medidas socioeducativas (desde os processos de escolarização dentro e fora da Fundação CASA, atividades profissionalizantes, de lazer, às concepções disciplinares orientadoras e organizadoras do cotidiano institucional) de uma unidade de internação, localizada em uma cidade do interior do estado de São Paulo, sob a perspectiva do jovem autor de ato infracional (TEIXEIRA, J. 2006). Durante um período de dois anos, foi possível conviver com jovens e funcionários dessa unidade. Foi possível, também, entrevistar novamente alguns jovens após o cumprimento de tal medida, quando eles foram para a medida socioeducativa de liberdade assistida.

Nesse percurso, procurei trazer para a academia, o universo intramuro dessa instituição e reflexões sobre as instituições para jovens autores de ato infracionais, utilizando-se das “vozes” dos meus interlocutores e assumindo um compromisso ético e político. Defendia que, no estudo e na análise do sistema socioeducativo, os jovens deveriam ser os principais interlocutores das

15 No interior dos deslocamentos e movimentos de constituição de políticas públicas para os

jovens e as jovens, que cometeram uma determinada infração e a quem foi determinado o cumprimento de medida socioeducativa, em especial, a de internação, identifica-se uma disputa por conceitos, por uma gramática enunciativa e também normativa. Diferentes termos, ao serem revisitados, indicam para construções bem localizadas e históricas, as quais, por sua vez, demarcam os deslocamentos e movimentos das políticas públicas a eles e elas direcionadas. Tais modos de enunciar compõem parte de uma conjuntura jurídica, política, social e, por vezes, acadêmica. Identifica-se, também, a dificuldade de uma gramática enunciativa das jovens, primeiro pela ausência, por um longo período, de pesquisas sobre a condição delas no interior dessas instituições; segundo, pela dificuldade de compreensão da sua entrada, no universo das instituições já no início das propostas de atendimento à menoridade (período republicado), até então sempre abordadas como um universo predominante de jovens do sexo masculino.

representações e significados sobre o que é estar encarcerado. E que, no interior das propostas e dos discursos de reconfiguração e reestruturação do modelo socioeducativo em construção, eles deveriam ter visibilidade, sobretudo, nos apontamentos sobre os limites educacionais e estruturais dessas instituições e do que se propunha como socioeducativa. Em linhas gerais, foi sob essa perspectiva de análise que se dá a minha entrada e incursão no estudo sobre os dispositivos de controle social da juventude: o encarceramento em unidades, apontadas como socioeducativas, bem como a minha entrada no interior do debate acadêmico sobre esse tema.

Para além de ser pensada por campos da Educação, Ciências Sociais e Psicologia, destacam-se os estudos da Antropologia. A pesquisa de Fábio Malart Moreira (2011), Cadeias dominadas: dinâmica de uma instituição em trajetórias de jovens detentos, apresenta uma etnografia do funcionamento da Fundação CASA, apoiando-se nas histórias de vida dos jovens como principal fio condutor de suas análises. Interessante notar, também, sua entrada não apenas como pesquisador, mas também como funcionário associado a uma organização não-governamental, por meio da qual ele realizava cursos de fotografia e de jornalismo com os jovens. A atualidade da pesquisa é um fator que se destaca por estar no interior da descrição de um período em que a Fundação CASA apresentava, como principal discurso, a reestruturação de suas práticas e a efetivação de uma política socioeducativa no estado de São Paulo. Ao falar em cadeias dominadas, Moreira deixa de lado a expressão unidade educacional, a qual faz desaparecer as ambivalências desse sistema. De um lado, o fracasso dos discursos da socioeducação, de uma prática de governo que se apoia numa gestão compartilhada com outros atores sociais, as organizações não-governamentais, por exemplo; de outro, uma dinâmica institucional de punição, em que os jovens intercorrem por ela com outras formas de resistência e de dominação.

Sem dúvida, um momento importante de análise, por abranger o período em que poderia apontar como ápice no projeto de uma política socioeducativa do estado de São Paulo, iniciada desde 1995. Defendo ser o ápice frente a poucas unidades que ainda estão em construção e pela adoção do modelo de instituição e de gestão nas medidas socioeducativas de internação adotadas nesse estado. Ao que tudo indica, a idealização de um projeto de reforma tem escapado pelas frestas,

na medida em que pesquisadores adentram o universo institucional e fazem fugir pelas muralhas e grades de ferro as vozes dos jovens, os quais revelam a importância de um olhar atento para as configurações sociais e também para as dinâmicas do mundo do crime como orientador das dinâmicas e funcionamento também do cotidiano dessas instituições.

Moreira aponta para essa direção. De um lado, os funcionários da CASA, os jovens, ou, por vezes, as organizações não-governamentais; de outro, elementos que fazem os jovens escaparem desse dispositivo de controle, não mais pela via das formas de resistência atribuídas à rebelião, como tão bem analisou Maria Cristina Vicentim (2005), em sua pesquisa sobre os significados das rebeliões ocorridas entre 1999-2001, mas agora pela via das “unidades dominadas”. Numa leitura mais incisiva e direta, a entrada das normativas de conduta do Primeiro Comando da Capital – PCC, em que se constroem simetrias entre as unidades de internação e as prisões para adultos.

As “cadeias dominadas” revelam as dinâmicas internas da Fundação CASA, não pela via da análise discursiva sobre a proposta ou modelo socioeducativo, já que a expressão cadeia retira qualquer possibilidade de atrelar tal instituição ao pressuposto de uma socioeducação. A pesquisa revela as dinâmicas institucionais pela via das trajetórias dos jovens, que demonstram ao pesquisador a presença de normativas, que, primeiramente, deslocaram-se das prisões para as periferias (FELTRAN, 2011) e agora se deslocam das periferias, espaços nos quais os jovens constroem suas trajetórias, para a Fundação CASA. Conforme aponta Moreira, nas tramas do cotidiano institucional, enquanto os homens de choque transitam pelos telhados, os jovens tocam e dominam as instituições.

Nessa perspectiva processual, atentando para as figurações sociais que emergem das relações estabelecidas entre diferentes atores, que passam a circular pelas unidades, recriando tensões na dinâmica de funcionamento desses espaços convém, também, destacar a pesquisa de Paulo Malvasi (2012). É outro autor que corrobora com os apontamentos de Moreira (2012), na medida em que captura as dinâmicas do universo do crime, antes mesmo de o/a jovem cometer algum ato infracional e fazer parte das tramas e dinâmicas dessa instituição. Para o autor, as considerações sobre as perspectivas dos jovens permitem ao pesquisador trilhar por

caminhos de compreensão do sistema socioeducativo, como políticas de intervenções governamentais junto a pessoas consideradas perigosas, as quais se encontram às margem da sociedade.

Benzer Belgeler